A renúncia de Bento XVI e a eleição de Francisco: lições da igreja para as empresas familiares

A recente eleição de Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, para sucessão de Bento XVI, é mais um exemplo de como deve ser orquestrada a transição em uma empresa. Alguns elementos dessa mudança recente de poder trazem consigo algumas informações que poderão ser úteis àquelas empresas que estejam em processo de troca de liderança, especialmente as empresas familiares, que apresentam um percentual elevado de fracasso na hora de fazer a transição entre as gerações.

O melhor exemplo disso foi a eleição do primeiro papa da América Latina, região de enorme importância para a igreja no século 21, já que comporta praticamente a metade dos 1,2 bilhão de católicos do mundo. Alberto Gimeno, professor de direção geral e estratégia da Esade, diz que tal decisão deixa claro "que se trata de uma organização em que o interesse comum é muito forte e em que as vontades se unem acima dos interesses pessoais". Portanto, faz sentido que o novo papa venha de uma região onde há um número maior de fiéis, rompendo assim com mais de 2000 anos de tradição de papas europeus. Mesmo assim, como em qualquer organização, explica Gimeno, a eleição comportava várias outras possibilidades, conforme se viu em outras ocasiões, já que em uma instituição "as decisões também são tomadas em função de jogos de poder entre diferentes membros. Nisso se destaca a negociação dos interesses individuais".

Na igreja, como em qualquer organização, "definir e preparar a sucessão é vital para uma transição bem-sucedida entre gerações", observa Marta Beltrán, diretora da Associação para o Desenvolvimento da Empresa Familiar de Madri (ADEFAM), que acrescenta: "Há quem diga que no dia em que um membro galga o posto de maior responsabilidade na empresa ele já deve começar a pensar no seu sucessor […] Creio que é muito importante ter isso em mente." Tudo indica que, no caso do papado, a escolha já vinha sendo definida desde o pontificado de João Paulo II, que foi quem elevou Bergoglio ao cardinalato. Este, por sua vez, disputou com Joseph Ratzinger, o papa emérito Bento XVI, a eleição de 2005.

Institucionalização das organizações

Alberto Gimeno ressalta que "a igreja é uma organização muito centralizada em sua cúpula e, portanto, sua autoridade máxima tem enorme influência". O mesmo ocorre na maior parte das empresas familiares, em que o patriarca imprime sua marca pessoal na organização. Contudo, Gimeno acredita que, ao mesmo tempo, trata-se de uma "organização muito institucionalizada, na qual os processos estão perfeitamente definidos e, portanto, pode-se prever o rumo dos acontecimentos quando chega a hora da sucessão no poder". De fato, "esse é o motivo pelo qual a igreja sobreviveu tanto tempo", observa Gimeno.

O professor da Esade explica que o oposto disso se vê no processo de sucessão do recém-falecido Hugo Chávez na presidência da Venezuela. Para Gimeno, na estrutura de governo venezuelana a figura do líder também tem um papel fundamental, mas, diferentemente da igreja, "ali o sistema está pouco ou nada institucionalizado e, portanto, há muito mais incerteza" se pessoa designada pelo próprio Chávez para sucedê-lo, Nicolás Maduro, sairá vitorioso nas eleições do próximo dia 14 de abril. Gimeno explica que "na igreja, a estrutura vai muito além da pessoa; ao passo que, na Venezuela, o líder determina o sistema ou tem tanta influência sobre ele que (o socialismo bolivariano) tem dificuldades para sobreviver sem a pessoa".

Traduzindo esses exemplos para a experiência do mundo corporativo, pode-se compará-los à sucessão nas empresas familiares, em que há uma pessoa, normalmente o chefe da família, que determina o caráter da empresa e seu funcionamento. O problema nesse tipo de empresa é que ali se confunde a liderança personalista com a falta de institucionalização nos processos de tomada de decisão, "e assim a sucessão se converte em um processo muito complicado, porque não há equilíbrio de poder", observa Alberto Gimeno, para quem "os fundadores estruturam as empresas à sua imagem e semelhança, por isso elas têm tanta dificuldade de sobreviver ao seu criador". Assim, o professor da Esade diz que é necessário "gerar mecanismos que permitam reduzir a incerteza nas empresas familiares".

É o que pensa também Marta Beltrán, da Adefam: "As consequências da falta de planejamento para a sucessão podem ser muito perigosas para a sobrevivência da empresa, para a harmonia da família proprietária e para o resto da equipe diretora. É preciso evitar a todo custo que a transição de uma geração para outra seja um obstáculo para o desenvolvimento e a estabilidade da empresa."

