A trajetória do Santander rumo aos dez mais do mundo

Mauro Guillén, diretor do Instituto de Administração e de Estudos Internacionais Joseph Lauder da Wharton, e Adrian Tschoegl, professor de Administração de Empresas da Wharton, analisam em seu livro “Santander, o banco”, os 150 anos de história do banco Santander. Os autores mostram como a economia mundial pode se superar de forma criativa. A rápida ascensão do banco espanhol, convertendo-se em um dos dez maiores do mundo, mostra que a melhor maneira de liderar consiste em atuar de forma decisiva e assumir riscos de modo calculado. Mauro Guillén, em entrevista concedida a Universia-Knowledge@Wharton, discorre em linhas gerais sobre as idéias e pontos de vista reunidos em seu livro.

 

UK@W: Que mensagem sobre o Banco Santander o sr. quis passar em seu livro?

 

MG: Quis mostrar, primeiramente, que o Banco Santander é um exemplo de grande empresa multinacional da Espanha que soube se transformar e, em 20 anos apenas, deixou de ter presença exclusivamente local para se converter em uma das dez maiores instituições financeiras do mundo. É motivo de orgulho que uma empresa espanhola com tais características tenha se transformado em um período tão breve, convertendo-se em um concorrente temido em seu setor no mundo todo.

 

Em segundo lugar, temos aí um paradoxo. Por um lado, a transformação foi muito difícil; por outro, foi fácil. Por enquanto, o Santander é um banco de presença muito significativa na península ibérica e na América Latina, com uma presença pontual na Europa e um pouco menos expressiva nos EUA e na Ásia. Somando-se todos esses mercados, temos um total de 15% do território mundial. É preciso, portanto, conquistar os 85% restantes. Com a aquisição do holandês ABM Amro (em negociação com o Royal Bank of Scotland (RBS) e com o belga Fortis), o Santander daria um grande passo adiante. Contudo, ainda há muito por fazer, por isso não convêm relaxar e nem dormir no ponto.

 

UK@W: Quais foram as decisões fundamentais que permitiram ao Santander passar de banco modesto de província a um dos líderes da zona do euro e um dos bancos mais importantes do mundo?

 

MG: Creio que foram duas. Por um lado, o banco nunca teve problemas internos. É uma instituição muito ágil na hora de tomar decisões, tendo aproveitado as oportunidades com que deparou, o que é fundamental no setor bancário, onde tem havido muitas mudanças. Isso foi um elemento determinante em sua trajetória, e não somos apenas nós que o dizemos, também os concorrentes apontam esse aspecto como o grande mérito do banco. A audácia e a rapidez com que soube aproveitar as oportunidades de negócios para crescer mais foram essenciais.

 

Por outro lado, o segmento bancário espanhol é muito eficiente, conta com uma boa regulamentação, e é por tradição muito dinâmico. Houve uma grande concorrência entre os bancos, sempre em meio a um entorno — o mercado espanhol — caracterizado por muita competitividade, em que era preciso dar tudo de si simplesmente para sobreviver. Nesse contexto de tanto dinamismo, o Santander conseguiu crescer até se converter no que é hoje. O banco se desenvolveu em um país que cresceu a ponto de conseguir acompanhar o desenvolvimento do restante da Europa. Tudo isso, no fim das contas, favoreceu o crescimento do Santander.

 

UK@W: O fator sorte influiu nesse processo?

 

MG: Sem dúvida. A oportunidade de crescimento na América Latina surgiu quando os bancos latino-americanos precisavam de investimento externo nos anos 1980. Se esse quadro tivesse se configurado dez anos antes, quando a Espanha vivia sob a ditadura, os bancos espanhóis não teriam tido a oportunidade que tiveram em princípios da década de 1980, lançando-se ao exterior no momento em que sentiam necessidade de se expandir. A América Latina era uma região do mundo onde podiam crescer, porque contavam com conhecimento e habilidades para isso, e o Santander soube aproveitar isso muito bem.

 

UK@W: Como o sr. define em seu livro a evolução do setor bancário espanhol?

 

Há 25 anos, o sistema bancário espanhol estava imerso em uma crise terrível. Nos anos 1980, estava saindo da crise. Por um lado, creio que foi bom que tivesse havido a crise, porque assim foram alijados do mercado os bancos que não funcionavam bem. Os que ficaram tornaram-se mais sofisticados e com estruturas mais sólidas.

