Arte e negócios: O encontro do século

Hoje, o artista “deve tratar sua obra como um pequeno negócio, criar conteúdo com destreza profissional, investir em marketing e fazer com que as pessoas falem sobre ela”, escreve Cassia Peralta neste artigo. Ela é autora de Born in Rio, um romance que conta a história de Rita Ray, executiva de Wall Street que deixa um emprego de alto nível e se muda para o Rio de Janeiro, onde fica sabendo de segredos de família e tem de lidar com um segredo pessoal. Cassia mora atualmente em Washington, D.C. e trabalha como consultora e executiva na área de investimentos para a Interamerican Investment Corporation.

Cinco anos atrás, embarquei em uma jornada que mudou realmente o modo como eu lidava com arte e negócios. Publiquei meu livro.

Queria contar a história de uma funcionária de banco nova-iorquina que deixa Manhattan para enfrentar um futuro incerto no Brasil. Embora tenha passado a vida toda imersa em arte, sempre trabalhei na área de negócios. Formei-me em economia e fiz um MBA na Wharton. Escrever um livro era um plano que eu tinha na vida, mas publicar um romance parecia quase um sonho.

Quase ― isso mesmo. Felizmente, tudo isso mudou com o advento de uma nova tecnologia.

Para escrever Born in Rio [Nascida no Rio], busquei ideias para a trama nas experiências que tive de brasileira que sou, porém criada nos EUA, mas também na minha bagagem na área de negócios. Publiquei o romance pela Createspace da Amazon, que publica livros mediante demanda [print-on-demand]. O e-book foi lançado via Kindle. Desde o início do projeto, eu mesma lidei com os aspectos criativo e gerencial do livro. Por exemplo, eu tinha como objetivo escrever 700 palavras por dia e seguia uma planilha onde anotava os principais eventos do processo. Passados nove meses eu já havia escrito a história. Alguns meses depois o livro foi publicado no mundo todo. Depois de um ano ― em 2012 ― recebi o Brazilian International Press Award in Literature, premiação que celebra a arte, cultura e presença brasileiras no exterior.

Não há dúvida de que um fator fundamental para o sucesso do livro foi que eu acreditava em mim mesma ― e acreditava também que podia um escrever um livro em que meus leitores seriam transportados ao Brasil em uma trama empolgante. Mas este não foi o único fator. O fato de que havia me transformado não apenas na artista, mas também na empreendedora por trás da artista, fez do risco um elemento essencial do sucesso do livro.

E eu não fui a única empreendedora criativa a seguir nessa direção.

Tendências

Em 2015, participei do South by Southwest, um festival de criatividade realizado anualmente em Austin, no Texas, uma vez que estou trabalhando na adaptação de um roteiro para meu romance. Fiquei surpresa com o número de músicos e cineastas que haviam seguido pelo mesmo caminho que o meu ― usando suas habilidades de empreendedores em sua arte em vários setores.

A tecnologia permitiu que os artistas expandissem ainda mais sua criatividade. Eles têm a possibilidade de combinar suas ideias com uma mensagem poderosa que toca o coração das pessoas e, ao mesmo tempo, fazer promoção pessoal e expor seu talento diretamente ao seu público. Aprendi com os cineastas que financiaram filmes inteiros através de crowdfunding [financiamento coletivo] e das mídias sociais. Conheci futuros músicos que se tornaram sensação no YouTube e sucesso no iTunes. Eles fizeram tudo isso sem a ajuda de um executivo do setor de música ou de cinema.

Ter de bancar ao mesmo tempo o gerente e o artista não é tarefa nem um pouco fácil. O artista tem de tratar sua obra como uma pequena empresa, criar conteúdo com destreza profissional, investir em marketing e fazer com que as pessoas falem sobre ela. Contudo, o esforço vale a pena: muitas vezes, sua mensagem genuína repercute junto a um público mais amplo, o que fica evidente no número crescente de indies [independentes] que chegam à lista de best-sellers a ponto de ganharem destaque.

O trabalho com meu livro trouxe à superfície esse elo entre arte e negócios. À medida que evoluímos cada vez mais para um mundo intensamente conectado e global, a capacidade de nos conectarmos com pessoas de outras culturas, raças e antecedentes socioeconômicos diversos pode ser perfeitamente comparada com o trabalho do artista.

