Ampliação do Canal do Panamá: Mudanças que vão além da via navegável

Com a inauguração do tão esperado projeto de expansão do Canal do Panamá agora em junho, todas as atenções se voltam para o impacto que terá a maravilha da engenharia de US$ 5,25 bilhões sobre o tráfego marítimo nas vias internacionais que ligam o Pacífico, o Atlântico e o Golfo do México. Contudo, a transformação que isso trará para a economia doméstica do Panamá e para a sociedade panamenha ficou em grande parte eclipsada por essa expansão histórica.

A ampliação já havia reforçado os esforços do Panamá de se tornar a Cingapura ― ou, talvez, Dubai ― da América Central. Ela promete também ajudar a transformar o papel que o Panamá desempenha para muitas empresas americanas e de outros países que têm negócios nas Américas Central e do Sul.

São vários os fatores que tornam promissoras as perspectivas do Panamá para muitas multinacionais. Agraciado com uma localização geográfica especial, o Panamá é uma das economias que crescem mais rapidamente no mundo todo. De acordo com o Banco Central, entre 2001 e 2013 a taxa de crescimento médio anual foi de 7,2%, mais do que o dobro da média nas Américas Central e do Sul. Em 2014, o crescimento desacelerou, caindo para 6,2%. Em 2015, foi de 5,8%, um ano em que praticamente todas as economias da região perderam força ou encolheram.

As taxas de crescimento do Brasil, Chile, Argentina, Venezuela e de outros países foram afetadas pela queda dos preços das commodities. Entre todas as economias da América Latina, a do Panamá foi a que menos se ressentiu dessa queda. Ajudou nisso o fato de que “o país fez uma escolha muito inteligente pouco depois de se tornar independente da Colômbia em 1903, quando adotou o dólar como moeda corrente”, diz C. E. Maurice Belanger, diretor executivo da Câmara de Comércio & Indústria Americana do Panamá. Embora a moeda oficial do país seja a Balboa, o Panamá não imprime cédulas de dinheiro e conta apenas com algumas poucas moedas locais de mesmo tamanho e denominação que as moedas americanas. Belanger explica que “isso resulta em uma base bastante cômoda para o comércio e o turismo internacional”.

Além disso, o sistema bancário já foi comparado algumas vezes ao da Suíça, e é amplamente elogiado por muita gente por ser “extremamente conservador”. “Mesmo durante a última crise financeira mundial em 2009, o Panamá registrou um PIB positivo de 3,2%”, recorda Belanger. O país conseguiu reduzir sua taxa de pobreza de 39,9% para 26,2% entre 2007 e 2012, apesar da crise financeira que se espalhou pelo mundo todo, informa o Banco Mundial, reduzindo ao mesmo tempo a pobreza extrema de 15,6% para 11,3%.

Atraente para o IDE

No Relatório de Competitividade Global publicado pelo Fórum Econômico Mundial, o Panamá contabilizou 4,4 pontos num total de sete, pouco abaixo da África do Sul, mas logo acima da Turquia e da Costa Rica, Índia e México. Em outros indicadores importantes, como a taxa de desemprego, por exemplo, a perspectiva no Panamá é de que ela caia de 2,88% no primeiro trimestre de 2016 para 2,06% até 2020, de acordo com economistas do governo. Os influxos de investimentos diretos externos (IDE) também cresceram de forma espetacular saltando de uma média de US$ 1,258 bilhão entre 1990 e 2012 para um total de US$ 4,633 bilhões em 2013, conforme dados do escritório nacional do censo. Informa o Banco Mundial: “O Panamá continua a ser um país atraente para o IDE. As perspectivas de alto crescimento sustentado também são respaldadas pelas novas oportunidades nos setores de transporte e de logística, mineração, serviços financeiros e turismo.”

A economia panamenha é dolarizada, e o país não tem banco central. Os estoques nos depósitos são denominados em dólares, simplificando ainda mais o processo de conformidade com a legislação aduaneira das empresas quando exportam ou reexportam do Panamá.

“Sendo um país pequeno de pouco menos de quatro milhões de habitantes e com dimensões próximas às do estado da Carolina do Sul, isso ajuda nas nossas estatísticas”, diz Belanger. “Quando há um investimento de US$ 25 milhões em Nova York, Buenos Aires ou na Cidade do México, ninguém percebe. No Panamá, um investimento dessas proporções provoca um impacto em restaurantes, lojas e até mesmo nos táxis.”

Isso não significa que o Panamá tenha estado completamente imune aos efeitos perversos do contágio financeiro mundial e à queda acentuada dos preços das commodities globais no ano passado. Henry Kardonski, diretor-gerente da London & Regional Panama, líder do grande projeto de desenvolvimento Panamá-Pacífico, diz que o Panamá “não foi diretamente afetado” pela desaceleração atual no mundo todo, porém “a fase negativa das commodities afeta as moedas desses países” e a alteração desses valores ― como a queda do peso colombiano diante do dólar ― “afeta a capacidade desses países de importar e fazer outras coisas”.

