Andrew Ng, do Coursera: Como os MOOCs estão globalizando o conhecimento

Andrew Ng, um dos fundadores do Coursera, é considerado por muita gente um pioneiro no campo da inteligência artificial. Juntamente com Daphne Koller, ele fundou, em 2012, o Coursera, uma plataforma de cursos abertos online em massa (MOOC). Em pouco mais de três anos, o Coursera já conta com mais de 12 milhões de usuários matriculados em mais de 1.000 cursos em mais de cem instituições no mundo todo. Ng lecionou na Universidade de Stanford e é diretor do Laboratório de Inteligência Artificial da instituição. Ele trabalha com algoritmos de conhecimento aprofundado, os quais, segundo ele, são livremente inspirados pela forma como o cérebro aprende. Ng trabalhou em um dos mais ambiciosos sistemas de inteligência artificial do Google conhecido como Google Brain. O sistema analisou milhões de fotos tiradas de vídeos do YouTube e aprendeu a reconhecer objetos, inclusive rostos humanos e caras de gatos, sem nenhuma ajuda extra.

No ano passado, Ng anunciou que se afastaria de suas responsabilidades cotidianas no Coursera para se tornar cientista principal e chefe de pesquisas do Baidu Research: um novo projeto de pesquisas orçado em US$ 300 milhões que se estenderá por cinco anos no Vale do Silício. O motor de buscas chinês, Baidu, conhecido às vezes também como o “Google da China”, é o quinto site mais acessado do mundo com uma capitalização de mercado de US$ 55 bilhões.

Em uma entrevista sobre os MOOCs e seu impacto, Ng diz que eles permitem às universidades pegar seu enorme conteúdo e levá-lo a um público muito maior do que jamais foi possível anteriormente. Um estudo recente escrito em coautoria pelo professor Ezekiel J. Emanuel, da Wharton, sobre o impacto dos MOOCs no negócio tradicional de educação, também constatou que, em vez de “roubar” alunos das universidades, os MOOCs complementam , enriquecem e ajudam as escolas de negócios a alcançar novos públicos diversificados.   

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Que papel os MOOCs tiveram na educação universitária?

Andrew Ng: Creio que os MOOCs permitem às universidades pegar seu enorme conteúdo e levá-lo a um público muito maior do que jamais foi possível anteriormente. Não é de surpreender, portanto, que isso possibilite às universidades alcançar um público muito maior e mais diverso do que antes. Para mim, esse conhecimento é algo muito radical no cotidiano da sociedade, e muitas pessoas jamais terão acesso a uma aula presencial em um campus. Uma vez abri um congresso dos fundadores do Coursera  contando a história de um dos alunos, uma padeira de Bangladesh. Ela fez alguns cursos do Coursera — assistiu, entre outras, às aulas de microeconomia da Universidade da Pensilvânia e modelos de pensamento da Universidade de Michigan — e aprendeu como gerir um negócio. Durante o congresso de fundadores do Coursera, mostrei em uma tela grande sua declaração de desempenho usando para isso seu certificado validado. Ali estava uma mulher que jamais poderia frequentar aulas em sua cidade, mas que hoje credita parte do seu sucesso aos cursos do Coursera.

Knowledge@Wharton: Em todo o mundo em desenvolvimento, as pessoas para as quais o inglês não é sua primeira língua estão tentando usar o ensino online não apenas para melhorar suas próprias habilidades, mas também para ajudar a catapultar os objetivos de suas empresas. Elas estão muito ansiosas para aprender, de modo que possam melhorar sua situação pessoal, seja profissionalmente, seja pelo aprendizado de alguma coisa nova, tal como a padeira de Bangladesh. Qual tem sido, na sua opinião, o impacto do Coursera e de que modo você acha que isso pode mudar nos próximos anos?

Ng: Muitos estudantes que chegam hoje ao Coursera vêm de economias em desenvolvimento, e é verdade que a Índia e a China são apenas duas peças desse todo. Estou de pleno acordo que o mundo em desenvolvimento é muito mais do que isso. O debate sobre as economias em desenvolvimento é interessante, porque existe a esperança de que os MOOCs facultem o acesso aos nichos da sociedade.

