A Apple conseguirá permanecer no topo?

A Apple lançou as versões mais recentes de seus produtos na semana passada num evento muito antecipado e que produziu críticas variadas. Fanáticos por tecnologia, analistas de negócios e prognosticadores da indústria saudaram os produtos ─ iPhone 8, iPhone 8 Plus, iPhone X (caríssimo) e o Apple Watch Series 3 ─ chamando-os de sucessos espetaculares ou decepções banais. O alcance das reações não é surpreendente dada a pressão sobre a empresa, que formou uma base de clientes hiperleal à marca graças à sua capacidade de combinar inovação com marketing. Resta saber, porém, se esse lote de novos produtos será suficiente para manter a empresa em escala ascendente ou se ela finalmente perderá impulso depois de anos de domínio do mercado de gadgets.

Especialistas da Wharton disseram que é importante analisar a posição de mercado da empresa da perspectiva correta. Embora o sucesso contínuo jamais seja uma conclusão necessária, a Apple parece bem posicionada para manter seu lugar seguro no topo.

“Os smartphones agora são um produto maduro. Simplesmente não haverá grandes inovações nesses aparelhos a cada ano”, disse Kevin Werbach, professor de estudos jurídicos e ética nos negócios da Wharton. “A Apple está na posição de domínio em que a Microsoft esteve durante muitos anos no mercado de computadores pessoais. Só resta à empresa seguir em frente, mas ela não precisa de inovação transformadora pra manter sua posição de mercado. Na verdade, com a vasta base de clientes que tem, a empresa não pode se dar ao luxo de promover recursos sofisticados que um segmento de usuários de vanguarda ama, mas que os usuários normais consideram desnecessários e exagerados.

Saikat Chaudhuri, professor adjunto de administração da Wharton e diretor executivo do Instituto Mack de Gestão da Inovação [Mack Institute for Innovation Management], também acha que não há muita novidade no mundo dos smartphones. Ele disse que os usuários da Apple precisam ter em mente que a empresa entrou numa fase diferente sob a liderança de Tim Cook. Steve Jobs, o fundador da empresa, elogiado por seu pioneirismo visionário, morrem de câncer em 2011.

“É um pouco complicado comparar a atual gestão da Apple com a época de Steve Jobs, tanto em nível pessoal (CEO) quanto em nível organizacional”, disse Chaudhuri. “Nenhuma empresa bem-sucedida de que já tivemos notícia ao longo da história foi capaz de criar produtos revolucionários numa sequência de poucos anos. Pelo contrário, o segredo do sucesso sustentável ao longo tempo consiste em equilibrar a inovação incremental que alavanca os produtos existentes com investimentos em inovações revolucionárias, que periodicamente desestruturam o mercado. Nesse processo, a empresa tem de continuar a se adaptar e a se transformar, o que significa, entre outras coisas, se desfazer de negócios que talvez tenham sido sua galinha de ovos de ouro no passado ou que permanecem ainda ligados à sua origem.”

A Apple fez exatamente isso ao se livrar de alguns de seus produtos, entre eles a maior parte das versões do iPod, um produto que fez um sucesso imenso quando lançado há 15 anos. Contudo, o tocador de mp3 se tornou obsoleto na medida em que o consumidor cada vez mais ouve música em seu celular. É uma tendência que a Amazon percebeu, e por isso corrigiu seu curso para se adaptar a ela.

Funcionalidade ampliada

Embora os produtos recém-lançados talvez não atinjam o nível elevado de avanço introduzido pela Apple, eles estão sendo elogiados por sua imensa funcionalidade. O iPhone X tem carregamento sem fio, tecnologia de reconhecimento facial e não tem o botão home. O usuário simplesmente dá um toque no aparelho para ele voltar à tela inicial. David Hsu, professor de administração da Wharton, disse que o mergulho da Apple na tecnologia de reconhecimento facial é importante porque mostra que a empresa está explorando o que vem por aí.

“Uma coisa que é clara e que vem sendo pouco comentada pela mídia é a dependência da tecnologia de rede neural associada a tudo isso”, disse Hsu. “Trata-se de um ramo da inteligência artificial, e o fato de ter essa autenticação através dessa nova forma é muito empolgante. Já tivemos um vislumbre de como isso vai funcionar junto com o emoji animado, entre outras coisas.”

Contudo, Hsu se disse preocupado com questões de privacidade decorrentes desse novo recurso. A Apple já disse que a informação de reconhecimento de face só será armazenada localmente para proteger a identidade do usuário. Contudo, ao fazê-lo, a empresa limitará a capacidade do sistema de criar um intercâmbio de opiniões e de aprender por conta própria, disse Hsu. Não se sabe ao certo de que modo a Apple lidará com o desafio.

