A América Latina diante da força de suas moedas

Os governos das principais economias da América Latina acompanham bem de perto a evolução de suas moedas, já que sua cotação influi de forma direta no desenvolvimento das atividades econômicas locais e, em boa parte dos casos, de forma negativa. As moedas com melhor desempenho na região este ano continuam sendo o peso colombiano, que acumula uma alta de 17% ante o dólar, sendo cotada a 1,928, tornando-se assim a divisa com melhor desempenho entre as 71 moedas  que a Bloomberg cota em relação ao dólar. Em segundo lugar aparece o real brasileiro, com uma valorização de 10% e cotada a 1,9460.

 

Tudo isso ocorre em meio a um contexto mundial em que o dólar americano perde força de forma generalizada no mundo todo ante outras moedas, a começar pelo euro e pela libra. São muito poucos os países onde o dólar se valorizou ou, o que dá na mesma, onde as moedas locais se desvalorizaram. Fazem parte dessa lista a rúpia, de Sri Lanka, o dólar taiwanês, a córdoba nicaragüense, o peso argentino, o peso mexicano, o iene japonês, entre outras.

 

“As moedas da América Latina se valorizaram muito desde o início do ano devido à entrada maciça de dólares na região”, observa Rafael Pampillón Olmedo, professor de Economia e de Análise de países da escola de negócios espanhola Instituto de Empresa. Pampillón aponta quatro motivos para a entrada da moeda americana nos países sul-americanos. Em primeiro lugar, houve um aumento no volume de exportações. “A enorme demanda mundial pelos principais produtos latino-americanos, como soja, café, ferro, aço e têxteis impulsionou os preços e os volumes das exportações da América Latina para níveis recordes”, explica. Outra razão, segundo Pampillón, foi o “aumento dos investimentos diretos oriundos do exterior em um ambiente de crescimento econômico relativamente estável e sustentável”.

 

A isso é preciso agregar outro motivo: as entradas de capitais “peregrinos”, ou especulativos, que promovem também uma forte entrada de divisas que acabam valorizando as moedas latino-americanas e desvalorizando o dólar. “Os principais atrativos para esse capital são as altas taxas de juros e as altas das bolsas. As bolsas de valores do Brasil, Chile e México bateram recordes históricos de alta”, observa o professor do IE. Embora esse aumento da oferta de dólares na América Latina “reflita a confiança nas economias locais”, disse Pampillón, “há uma valorização tremenda das moedas da região por causa disso”.

 

Por fim, Pampillón assinala que a forte entrada de remessas implica a entrada de mais dólares. “O envio de remessas é um fenômeno econômico de enorme importância para a América Latina, tendo crescido substancialmente nos últimos dez anos”, lembra o professor.

 

A apreciação das moedas está produzindo efeitos negativos sobre a economia dos países cujas moedas se valorizaram mais. No caso concreto da Colômbia, “pode-se dizer que houve uma perda de competitividade diante de alguns países vizinhos, especialmente do Chile, Peru, Argentina e Equador, onde a valorização foi menor ou, pelo contrário, houve até desvalorização, como na Argentina, ou então a economia está dolarizada, como é o caso do Equador”, garante César Betancur Cañola, professor da área de Economia da Universidade de Medellín (Colômbia).

 

Competitividade em baixa

A perda de competitividade na Colômbia se mede basicamente pelo chamado Índice de taxa de Câmbio Real (Itcr), que compara o peso colombiano com as moedas dos 20 principais sócios comerciais do país. Se esse indicador ficar acima de 100 pontos, significa que o país tem maior competitividade, mas como hoje ele está abaixo disso (99,66), é sinal de que houve perda de terreno no cenário internacional. No início de 2003, o índice chegou a superar os 136 pontos. Naquela ocasião, a cotação do dólar estava em torno de 2,960 pesos, e hoje está em torno de 2,115 pesos.

 

Pampillón acredita que, de modo geral, “um dólar fraco desestimula a exportação e torna mais baratos os produtos importados, colocando em perigo o emprego e o crescimento da produção dos países latino-americanos”. Para o professor do IE, os países mais afetados pela depreciação do dólar são aqueles cuja a economia tem um perfil exportador mais pronunciado. “Assim, as empresas cujo volume de negócios tem uma alta expressividade em dólares, como as companhias de petróleo ou as exportadoras de matéria-prima, sairão mais prejudicadas do que as empresas que transacionam nos mercados locais. Portanto, a valorização das divisas poderia fazer naufragar a competitividade latino-americana, pondo em risco o emprego em setores como o turismo, no México; na indústria automobilística, no Brasil; manufaturados na República Dominicana; pesca, no Peru, ou o café, na Colômbia”, diz Pampillón.

 

Os especialistas crêem também que não só os exportadores serão prejudicados pela valorização das moedas de seus países, mas também os produtores nacionais que vendem no mercado local, já que os produtos importados são mais baratos. Os que recebem remessas de emigrantes serão igualmente prejudicados, já que agora para cada dólar obterão menos moedas no país de origem.

 

A valorização das moedas, entretanto, comporta também uma leitura mais otimista. “A valorização pode ser vista igualmente pelo lado positivo. Em outras palavras, as moedas locais tornam-se mais fortes diante do dólar. No caso específico da Colômbia, a valorização obedece, em boa parte, ao maior volume de investimento externo direto. Como a baixa do dólar barateou os preços dos produtos importados, o setor produtivo se aproveitou disso para aumentar os investimentos em bens de capital”, explica César Betancur.

