A América Latina aproveita o interesse pela dívida dos emergentes, mas com os pés no chão

Com as taças de juros em patamares históricos mínimos nos EUA, e negativos na Europa e no Japão, a busca de rentabilidade no mercado de renda fixa levou os investidores aos países emergentes, onde poderão obter retornos na casa dos dois dígitos com títulos corporativos. A tendência tomou tal força que as compras dispararam nos últimos meses, o que fez soar alguns alarmes.

A dívida com títulos em dólares de empresas consideradas de risco em países em desenvolvimento foi o produto de investimento com uma das melhores evoluções este ano, com rentabilidades de mais de 11%, de acordo com o índice de dívida corporativa dos mercados emergentes da JP Morgan, o CEMBI Broad. Já as dívidas das empresas americanas com classificação de crédito de grau de investimento ofereceram uma rentabilidade média de 3,3%. A rentabilidade da dívida equivalente emitida em libras esterlinas foi, em média, de 1,8%, ao passo que na denominada em euros o percentual é inclusive mais baixo.

Observando esses números, é fácil entender por que os investidores optaram por tirar seu dinheiro dos mercados de renda fixa das grandes economias do planeta levando-os para a dívida emergente. Somente nos últimos seis meses foram investidos US$ 18 bilhões em fundos de dívida emergente, de acordo com números do Bank of America Merrill Lynch. Uma parte muito significativa desse montante foi investido em títulos de empresas.

John Bates, analista de dívida corporativa emergente da PineBridge Investments, que administra cerca de US$ 81 bilhões, acredita que muitos dos investidores que foram para esses países em desenvolvimento por causa dos juros atraentes que oferecem não entendem desses produtos e desses mercados, o que para ele é um risco. “São turistas de bolsos cheios. Normalmente, os mercados emergentes representam um percentual muito pequeno no portfólio de investimentos dos grandes fundos de pensão, por isso se esses gigantes se lançam nessa empreitada e depois retiram sua aposta com repercussões que podem ser terríveis”, disse Bates recentemente a Reuters. Para ele, os mercados de dívida emergente poderão incorrer em um “efeito de bolha”.

Situação na América Latina

Para Juan Gabriel Fernández, diretor executivo do Centro de Estudos Financeiros da Escola de Negócios ESE da Universidade de Los Andes, em Santiago do Chile, “quando se avaliam os riscos dessas situações, há sempre a possibilidade de uma bolha”. Contudo, com os dados disponíveis até o momento, ele não crê que seja esse o caso na América Latina. “Não se veem megaprojetos de rentabilidade duvidosa financiados por esse fluxo, tampouco há evidências de que haja um desequilíbrio monetário, nem no setor financeiro nem no setor empresarial. Como tampouco se vê uma atividade frenética no setor corporativo com grandes emissões de títulos da dívida para aproveitar as condições do endividamento (que poderão ser recontratadas no futuro). Não parece haver uma situação de bolha atualmente”, diz Fernández.

Diego Fernando Palencia Silva, diretor de pós-gradução em finanças da Pontifícia Universidade Javeriana de Cali, na Colômbia, acredita que no caso concreto do seu país, foi constatado que as taxas de juros historicamente baixas estão sendo aproveitadas para uma forte emissão de títulos da dívida corporativa e do governo antes que haja aumentos adicionais nas taxas, produto da política contracionista que vem sendo posta em prática desde setembro de 2015 pelo banco central.

Apesar disso, diz que não há uma situação perigosa no mercado de renda fixa. “Os países emergentes aprenderam com a história e não produzirão uma bolha de preços da dívida corporativa devido ao rigoroso monitoramento exercido pelos bancos centrais sobre sua política monetária e as mensagens de confiança que atualmente vêm enviando juntamente aliada a uma política monetária contracionista que busca, supostamente, frear a subida da inflação.” Seja como for, Silva diz que esses investimentos estrangeiros nos mercados emergentes estarão sujeitos a variações nos próximos meses devido, entre outros fatores, “à mudança rumo a uma perspectiva negativa oriunda de alguns países como Colômbia e México por parte das agências classificadoras de risco, dada a deterioração de suas variáveis macro, o que provavelmente resultará em ajustes de capital e pressões sobre suas divisas”.

A agência de classificação de risco Moody alertou, em um relatório publicado em 20 de julho passado, sobre o crescente endividamento dos países emergentes. De acordo com o relatório, o coeficiente da dívida externa em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) estava, na América Latina, em 48%, em sintonia com os 47% da região Ásia-Pacífico, embora bem abaixo dos 78% dos países do leste europeu.

A agência Moody explicou que as empresas do mundo todo e os governos dos mercados emergentes aumentaram suas emissões de títulos da dívida nos últimos anos devido ao baixo custo do crédito. Como consequência, a dívida externa disparou chegando a US$ 8,2 trilhões em 2005, ante os 3 trilhões de 2005. “A vulnerabilidade externa aumentou significativamente em cerca de 75% das economias emergentes do mundo”, disseram os autores do relatório. O auge do endividamento se deu, sobretudo, no setor privado, cuja dívida externa aumentou 14,3% desde 2005, ante a alta de 5,9% no setor público.

A agência classificadora de risco destacou que o crescimento da dívida na América Latina foi liderado pelo Brasil e pelo México. De acordo com os números da agência, o ritmo de crescimento da dívida brasileira foi maior do que o da região toda e chegou a 38% do PIB em 2015, ante 22% dez anos antes.