Uma decisão altruísta

O grande obstáculo é que a institucionalização de uma empresa "limita a capacidade de movimentação do líder, que se vê obrigado a exibir altas doses de inteligência para se dar conta de que isso é necessário e grandes doses de altruísmo para reconhecer que uma organização vai além da pessoa", explica Gimeno. Para o professor, a decisão de Bento XVI de renunciar ao seu cargo é um exemplo dessas duas qualidades, porque pôs em primeiro lugar os interesses da instituição que dirige relegando a segundo plano o interesse pessoal. É o que pensa também Manuel Bermejo, especialista em empresas familiares da Escola de Negócios IE. "Parece-me muito louvável a generosidade de quem, fazendo uma autocrítica profunda, é capaz de tomar decisões excelentes para sua organização. Muitos colegas professores e do segmento de consultoria têm se referido inúmeras vezes à igreja católica como exemplo de continuidade para a empresa familiar. Creio que, desde já, no que se refere a essa decisão importante e pouco frequente (o último papa a renunciar foi Gregório XII, em 1415, uma época também de muita turbulência para a velha Europa), Bento XVI deixa para todos nós uma grande lição."

Embora a renúncia em vida de um papa não tenha um antecedente histórico recente, a igreja é uma organização muito institucionalizada. Por isso, diz Gimeno, o grau de incerteza diminui drasticamente. "Todo o mundo sabia qual seria o processo, e as dúvidas eram sobre temas 'light' como, por exemplo, que cor Bento XVI passaria a usar, se terá ou não proteção da guarda, o que acontecerá a seu anel papal. Todavia, o fundamental estava claro: os cardeais se reuniriam na capela sistina para eleger o novo papa."

Bermejo diz que, já em 2010, Bento XVI confessava a seu compatriota, o alemão Peter Seewald, em seu livro "Luz do mundo", que quando um papa tem perfeita consciência de que não é mais física, mental e espiritualmente capaz de levar a cabo seu encargo, isso confere a ele, em algumas circunstâncias o direito, e até o dever, de se demitir. "Parece-me a decisão de um homem sábio", diz Bermejo. O professor da Escola de Negócios IE diz que em muitas empresas familiares "há pessoas que já não contribuem com mais nada, podendo inclusive destruí-las. Há casos em que se convertem em personagens completamente nocivos para a organização e para os que o rodeiam, mas se aferram ao cargo por inúmeros motivos que, vistos de fora, soam como desculpas disfarçadas que escondem seu egoísmo".

Uma saída organizada

Mas, podem coexistir dois papas? E dois presidentes de uma empresa? Marta Beltrán explica que "a saída de alguém é sinal de que a pessoa que substituirá o diretor executivo de uma empresa tem o preparo necessário, o que é sempre uma vantagem. Naturalmente, isso acontece sempre que a pessoa que está exercendo a função de presidente ou diretor executivo não possa mais realizar plenamente suas funções. Caso contrário, o momento de deixar a empresa, ou de renunciar, é algo que deve estar combinado com todas as partes e preparado de forma consciente, buscando-se o momento em que a empresa possa fazer uma mudança dessas", explica.     

Alberto Gimeno considera imprescindível aproveitar a experiência do líder que sai, mas isso só é possível em empresas institucionalizadas, de forma que "o novo diretor possa crescer e assumir a liderança da empresa". Do contrário, "o líder que sai buscará alguém à sua imagem e semelhança, a quem acabará desafiando e não permitirá que ele fique à frente da empresa". Uma vez mais, o exemplo da igreja mostra como deveria ser a sucessão na empresa familiar. Por um lado, os cardeais estão familiarizados com a figura e o papel que desempenha aquele que está à frente do papado. O normal, porém, é que não coexistam duas pessoas que tenham ocupado esse cargo. Francisco, inclusive, poderia se beneficiar da experiência e dos conselhos de Bento XVI, embora, do ponto de vista da instituição, esteja muito claro que este último não está mais à frente da igreja e, portanto, não haverá luta pelo poder.

No processo de transição de uma geração para outra, Gimeno considera fundamental a figura do conselho de administração, órgão que deve nomear o novo presidente entre seus membros, à semelhança do que acontece no colégio cardinalício, que elege o papa dentre seus integrantes a portas fechadas.

Para Maria Beltrán, são os seguintes os principais conselhos para que haja uma transição ordenada na empresa familiar: "Planejar a transição com tempo suficiente, ter a aprovação dos órgãos de governo da empresa, obter a unidade da família e dos acionistas, e, se possível, o sucessor e seu antecessor devem passar um tempo juntos para que possam fazer uma transição eficiente de poderes".

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"A renúncia de Bento XVI e a eleição de Francisco: lições da igreja para as empresas familiares." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [20 March, 2013]. Web. [25 February, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-renuncia-de-bento-xvi-e-a-eleicao-de-francisco-licoes-da-igreja-para-as-empresas-familiares/>

APA

A renúncia de Bento XVI e a eleição de Francisco: lições da igreja para as empresas familiares. Universia Knowledge@Wharton (2013, March 20). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-renuncia-de-bento-xvi-e-a-eleicao-de-francisco-licoes-da-igreja-para-as-empresas-familiares/

Chicago

"A renúncia de Bento XVI e a eleição de Francisco: lições da igreja para as empresas familiares" Universia Knowledge@Wharton, [March 20, 2013].
Accessed [February 25, 2020]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-renuncia-de-bento-xvi-e-a-eleicao-de-francisco-licoes-da-igreja-para-as-empresas-familiares/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far