A logística movimenta o mundo, pelo menos no mercado global

Durante um painel de debates intitulado “Logística: ponte para a prosperidade global”, promovido pelo Fórum Global da Wharton realizado em Istambul nos dias 8 e 9 de junho, o moderador George Day referiu-se à logística como “tecido conectivo que faz a economia global funcionar”. A logística, disse Day, pode ser “uma fonte incomensurável de vantagem competitiva, além de ajudar a expandir e a lançar novos modelos de negócios”. Combinada com a tecnologia da informação, acrescentou, a logística pode “ampliar de forma espetacular o alcance geográfico de empresas grandes e pequenas”. Para explicar o papel cada vez mais preponderante da logística, Day, professor de Marketing da Wharton, contou com a colaboração de Michel Akavi, CEO da DHL Worldwide Express do Oriente Médio, Mirzan bin Mahantir, presidente do conselho e diretor-geral da Konsortium Logistiks Berhad, com sede na Malásia, e Yavuz Cizmeci, presidente do conselho das Linhas Aéreas ACT da Turquia.

 

“Logística quer dizer deslocar o produto certo, em quantidades certas, para o lugar certo na hora certa”, disse Day, professor de Marketing da Wharton e estudioso de logística baseada no desempenho de empresas como a Cisco Systems e General Electric. “As cadeias de suprimentos realmente boas resultam em custos substancialmente baixos, menor volume de estoque e melhor prestação de serviço ao consumidor. É o caso da Cisco. Seu grupo de serviço de pós-vendas é um negócio de 4 bilhões de dólares que distribui 720.000 peças de reposição para as diversas instalações fabris da empresa. A logística dessa operação envolve clientes, engenheiros de campo, além de centros de execução, distribuição e reparos de materiais. “Quanto mais eficiente for a administração da logística, tanto maior a possibilidade de banir as incertezas do sistema”, disse.

 

Logística: oito tendências

Michel Akavi, outro debatedor convidado, disse à platéia presente ao fórum que quando perguntou à profissional responsável pela organização das palestras em que local o grupo de discussões se reuniria, ela lhe respondeu que as pessoas “se atrasariam um pouco, mas que pouco a pouco iriam chegando. Então eu disse: ‘Ótimo. Elas precisam de uma sessão de logística para acordar’”.

 

Akavi decidiu despertar o grupo com um debate sobre as oito tendências  que, em sua opiniçao, influenciam atualmente a logística. A primeira delas, disse, é a “explosão” do comércio global e da produção global devido à “derrocada da velha ordem política, principalmente do comunismo. Além disso, a barreira de costumes não existe mais, sobretudo na Europa, e há um volume maior de comércio entre as regiões oriental e ocidental do continente. Akavi citou também o Acordo de Livre Comércio Norte-Americano (Nafta), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio). Quanto mais eventos dessa natureza houver, maior a necessidade da logística”.

 

Veja o caso da Internet, disse Akavi. Como somos uma empresa que entrega documentos de porta em porta, “ficamos apavorados com o advento da Internet. Felizmente, porém, os documentos precisam ser assinados, selados e carimbados […] Esperamos que a Turquia não adote o mau hábito da assinatura eletrônica quando passar a integrar a UE”, disse Akavi com um sorriso, acrescentando que “os produtos não viajam eletronicamente, ainda bem!” Quanto mais as pessoas utilizarem a Internet, maior será o volume de negócios, mais pesados serão os pacotes e maior a necessidade de cartas para fazer o mundo girar.

 

Segunda tendência: transição para uma sociedade pós-industrial. “A população dos países ocidentais estagnou; a média de idade está aumentando, gasta-se mais dinheiro com comunicação e saúde e menos com produtos produzidos em massa. Existe, portanto, uma tendência para produtos de nichos mais transitórios e individuais combinada com serviços.” Isto significa que uma variedade maior de bens precisa ser transportada, de formas mais especializadas, diretamente para o usuário/consumidor. ‘Portanto, a indústria da logística precisa se especializar em nichos, assim como a indústria têxtil requer empresas que sejam sensíveis às tendências da moda. Não se pode produzir um milhão de produtos em um único  lugar de uma só vez. É preciso produzi-los depressa”, geralmente em partes distintas do planeta.  