Na verdade, já ouvi duas críticas. Uma delas diz que 2/3 das pessoas a quem atendemos não estão nas economias em desenvolvimento, portanto estamos atendendo a 2/3 das economias desenvolvidas. Contudo, praticamente na mesma linha, outra pessoa nos encoraja a ampliar nossa plataforma de aprendizagem para esse segmento. Acho que tudo o que o Coursera estava fazendo era atender ao chamado de meio milhão de aprendizes todos eles oriundos de economias em desenvolvimento. Creio que todos concordarão que isso é uma coisa fantástica. E é isso precisamente o que o Coursera faz hoje. A questão é que além disso tudo, atendemos a outros 5,5 milhões de aprendizes de economias desenvolvidas. Portanto, acho que teremos um efeito dominó, na medida em que mais pessoas tiverem acesso a Internet. Há bilhões de pessoas neste planeta que não dispõem de um bom acesso a Internet. Sinto-me muito orgulhoso do alcance que temos, que é muito maior e mais eficiente  do que o do campus da universidade americana tradicional. Acho que o alcance dos MOOCs tem uma representação muito maior entre os membros menos privilegiados de nossa sociedade.

A questão do idioma é muito interessante. Às vezes, vou a uma universidade e pergunto aos alunos: “Quantos de seus professores falam inglês, francês, alemão, italiano, chinês, espanhol ou árabe?” Normalmente, eles me dizem que nenhum de seus professores falam tantos idiomas assim. Espero que, no futuro, isso seja realidade no Coursera. Não é o que acontece atualmente, e não estamos onde gostaríamos de estar, mas creio que a oportunidade de traduzir conteúdo em várias línguas significa que os professores do Coursera falarão inglês, espanhol, italiano, alemão, francês, chinês e árabe. Acho também que ter uma comunidade de aprendizes e de conteúdo traduzido ajudará, por exemplo, os professores que falam inglês a atingir uma porção de aprendizes que não falam esse idioma. Realmente não estamos onde gostaríamos de estar e há muito trabalho ainda por fazer, mas creio que a existência de uma comunidade de tradutores em seu estágio inicial, de estudantes voluntários que estão traduzindo todo o conteúdo, me parece muito promissor.

Para finalizar, uma história pessoal: uma das coisas que estamos tentando fazer é ficar conectados aos aprendizes. Por isso, quando viajo para diferentes cidades, vou às vezes à reunião dos alunos. Há milhares de grupos de estudantes que se reúnem pelo mundo todo. Quando estou em determinados países, procuro de vez em quando o organizador desses encontros e peço a ele que se una ao grupo para um bate-papo apenas. Faço isso, em parte, porque gosto de me reunir com os estudantes e, em parte também, porque me ajuda a ficar conectado com os aprendizes do mundo todo. Quando faço isso nas economias em desenvolvimento, uma coisa que me surpreende é a fome verdadeira de conhecimento que percebo.

Nos EUA, quando participo de alguns desses encontros, noto uma certa fome de conhecimento. Quando caminhamos pelos campus das universidades, é comum a sobrecarga de informações, há uma variedade de grandes causas, e simplesmente não há tempo para aprender tudo o que poderíamos aprender. Nas economias em  desenvolvimento, as pessoas não têm acesso a isso. Fico surpreso ao saber que há pessoas que tomam um trem e viajam durante duas horas para ouvir alguém falar em uma cidade qualquer porque nas cidades do interior, onde moram, elas não têm acesso ao conhecimento. Quando converso com essas pessoas sobre os MOOCs , percebo uma gratidão e uma avidez diferentes da que vejo no mundo desenvolvido.

Knowledge@Wharton: Em muitos estudos sobre as economias em desenvolvimento, ouvimos falar sobre o conceito de salto. Há exemplos claros disso, como é o caso do uso da telefonia celular em detrimento da telefonia fixa. Por que mudanças você acha que esse modelo passará em outras partes do mundo? Dada a disponibilidade ou, pelo menos, alguma informação a respeito dos MOOCs, surgirá um modelo diferente de ensino nessas partes do mundo? Isso é possível? Você já percebeu algum sinal disso?

