A Responsabilidade Social Corporativa ganha espaço na América Latina

Em abril, a cantora Shakira subiu ao palco diante dos líderes empresariais mais influentes do hemisfério ocidental e lhes deu o seguinte recado: abram suas carteiras. "Seria fantástico ver a liderança latino-americana abraçar o capitalismo filantrópico da forma como os executivos de outros países têm feito. Bill Gates e Warren Buffet, por exemplo, pedem aos multimilionários que prometam destinar metade da sua fortuna para ajudar os pobres", disse a cantora depois de falar na primeira Cúpula para CEOs das Américas em Cartagena, na Colômbia, seu país natal. Estavam presentes na plateia os CEOs de empresas da Fortune 500, presidentes estrangeiros e chefes de organizações internacionais. Shakira, cuja instituição de caridade trabalha com as crianças pobres da Colômbia há 15 anos, desafiou o auditório a "competir para ver quem faria o cheque de valor mais alto".    

Não se sabe se a campanha do cheque vai pegar. Contudo, o pedido de Shakira lançou luz sobre um assunto que vem sendo discutido nas escolas de negócios e nas salas dos conselhos: as empresas e seus executivos deveriam ajudar mais os pobres? Trata-se de uma questão muito importante no mundo em desenvolvimento, onde o abismo entre ricos e pobres colocou sob os holofotes o papel que desempenham as multinacionais nas comunidades onde se encontram.

O crescimento econômico da América Latina tem colaborado com a expansão das empresas, que se beneficiam da privatização generalizada dos serviços e do consumo de produtos por uma classe média cada vez maior. O crescimento produziu milionários e bilionários, dentre eles o homem mais rico do mundo, o barão mexicano das telecomunicações Carlos Slim, cujo patrimônio líquido é de cerca de US$ 69 bilhões. Enquanto isso, 161 milhões de pessoas, cerca de 30% da população da região, ainda vive na pobreza, conforme pesquisa feita pela Universidade Nacional de la Plata, da Argentina, e pelo Banco Mundial. Além disso, o acesso ao sistema de saúde e ao ensino de qualidade continua fora do alcance da maior parte das pessoas.

As empresas decidiram incorporar o desenvolvimento social às suas práticas de negócios tanto quanto a filantropia. "Existe uma conscientização cada vez maior em relação à necessidade de se ampliarem as estruturas institucionais e sociais em que as empresas operam, o que contribuiria para o desenvolvimento em geral do mercado, da economia e da comunidade", observa Nien-hê Hsieh, professor de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton.

Numa época em que a confiança pública nas empresas atingiu patamares históricos baixíssimos, de acordo com as pesquisas, esses esforços bem-intencionados podem contribuir muito para restaurar a confiança e a fé pública nas empresas. O consumidor latino-americano diz que as empresas estão melhorando sua estratégia de responsabilidade social, conforme dados do "Estado da Responsabilidade Social Corporativa 2011" do Forum Empresa do Chile, que entrevistou 3.200 pessoas, entre elas 1.279 executivos. Setenta e dois por cento (72%) dos entrevistados disseram que as práticas de RSC das empresas nacionais haviam melhorado de 2009 para 2011; para 64%, as práticas das empresas multinacionais haviam melhorado durante esses dois anos.

Um debate constante

Há décadas os programas sociais fazem parte das estratégias de responsabilidade social corporativa das empresas. Embora deem mais atenção ao desenvolvimento social, não há consenso em relação ao grau em que se deve incorporar o alívio à pobreza a seus projetos. As estratégias que privilegiam a ajuda aos pobres como, por exemplo, a da base da pirâmide, têm críticos e partidários. "O que se discute principalmente é se a estratégia da base da pirâmide seria, de fato, a melhor maneira de aliviar a pobreza. Esse é um debate que persiste", diz Hsieh.

Coimbatore Krishnarao Prahalad, em seu livro The fortune at the bottom of the pyramid [A riqueza da base da pirâmide], de 2004, dizia que as empresas multinacionais deveriam dar atenção aos pobres do mundo e transformá-los em mercado para seus produtos. Com isso, ele deu à estratégia visibilidade pública. Prahalad morreu em 2010, porém, em entrevista concedida em 2009 a knowledge@wharton, ele disse que a ideia havia mudado as campanhas de alívio da pobreza em muitos níveis. "Por exemplo, várias instituições multilaterais — o Banco Mundial, o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDF), a IFC (Corporações Financeiras Internacionais) e a USAID (Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA) — aceitaram basicamente a ideia de que o envolvimento do setor privado é essencial para o desenvolvimento […]", disse. "Pedi a dez CEOs de empresas variadas — Microsoft, ING, DSM, GSK e Thomson Reuters, entre outras — que pensassem sobre o possível impacto do livro sobre a forma como elas refletiam sobre as oportunidades que tinham. Todas, sem exceção, da Microsoft a GSK, disseram basicamente que não só o livro teve um certo impacto sobre elas, como também mudou a forma como lidam com a inovação e […] os novos mercados."