 

De acordo com a terceira tendência, vivemos hoje em um “mundo on-demand (em que o consumidor diz o que quer, quando quer e como quer)”, disse Akavi. “Nossa sociedade rendeu-se ao bordão ‘tempo é dinheiro’. Caminhamos para um ambiente de concorrência centrado no tempo. A velocidade quase que supera em importância o preço. Vemos isso na microeletrônica, com seus chips e consoles de jogos. No segmento de PCs e de telefones, o termo utilizado é ‘agilidade’ — ou a capacidade de chegar primeiro ao mercado. A demanda está mudando o mundo da logística.”

 

A quarta tendência diz respeito à crescente sensibilidade em relação ao meio ambiente. As pessoas indagam agora: “Como podemos transportar menos, de maneira mais eficiente, e o que devemos fazer para reciclar mais?”, disse Akavi. “Na Europa, observamos que o tráfego de caminhões nas rodovias é cada vez mais restrito. Na Áustria, alguns caminhões não podem circular nos finais de semana. As ferrovias estão sendo mais utilizadas para o transporte de bens, porque o consumo de energia é menor. Existe também uma preocupação maior com aeronaves barulhentas. Tivemos de substituir nossos aviões em Bruxelas por aparelhos menos ruidosos; agora, estamos transferindo nossa central de vôos de Bruxelas para Leipzig, na Alemanha, uma região menos povoada. O cuidado com o meio ambiente está modelando a indústria.”

 

A quinta tendência, diz Akavi, “consiste na redescoberta da organização dos processos estruturais” baseados na maior eficiência e na melhor organização. A sexta tendência consiste na “desregulamentação e na privatização dos serviços públicos nas comunicações e nos transportes. Somos um bom exemplo disso”, disse Akavi. O correio alemão (Deutsche Post), dono da DHL, “tinha um sistema postal ineficiente e apático. Depois de privatizado e modernizado, começou a dar lucro. Em seguida, passou a refletir sobre sua missão: seria vender selos pelo resto da vida? Foi assim que passou de serviço postal à empresa de logística e transporte integrados”.

 

A sétima tendência enfatiza a geração de valor para o acionista. “A logística procura agora ressaltar as competências básicas. Já vimos empresas se desfazerem de negócios para se concentrar unicamente em suas competências básicas. O transporte agora passa por uma etapa de forte terceirização”, o que ajuda fornecedores terceirizados, como a DHL, a crescer e também contribui com o crescimento de empresas de logística que operam com transportes especializados.

 

A oitava e última tendência, de acordo com Akavi, diz respeito às tecnologias de comunicações mais recentes. “Com a Internet, sabemos perfeitamente onde está nosso transporte e podemos contactar seu call center caso o produto fique retido em algum lugar. Hoje podemos utilizar também telefones móveis para isso. O rastreamento e a localização estão se tornando cada vez mais comuns. Nossa empresa é capaz de rastrear automaticamente todos os embarques feitos e detectar quaisquer problemas antes que o cliente se dê conta de que sua encomenda não chegou.” A tecnologia de RFID — etiquetas de identificação por radiofreqüência — é de “importância fundamental para nosso setor. Sem ela, seria muito difícil localizar uma encomenda em nossos depósitos gigantescos. Essa tecnologia terá um impacto muito grande nos próximos anos”.

 

O exemplo de Cingapura

A descrição que   Mirzan bin Mahathir faz de sua empresa, a Konsortium Loistiks Berhad, sediada em Kuala Lumpur, como uma entidade dividida entre componentes de logística e soluções de logística, lembra o comentário de Akavi sobre empresas que terceirizam cada vez mais sua parte logística para se dedicar às suas competências básicas. Mahatir acrescenta que “a ponte para a prosperidade global tem dois níveis”, o nível “país” e o nível “companhia”.

 

No nível país, “cabe às nações desenvolver sua infra-estrutura logística para que possam competir. Não basta atrair o setor de fabricação se o produto fabricado não for comercializado de maneira eficiente”, disse. Essa infra-estrutura compreende a construção de portos, aeroportos, estradas e pontes para transportar não apenas mercadorias, mas também pessoas. Os aeroportos são particularmente críticos: “No Oriente Médio, todos estão se dando conta de que os aeroportos são um item crucial de infra-estrutura”, por isso há vários em construção atualmente, alguns inclusive bem próximos uns dos outros.

