As empresas espanholas estão prontas para competir em Cuba com as empresas dos EUA e da Europa? 

O degelo nas relações bilaterais entre EUA e Cuba não é apenas uma oportunidade para as empresas norte-americanas, já que apresenta muitas intersecções no mapa geopolítico mundial e tem igualmente um impacto direto sobre a atividade das empresas espanholas, mais bem posicionadas, a priori, do que as empresas de outros países pela relação histórica que une as duas nações. A grande dúvida levantada pelos especialistas consiste em saber até que ponto a suspensão do embargo constitui uma oportunidade ou um desafio para essas empresas, que terão de lidar com uma concorrência internacional feroz que até agora não existia.

“O fim do bloqueio das relações entre EUA e Cuba aponta claramente para a entrada de inúmeros concorrentes na ilha oriundos principalmente de países exportadores como a Alemanha, China, França, México, Rússia, Japão, Canadá e Estados Unidos”, observa Massimo Cermelli, professor do departamento de economia da Escola de Negócios Deusto. Com o fim do degelo, “Cuba passa a ser alvo de diferentes delegações empresariais dos países mencionados transformando a ilha no grande objeto de desejo dos investidores. Ao mesmo tempo, Cuba precisa urgentemente de investimentos em todos os setores do país. Portanto, esse cenário significa para a Espanha o claro desafio de uma concorrência acirrada durante os próximos anos”, garante Cermelli.

Para Juan Fernando Robles, professor de economia do Centro de Estudos Financeiros (CEF) e da Universidade à Distância de Madri (Udima), a vantagem competitiva da Espanha é a proximidade cultural e de língua que, em determinados setores, faz diferença. No segmento turístico, diz Robles, “há muito o que fazer e a infraestrutura deve melhorar. São nesses setores que muitas de nossas empresas têm bom desempenho e nos quais haja, talvez, mais oportunidades a curto prazo. Contudo, de modo geral, a concorrência será muito grande,  mas o mercado não é tão grande assim, de modo que a importância de Cuba é maior em sua dimensão política do que no terreno econômico propriamente dito”.

Nessa batalha pela conquista do mercado cubano, as empresas espanholas não apenas terão como rivais as empresas norte-americanas, já que são muitos os países dispostos a tomar posição. No início de maio, por exemplo, o presidente da França, François Hollande, chegou a Havana cercado de um séquito de empresários franceses. Empresas como a fabricante de bebidas Pernod Ricard, a rede de hotéis Accord, o grupo de telecomunicações Orange, a Air France e os supermercados Carrefour são apenas alguns exemplos de grandes  conglomerados dispostos a marcar presença em território cubano. Trata-se da primeira visita oficial de um presidente francês a Cuba nos últimos 55 anos. Hollande se reuniu com o presidente cubano, Raúl Castro, e mostrou seu interesse em incrementar o comércio com a ilha e pôr fim, desse modo, a uma relação comercial discreta. No ano passado, o comércio entre os dois países foi de apenas 180 milhões de euros (cerca de US$ 200 milhões), uma cifra muito distante dos fluxos que, por exemplo, Cuba mantém com outros países europeus, como Espanha e Itália. No caso da Espanha, por exemplo, esse número supera US$ 1 bilhão ao ano, segundo a Icex, entidade pública que promove a internacionalização das empresas do país.

O presidente francês fez abertamente um apelo internacional para que se ponha fim definitivamente a todo tipo de embargo e sanção a Cuba durante intervenção que fez em congresso organizado pela Universidade de Havana: “Tudo o que a França puder fazer para que se tomem novas decisões, para que se confirme essa abertura, de modo que essas medidas que tanto prejudicaram Cuba possam finalmente ser anuladas, suprimidas, para que cada país seja respeitado por sua própria identidade, isto faremos.”

Contudo, a comitiva francesa não foi a única e nem a primeira a visitar Cuba. De fato, a Espanha foi um dos primeiros países a tomar posição depois do anúncio dos EUA. O governo espanhol se adiantou a seus vizinhos europeus organizando uma viagem semelhante um mês antes, em abril. O secretário de Estado do Comércio, Jaime García-Legal, aterrissou em Havana acompanhado de mais de 40 empresas espanholas com presença destacada no cenário internacional como, por exemplo, a Sacyr (construtora), Técnicas Reunidas (engenharia), Gestamp (automação), Elecnor (energia) e Gamesa (energia renovável). Ali, os representantes espanhóis anunciaram uma série de medidas favoráveis às relações comerciais. O Banco da Espanha, por exemplo, atenuará as exigências feitas às instituições financeiras para que concedam créditos para projetos empresarias a serem realizados em Cuba. Serão também abertas linhas de financiamento público para pequenas e médias empresas que queiram se instalar na ilha.