Efeitos e consequências

Fernández assinala que os últimos dados da dívida corporativa não mostram uma atividade frenética. Ele crê que a situação é uma boa notícia para as empresas sul-americanas porque permite o acesso a um financiamento barato. “Acredita-se que os desequilíbrios não devem gerar problemas. Contudo, nem por isso deixa de ser um fator preocupante”, observa.

Com relação à dívida soberana, Fernández tampouco vê sinais de alerta por enquanto, embora assinale que, nesse caso, o panorama é mais completo. “Isso se deve mais a uma situação global e ao fim do superciclo das matérias-primas que permitiu a países como a Venezuela e Argentina (e, em menor grau, o Chile) ter uma política de gasto público que claramente já não é mais possível sustentar. Se o mercado financia excessos de gastos fiscais através da dívida pública sem avaliar corretamente o risco dos países ─ conforme aconteceu no passado ─, o mercado da dívida poderá ser afetado”, adverte.

Por isso, Fernández diz que o mercado e, de modo especial, os reguladores do mercado, devem ser cuidadosos ao monitorar todas as variáveis. “Não só pelo lado da demanda dos fundos, mas também pela oferta que fazem: não é a mesma coisa o investimento externo direto no país e o investimento rigorosamente financeiro; como tampouco é a mesma coisa um fundo de pensões internacional investindo em títulos da dívida latino-americana com cobertura cambial e um fundo de hedge fazendo o mesmo.” Em resumo, embora não haja evidências de que haja uma situação de excesso, “existe a preocupação e é bom que seja assim”, diz.

Investir ou sair do mercado?

Na atual situação, são muitos os investidores que se perguntam se vale a pena colocar dinheiro na renda fixa latino-americana, ou se chegou a hora de, quem apostou nela, retirar suas posições e colher os benefícios.

Para Palencia Silva, investir no mercado da dívida corporativa nos mercados emergentes requer prudência. “É vital que haja períodos de investimento de muito curto prazo, o que implica investir em produtos da dívida de curva curta, com monitoramento diário e níveis de volatilidade bastante conservadores, o que pode gerar investimentos especulativos. Aqui podem surgir distorções que afetarão o risco geral desse tipo de mercado, afetando a taxa de câmbio e gerando pressões adicionais sobre a inflação dos países”, disse.

Ainda segundo Palencia Silva, “os países mais atraentes para se investir são os membros do MILA (Mercado Integrado Latino-Americano), isto é, Colômbia, Chile, Peru e México”. Para ele, isso se deve ao fato de que “seus bancos centrais transmitem confiança e adotam uma política monetária que se ajusta à atual volatilidade dos mercados internacionais”. Apesar disso, ele adverte que os mercados emergentes, especialmente o colombiano, foram afetados nos últimos meses pelos ajustes macroeconômicos resultantes da possível alta da taxa de referência do Federal Reserve dos EUA, o que requer muita atenção.

Fernández, por sua vez, diz que no caso de investimentos de maior longo prazo, a macroeconomia e a política têm um papel de maior relevo. Do ponto de vista macro, disse, a América Latina é uma região em que existe grande desigualdade de renda e de pobreza, com muita gente cujo poder aquisitivo é baixo e que não está incorporada à economia formal e ao consumo. “Por isso, praticamente todas as indústrias têm um potencial de crescimento muito grande a longo prazo se as pessoas forem incorporadas à economia formal. Qualquer opção de investimento pensando no longo prazo deve render, em média, mais na América Latina do que em outros países, mas isso depende da evolução de outros fatores, como produtividade e estabilidade política”, diz. “Dito isso, a médio prazo se vê uma mudança positiva em direção a posições mais liberais na economia e na responsabilidade fiscal em quase todo o continente; também há sinais difíceis de avaliar”, acrescentou.

Com relação ao Chile, Fernández acredita que um dos maiores desafios do país no plano econômico é o controle do gasto público, que representa um grande desafio com a aprovação das leis de orçamentos de 2017. Tudo isso em um cenário que as agências de classificação de risco veem com preocupação devido à trajetória econômica e o endividamento do país.

Quanto à Argentina, ele diz que “estão sendo introduzidas várias medidas que, se bem-sucedidas, permitirão o país voltar a ser um protagonista importante no mercado internacional, embora seu presidente, Mauricio Macri, enfrente desafios maiores para organizar o sistema econômico e o processo de corte de subsídios não seja fácil e nem popular”. No Peru e na Colômbia, “tudo parece indicar que o mercado os está castigando em excesso, principalmente a Colômbia, que se conseguir levar adiante o processo de paz com as FARC, eliminará um fator de risco importante para uma área geográfica que é quase 1/3 do país”. Com relação ao Brasil, ele diz que “o país está em uma situação política de incerteza e por isso fica difícil fazer qualquer análise financeira, do mesmo modo que a Venezuela, “onde parece que a situação é insustentável, o que gera oportunidades de crescimento elevado, mas a um risco também muito alto”.

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"A América Latina aproveita o interesse pela dívida dos emergentes, mas com os pés no chão." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [07 September, 2016]. Web. [17 November, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/america-latina-aproveita-o-interesse-pela-divida-dos-emergentes-mas-com-os-pes-no-chao/>

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