Tive sorte de aprender essa verdade ainda muito jovem, uma vez que minha mãe é uma grande artista. Ela instilou em mim a paixão pela experiência humana vivenciada por outros e o desejo de explorar minha própria experiência encorajando-me constantemente a usar minha imaginação e criatividade. Quando criança, descobri um jeito de entender o mundo: através dos números e da arte. A ciência me forneceu os dados, mas foi minha capacidade de construir uma narrativa em torno deles que os tornaram significativos, servindo de ponte para que eu compreendesse conceitos difíceis. Ela ciência me deu clareza de pensamento, profundidade de análise, me permitiu solucionar problemas de forma construtiva e me deu uma facilidade para me expressar que nunca me abandonou.

Não é de espantar que aqueles capazes de imaginar o inimaginável e que conseguem misturar o conhecimento à criatividade artística ― trazendo para fora o que está dentro ― prosperem. Steve Jobs é um exemplo. Ele era sensível à estética e compreendia, ao mesmo tempo, que havia uma ligação significativa entre arte e negócios mediada pela tecnologia. Ele projetou produtos que adotamos em muitas áreas da nossa vida, ligando-nos emocionalmente e inspirando-nos a agir. Era como se tivessem resolvido o problema proposto por Picasso: “Todas as crianças são artistas. O problema consiste em saber como continuar a ser artista depois que crescemos.” A exposição e a apreciação das artes ampliam nossas perspectivas e ideias. Ela nos permite identificar uma série mais ampla de opções e resultados. Podemos processar as partes dissonantes num todo organizado abrindo nosso poder de conexão, colaboração e criação.

Aliando arte e negócios

Empiricamente, portanto, o que seria mais vantajoso para nós? Levar a arte para os negócios ou os negócios para a arte?

Tenho uma bela resposta: as duas coisas, e é preciso que evoluam juntas. A tecnologia permitiu que essa conversa ocorresse em alto e bom som. Nosso mundo é intrincado e multifacetado, por isso compreender a inter-relação das disciplinas pode enriquecer muito nossa vida. Foi bem isso o que aconteceu durante o Renascimento na Europa.

Esse período marcou a transição para a era moderna. Grandes avanços nas ciências ocorreram devido à restauração da história antiga, ou pela ligação do passado com o presente e o futuro ― simultaneamente ― como faz a arte. Houve, por exemplo, o desenvolvimento da imprensa tipográfica, o que permitiu a difusão de conhecimentos e de ideias que culminaram com a Revolução Científica. Os líderes desse tempo eram conhecidos por se dedicarem aos estudos interdisciplinares, vencendo desafios com perspectivas variadas resultando em inovações revolucionárias. A sensibilidade interdisciplinar permite o reconhecimento de padrões em temas distintos e a coleta de informações aparentemente não relacionadas aplicadas de novas maneiras, o que é crucial para o pensamento criativo ― e um imperativo para o ambiente global competitivo de hoje.

Imagine o que o mundo dos negócios poderia ganhar se explorasse ativamente a capacidade de ouvir, a intuição, a perspectiva social e as habilidades de coordenação de um músico? Imagine também um músico cuja formação resultasse da ligação do artista com novos públicos e gêneros, instilando com isso maior profundidade e originalidade em suas composições, construindo um movimento em torno desses fãs, executando e gravando o que ambos querem. Se estivermos abertos para experimentar novos canais, desfrutaremos do mundo de um modo mais inventivo.

Construindo pontes

Não há o jeito certo e o errado de ser artista: todo o mundo pode erigir uma ponte para o artista que tem dentro de si.

Em primeiro lugar, é preciso que estejamos de mente aberta e abracemos a novidade. Uma atmosfera social que nos respalde, ajuda, mas nem sempre é necessária, já que um dos requisitos principais para um artista consiste em trazer à tona aquilo que o impulsiona pessoalmente. Portanto, dê um tempo às perturbações diárias e faça a si mesmo a seguinte pergunta: em que você gostaria de trabalhar hoje para sua satisfação, pela coisa em si mesma, livre de quaisquer recompensas?

Preste atenção ao que o deixa empolgado. Dedique-se a isso com margem de manobra e cuidado. Seja prático. Dê espaço para o fracasso e para o sucesso. A frustração também pode ser emocionante, e a criatividade sobrevive às duas coisas. Estabeleça elos entre as atividades de que você se ocupa, as pessoas com quem você interage e a arte que você ama.