Embora apoios desse tipo não houvessem se manifestado até agora, isso não impediu que as empresas espanholas já tivessem presença expressiva em Cuba, sobretudo nos setores de hotelaria, energia e telecomunicações, além de outros exemplos mais emblemáticos, como é o caso da Altadis, antigo monopólio de tabaco espanhol que há décadas produz cigarros em Cuba. Outra grande beneficiada pelo fim do embargo será a Repsol. A petroleira começou a fazer prospecções de gás e petróleo em 2012 e esperava encontrar jazidas que permitissem a extração de até 20 bilhões de barris de petróleo bruto. Contudo, teve que abandonar o projeto porque sua atividade batia de frente com a posição contrária dos EUA. Agora pode retomar o projeto sem medo de sanções.

Não há dúvida, porém, que o setor que mais se beneficiará da medida é o setor turístico liderado pela Espanha. “Esse setor registrará o maior crescimento em Cuba durante os próximos anos, o que significa para a Espanha uma clara vantagem competitiva”, observa Cermelli, da Deusto. Ele se refere especificamente ao “setor turístico e hoteleiro de alto nível onde estão presentes redes como a Meliá, Iberostar, Roc e Barceló”.

Com 27 hotéis, a Meliá Hotels International é a empresa com maior número de estabelecimentos (é líder internacional no segmento de férias), graças aos 25 anos de presença na ilha. São 13.000 apartamentos, o que representa cerca de 15% de sua capacidade total. Longe de ver isso como um desafio, o grupo vê a decisão dos EUA como uma oportunidade. “Atualmente, 50% dos apartamentos dos hotéis em Cuba são administrados por 12 empresas estrangeiras de hotelaria, a maior delas é espanhola, por isso mesmo já estamos acostumados a trabalhar com concorrentes importantes na ilha”, garante María Umbert, vice-presidente de comunicação corporativa do grupo. Ela acrescenta: “Estamos bem consolidados, com 30% de participação de mercado. Temos um forte compromisso com Cuba e com o desenvolvimento do seu setor turístico. Participamos do seu modelo de crescimento desde o princípio, portanto temos amplo conhecimento do funcionamento do país e de suas instituições, coisa que a nova concorrência terá de aprender. A existência de um maior número de concorrentes nos permitirá atualizar o produto hoteleiro existente.”

Outra empresa com presença importante no setor turístico de Cuba é a Barceló. “Para nós, é um mercado relevante com um grande futuro. Administramos hotéis e participamos de uma empresa mista que desenvolverá um projeto importante na praia de Santa Lucía. Nossa intenção é ampliar as instalações que operamos atualmente para corresponder ao aumento do número de turistas que teremos no futuro próximo”, explica Juan Antonio Montes, diretor geral da Barceló Hotels & Resorts para Cuba. Em vez de desafios, Montes vê oportunidades: “Não estamos preocupados com a concorrência; pelo contrário, ela nos estimula. Concorremos nos destinos mais importantes do Caribe, Riviera Maya e República Dominicana, onde temos um excelente posicionamento e um alto reconhecimento de marca.” Sua estratégia para os próximos anos consiste em “estar atento aos planos de desenvolvimento do turismo em Cuba e à atualização da planta hoteleira atual, que deverá evoluir para atender à nova demanda de clientes norte-americanos”. Para Maya, a aprovação da nova lei de investimentos estrangeiros proporcionou maiores possibilidades de desenvolvimento e constitui um marco jurídico adequado que permitirá à empresa continuar a trabalhar e a melhorar sua presença na ilha. “Estamos presentes no país há 15 anos. Somos uma rede reconhecida pelas autoridades e conhecemos bem o mercado e a realidade de Cuba, o que nos deixa em situação privilegiada em relação a um futuro que vemos com otimismo”, diz.