Os pesquisadores questionaram a ética desse tipo de abordagem para redução da pobreza. A "estratégia tem alguns problemas próprios, e [Prahalad] reconhece que "geração de lucro e o alívio da pobreza são coisas que não combinam muito bem", disse Kirk Davidson, professor de estudos internacionais da Mount St. Mary's University, no Journal of International Business Ethics de 2009. "Se o que Prahalad diz é viável ou se não passa de 'miragem' […] é algo que os estudiosos continuarão a debater durante algum tempo."

Embora o debate prossiga, muitas empresas, grandes e pequenas, já estão instituindo programas que procuram beneficiar os pobres e também a geração de lucros. Por exemplo, um fabricante nicaraguense de charutos abriu uma creche do outro lado da rua onde está localizada a fábrica. Os trabalhadores são dispensados do trabalho sempre que necessário para que possam participar de reuniões com os professores ou dar atenção aos filhos. Além de ser uma comodidade para os funcionários, a creche contribuiu para que a fábrica melhorasse a produção reduzindo o absenteísmo.

Numa escala mais ampla, a Nestlé, peso pesado da indústria alimentícia, na tentativa de melhorar a vida dos pequenos produtores da região que fornece matéria-prima para a empresa, modificou sua cadeia de valor para trabalhar mais diretamente com os agricultores. A companhia, cuja receita anual é superior a US$ 4 bilhões na América Latina, diz que a mudança beneficiará seus 150.000 fornecedores na região. A mudança também dá preferência a quem produz de modo sustentável. "Para nós, a responsabilidade social corporativa não é algo imposto de fora, e sim parte inerente da estratégia de negócios da Nestlé", declarou Peter Brabeck-Letmathe, presidente e CEO da empresa.

No México, a PepsiCo decidiu usar óleos mais saudáveis na produção de lanches fritos. A empresa começou a trabalhar diretamente com os agricultores de girassol no sul do estado mexicano de Chiapas. A PepsiCo conseguiu uma fonte confiável de óleo e os agricultores o treinamento e o apoio que lhes permitiram aumentar a produção e, como consequência, hoje vendem um volume maior de sementes de girassol.

Um fio comum que perpassa esses exemplos liga a responsabilidade social corporativa aos objetivos das organizações. "As empresas querem transformar em plano de negócios seus programas sociais, que devem estar vinculados à sua estratégia", diz Steve Puig, vice-presidente do setor privado do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Puig fez menção ao desemprego entre os jovens latino-americanos. Na região toda, cerca de 16% dos jovens — com idades entre 15 e 24 anos — estavam desempregados em 2009, de acordo com um estudo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Em alguns países, a taxa de desemprego nesse grupo era perto de 50%, alimentando um ciclo de pobreza e de violência entre os jovens que tem contribuído para o crescimento das gangues e da atividade criminosa.

Embora isso pudesse ser interpretado como mera questão social, o desemprego entre os jovens também afeta as empresas. Para uma franquia do McDonald's, ou uma loja do Wal-Mart, é imprescindível que haja mão de obra qualificada. Em 2011, uma pesquisa feita pela empresa de recursos humanos Manpower constatou que 40.000 empresas latino-americanas e do Caribe tinham dificuldades para encontrar trabalhadores qualificados.

Em abril, no mesmo evento que contou com a presença de Shakira, o Banco Interamericano de Desenvolvimento anunciou um projeto revolucionário voltado para a juventude da América Latina. No decorrer da próxima década, as empresas oferecerão treinamento para um milhão de jovens da América Latina e do Caribe. O programa, batizado de Novas Oportunidades de Emprego, coloca o setor privado na vanguarda de um problema social da maior importância e que alimenta a pobreza na região, diz Puig. "Trata-se de uma abordagem que abrange a região toda e conta com a participação de alguns dos maiores empregadores da América Latina", diz. Entre os signatários do projeto estão o Wal-Mart, Caterpillar, Microsoft, a companhia de cimento CEMEX e a principal franquia do McDonald's. Juntas essas empresas já empregam em torno de 500.000 pessoas na região. Por enquanto, elas já se comprometeram com cerca de US$ 37 milhões em dinheiro ou contribuições, além de promessas de contratações. Ao coordenar campanhas no exterior e entre empresas, o banco espera criar uma plataforma sustentável que trate da questão do desemprego entre os jovens, acrescentou Puig.

