A Skype abrirá o capital?

Atualmente, o Skype é o serviço por excelência para as famílias e os amigos distantes que desejam manter contato. As chamadas são grátis ou a preços reduzidos e permitem que os interlocutores se vejam através de uma webcam. Há uma expectativa muito grande de que a empresa faça uma oferta inicial pública de ações (IPO) em 2011, mas a Skype tem planos que não se limitam apenas a permitir o contato entre pessoas separadas por motivo de viagem ou pela distância, como no caso da avó que "comparece" ao aniversário do neto apesar de estar a milhares de quilômetros longe dele.

A Skype quer também se tornar uma plataforma de negócios para CEOs e funcionários em geral. Antes vista como uma empresa rebelde que fazia concorrência feroz às companhias de telecomunicações entrincheiradas em suas posições, a Skype agora quer conquistar o segmento de negócios. Fundada em 2003 pelos desenvolvedores do software de compartilhamento peer to peer [P2P] Kazaa, a Skype foi comprada pelo eBay em 2005. Três anos depois, o site de leilões vendeu o controle acionário da Skype para um grupo de investidores.

A mudança para a esfera de comunicações corporativas fará com que a Skype concorra diretamente com empresas como a Cisco Systems e outras de tecnologia já consolidadas. O fato é que desde que recuperou o status de empresa independente, a Skype continuou a introduzir novos recursos ao seu serviço e a viabilizá-lo em televisores e smartphones. Em outubro do ano passado, Tony Bates, que até há pouco tempo era gerente geral da unidade de negócios corporativos da Cisco, foi indicado para a direção executiva da Skype.

O empenho da empresa no sentido priorizar mais o segmento de negócios pretende tirar proveito da influência cada vez maior que o gosto e a preferência do consumidor exercem sobre o tipo de tecnologia a ser empregada pelas empresas, explica Andrea Matwyshyn, professora de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton. O consumidor usa o iPhone no trabalho e quer que o software que usa no escritório se pareça com o dos sites que freqüenta nas horas de lazer, como o Google e o Facebook. Além disso, ele quer se comunicar no trabalho com ferramentas como o Skype, da mesma forma que faz em casa.

"A Skype conquistou uma base fiel de usuários no decorrer dos anos. Para muitos consumidores, o nome da empresa está associado à comunicação", diz Matwyshyn. "Por causa disso, as empresas darão uma chance a Skype." É o que pensa também Peter Fader, professor de marketing da Wharton. "O Skype é uma ferramenta essencial de enorme potencial", diz Fader. "O nome da empresa já se transformou em verbo em inglês [skyping]. Não há dúvida de que a Skype tem condições de se aventurar no segmento empresarial [B2B]. É aí que está o dinheiro."

Mostre-me o dinheiro

Faz sentido a Skype buscar um setor onde o potencial de lucro é significativo, porque "a menos que seu site atraia publicidade, será preciso descobrir um meio de ganhar dinheiro", avalia Saikat Chaudhuri, professor de gestão de operações e de informações da Wharton. "A empresa tem de proporcionar valor em volume suficiente para que o usuário corporativo compre uma versão premium do sistema."

Atualmente, a empresa oferece dois tipos de serviço: serviços gratuitos de mensagens instantâneas, chamadas de áudio apenas e bate-papo em vídeo para usuários do Skype. A empresa cobra o usuário que faz ou recebe ligações de telefones fixos ou móveis. Há também uma tarifa para voicemail e para enviar mensagens de texto. O valor dos planos vai de 9 cents o minuto para as ligações até US$ 5,99 ao mês para os serviços de chamadas coletivas por vídeo.  

O modelo corporativo "freemium" foi projetado para atrair usuários "fisgando-os" por meio de serviços grátis para depois convencê-los a pagar por serviços com recursos mais avançados. Em 30 de junho de 2010, a Skype contava com 560 milhões de usuários registrados e 8,1 milhões de clientes de serviços pagos. No semestre encerrado em 30 de junho, a Skype informou um lucro total de US$ 13,1 milhões sobre uma receita de US$ 406,2 milhões. "O modelo freemium não foi um sucesso espetacular, mas a Skype tem feito um belo trabalho mesmo assim", diz Chaudhuri.

David Hsu, professor de administração da Wharton, tem uma visão um pouco diferente. Sem dúvida a Skype tem uma base de usuários muito grande, mas o percentual de clientes que paga pelos serviços da empresa poderia ser muito maior. "É um ótimo negócio para o consumidor", diz Hsu. "No modelo de receita adotado, a cobrança é feita por minuto, mas o lucro gerado por esse modelo não é suficiente. A empresa precisa ser ousada e criar um esquema real de preços para todos os usuários. Não precisa ser muito caro."

