América Latina: cresce o interesse das empresas pela responsabilidade social empresarial

Filantropia, doações, programas de voluntariado, patrocínio para recitais ou eventos para levantamento de fundos, assistência  a favelas ou bolsas para estudantes de poucos recursos são apenas alguns dos milhares de exemplos que poderiam ser citados como prova do crescente interesse das empresas pela Responsabilidade Social Empresarial (RSE). As origens desse fenômeno cada vez mais comum remetem à necessidade dos empresários de melhorar seu vínculo com os diferentes setores da sociedade de alguma forma vinculados à vida da empresa; atenção para com as demandas da comunidade, dos investidores, às vezes até por mera de questão  de moda ou desejo de maior exposição à mídia. O fato é que esse processo vem ocorrendo no mundo todo, e na América Latina há muito ainda o que aperfeiçoar nesse segmento.

 

“Trata-se de um processo que data dos últimos dez anos aproximadamente ”, explica Gabriel Berger, diretor do Programa de Responsabilidade Social da Universidade de San Andrés (UDESA). Esse processo, diz ele, “decorre da decisão da empresa de melhorar sua atuação social, uma vez que as ONGs agora se mostram mais dispostas a colaborar com as empresas, e também porque é algo que permite uma maior exposição à mídia. É um fenômeno que ocorre no plano regional e internacional, que por sua vez realimenta a realidade local”.

 

Para Patrícia Debeljuh, professora e pesquisadora do Centro de Estudos Avançados (CEAV) da Universidade Argentina da Empresa (UADE), a importância da RSE cresceu muito atualmente porque “de uma forma ou de outra, as empresas estão cada vez mais conscientes da estreita relação que têm com a sociedade. Uma vez falido o paternalismo estatal, o setor empresarial ocupa agora o centro das expectativas da sociedade civil, e é essa mesma sociedade que agora exige uma maior participação das empresas e comprometimento social. Portanto, a empresa deixou de ser um sistema fechado, preocupado tão-somente com a produção de bens, e se tornou um sistema aberto, muito mais sensível às necessidades e exigências da sociedade”.

 

De acordo com a especialista, uma empresa socialmente responsável é aquela que leva adiante um negócio rentável assumindo, ao mesmo tempo, todas as preocupações sociais, econômicas e com o meio ambiente que brotam da sociedade.

 

Para Berger, a empresa que se preocupa com a RSE busca também satisfazer as demandas de todos aqueles que, de alguma forma, participam da vida da empresa: acionistas, clientes, empregados, governo, sindicatos, fornecedores etc. Natalia Zimmermann, responsável pelo setor de Relações Institucionais da TÜV Rheinland Argentina, empresa internacional certificadora de sistemas de gestão, diz que “o comportamento responsável gera um valor agregado que aumenta a produtividade, melhora o nível de retenção de clientes, reduz o risco de litígios   e proporciona maiores e melhores possibilidades de atuação em qualquer mercado”.

 

No caso da TNT Express, uma empresa com mais de 160.000 funcionários em 200 países, “as multinacionais, devido a demandas crescentes dos mercados onde operam, mas também de seus próprios acionistas, são pressionadas para que, cada vez mais, prestem contas de suas operações nos diversos países em que atuam. Embora a América Latina disponha dos maiores recursos ambientais do planeta, a desigualdade de renda da população gera índices elevados de pobreza e de desemprego. Por isso, as companhias com as quais trabalhamos no continente devem adequar suas políticas de RSE às necessidades desses países”, observa Alan Gegenschatz, presidente e gerente geral da empresa.

 

Participação regional

De acordo com a Pesquisa sobre Responsabilidade Social Empresarial realizada em 2005 pela UDESA com as 153 empresas de maior faturamento da Argentina, a maior parte delas contribuiu com aportes em dinheiro ou em produtos; 25% contam com uma fundação corporativa (em 1997, esse percentual era de 20%). Com relação ao tipo de iniciativas realizadas pelas empresas, os principais beneficiários foram a educação básica (78%), depois a ação social e o combate à pobreza (62%), saúde (56%) e desenvolvimento da infância (51%).