Muito mais do que uma palavra da moda

A sustentabilidade há tempos se tornou palavra da moda nos círculos de responsabilidade social corporativa alimentada, em parte, pela rejeição a práticas anteriores. As empresas foram duramente criticadas por se dedicarem a projetos isolados — como, por exemplo, o financiamento da construção de uma clínica de saúde sem se preocupar com as estratégias de contratação de profissionais que trabalharão no local ou sem se importar em saber se a clínica terá os remédios de que precisa — e com isso ganhar a simpatia do consumidor. As empresas locais, porém, estão se distanciando dessa prática e optando por projetos de longo prazo.

Justin van Fleet, pesquisador do Brookings Institution especializado em tendências de responsabilidade social corporativa na América Latina, disse que as multilatinas (empresas originárias da América Latina com operações por toda a região), mais do que as multinacionais, estão investindo em projetos de vários anos com efeito direto sobre seus consumidores ou força de trabalho. "As [multinacionais] estão fazendo uma porção de coisas parecidas, projetos relativamente pequenos com retornos de curto prazo ou únicos", disse.  "As multilatinas, por sua vez, trabalham preferivelmente com projetos de três a quatro anos."

Para pôr em prática esses projetos, as empresas estão trabalhando com canais locais, como organizações não governamentais e, sempre que for o caso, agências do governo. "Existe a ideia de que para lidar com a sustentabilidade de maneira realista, é preciso que os stakeholders [todos os que mantêm alguma ligação com a empresa] estejam envolvidos", disse Puig. "Uma maneira de lidar com o desafio de trabalhar em projetos em países estrangeiros consiste em fazer parcerias com ONGs, com os governos e outras organizações que saibam como interagir com essa comunidade." Por exemplo, o programa de Novas Oportunidades de Emprego requer dos governos latino-americanos que se dediquem aos programas de treinamento profissional. O programa também trabalha em parceria com a Fundação Internacional do Jovem, uma ONG internacional especializada em programas para a juventude.  O sucesso do programa "depende do trabalho conjunto dos setores público e privado […] e também da interação com os governos", diz Puig.

De acordo com van Fleet, as empresas também estão interessadas em áreas que vão além das tradicionais num esforço para a introdução de projetos mais sustentáveis. Projetos na área da saúde como, por exemplo, a construção de uma clínica, costumavam ser o foco principal de atenção das empresas, que hoje estão investindo em outros setores, como educação. O investimento em educação, diz van Fleet, é de cerca de US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão. Embora isso seja apenas uma fração dos cerca de US$ 8 bilhões investidos em programas sociais, esse valor vem aumentando constantemente, ainda que os números não tenham sido monitorados ao longo do tempo.

Todavia, a sustentabilidade ainda não foi adotada completamente pela comunidade empresarial. Somente 55% das empresas pesquisadas no relatório do "Estado da Responsabilidade Social Corporativa 2011" informou que tinha uma política de sustentabilidade. Para Hsieh, há uma divisão semelhante na comunidade corporativa no tocante ao papel da responsabilidade social corporativa de modo geral.

"O debate continua, e eu acho que prosseguirá da seguinte forma: as empresas devem privilegiar os lucros dos acionistas ou uma maior responsabilidade?", diz Hsieh. "Esta é a pergunta que falta ser respondida."

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"A Responsabilidade Social Corporativa ganha espaço na América Latina." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [25 July, 2012]. Web. [25 April, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-responsabilidade-social-corporativa-ganha-espaco-na-america-latina/>

APA

A Responsabilidade Social Corporativa ganha espaço na América Latina. Universia Knowledge@Wharton (2012, July 25). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-responsabilidade-social-corporativa-ganha-espaco-na-america-latina/

Chicago

"A Responsabilidade Social Corporativa ganha espaço na América Latina" Universia Knowledge@Wharton, [July 25, 2012].
Accessed [April 25, 2019]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-responsabilidade-social-corporativa-ganha-espaco-na-america-latina/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

One Comment So Far

antonio santos

“geração de lucro e o alívio da pobreza são coisas que não combinam muito bem”
Segundo Márcia Cavallari, CEO do IBOPE Inteligência, responsabilidade social e ambiental, ética, condições de trabalho, histórico favorável, comunicação consistente e verdadeira, além da transparência são os atributos mais frequentemente considerados na construção da reputação corporativa de uma organização.
“A reputação corporativa é algo que vai se sedimentando ao longo do tempo e depende da coerência e da consistência do discurso organizacional”, complementa a executiva.