Ng: Sim, já há alguns sinais. Países como os EUA ou a China têm sistemas de ensino superior relativamente desenvolvidos que atendem a uma fração razoavelmente grande da população. A Índia, por sua vez, conta com um sistema de ensino superior muito tímido em relação ao tamanho da população. Seu maior desafio consiste em criar mais capacidade. Os EUA não precisam de um sistema de ensino superior que seja muito maior do que o atual. Creio que temos a tendência de nos preocuparmos mais com questões de igualdade de custos. Acho muito bom que nos preocupemos em como melhorar isso. A Índia simplesmente não tem muitas vagas a oferecer.

Portanto, alguns dos trabalhos mais inovadores que já vi consistem na transformação do sistema de ensino superior, sobretudo na Índia, onde há programas incríveis, e que estão formando dezenas de milhares e, espero que em breve, centenas de milhares de professores. Eles misturam o jeito de ensinar, combinando o conteúdo do MOOC com uma instrução mais próxima. Acho essa combinação uma excelente ideia. Creio que ela contribuirá para melhorar a qualidade do ensino, e os primeiros países que a puserem em prática influenciarão, de fato, a forma com que seu valor será percebido em todo o país. Isso acontecerá nas economias em desenvolvimento, especialmente na Índia e na China.

O desafio do aprendizado misto se dará no ensino. Se você quiser que o seu país adote o ensino misto, isso é algo que exigirá trabalhar com centenas de milhares de professores para ajudá-los a compreender uma melhor forma de ensinar. Para mim, trata-se claramente de uma forma melhor para eles, que lhes acrescentaria mais valor, e mais valor também aos alunos.

Knowledge@Wharton: É interessante que você mencione a Índia porque um percentual relativamente grande de pessoas matriculadas no Coursera é da Índia, muito mais do que da China. O modelo de conclusão dos MOOCs que tanta gente questiona não se aplica, de fato, às economias em desenvolvimento, uma vez que as pessoas ali usam os MOOCs simplesmente para melhorar sua vida e a si mesmas. Contudo, o que você acha da ideia de índices de conclusão? E não precisamos falar especialmente dos EUA ou talvez da Europa. Você já viu alguma pesquisa feita no mundo em desenvolvimento sobre índices de conclusão dos cursos pelos alunos desses países?

Ng: Avaliamos os índices de conclusão em diferentes países e observamos que há poucas diferenças nos índices desses países. Os canadenses, por exemplo, têm um índice ligeiramente maior do que os americanos. Não me lembro se os indianos têm um índice alto ou baixo de conclusão de curso, mas creio que essa questão de concluir ou não um curso ocorre no mundo todo. Acho que a questão da conclusão de curso está se tornando um fator de preocupação cada vez maior, mas é a maneira errada de pensar sobre o que os aprendizes estão conquistando com os MOOCs. Cinco mil alunos completam um curso. Há um número aproximadamente igual que assiste a todos os vídeos, mas não faz as tarefas. Deveríamos então dizer, com base nisso, que os índices de conclusão são, na verdade, praticamente o dobro do que são de fato? Se os alunos estão assistindo a todos os vídeos, é de supor que estejam aprendendo alguma coisa com eles, mas optam por não fazer a tarefa. Para mim, está ótimo.

Estamos começando a fazer testes com modelos de ensino mais flexíveis no Coursera. Hoje, fazemos a nós mesmos perguntas do tipo: “Para esta região, ou disciplina, por que precisamos de prazos?” Acontece que uma das razões pelas quais os aprendizes não completam um curso se deve ao fato de que tiveram um problema no trabalho, e aí perdem um prazo. Depois disso, fica difícil terminar o curso e obter o certificado. O aluno fica desmoralizado, por isso a pergunta que estamos fazendo a nós mesmos é a seguinte: “Qual a utilidade dos prazos?” Eles são uma maneira um tanto primitiva de motivar a conclusão de um curso: se você não fizer a tarefa dentro do prazo, perde pontos. Contudo, numa era em que o aluno atribui nota para si mesmo e o colega o avalia, é possível aprender com alguma flexibilidade e deixar que completem o curso em seu próprio ritmo? Essa é realmente uma boa pergunta, e eu não sei como respondê-la. É possível que sem prazos ninguém conclua curso nenhum. Meu instinto me diz que isso não vai acontecer, mas são perguntas desse tipo que estamos nos fazendo.