Além do Meliá e do Barceló, estão presentes também em Cuba o Iberostar com uma dezena de hotéis e quase 4.000 apartamentos, bem como o RIU, que conta com um hotel cinco estrelas e mais de mil apartamentos. Também ligado ao turismo, embora, neste caso, o turismo de congressos, temos o exemplo da Feira de Barcelona, que fechou um acordo com o governo cubano para assessorá-lo na organização de feiras. O objetivo é organizar de seis a oito salões especializados nos próximos três anos. Embora a temática ainda não esteja decidida, a ideia é buscar setores e mercados que sejam relevantes para a ilha e que possam se converter em feiras com representação internacional.

“Por ter estado presente em Cuba em tempos mais difíceis, a Espanha larga com vantagem.  O governo cubano já prometeu um tratamento diferenciado para as empresas espanholas em relação às novas empresas de outros países”, dando-lhes  prioridade nas licitações e concessões a se realizarem nos próximos anos, explica Massimo Cermelli. Apesar do otimismo generalizado, os desafios ainda são muitos e as empresas espanholas apostam na cautela. “O embargo persiste atualmente e para suspendê-lo é preciso que seja aprovado no Senado, o que será um processo lento. Quando chegar o momento, os americanos poderão viajar para Cuba livremente e sem restrições (atualmente, as viagens estão restritas a 12 categorias de atividades). Nesse momento, deverá haver um aumento da demanda, dado o incremento na relação comercial dos dois países”, informa a diretoria do Meliá Hotels International.

É o que pensa também Montes, diretor geral do Barceló Hotels & Resorts para Cuba. Para ele, “o número de turistas americanos aumentou, mas continua muito pequeno”. “É evidente”, prossegue, “que hoje em dia o caminho para a liberalização do turismo americano com destino à ilha é um fato e só é questão de tempo. A autorização das comunicações se traduziu em novas operações aéreas entre diferentes cidades dos EUA e Cuba, bem como o anúncio recente da autorização de balsas que farão a comunicação entre os dois países”. A Iberia, que havia abandonado há dois anos a rota que conectava Madri a Havana anunciou que retomará o percurso a partir de junho deste ano. No caso das balsas, a empresa espanhola Balearia já pediu aos EUA licença para operar a rota que ligará Miami à capital cubana.

Contudo, o interesse e as oportunidades para as empresas espanholas vão muito além do setor de turismo e beneficiam também, por exemplo, a indústria subsidiária que gravita em torno desse mercado. Exemplo disso é o Hotelsa Alimentación, que será a primeira empresa estrangeira a construir uma fábrica na nova Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel, em Cuba. A empresa abrirá suas portas em janeiro de 2016, mas o processo de solicitação já foi deflagrado em agosto de 2014, isto é, antes do anúncio da retomada das relações entre Cuba e EUA. Carlos Palao, diretor geral do Holtelsa para o Caribe, explica que a decisão se deve à sua trajetória de 22 anos no país. Além disso, ele reconhece que a decisão dos EUA era imprevisível, já que na empresa estavam todos “atentos aos novos posicionamentos econômicos, mas ninguém imaginava que poderia haver o fim do bloqueio”. Entre todas as mudanças legislativas ocorridas no ano passado, Palao diz que “a lei que mais nos marcou foi a de Mariel: ela chega num momento de muita maturidade como empresa e nos permite fazer frente a esse desafio de uma forma muito positiva e com muitas garantias de sucesso”.

Embora os especialistas reconheçam a abertura de um mundo de possibilidades, os desafios não são poucos e a previsão é de um processo que se dará lentamente. Para Robles, professor da CEF e da Udima, “não há dúvida de que o desbloqueio é uma oportunidade, embora a Espanha, em determinados setores econômicos, não fizesse muito caso do bloqueio, mas o fato é que ele foi um empecilho prático para o investimento de muitas empresas. Contudo, falamos de um país pequeno e, sob muitos aspectos econômicos, subdesenvolvido e com uma burocracia terrível. Não apenas a abertura política, mas também as mudanças em Cuba serão profundas, para que tanto os cubanos quanto os investidores se sintam confortáveis em suas novas relações”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"As empresas espanholas estão prontas para competir em Cuba com as empresas dos EUA e da Europa? ." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [19 May, 2015]. Web. [25 February, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/as-empresas-espanholas-estao-prontas-para-competir-em-cuba-com-as-empresas-dos-eua-e-da-europa/>

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"As empresas espanholas estão prontas para competir em Cuba com as empresas dos EUA e da Europa? " Universia Knowledge@Wharton, [May 19, 2015].
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