De acordo com Hsu, a ideia da Skype de trabalhar com empresas é um bom começo para a consolidação de um modelo de negócios mais lucrativo. Contudo, futuramente, a empresa precisa de um modelo de publicidade para os serviços gratuitos, precisa pensar também em cobrar os usuários esporádicos do serviço e introduzir variações na qualidade conforme o usuário utilize o serviço premium ou o serviço gratuito. "O usuário do serviço 'econômico' da Skype não deveria ter a mesma qualidade de serviço do usuário da 'primeira classe'", diz Hsu. "Não vejo outra alternativa senão abandonar boa parte do serviço gratuito. É impossível subsidiar todo o mundo o tempo todo."

Rompendo com a tradição

A Skype expôs uma estratégia para ampliar sua oferta de negócios e se concentrar nos serviços premium do setor em documento apresentado em agosto de 2010 junto a Comissão de Valores Mobiliários e de Câmbio dos EUA (SEC) em que declarava que o objetivo da empresa era fazer uma IPO. A IPO estava programada para o primeiro semestre de 2011, mas em janeiro o Wall Street Journal informouque a IPO havia sido adiada para o segundo semestre do ano para que a empresa tivesse mais tempo para se valorizar.

No documento em que descreve suas atividades a SEC, a empresa informou que um levantamento feito junto a 40.000 usuários do Skype mostrou que 37% "usam esporadicamente, ou com frequência, a plataforma do produto para fins comerciais". A estatística reforça o que a empresa descreve no documento apresentado a SEC como "uma oportunidade significativa de servir melhor às necessidades de comunicação das pequenas e médias empresas, bem como dos usuários das grandes empresas".

Desde que apresentou a documentação referida a SEC, a Skype adotou uma série de medidas para reforçar sua posição junto à clientela comercial:

  • Durante a Feira de Eletroeletrônicos no mês passado, a empresa lançou os serviços de chamada coletiva de vídeo para consumidores e empresas. As chamadas de vídeo foram responsáveis por 40% das ligações de Skype para Skype no primeiro semestre de 2010.
  • A Skype lançou o serviço de chamada por vídeo para o iPhone e comprou a Qik, uma empresa que fornece softwares de vídeo para aparelhos móveis.
  • A Skype fez parceria com a Avaya, empresa que fornece equipamentos de comunicação de voz e vídeo para grandes empresas. A Avaya integrará a tecnologia da Skype aos seus sistemas.
  • A Skype lançou um programa de certificação para integradores de sistemas, ou empresas que instalarem o Skype em seu negócio.
  • A empresa lançou também um software chamado Connect, que permite às empresas integrar o Skype às suas redes de telefonia tradicional. Os funcionários poderão fazer ligações pelo Skype através do telefone fixo pagando por isso a tarifa cobrada pela Skype, enquanto os clientes poderão ligar de seus computadores clicando no ícone da Skype em sites corporativos.

Contudo, os planos da Skype de atuar no segmento comercial podem não se realizar com a tranquilidade esperada. Kendall Whitehouse, diretor de novas mídias da Wharton, diz que as empresas talvez se sintam mais à vontade com a Cisco, rival de maior porte, no caso de implantação do sistema na empresa toda. Se, por um lado, os executivos das empresas fazem uso pessoal do Skype, por outro lado, "a Cisco é uma marca de maior presença no segmento corporativo. O Skype ganhou visibilidade no espaço de livre consumo, tal como o Facebook", observa Whitehouse. "O ambiente de trabalho é um lugar de hábitos e tradições arraigadas. Por que usamos o Facebook para nos relacionarmos com os amigos mas preferimos o e-mail para os contatos comerciais?"

O empenho da Skype em construir uma ponte que permita à empresa fazer a travessia em direção ao segmento empresarial dos EUA não é incomum, como mostra muito bem o empenho da Apple com o iPhone e o iPad. Todavia, não é fácil migrar de produto de consumo para ferramenta corporativa. "O setor empresarial requer um tipo diferente de organização de vendas e de suporte", assinala Whitehouse. "A Skype é conhecida por seu software voltado para o consumidor, mas ainda tem um longo caminho a percorrer no segmento corporativo."

Um aspecto fundamental para operar nesse segmento é a confiabilidade. No dia 22 de dezembro, a Skype foi abalada nesse quesito devido a uma manifestação de indignação que durou 24 horas depois que os serviços de mensagem da empresa ficaram congestionados. Num post de blog, Lars Rabbe, diretor de informações da empresa, explicou como foi que se deu a manifestação, e informou quais eram os procedimentos que a Skype havia adotado para evitar falhas futuras.