Knowledge@Wharton: Alguns concorrentes do Coursera, como a edX, por exemplo, adotaram uma estrutura empresarial baseada na seção 501(c)(3) do código da Receita Feral americana [que trata da isenção de impostos para empresas sem fins lucrativos], ao passo que o Coursera é uma empresa com fins lucrativos. Essa opção de estrutura organizacional muda a maneira como as decisões são tomadas no Coursera? Por exemplo, a edX preserva todos os dados de acordo com a Lei dos Direitos de Ensino da Família e de Regulação da Privacidade (FERPA, na sigla em inglês), que limita alguns usos dos dados do usuário para fins posteriores de marketing, ao mesmo tempo que facilita o acesso aos dados para pesquisadores. O Coursera teria resistência da parte dos investidores se optasse pelo mesmo procedimento?

Ng: Não posso tecer comentários sobre a edX, uma vez que não estou familiarizado com os detalhes de suas operações. Com relação ao Coursera, nossa empresa tem como objetivo uma missão. Sempre foi assim. Mesmo antes de fundar a empresa, quando a equipe era formada por quatro estudantes e eu, nossa regra número 1 era: “Faça o que for melhor para os alunos”, e essa continua a ser a pedra de toque de todas as nossas decisões ainda hoje (embora a regra tenha sido reformulada posteriormente: “Faça o que for melhor para os aprendizes”). Também levamos muito a sério a privacidade do aprendiz.

Knowledge@Wharton: Há evidências de que os empregadores estejam levando em conta, na hora de contratar, o certificado de signature track [certificado do Coursera que confirma e valida o curso de uma universidade oferecido pela empresa]?

Ng: Temos inúmeras histórias tanto de aprendizes quanto de empregadores. Estou pessoalmente muito confiante de que os certificados dos MOOCs estão ajudando inúmeros aprendizes a encontrar um emprego melhor. Infelizmente, não tenho ainda números concretos que sustentem essa informação.

Knowledge@Wharton: Ainda em relação ao seu comentário sobre o valor limitado dos prazos, quando o Coursera foi lançado, houve inicialmente muita discussão sobre a dimensão social da aprendizagem  e o trabalho feito para incentivar nas pessoas o espírito de grupo, em conformidade com o que os teóricos da educação chamam de estratégia construtivista. Seus esforços recentes para desenvolver um serviço on-demand [mediante solicitação] parece talhado para dar apoio ao estudo individual. O Coursera está mudando de direção no que se refere ao valor que atribui à aprendizagem coletiva?

Ng: Acho a aprendizagem coletiva válida, assim como as interações entre os aprendizes. O ensino on-demand  é melhor sob alguns aspectos porque incentiva essas interações. Em primeiro lugar, no sistema atual de notas dadas pelos pares [ou colegas], depois que você apresenta sua tarefa talvez tenha de esperar uma semana até que o colega lhe dê uma nota. No sistema on-demand, logo que você entrega sua tarefa, pode pedir aos cinco estudantes seguintes que entregarem seus trabalhos que avaliem sua tarefa. Dependendo do número de aprendizes ativos, isso significa, de modo geral, que você receberá mais rapidamente uma nota pela sua tarefa. Além disso, hoje no sistema coletivo as respostas do fórum são apagadas e começamos do zero todas as vezes que um curso é reprisado. No sistema on-demand, as respostas do fórum podem ser preservadas permanentemente, tornando-se um arquivo (que poderá crescer com as contribuições dos novos estudantes), o que permitirá achar as respostas mais facilmente.

Por fim, partindo do pressuposto de que um curso tenha um número maior de aprendizes ativos, isso significa que, a qualquer momento, você também encontrará muitos colegas com quem discutir o material do curso (num modelo semelhante ao do coletivo original). O sistema coletivo tem prós e contras, mas no que diz respeito à interação social, creio que os prós superam significativamente os contras.

Knowledge@Wharton: Como você sabe, um percentual relativamente grande de estudantes do ensino superior estão se aventurando pelos MOOCs e estão concluindo os cursos escolhidos. Você poderia falar sobre os tipos de estudantes que fazem esses cursos?