Quanto mais nos conectamos com o que nos interessa, tanto mais nosso envolvimento incentivará e capacitará outros a se identificar com nossa ideia e prosperar. Continue a se dedicar a uma série de projetos criativos tendo em mente sua sustentabilidade a longo prazo e a possibilidade de transferência para inúmeras áreas de sua vida.

Aprendendo a criar ― e a nos ver “fora” de nós mesmos ― é a matriz da invenção e do trabalho em equipe. À medida que criamos e nos conectamos com nossa natureza interior, tanto mais conscientes de nós mesmos nos tornamos, crescemos em confiança e inspiramos quem está à nossa volta. Somos mais observadores, atentos aos detalhes do meio em que nos encontramos. Somos capazes de desenvolver ideias próprias e de vinculá-las ao mundo, comunicando-nos melhor e nos expressando regularmente. Desse modo, nós nos tornamos também pessoas que criam oportunidades, unindo-nos ao melhor dos outros usando a energia coletiva e a sabedoria do grupo para imaginar, juntos, soluções para os problemas.

À medida que exercitamos esse instinto criativo, a engenhosidade se converte em um hábito mental. Resolvemos melhor os problemas, ficamos mais à vontade com as ambigüidades, entendemos que há mais de uma solução para o mesmo problema.

Combinamos a mentalidade artística e científica para iluminar o desconhecido, permitindo com isso o nascimento de conceitos amplos ou de obras de arte de grande força. Quanto mais elevado o nível de habilidades relevantes para um domínio em questão ― juntamente com uma ampla habilidade de reavaliação e de imaginação ― tanto mais amplamente usaremos nossa inteligência. A mente se torna mais receptiva às ideias científicas e às necessidades de outros, o que nos permite criar produtos e serviços valorizados e eficazes. Juntos, temos uma melhor sintonia uns com os outros. Usamos a força de cada um na produção de uma combinação harmoniosa bem parecida com uma apresentação de tango ou de jazz, que é uma maneira muito significativa de inventar, se destacar e estabelecer uma relação duradoura com as pessoas.

O recurso por excelência

Houve uma mudança rápida em anos recentes em direção a uma economia que privilegia mais a inovação e o empreendedorismo. Sorte daqueles que podem recorrer a seus interesses intelectuais para criar e liderar. Eles têm menos inibições, correm riscos e experimentam novas estratégias de maneira construtiva.

Oportunidades de colaboração e consolidação continuarão a surgir à medida que novos paradigmas forem tomando forma. A arte nos capacita a ir além de nossas realidades cotidianas. Gosto muitas vezes de pensar que a arte me permitiu tornar belo o feio e, às vezes, dar sentido ao caos. As habilidades que aprendi são para sempre, elas têm valor em qualquer carreira, dão vida a qualquer esforço. Processar o mundo através do olho artístico é uma maneira extremamente prática de promover o crescimento.

O sucesso está na capacidade da pessoa de encontrar seu nicho, expandir-se em novos mercados, cativar plateias, interagir com seus fãs e criar conteúdo inovador. Em minha experiência pessoal, a melhor maneira de fazê-lo tem sido não apenas me conectar com o mundo através da tecnologia, mas também usá-la para me relacionar melhor com minha comunidade local e assim ver a vida através de outra lente. Minhas buscas criativas me permitiram fazer furos em aglomerados e me arriscar fora em outras vidas e possibilidades. Aproximar-me dos que estão à minha volta me ajudou a tocar as pessoas de modo pessoal, comunicando-lhes uma mensagem duradoura e consolidando minha presença como artista, uma pessoa de negócios e contadora de histórias,

A criatividade é o recurso por excelência da existência e da sobrevivência humana. O amor à arte de criar através de meios sempre em evolução é o que nos faz prosperar. Portanto, se houve uma época em que as empresas pudessem justificar a integração de técnicas criativas às suas práticas, e os artistas pudessem se beneficiar da compreensão que têm dos negócios, essa época é agora.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Arte e negócios: O encontro do século." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [10 February, 2016]. Web. [23 February, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/arte-e-negocios-o-encontro-do-seculo/>

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