Loizos Heracleous, professor de estratégia da Escola de Negócios Warwick, perto de Londres, observou que o Apple Watch Series 3 induz a circulação de um volume maior de aplicativos, de conectividade e de conveniência. Pela primeira vez, o relógio fará chamadas e acessará a Internet sem que seja necessário estar com o iPhone por perto.

“É preciso deixar claro que nenhuma dessas coisas introduzidas pela Apple [anteriormente] são efetivamente revolucionárias do ponto de vista da tecnologia”, disse. “Foi revolucionário no design e na criação de um mercado em que as pessoas adquirem produtos que gostam de usar. Já tínhamos tocadores de mp3, celulares e tablets. Creio que a habilidade da Apple se dá na inovação do design e na experiência do usuário. A empresa está tentando fazer o mesmo com o relógio.” (Hsu e Heracleous discorreram sobre o assunto durante entrevista concedida ao programa da Knowledge@Wharton na Wharton Business Radio, canal 111 da SiriusXM. (Ouça o podcast da entrevista clicando no link no alto da página).

Surpreso com o preço?

Um dos momentos mais surpreendentes do lançamento de produtos em setembro foi o ponto de preço do iPhone X. O aparelho de aço inoxidável de tela de vidro de ponta a ponta será vendido no varejo por US$ 999. Será dinheiro demais para o consumidor médio? Hsu disse que sim, considerando um relatório do Censo americano divulgado este mês segundo o qual a renda média da família americana é de US$ 59.000.

Contudo, a Apple sem dúvida alguma encontrará uma base de clientes para o X. Hsu comparou a estratégia heterogênea de ponto de preço com a das companhias aéreas que oferecem assentos premium por valores muito superiores aos da classe executiva. Sempre haverá passageiros que podem pagar passagens nesse preço e estão dispostos a pagar mais em troca de amenidades, o que é lucrativo para as companhias aéreas.

“Enquanto a Apple tiver um bom desempenho junto a esse conjunto de consumidores, tudo indica que a empresa seguirá firme em sua caminhada para a marca de empresa com capitalização de mercado de US$ 1 bilhão”, disse Hsu.

Pensando à frente

Os professores destacam que a Apple não está apenas no negócio de lançar produtos. A empresa está investindo em novas plataformas e adquirindo diferentes aspectos da cadeia de suprimentos com o objetivo de criar peças próprias. Essa estratégia mostra que Cook está pensando no futuro.

“A vantagem que a Apple tem e que, de certa forma, vai contra o receituário do Vale do Silício, é a existência de um ecossistema de hardware, software e serviços, ao passo que muitas outras empresas se especializam em alguma coisa”, disse Heracleous. “A Apple diz que isso lhe permite oferecer um volume maior de serviços semelhantes, e eu creio que seja uma afirmação válida. Acho que outras empresas que estão tentando oferecer esses serviços estarão em ligeira desvantagem porque não têm desde já uma base de clientes que conheça em profundidade essas coisas, a menos que façam aquisições direcionadas e a menos que consigam integrar essas aquisições de maneira eficaz. A Apple já está a meio caminho disso, e essa é a vantagem competitiva que a empresa tem nesse aspecto.”

De acordo com Werbach, Cook sabe que alguma coisa virá desestabilizar o mercado de smartphone da mesma forma que a Apple sacudiu o mercado de telefonia convencional.

“É por isso que a empresa está investindo em mídia, realidade aumentada e no relógio como aparelho para monitoramento da saúde”, disse. “Quaisquer um deles, especialmente os últimos dois, podem afastar do mercado quem tem o melhor ecossistema de telefone e de aplicativos. A Apple quer inovar aí antes que alguém o faça. Esses produtos não serão importantes até atinjam massa crítica. Contudo, as coisas inovadoras oriundas da Apple atualmente não são telefones ─ são semicondutores, engenharia sem fio e baterias, realidade aumentada e experiências no varejo. A decisão principal a ser enfrentada pela empresa nada tem a ver com os recursos do iPhone ou com seu preço, e sim com o que fazer com US$ 250 bilhões em caixa.

Apesar do aparente investimento da Apple em seu futuro, as ameaças a seu sucesso estão sempre presentes, como tubarões se movendo em círculos pela água. O próximo Steve Jobs já está por aí em algum lugar à espera de ser o próximo a subverter o sistema.

“Todo o mundo quer que Tim Cook seja Steve Jobs, mas lembre-se de que Steve Jobs nunca esteve melhor do que na época em que ficou fora da Apple”, disse Werbach. “O DNA da Apple foi construído em torno da criação de produtos que eram melhores e mais elegantes do que as caixas cinza dos fornecedores convencionais como a Microsoft e a IBM. Agora, a Apple é uma empresa dominante. Se houver outro Steve Jobs por aí, ele deve estar em alguma empresa tentando derrubar a Apple do seu pedestal.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"A Apple conseguirá permanecer no topo?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [25 September, 2017]. Web. [15 December, 2018] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/apple-conseguira-permanecer-no-topo/>

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