A esperada renovação do mercado de abertura de capital

Foi difícil, porém as IPOs voltaram e com energia renovada. Só este ano, já superaram amplamente os números registrados nos três últimos anos, embora a distância seja muito importante em face dos eventos ocorridos em 2000, ano em que se registraram pela última vez os maiores volumes de listagem de ações em bolsa.

 

Neste primeiro semestre, por exemplo, houve cerca de 90 operações de listagem em bolsa nos EUA, cujo valor total aproximado é de US$ 17 bilhões. Na Europa, porém, os números não são tão elevados, embora só no primeiro trimestre tenham se verificado operações que chegam a US$ 5,24 bilhões, praticamente o dobro do mesmo período tomado para comparação, isto é, o último trimestre do ano passado.

 

Seria a atual fase um desdobramento das tendências de mercado anteriores ao momento do estouro da bolha, ou viria essa nova onda de abertura de capital acompanhada de uma renovação destas mesmas tendências?

 

Diferenças importantes

Para Sergio Torassa, ex-professor do Mestrado em Finanças da Universidade Pompeu Fabra e hoje consultor independente, “há diferenças importantes entre a onda de IPOs do passado e a atual. Agora, as oportunidades são para poucos. O mercado evoluiu de tal modo que, hoje, investir em uma IPO já não é mais o mesmo que atirar em um objeto parado”.

 

Os dados comprovam essa tese e demonstram que as rentabilidades estratosféricas registradas nos primeiros dias posteriores à estréia de uma empresa na bolsa, como foi o caso de numerosas empresas de Internet na época do boom das pontocom, pertencem ao passado, embora possa haver uma ou outra exceção. De todas as empresas que passaram a integrar o pregão da bolsa este ano nos EUA, a que mais se valorizou foi a Eyetech Pharmaceuticals, cujas ações subiram 111% desde o momento da abertura do capital; sem dúvida uma cifra importante, mas que seria considerada bastante corriqueira há cinco anos num primeiro pregão da Nasdaq. Vale observar ainda a existência de uma empresa como a Startek Holdings, cuja desvalorização já supera os 60% desde o momento em que abriu o capital.

 

De acordo com Torassa, “a onda de IPOs do final dos anos 90 era de uma liquidez enorme, e havia muita gente atuando nos mercados. Os analistas do mercado acionário tinham tanta audiência na TV quanto os esportistas de maior sucesso. Vivia-se então a exuberância irracional dos mercados. As pessoas viam as IPOs e raciocinavam “como tudo sobe, basta eu escolher uma empresa qualquer, que ela também subirá”.

 

Torassa recorda que, naquela época, “as valorizações não tinham importância. Compravam-se ações (um investimento de renda variável) não importava o quanto valessem. O preço dos ativos do mercado acionário não era considerado uma variável importante de investimento na empresa, e sim uma simples referência. Na verdade, o que importava era comprar uma ação na crença de que logo ela seria vendida a um preço superior, embora já fosse comprada a um valor muito acima de sua valorização objetiva”.

 

O papel dos bancos de investimentos

As mudanças atingiram também os bancos de investimentos, encarregados de coordenar a operação de listagem em bolsa das empresas, cuidando também para que a operação fosse bem-sucedida.  Torassa crê que, “de modo geral, há muito mais transparência e um zelo muito maior  entre os diferentes departamentos das grandes empresas de investimentos”. Outra diferença importante, em sua opinião, “é que agora os analistas fazem estimativas muito mais realistas do que há alguns anos: as novas regras impostas na esteira de escândalos como os de Frank Quatttrone, do Credit Suisse First Boston, estão surtindo efeito”.

 

Quattrone, um dos banqueiros mais aclamados de Wall Street nos tempos da bolha, está sendo julgado por supostas irregularidades em operações de listagem de empresas de tecnologia. Na época, analistas do Credit Suisse First Boston emitiam recomendações muito positivas sobre empresas clientes do setor de banco de investimentos com o objetivo de tornar mais atraente a operação. A Nasdaq suspendeu Quattrone por um ano, e poderá suspendê-lo por toda a vida.

 

Manuel Romera, diretor técnico do setor financeiro do Instituto de Empresa, também acredita que as novas regras de transparência tiveram um efeito bastante perceptível nos EUA. “Os administradores de empresas sabem que, se cometerem qualquer delito financeiro, serão presos, assim como os banqueiros de empresas de investimentos também sabem perfeitamente que se praticarem qualquer tipo de malversação no trabalho poderão perder o posto que ocupam e cair em desgraça. Nesse sentido, há um rigor legislativo muito maior do que na Europa, onde a indefinição nessa área é bem ampla. O sistema americano é muito mais lógico, porque estabelece com toda clareza: quem tem informação privilegiada vai para a cadeia”, diz.

 

Uma questão a discutir seria as situações em que o banco de investimentos tem vínculos com as entidades das quais desejam vender ao mercado uma parte ou a totalidade das ações, como ocorreu este ano na Espanha com as IPOs da Fadesa e Telecinco, e que deverá ocorrer novamente dentro em breve com a IPO da farmacêutica Probitas.