Ng: No momento, a maioria dos aprendizes que fazem MOOCs são, na verdade, adultos que trabalham. O Coursera atende a um público muito vasto, desde estudantes do ensino médio a adultos aposentados. Contudo, o centro de gravidade da empresa é dado pelos profissionais que trabalham, portanto a idade média do seu público é de 35 anos, pessoas já formadas, e muitos também na faixa dos 20 e dos 30 anos, mas também há um público que beira os 50 anos. Isso se explica pelo fato de que, apenas como fato estatístico, a maioria de nós passa a maior parte da vida trabalhando na fase adulta da nossa existência. Passamos apenas um período relativamente curto da vida no ensino médio, na faculdade, por isso a maior parte dos aprendizes são adultos que trabalham.

Em segundo lugar, a maior parte dos estudantes universitários e do ensino médio já dispõem de acesso confortável à educação. Eles simplesmente vão à faculdade todos os dias. Já os adultos que trabalham, como você e eu, não temos o acesso continuado à educação de que precisamos para nos mantermos atualizados. Mesmo no caso dos professores  ou de pessoas que não são professores, é muito complicado ter de contratar uma babá duas vezes por semana para que se possa assistir às aulas noturnas em um community college [instituto de ensino superior especial]. Por isso, acho que o maior impacto dos MOOCs consiste em trazer os adultos de volta ao sistema de ensino.

Uma sala com 100 pessoas é uma forma muito ineficiente de aprender. Sabemos com base em dados que a taxa de retenção [dos que permanecem até o fim] é assustadoramente baixa. Você só consegue se lembrar de 20% da aula. A leitura é outro exemplo. Talvez os adultos tenham aprendido a se tornar eficientes com essas formas de ensino, mas acho que assistir presencialmente a uma aula é um desafio muito grande para os jovens. Estou mais informado sobre leitura, e ler é difícil para muita gente, porque há muito trabalho, muito texto, e é difícil para as pessoas aprenderem a processar tudo aquilo e a identificar o que é importante e se concentrar nisso. Acho que o mesmo vale para as aulas, porque com o tempo desenvolvemos certos hábitos para processá-la, mas creio que, de modo geral, a aula moderna, em que o professor apenas fala perante 200 alunos, não é uma forma muito eficiente de aprender para quem é aprendiz.

Knowledge@Wharton: Voltando ao mundo em desenvolvimento, há claramente plataformas online que requerem investimentos volumosos. O Coursera e algumas dessas outras plataformas MOOCs conseguiram garantir os investimentos necessários nos EUA, mas como você acha que seria a situação no mundo em desenvolvimento, mesmo que ponhamos de lado a Índia e a China, já que pode haver capital para tanto nesses dois países. Se levarmos em conta diferentes partes do Sul da Ásia ou mesmo o Oriente Médio e a África, de que maneira poderão ser construídas ali plataformas para a população local cujo funcionamento seja o melhor para aquelas pessoas, quer isto signifique vencer a barreira do idioma ou da tecnologia? Como você acha que esses modelos poderão ser desenvolvidos ali?

Ng: Creio que o mundo estará mais bem servido com uma plataforma MOOC ou com um número pequeno delas, porque a tecnologia é dimensionada desse jeito. Acho que a Samsung e a Apple fizeram um excelente trabalho. Você pega um iPhone e o coloca em operação em diversos países com um cartão local, mas não faz sentido cada país inventar seu próprio celular só porque acredita que precisa de um exemplar especial de hardware.

Creio que um exemplo disso seria o seguinte: a Universidade da Pensilvânia ensinaria apenas estudantes da Filadélfia, e Stanford ofereceria um MOOC que estaria restrito aos aprendizes da Califórnia. Isso seria muito estranho. Portanto, de igual modo, digamos, por exemplo, que as principais universidades chinesas quisessem pegar seu conteúdo e compartilhá-lo com o mundo todo, e eu acho isso melhor para as universidades, melhor para os aprendizes. Estes querem aprender com as melhores universidades do mundo, e não na melhor universidade a 5 km de sua casa. Acho que a economia de ter plataformas globais de MOOC faz mais sentido, e é melhor para as universidades e para os aprendizes.