 

Peso colombiano

Os maiores bancos de Wall Street estão convencidos de que o peso colombiano despencará até o final do ano, chegando inclusive a anular o aumento de 17% ganho em 2007. A Merril Lynch acredita que o peso deverá ter o pior desempenho nos mercados de divisas, perdendo todo o terreno que conquistou diante do dólar. O Deutsche Bank prevê uma queda de 10,5% em meados de novembro, enquanto o Citigroup espera uma queda de 8,9% no final do ano, e a Goldman Sachs, 6,3%.

 

Embora a moeda colombiana tenha se valorizado 47% nos últimos quatro anos, outras agências americanas dizem que o peso tem espaço para se valorizar. A Bear Stearns, de Nova York, prevê que o peso se valorizará nas próximas semanas antes do final do ano chegando a 1,950. A Morgan Stanley acredita que a moeda só começará a se desvalorizar em 2008, e prevê que ela deve cair sendo cotada a 1,850 até o final do ano.

 

Com relação ao real brasileiro, os economistas do país elevaram seu prognóstico sobre a taxa de câmbio com o argumento de que o encarecimento das matérias-primas e as atraentes taxas de juros do país   contribuem para a manutenção da entrada de dólares no país. De acordo com um levantamento do banco central brasileiro, os economistas esperam que o real seja cotado a 1,93 dólares no final de 2007, ante 1,95 reais previstos anteriormente. “Observamos uma valorização contínua do real”, disse a  Bloomberg Pedro Jobim, economista chefe para o Brasil da ING holandesa em São Paulo. “O investimento estrangeiro direto e os fluxos das bolsas persistirão”, prevê Jobim.

 

O ritmo das remessas

Uma situação muito diferente da situação do Brasil e da Colômbia é a que se observa no México, onde a moeda local, o peso mexicano, valorizou-se apenas 0,2% este ano, sendo cotada a 10,7847, tornando-se a segunda moeda de pior desempenho entre as mais negociadas da região. A única moeda latino-americana que teve desempenho ruim este ano foi o peso argentino, que despencou 0,8% em razão da compra diária de dólares pelo banco central argentino.

 

As remessas que os emigrantes enviam a seu país é a segunda fonte de ingresso de dólares no México depois das exportações de petróleo. Atualmente, porém, elas vêm sendo prejudicadas pela crise que atravessa o setor de imóveis residenciais dos EUA, o que fragiliza o peso. A indústria da construção é a maior fonte de emprego para os mexicanos nos EUA, já que representa 20% das vagas disponíveis, de acordo com dados do banco central do México.

 

A queda no setor de moradia dos EUA afeta os trabalhadores mexicanos de Los Angeles a Nova York, onde a licença para a construção de casas novas caiu 20% este ano, segundo o Escritório do Censo. Isto é algo que se vê nitidamente no volume de remessas, que cresceu apenas 3,4% no primeiro trimestre deste ano, num ritmo que é o pior dos últimos oito anos.

 

As transferências, que totalizaram 23 bilhões de dólares no ano passado, também foram afetadas pela campanha do presidente dos EUA, George W. Bush, contra os imigrantes ilegais. O presidente republicano reforçou a segurança na fronteira e intensificou a vigilância nas fábricas que contratam trabalhadores sem documentos na tentativa de conseguir o apoio do Congresso para um projeto de lei que daria aos imigrantes ilegais a oportunidade de conseguir residência permanente no país.

 

Os analistas acreditam que a queda no volume de transferências começará a pesar sobre o gasto do consumidor no México. Cerca de 90% das transferências que entram no país se destinam ao consumo, de acordo com o banco central.

 

A Morgan Stanley prevê que o peso mexicano cairá pelo segundo ano consecutivo em decorrência da queda no volume de transferências, diminuição da produção de petróleo e queda no volume da demanda das exportações mexicanas. Em suma, a instituição prevê uma queda de 5,4% a 11,4 pesos por dólar até o final do ano. A Dresdner Kleinwort, divisão de banco de investimentos da seguradora alemã Allianz, prevê que a moeda cairá a 11,19 dólares. O peso se desvalorizou 1,7% em 2006.

 

Crescimento sustentado

Apesar da situação das moedas da região, o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que a América Latina crescerá 4,9% este ano, sete décimos a mais do que havia previsto inicialmente. Embora o órgão tenha feito essa correção para cima em sua previsão, o FMI destaca em seu relatório semestral, “Perspectivas Econômicas Mundiais”, que a América do Sul crescerá a um ritmo inferior ao registrado em 2006, quando o Produto Interno Bruto (PIB) real — ajustado pela inflação — chegou a 5,5%.

 

A desaceleração será bastante generalizada, de acordo com o FMI, e deverá afetar a todos os países, com exceção do Brasil e do Chile, cujas economias terão este ano um comportamento melhor do que no ano passado. “De modo geral, os fundamentos econômicos estão bem, já que a maioria dos países insistiu na adoção de políticas macroeconômicas realistas e reduziu as vulnerabilidades de suas balanças”, observou Simon Johnson, economista chefe do FMI, durante a apresentação que fez do relatório da instituição.

 

“Na tentativa de evitar uma valorização maior das moedas latino-americanas e impedir a entrada em um ciclo de debilidade depois dos fortes repiques atuais, alguns governos, como o do Brasil e o da Colômbia, tomaram medidas que pretendem reduzir a especulação e ajudar a fortalecer o mercado de moedas. Contudo, elas reagiram timidamente às medidas e algumas, como o real e o peso colombiano e chileno, continuam a se valorizar. Não são boas notícias para a América Latina”, conclui o professor do IE Rafael Pampillón.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"A América Latina diante da força de suas moedas." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [27 June, 2007]. Web. [21 September, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-america-latina-diante-da-forca-de-suas-moedas/>

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