Contudo, a crise atual começou no ano passado, e “meus clientes se adaptaram a ela. Eles fizeram os ajustes necessários, mas foram afetados porque fazem negócios na região”.

A expansão do canal possibilitará a passagem de navios maiores e mais compridos. A expectativa é de que ele esteja aberto para o tráfego comercial a partir de 26 de junho. Apesar do atraso muito grande em relação à data original de agosto de 2014, a demora deu aos portos e às empresas da Costa Leste americana mais tempo para se preparar. Fazem parte da expansão dois grande conjuntos de eclusas tanto do lado do Pacífico quanto do Atlântico, novos canais de acesso, dragagem e abastecimento de água de melhor qualidade ao longo da via navegável de 80 km.

Vantagens naturais

Philip Nichols, professor de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton, diz que “é preciso reconhecer que as estradas em boa parte do Panamá são muito modernas, e é muito diferente quando se tem de dirigir em Honduras ou na Nicarágua. Há, sem dúvida, alguma coisa acontecendo por todo o Panamá, e não apenas nas duas cidades onde ficam os terminais do canal”.

Mais do que nunca, o Panamá está determinado a explorar sua vantagem natural ― o canal. “O canal é a vantagem que o país tem sobre os demais ― e sempre será”, observa Nichols. “Eles sabem que têm uma receita, não importa o que aconteça. É como ter um bom locatário principal, de pulso firme, quando se está construindo um conjunto habitacional.”

Não se trata apenas do fluxo previsível de receitas do canal, diz Nichols, que vista frequentemente o Panamá. “É a segurança de que o Panamá é sempre uma boa aposta” e que o canal é “um recurso que interessa a muita gente com bastante dinheiro. Durante a Segunda Guerra Mundial, os EUA investiram recursos consideráveis na proteção do canal. É como petróleo, só que muito melhor”.

É óbvio que o canal tem concorrência ― é o caso, por exemplo, dos grandes navios de contêineres que operam em cadeias de suprimentos multimodais. Esses navios aportam na Califórnia e, em seguida, usam a ferrovia para o transporte dos seus produtos pelos EUA. Mais tarde, esses contêineres são embarcados novamente em New Jersey, na Flórida ou na Geórgia e levados para a Europa. Há também concorrentes novos: as rotas transárticas que serão abertas para o tráfego em resposta ao aquecimento global. “Há tecnologias que podem competir com o Canal do Panamá, mas o canal será sempre importante, desde que estejamos deslocando fisicamente as coisas.

“O petróleo tem um efeito adverso sobre o governo”, acrescenta Nichols. “Ele incentiva o mau governo porque se ele tiver o monopólio do petróleo, o retorno é imenso. Com o canal, observa-se o efeito oposto de duas maneiras: primeiro, o canal é tão importante que o papel do mundo na sua administração é muito forte. Portanto, não importava o que se passava no Panamá, havia prestação de contas e uma administração responsável no canal. Havia um modelo de governança. As pessoas viam o canal e diziam: ‘Nosso governo devia funcionar do jeito que o canal funciona.'”

Laços externos

Há tempos o canal possibilitou aos panamenhos oportunidades de estabelecer relações pessoais com estrangeiros, presença rara na maior parte dos países pequenos e pobres de recursos naturais da região. diz Nichols: “Surgiram muitos relacionamentos. Se um americano tivesse de decidir entre investir na Nicarágua ou no Panamá, a maioria pensaria em coisas como a guerra civil sandinista dos Contra na Nicarágua. Ao passo que no Panamá, viriam à mente dele coisas como: ‘Meu tio morou lá durante dez anos na época da construção da zona do canal.'”

O senador John McCain, por exemplo, nasceu em uma família de militares na Base Aérea Naval de Coco Solo, na Zona do Canal do Panamá, que foi território americano entre 1903 e 1979. “Não se pode subestimar a importância de relações desse tipo”, diz Nichols. “Os economistas estão de olho agora na economia comportamental ― e o Panamá teve em abundância esse tipo de relacionamento, diferentemente de outros países da região. Relacionamentos desse tipo afetam as decisões econômicas tanto quanto os números.”

Em parte, devido aos fortes vínculos entre setores públicos e privados dos EUA e do Panamá, “inovação e empreendedorismo desempenham atualmente um papel extremamente importante no país”, observa Nicolaj Siggelkow, professor de administração da Wharton. “O governo atual, através da liberalização da imigração e taxas mais baratas, criou um ambiente bastante propício à inovação e ao empreendedorismo.”

Siggelkow salienta que uma forma de obter residência permanente no Panamá consiste em abrir uma empresa nova. “Além disso, uma vez que o canal se tornou propriedade panamenha em 1999, o governo gastou recursos consideráveis na atualização da infraestrutura. Dada a sua localização central, o canal se tornou um meio fundamental de transporte e logística de bens e serviços.”

Isso torna mais fácil para as start-ups adquirir e distribuir os componentes e produtos que desejam enviar a partir do Panamá.