 

UK@W: Os poderes políticos influíram?

 

MG: O sistema foi reforçado, em parte, graças aos poderes políticos. Eles entenderam que, nesse momento, era muito importante que   o Banco da Espanha supervisionasse os bancos do país, já que se trata de uma instituição que sempre teve um papel bastante construtivo. É um exemplo para outros países imitarem. Ninguém podia prever 25 anos atrás que hoje teríamos um sistema de excelente desempenho .

 

UK@W: Como o resto do mundo vê o desenvolvimento dos bancos espanhóis?

 

MG: Há um desconhecimento a esse respeito. Quando os bancos espanhóis saíram da Espanha para comprar ou investir, primeiro na América Latina, essa atitude positiva não foi aplaudida pelo resto do mundo como uma medida do sucesso dos bancos espanhóis. Foi só em fins dos anos 1990 que o mundo se deu conta de que os bancos espanhóis eram concorrentes sérios. Em 2004 veio a consagração, principalmente do Banco Santander, como uma das empresas internacionais mais competitivas do mundo.

 

UK@W: Então se trata de um fenômeno dos últimos anos?

 

MG: Sem dúvida, mas creio que , de modo geral, existe um grande desconhecimento acerca da capacidade dos nossos bancos, porque sua presença se circunscreve exclusivamente à Espanha, Portugal, América Latina, Reino Unido e alguns países do leste europeu.

 

UK@W: Qual o segredo da internacionalização tão bem-sucedida do Banco Santander?

 

MG: O banco não se importou com o preço a ser pago, tendo aproveitado todas as oportunidades de negócio com que deparou. Agiu com rapidez na hora de tomar decisões e foi bastante audacioso. Soube, enfim, dar prioridade ao futuro.

 

UK@W: Qual a visão estratégica do Santander?

 

MG: É a visão do crescimento, que alguns criticam, mas foi graças à adoção dessa estratégia que o banco se converteu em uma dos principais líderes mundiais em seu segmento.

 

UK@W: Que barreiras ou tropeços mais sérios o banco teve de enfrentar em seus 150 anos de história?

 

MG: O primeiro erro que as pessoas fazem questão de apontar, já que eu mesmo não o considero como tal, foi a criação do Banco Santander de Negócios, que foi um banco de investimentos que atuava na América Latina e que, embora tenha tido de fechar as portas, serviu para preparar o terreno e adquirir experiência, permitindo ao banco lançar-se em seguida no varejo. Em segundo lugar, critica-se o Santander por pagar sempre um preço muito alto por suas aquisições. Essa é uma crítica freqüente, dirigida sobretudo a Emilio Botín — atual presidente do banco —, embora eu acredite que não tenha fundamento. É preciso levar em conta os lucros obtidos. Em terceiro lugar, dizem que o banco teria se descuidado de sua base de clientes. O Banco Santander é campeão anual de queixas dos clientes. Trata-se de uma pendência muito importante, porque mostra a necessidade de dar mais atenção a eles e incrementar o grau de qualidade conferido à carteira atual de clientes.

 

UK@W: Seria possível melhorar o rendimento da base atual de clientes?

 

MG: O banco poderia oferecer serviços mais sofisticados, como o Banco Popular, que apesar de ser um banco menor, esforça-se para proporcionar serviços mais sofisticados à sua clientela. Na melhor das hipóteses, falta tempo ao Santander. Há 25 anos o banco o ocupava a 52ª. classificação no ranking mundial de bancos. Hoje, está entre os dez primeiros. Foi uma ascensão rápida demais, e talvez só lhe falte agora prestar mais atenção aos clientes mimando-os um pouco.

 

UK@W: Três gerações de uma mesma família. Quais os segredos da sucessão no comando do banco?

 

MG: Em um primeiro momento, não havia vínculo algum entre a família e o banco. A vinculação direta ocorreu em 1950. O pai do atual presidente ocupou o mesmo cargo durante 36 anos, mas nunca teve uma participação decisiva no capital da empresa. Nos anos 1950, o Santander era um banco minúsculo. Somente Palencia, León e uma pequena parte de Madri contavam com agências do Santander. O banco sofreu uma transformação desde então e os acionistas passaram a ver em Emilio Botín pai o salvador da instituição. O resto da história todos nós conhecemos.