 

“Contudo, a parte física só não basta. A infra-estrutura física não é de grande valia se não for utilizada de maneira eficaz”, observou Mirzan. São necessárias três coisas: tecnologia da informação, deslocamento físico eficiente e um sistema financeiro confiável. “Nos países em desenvolvimento, essas três coisas caminham necessariamente de mãos dadas. Isso ocorreu em alguns poucos lugares, como Cingapura. Outros países, porém, estariam adotando essa mesma estratégia.”

 

No negócio de logística, acrescentou Mirzan, os produtos têm de ser enviados o mais diretamente possível para o mercado, e têm de chegar a seu destino a tempo. Contudo, vários obstáculos governamentais podem tolher esse processo, inclusive o excesso de papelada, inspeções desgastantes e corrupção. “Se a liderança de um país qualquer fizer uma avaliação logística para determinar o seu papel para a prosperidade de sua gente, verá que é preciso trabalhar com essas três áreas.” Algumas nações já se deram conta disso; outras, não.

 

Do ponto de vista da empresa, acrescentou, algumas já se começam a ver como companhias de logística, mesmo que sejam fabricantes de um produto qualquer. Isso é uma vantagem competitiva. A Dell, disse Mirzan, “é na verdade uma empresa de logística que atua no negócio de computadores. A empresa é muito eficiente no que faz, mas ela atua sobretudo na área de logística”.

 

Soluções em software

Yavuz Cizmeci, presidente do conselho das Linhas Aéreas ACT, lembrou ao auditório que Istambul sempre foi uma encruzilhada logística para o comércio, e que a Turquia deverá se tornar um centro logístico no futuro. A tendência hoje, disse, é a de que muitas empresas de grande porte abram filiais na Turquia ou comprem companhias já instaladas ali, prontas para tirar vantagem do comércio cada vez mais intenso do país, do seu mar, rodovias, estradas de ferro e transporte aéreo. Gastar com logística, disse, é algo que deve se tornar comum num futuro próximo.

 

Durante a sessão de perguntas,   Akavi foi interpelado quanto ao modo como sua empresa utiliza as soluções em software para otimizar sua logística, como, por exemplo, no que diz respeito à carga de cada caminhão. “O software não é competência básica da logística”, disse. “Embora haja um grande volume de desenvolvimento de software ocorrendo na empresa, trabalhamos cada vez mais com desenvolvedores na busca de soluções […] Gastamos cerca de 6% a 7% de nossa receita com TI, e terceirizamos um volume cada vez maior.”

 

Outra pessoa do auditório observou que sempre viu o campo da logística como um segmento de fácil acesso, desde que a empresa seja capaz de transportar alguma coisa do ponto A para o ponto B. Contudo, com as melhorias tecnológicas introduzidas e com o maior volume de fusões entre as empresas existentes — e com a vantagem de que desfrutam as pequenas empresas em comunidades menores — as companhias de médio porte estariam sendo espremidas, ou ainda haveria oportunidade de crescimento para as empresas médias?

 

“Há sem dúvida alguma espaço para pequenas, médias e grandes empresas”, disse Akavi. “Nós crescemos muito, porém oferecemos soluções integradas. Alguns clientes, entretanto, precisam de transporte apenas do ponto A para o ponto B. Às vezes, uma empresa de menor porte tem mais flexibilidade e pode oferecer preços melhores. Se você não precisa de uma rede gigantesca como a nossa, pode recorrer ao mercado de empresas de porte médio.”

 

Cizmeci apresentou sua perspectiva pessoal: “Minha empresa é pequena. O tamanho, porém, não é o mais importante, contanto que você faça bem o seu trabalho e pelo preço certo. À medida que a tecnologia se torna mais complexa, a vida se torna igualmente mais complexa, e as grandes companhias de logística nem sempre lidam muito bem com isso. Elas precisam de parceiras menores, ágeis e econômicas.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"A logística movimenta o mundo, pelo menos no mercado global." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [04 June, 2007]. Web. [22 July, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-logistica-movimenta-o-mundo-pelo-menos-no-mercado-global/>

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A logística movimenta o mundo, pelo menos no mercado global. Universia Knowledge@Wharton (2007, June 04). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-logistica-movimenta-o-mundo-pelo-menos-no-mercado-global/

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"A logística movimenta o mundo, pelo menos no mercado global" Universia Knowledge@Wharton, [June 04, 2007].
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