Olhando para dentro com intenção de crescimento futuro

Dado o papel histórico do canal como via crítica entre o Pacífico e o Caribe, o Panamá sempre foi tradicionalmente um país que “olha do seu litoral para fora”, diz Kardonski, líder do projeto Panamá-Pacífico desde que foi concebido em 2005. O Panamá-Pacífico exemplifica a crescente conscientização do potencial do Panamá e da necessidade de mudar sua mentalidade e “olhar para dentro”, diz Kardonski. Expandindo-se gradualmente, os 3.450 acres de ativos de terras do Panamá- Pacifico sediam o Parque Internacional de Negócios e o PanAmerica Corporate Center, onde estão instaladas 140 empresas, entre elas a Caterpillar, Dell, Garinger, Cabel & Wireless, Avon e BASF. Ali, e em outros lugares do país, um total de 117 multinacionais estabeleceram seu quartel-general regional para as Américas Central e do Sul.

Além de usar a localização conveniente do Panamá para a gestão de sua distribuição regional, uma atividade cada vez maior de fabricação ocorre no local. No Panamá-Pacífico, a 3M produz linhas para sua divisão automotiva, inclusive pistolas de tintas e garrafas de plástico. Outras empresas produzem fraldas e operam uma tecnologia de impressão de ponta para a produção de revistas como a Esquire, observa Kardonski. Como o Panamá está bem equipado em infraestrutura, essas empresas agora “podem diminuir sua presença no Peru, Colômbia” e outras regiões da América Latina que não têm o transporte que o Panamá oferece, nem a mesma distribuição e capacidades de produção just-in-time. Outra coisa que contribui para esse processo é o fato de que a Copa Airlines, a companhia aérea nacional, vem buscando se expandir com força total e já tem voos para mais de 50 grandes cidades da América Latina e mais de uma dúzia nos EUA e Canadá, inclusive um novo voo direto entre o Panamá e Nova Orleans. Num esforço para facilitar o comércio entre o Panamá e as nações ricas em petróleo do Oriente Médio, as Linhas Aéreas dos Emirados, de Dubai, inaugurou recentemente voos ininterruptos de Dubai para a Cidade do Panamá. A companhia anuncia o voo como mais longo do mundo sem paradas. “Combinamos a infraestrutura do primeiro mundo, edifícios do primeiro mundo e serviços de primeiro mundo” em um lugar conveniente, diz Kardonski.

O turismo é outro setor em crescimento a um ritmo veloz. De acordo com a controladoria geral do Panamá, a receita oriunda do turismo é hoje duas vezes maior do que o país recebe do seu célebre canal. A exemplo de muitos de seus congêneres em Dubai, Cingapura, Hong Kong, os shoppings luxuosos do Panamá atraem grandes contingentes de viajantes interessados em moda ao país.

Em 2015, o número de estrangeiros que visitaram o Panamá cresceu 10,7% chegando a 2,5 milhões, de acordo com a Autoridade de Turismo do Panamá. Cerca de 50% ― 46,1% ― são oriundos da América do Sul: em primeiro lugar da Colômbia (288.569), depois Venezuela (260.145), Brasil (88.348), Equador (74.043) e Peru (50.275). Coletivamente, os três países da América do Norte (EUA, México e Canadá) responderam por apenas 24,1% de todos os turistas, seguidos pela Europa, com 13,6%, América Central, 10,3% e Caribe com 2,3%.

A ampla gama de novas iniciativas mostra que os panamenhos estão cientes de que a melhor maneira de aproveitar o canal ampliado consiste em “construir em torno dele; complementá-lo”, diz David Lewis, consultor de investimentos latino-americano e vice-presidente da Manchester Trade de Washington, D.C. “Além dos navios que entram e saem, haverá um maior crescimento de serviços secundários.” Ele acrescenta: “As empresas estão se dando conta de que o Panamá é um lugar muito atraente para a criação de polos norte-americanos devido aos inúmeros acordos de livre comércio do país que podem levá-los a toda parte. E com a economia dolarizada, não há por que se preocupar com o risco cambial.” Embora a população do Panamá seja pequena, “o que conta de verdade é que as empresas estão chegando para iniciar suas operações” no país.

Lewis assinala que pelo menos 75% do capital que saiu da Venezuela em crise recentemente parece ter migrado para o estável Panamá. (No âmbito do mercado latino-americano, o restante foi para a República Dominicana). Inúmeras empresas estrangeiras que um dia tiveram operações de sucesso na Venezuela se mudaram para o Panamá. Em terreno incerto, é a melhor aposta.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Ampliação do Canal do Panamá: Mudanças que vão além da via navegável." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [13 June, 2016]. Web. [19 June, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/ampliacao-canal-panama-mudancas-que-vao-alem-da-via-navegavel/>

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Ampliação do Canal do Panamá: Mudanças que vão além da via navegável. Universia Knowledge@Wharton (2016, June 13). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/ampliacao-canal-panama-mudancas-que-vao-alem-da-via-navegavel/

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