Knowledge@Wharton: Pode acontecer de as pessoas nessas localidades se sentirem muito orgulhosas do que realizaram e do que estão tentando realizar. Aí, então, elas olharão para os mercados do Ocidente e dirão: Sabe de uma coisa, ainda não está bom, ou, este não é o modelo certo para nós, deveríamos construir alguma coisa mais próxima e mais pertinente ao nosso povo.” Esse argumento se aplica a diferentes segmentos, e não apenas ao ensino. Acho que há pessoas que olham para o Coursera, olham para outros MOOCs, e chegam à conclusão de que foram feitos nos EUA. Tiveram a oportunidade de se desenvolver, mas dirão simplesmente: “Bem, isso não vai funcionar aqui.”

Ng: Gostaria muito de entender a substância por trás disso, porque acredito que os países deveriam expressar sua cultura através do seu conteúdo, e não do seu software. Portanto, tenho orgulho de dizer hoje que alguns dos melhores cursos do Coursera oriundos da China são história chinesa, medicina tradicional chinesa, e eu creio que esse seja um conteúdo que as universidades chinesas estão usando para expressar sua cultura. A cultura de cada um, insisto, se expressa melhor pelo conteúdo, e não pelo software […] Em última análise, trata-se de aprender. Acho que os MOOCs deveriam se preocupar em proporcionar a melhor experiência possível para os aprendizes. Portanto, a pergunta que se deve fazer é a seguinte: com relação ao destino dos estudantes da Índia ou da China, eles querem aprender com as melhores universidades do mundo ou há uma experiência diferente que prefiram ter? Por enquanto, acho que já vimos que eles gostariam de aprender com as Whartons e com as Princetons e outras universidades importantes do mundo.

Knowledge@Wharton: O que você acha do estudo do professor Ezekiel Emanuel, da Wharton, sobre os MOOCs subverterem o chamado modelo tradicional de ensino, e não apenas o ensino empresarial?

Andrew Ng: Sobre isso, eu diria que os MOOCs podem se tornar uma grande oportunidade para que as universidades encontrem novos alunos. Creio que a Wharton, a Universidade da Pensilvânia e outras universidades atribuem o aumento dos interessados nos cursos de graduação em grande parte às suas atividades ligadas ao MOOC. Várias universidades falam sobre selecionar novos estudantes para participar de seus programas presenciais no campus através dos MOOCs. Acho sua pergunta sensacional: os MOOCs substituirão os professores? Para responder a essa pergunta, pense no seu professor preferido quando você estava na faculdade. Acho que se um computador fizesse essa pergunta e a respondesse, creio que a resposta seria obviamente não, mas entendo que a oportunidade da tecnologia não consiste em substituição. Em vez disso, seu papel é o de liberar seu professor predileto dos aspectos mais repetitivos do ensino e da atribuição de notas, de modo que ele possa passar mais tempo em conversas com futuros estudantes assim como passou com você.

Portanto, creio que esse é um aspecto misto do ensino no campus. Acho que, a curto prazo, o impacto dos MOOCs será o de dar prosseguimento ao conhecimento e ao ensino das pessoas que não têm acesso aos nossos campi. A longo prazo, creio que haverá uma mudança diferente: os campi recorrerão a um tipo de combinação simétrica de conteúdo online e aula presencial.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Andrew Ng, do Coursera: Como os MOOCs estão globalizando o conhecimento." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [16 June, 2015]. Web. [25 May, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/andrew-ng-do-coursera-como-os-moocs-estao-globalizando-o-conhecimento/>

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Andrew Ng, do Coursera: Como os MOOCs estão globalizando o conhecimento. Universia Knowledge@Wharton (2015, June 16). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/andrew-ng-do-coursera-como-os-moocs-estao-globalizando-o-conhecimento/

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"Andrew Ng, do Coursera: Como os MOOCs estão globalizando o conhecimento" Universia Knowledge@Wharton, [June 16, 2015].
Accessed [May 25, 2019]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/andrew-ng-do-coursera-como-os-moocs-estao-globalizando-o-conhecimento/]


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