 

UK@W: Qual o perfil de Emilio Botín filho, o atual presidente?

 

MG: Seu pai mostrou que poderia dirigir um banco com grande eficiência nos 36 anos que esteve na presidência, e tudo indicava que nenhum outro Botín seria capaz de superá-lo. O atual presidente só chegou a CEO do banco aos 54 anos, mas veio com muita vontade de mudar a instituição: ele revolucionou completamente a relação do banco com seus clientes; criou as contas remuneradas e interagiu no tempo. Mostrou ter o mesmo talento que seu pai: queria ver o banco crescer, sempre fiel à sua origem e aos 150 anos de história da instituição.

 

UK@W: Haverá outra geração da família Botín à frente do Santander?

 

MG: O banco está totalmente entregue às mãos de profissionais, trabalha com milhares de diretores profissionais e nada tem a ver com a família Botín, portanto um deles poderia assumir essa função.

 

UK@W: Qual o significado da cor vermelha característica do banco?

 

MG: O Banco Santander leva muito a sério sua identidade corporativa. Emilio Botín, por exemplo, faz questão de usar uma gravata vermelha durante suas apresentações. Fomenta-se com isso uma cultura, um sentimento entre os empregados de que pertencem a uma organização que tem coerência. Em 2008, o banco pretende unificar totalmente suas várias marcas. Em todos os países onde o Santander está presente, a chama vermelha do seu logo é prontamente reconhecida.

 

UK@W: O continente asiático, que passa atualmente por um despertamento, interessa ao Santander?

 

MG: Há tempos o banco se interessa pela Ásia. Contudo, a atenção continua voltada para a Europa e para os EUA, talvez porque sejam mais próximos e ofereçam mais oportunidades. A Ásia exige um outro tipo de atuação. O foco está nos bancos comerciais e varejistas. Já há uma certa representação, mas trata-se meramente de atividade de apoio. Creio que o problema, nesse caso, é que é preciso contar com profissionais preparados para o exercício de funções que possam vir a surgir. O banco não conta com pessoal com conhecimento suficiente para se estabelecer ali. Não acredito, porém, que tenha chegado o momento de se estabelecer na Ásia.

 

UK@W: Qual seria, na sua opinião, o desafio atual do Santander?

 

MG: Creio que são dois. Em primeiro lugar, ele deve oferecer um melhor serviço à base atual de clientes, dar-lhes mais valor agregado. Em segundo lugar, o banco tem presença marcante em 15% da economia mundial. Isto significa que ainda lhe falta conquistar os 85% restantes. Um banco que quer ser um dos dez maiores do mundo não pode estar presente apenas em 15% do     globo. Daqui a 15 anos, ele deve estar presente em 50% ou 60% das regiões do mundo e em todos os continentes.

 

UK@W: O sr. acredita na possibilidade, a médio ou a longo prazo, de fusão do Santander com o BBVA, o segundo maior banco espanhol?

 

MG: Nunca se deve duvidar desse tipo de coisa, mas não acho provável. Creio que uma fusão desse tipo despertaria todo tipo de suspeita de controle do mercado, não só na Espanha e em Portugal, mas também na América Latina. Os dois bancos têm forte presença nesse último mercado, portanto creio que as autoridades encarregadas da defesa da concorrência colocariam diversos obstáculos a uma fusão desse tipo.   Além disso, creio que seria muito negativo para ambos, já que seguiram duas estratégias de crescimento muito específicas de cinco anos para cá. Antes eram uma cópia exata um do outro, mas agora cada um se tornou forte em mercados distintos.

 

UK@W: Diversificar a estratégia foi melhor para os dois bancos?

 

É algo muito saudável, porque se trata de duas empresas de presença mundial. Cinco anos atrás eu me perguntava quando é que eles iriam perceber que não bastava copiar um ao outro. É muito bom que tenham diversificado seu âmbito de atuação. Hoje, não se contentam mais em copiar um ao outro.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"A trajetória do Santander rumo aos dez mais do mundo." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [27 June, 2007]. Web. [19 April, 2021] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/a-trajetoria-do-santander-rumo-aos-dez-mais-do-mundo/>

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"A trajetória do Santander rumo aos dez mais do mundo" Universia Knowledge@Wharton, [June 27, 2007].
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