"Sabemos da importância da confiabilidade, da segurança e da qualidade do nosso software para os usuários do Skype no mundo todo. Trabalhamos duro para manter os padrões elevados e para criar novos recursos e produtos", disse Rabbe. "Somos muito gratos a todos os usuários e nos sentimos sensibilizados por seu apoio o tempo todo. Sabemos o quanto vocês dependem do Skype, e sabemos que ficamos aquém das suas expectativas, além de não termos nos comunicado com vocês durante esse incidente."

De acordo com Fader, a indignação contra o Skype não deverá afetar a marca da empresa a longo prazo. "O que aconteceu foi um revés menor. Na verdade, esse episódio mostrou que o público espera muito da empresa. Foi uma comprovação de que o Skype é uma ferramenta ubíqua que já faz parte da rotina das pessoas."

Uma potência em construção?

Qual o futuro da Skype? Hoje, a empresa é especialista em ligações telefônicas pela Internet, em mensagens instantâneas e videoconferência. Contudo, os professores da Wharton não creem que a empresa se dê por satisfeita com essas especializações. "Ninguém hoje em dia faria uma pergunta do tipo: 'Skype, o que é isso?'", diz Fader. "O risco é que a empresa amplie seu conjunto de serviços e acabe inchada."

Chaudhuri prevê que o Skype evolua e se torne uma ferramenta unificada de comunicações, proporcionando aos clientes a utilização dos serviços de mensagens, chamadas, videoconferência, além da possibilidade de colaboração na mesma plataforma. "A questão que se coloca para o Skype é a da unificação das comunicações, e onde os dois serviços se encontram. Hoje, há uma definição clara entre as duas categorias. Quem quer telepresença de alta qualidade, procura a Cisco. Mas, quem não precisa disso, pode recorrer a Skype."

O próximo passo lógico para a Skype seria a introdução de compartilhamento de documentos, para concorrer com o WebEx da Cisco e com o GoToMeeting, software da Citrix Systems, acrescenta Chaudhuri.

De acordo com Whitehouse, o desafio para a Skype consiste em integrar esses recursos de uma maneira amigável. "Apesar de algumas duplicidades de recursos, a maior parte dos fabricantes prioriza diferentes funções: colaboração em grupo, apresentações online, chamada por vídeo ou voz, entre outras. Para que a Skype possa entrar no segmento corporativo, a empresa precisa adicionar mais recursos comerciais e se ligar à infraestrutura corporativa existente."

A tecnologia móvel é também outra área fundamental para a Skype, que já viabilizou seu serviço em inúmeros smartphones. A aquisição da Qik também deve ampliar o alcance móvel da empresa. "O segmento móvel consolida a presença da Skype em uma nova plataforma, e não apenas no desktop", diz Matwyshyn. "Para muitos usuários, a possibilidade de uma integração de boa qualidade entre o smartphone e o PC será um fator de atração a mais."

Com a entrada da Skype no mercado de B2B, e mais a inclusão de um volume maior de recursos para o consumidor, a lista de empresas concorrentes aumenta ainda mais. O WebEx da Cisco e os serviços de voiceover da Internet deverão ser a principal ameaça a Skype no plano corporativo. Do lado do consumidor, a Skype compete com os sistemas de mensagens instantâneas do Yahoo e da AOL, com o Facetime, software de videoconferência da Apple, com os serviços do Google e de outros.

No documento de IPO da Skype, a empresa se refere ao Google como concorrente importante, uma vez que a empresa poderia integrar os serviços de comunicação corporativa ao seu serviço de e-mail. A Apple, a Microsoft e o Yahoo são também ameaças, informou a Skype, acrescentando que as empresas de telecomunicações também são concorrentes porque, se quiserem, podem bloquear seus serviços.

Matwyshyn, porém, diz que a Skype conseguiu se defender dos rivais porque tem um grande número se seguidores entre as pessoas que viajam e clientes internacionais. O Skype é usado com frequência para economizar nas ligações internacionais, permitindo ao usuário usar números locais em suas viagens. Fader também acha que a Skype sobreviverá. "Quando surgiu, a empresa era meio rebelde, e muita gente dizia que não ia durar muito. Agora, ela está se tornando uma coisa muito grande e séria. A Skype é uma potência em construção, e muita gente não achava que isso pudesse acontecer."

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"A Skype abrirá o capital?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [09 March, 2011]. Web. [21 September, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-skype-abrira-o-capital/>

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A Skype abrirá o capital?. Universia Knowledge@Wharton (2011, March 09). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-skype-abrira-o-capital/

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"A Skype abrirá o capital?" Universia Knowledge@Wharton, [March 09, 2011].
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