 

Berger salienta que “o crescimento da RSE ocorreu não só na Argentina, mas também no Brasil, Chile, México e Colômbia. Contudo, diferentemente da Argentina, nas demais regiões o crescimento veio acompanhado da criação de empresas importantes. Na Argentina, não há organizações empresariais dedicadas exclusivamente à RSE, e sim entidades sem fins lucrativos. No plano internacional, o fenômeno cresceu como resultado da liderança de empresas multinacionais, bem como em resposta às expectativas dos consumidores, atuação de ONGs que pressionam ou monitoram o comportamento das empresas, ou por decisão dos investidores”.

 

No Brasil, por exemplo, o Instituto Ethos tem participação ativa desde 1998 na promoção da RSE. Um de seus projetos mais recentes foi a introdução do Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bolsa de Valores de São Paulo, formado por ações de 28 empresas que servem de referência para investimentos socialmente responsáveis.

 

Para Berger, professor da UDESA, essa linha de ação não motivou o empresariado argentino a assumir a liderança desse processo porque sua visão sobre seu papel como líderes de empresa e líderes sociais é mais tímida. Em outras palavras, “os líderes de empresas não assumem sua liderança no movimento de SER, nem tampouco procuram envolver suas empresas na realização de ações em nível setorial”.

 

Em outros continentes, o compromisso com a RSE, diz Debeljuh, “é mais arraigado entre as partes envolvidas com a vida da empresa (os chamados stakeholders); há mais consciência de que é preciso alinhar as ações de RSE com o núcleo do negócio de cada empresa e, desse modo, promover um maior envolvimento dos empregados, clientes e fornecedores. Na Europa, por exemplo, há um logo que identifica   os produtos das empresas que apostam no tema da responsabilidade corporativa. Dessa forma, o consumidor, na hora de escolher um produto, tem a possibilidade de identificar quais empresas estão comprometidas com a RSE e apoiá-las com sua decisão de compra”.

 

Brasil, um posto avançado no segmento de certificação

Para “medir” ou “regular” o grau de RSE de uma empresa, a única norma internacional de certificação existente hoje em dia  é a SA 8000. Trata-se de uma norma de gestão criada pela Social Accountability International (SAI), uma entidade sem fins lucrativos que se baseou na Declaração Universal dos Direitos Humanos, na Convenção das Nações Unidas sobre Direitos da Criança e em 11 Convenções da Organização Internacional do Trabalho para criar a norma.

 

O quarto lugar em número de certificações pela norma SA 8000 pertence a um país sul-americano: o Brasil, que tem aproximadamente 100 certificados emitidos. Zimmermann, da TÜV, observa que “os demais países da nossa região ainda estão muito longe desse número. A Argentina aparece em 18º. lugar entre 33 países registrados na SAI com 5 empresas certificadas. A Bolívia, terceiro e último país sul-americano a constar do ranking, aparece em 22º. lugar com 4 empresas certificadas”.

 

A SA 8000, em sua definição mais ampla, mensura as relações da empresa com os trabalhadores e com a comunidade, bem como o tratamento dispensado ao meio ambiente.

 

Para Gegenschatz, da TNT, empresa de nível local e mundial detentora do certificado Investors in People, um dos mais prestigiosos certificados na área de Recursos Humanos, “na América Latina, a idéia da RSE chegou para ficar. Temos pela frente a difícil tarefa de ampliá-la fixando objetivos concreto de curto, médio e longo prazos que coloquem em prática idéias e marcos teóricos já existentes. Um dos maiores desafios e oportunidades daqui por diante consistirá em educar o consumidor para que ele, através do seu poder de compra, exija das empresas que cumpram seu compromisso de RSE. No plano regional, o Brasil leva uma vantagem considerável nessa questão, já que está mais organizado e mais articulado, o que lhe permite focalizar melhor seus programas”.