 

Romera está convencido de que “os bancos de investimentos, em última análise, querem mesmo é listar todas as ações com o maior número possível de subscrições acima dos limites de emissão. Eles não estão preocupados com o fato de que isso possa afetar negativamente a sua imagem, já que no fim das contas os mercados se esquecem de tudo com muita rapidez”, observa. “Por exemplo, a listagem de ações da Fadesa foi muito mal recebida, porém os acionistas minoritários cobriram com folga, pouco depois, a demanda total da Telecinco (canal de televisão espanhol). Portanto, o ambiente se mantém mais ou menos igual”, acrescenta.

 

Mais vale prevenir

Torassa recomenda muita precaução aos bancos de investimentos nas operações em que ocorre essa coincidência. “É preciso ter muito cuidado com tais situações porque, embora ambos os departamentos estejam separados ¾ mediante as chamadas muralhas chinesas, que separam fisicamente o pessoal das diferentes áreas do banco ¾, pode haver casos de má interpretação. Ainda que seja perfeitamente legal, pode gerar dúvidas o fato de que o vendedor das ações seja também responsável por sua colocação e acompanhamento.”

 

O ex-professor de Finanças da Universidade Pompeu Fabra chama a atenção para o fato de que “os papéis parecem excessivos para um único ator. Não há nada de ilegal nisso, porém seria interessante averiguar se de fato vale a pena seguir essa linha. Talvez fosse mais útil explicitar melhor essa informação nas diretrizes de listagem”.

 

Torassa confia no mercado: “No fim das contas, o próprio mercado julga o trabalho do responsável pela listagem. Fazer esse julgamento a curto prazo sai caro. Se o encarregado do lançamento das ações pensa simplesmente em colocá-las no mercado e der com isso por encerrada sua missão, terá cumprido seu papel, mas terá também projetado uma imagem negativa. Isto afetará tanto a empresa, que enfrentará maiores complicações na hora de captar novos recursos, como o banco de investimentos, uma vez que as empresas que quiserem abrir seu capital optarão por outras entidades de melhor reputação. Portanto, tal procedimento em nada ajuda as futuras emissões e listagens já que, em última análise, o que se tem é uma operação cara cujo único mérito terá sido a obtenção de receitas mais elevadas em uma operação pontual, porém à custa de uma imagem negativa.

 

Mas Romera vê com ceticismo a questão: “Na verdade, está tudo errado. Os investidores não têm memória histórica. Muita gente que aplica em fundos de investimentos perde, às vezes, até 70% do que aplicou, e nem por isso tira o sorriso do rosto — pior, ainda faz piadas com os funcionários do banco. Na hora de realizar ganhos, observa-se que as grandes empresas já se enganaram tantas vezes que mais um erro não fará diferença alguma”, comenta.

 

Torassa, por sua vez, acredita que “se a listagem tiver por objetivo unicamente o lançamento das ações de algum dos grandes acionistas da empresa, há fórmulas mais simples e baratas de fazê-lo — como, por exemplo, lançá-las privativamente entre investidores institucionais apenas. A finalidade da listagem em bolsa deve ser a captação de fundos nos mercados financeiros”.

 

A importância da abertura do capital em debate

Entretanto, nem mesmo nesse ponto parece haver consenso, nem no mundo empresarial e nem no mundo acadêmico. Segundo Romera, “há um outro problema: será realmente interessante para as empresas abrir o capital? Muitos administradores de empresas crêem que não, já que isso implica a avaliação mais fria possível do seu desempenho”.

 

Em sua opinião, a bolsa “pode tirar a concentração dos diretores de empresa. O mercado de ações corre o risco de se tornar um mercado exclusivamente de curto prazo pelo fato de que determinadas notícias, de desfecho positivo a longo prazo no caso de um valor específico, como em um ajuste de custos, podem ser recebidas muito negativamente pelo mercado, o que condicionaria futuras decisões. As empresas têm adotado posturas cada vez mais extremas: há as dispostas a abrir o capital e as que não estão dispostas a se submeter ao juízo das bolsas”.

 

Torassa, pelo contrário, acredita que, por causa dos novos ventos que hoje sopram sobre as IPOs, tudo pode mudar. “O ambiente mais calmo e o fato de que as empresas que abrem o capital o façam sem a ocorrência de excessos é positivo por diversas razões: é bom para a economia de modo geral, uma vez que os lançamentos deixam de ser uma situação pontual dos mercados altistas e passam a ser estruturais, o que permite a realização de operações desse tipo em qualquer contexto de mercado. É positivo também para a empresa, porque dá a ela a possibilidade de recorrer ao mercado para captar recursos em condições mais estáveis; e, é claro, é interessante também para os investidores, que têm assim uma fórmula a mais para investir. O que não parece positivo é que haja somente operações de listagem quando os índices proporcionam ganhos anuais superiores a dois dígitos”, conclui.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"A esperada renovação do mercado de abertura de capital." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [28 julho, 2004]. Web. [31 July, 2014] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-esperada-renovacao-do-mercado-de-abertura-de-capital/>

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"A esperada renovação do mercado de abertura de capital" Universia Knowledge@Wharton, [julho 28, 2004].
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