 

O papel das grandes e pequenas empresas

Com relação ao futuro, Berger acredita que na Argentina e nos outros países da região, “haverá avanços no sentido de incorporar a RSE à direção da empresa, convertendo-a em modelo de gestão. As empresas passarão a divulgar cada vez seus relatórios sociais como forma de compromisso público. Todos esses avanços poderão se estender a empresas diversas, inclusive às pequenas e médias, porque estão mais próximas das comunidade nas quais atuam”.

 

Contudo, Debeljuh diz que “é cada vez maior a conscientização do papel dos diretores nesse processo. As conclusões do Colóquio Anual da IDEA, que acaba de ser realizado na Argentina, e que reuniu milhares de empresários, mostra que se trata de um tema que ocupa a agenda de todas as empresas, e que há dez anos praticamente não existia. De acordo com 73% dos executivos entrevistados, suas empresas contam com políticas de RSE”.

 

Para Zimmermann, da TÜV, “por enquanto, só as empresas de grande porte se interessaram pela RSE; entretanto, em um futuro próximo, todas as empresas terão de apresentar um comportamento socialmente responsável. Para isso, a norma SA 8000 será imprescindível. As vantagens são muitas, entre elas podemos mencionar a melhora das relações da empresa com a comunidade, a demonstração do seu compromisso com o desenvolvimento sustentável e a melhora na competitividade e na imagem da empresa”.

 

Para fortalecer as futuras iniciativas das empresas no tocante à RSE, será igualmente importante o fortalecimento do vínculo com as ONGs, colunas muito importantes no momento em que as pessoas começarem a chegar. “Através das organizações do terceiro setor é possível articular diversos programas, produzindo com isso um rico intercâmbio entre a empresa e a sociedade. Nesse sentido, são especialmente importante as alianças e o trabalho em rede, que permitem que os esforços de cada um dos atores cresçam com as contribuições de todos os demais. Assim se lançam as bases de uma sociedade mais justa e solidária para todos”, disse a pesquisadora da UADE.

 

Retomando os dados divulgados pela Pesquisa de Responsabilidade Social Empresarial, realizada em 2005 pela UDESA, observa-se que as ONGs foram as beneficiárias privilegiadas das contribuições das empresas pesquisadas: 93% delas fizeram doações em dinheiro ou em produtos a ONGs em 2004.

 

A pesquisa da UDESA confirma “a introdução da RSE na agenda das empresas, seja como discussão, seja como desafio de gestão, seja ainda como parte de um modelo de operação da empresa que mantém um diálogo permanente com setores vinculados a ela   ou potencialmente afetados por sua atuação. Ao mesmo tempo, os dados recolhidos mostram o enorme desafio que tem pela frente o setor empresarial argentino: fazer da RSE  um componente central da identidade das empresas e de suas estratégias competitivas”.

 

Em síntese, “a RSE ganha verdadeiro sentido quando se torna um compromisso interiorizado por toda a empresa e sustentado por meio de ações concretas a longo prazo. Se a empresa for considerada apenas como um negócio cujo propósito é basicamente otimizar lucros, o tema da RSE não terá lugar”, avalia Patrícia Debeljuh.

 

Alan Gegenschatz, da TNT, diz que apóia o Programa Mundial de Alimentação da Nações Unidas através do evento “Walk the World, Fight Hunger”, e conclui: “Como disse Stefan Schmidtheiny, não existem empresas bem-sucedidas em sociedades fracassadas. A empresa deve participar do trabalho de melhoria da sociedade, porém não deve substituir o estado em sua condição de responsável pela saúde, pela educação, justiça, segurança e meio ambiente.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"América Latina: cresce o interesse das empresas pela responsabilidade social empresarial." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [15 November, 2006]. Web. [21 September, 2018] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/america-latina-cresce-o-interesse-das-empresas-pela-responsabilidade-social-empresarial/>

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"América Latina: cresce o interesse das empresas pela responsabilidade social empresarial" Universia Knowledge@Wharton, [November 15, 2006].
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