Até que ponto bancos cubanos e americanos já conseguiram se reaproximar? 

No ano passado, o Stonegate Bank, de Pompano Beach, na Flórida, fez suas primeiras incursões na tentativa de reconectar os sistemas bancários dos EUA e de Cuba. Em julho de 2015, imediatamente depois da reabertura da embaixada americana em Cuba e da embaixada cubana em Washington, D.C., o Stonegate assinou um acordo bancário com o Banco Internacional de Comercio, de Havana. Em seguida, em novembro, o banco introduziu um cartão de débito com a bandeira MasterCard a ser usado por americanos com acesso à ilha.

Muita coisa aconteceu desde então, diz Dave Seleski, fundador e CEO do Stonegate. Na Segunda Reunião de Cúpula de Oportunidades em Cuba, realizada em março em Nova York, Seleski concedeu uma entrevista durante o programa da Knowledge@Wharton na Wharton Business Radio, canal 111 da Sirius XM, em que falou sobre o aprofundamento das relações entre Cuba e os EUA e a área surpreendente em que os bancos da ilha têm desempenho superior ao de seus congêneres americanos. (A cúpula foi organizada pela Knowledge@Wharton, Instituto Lauder e Momentum).

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Há um ano, falava-se muito do novo relacionamento entre EUA e Cuba. Como tem sido este ano para você?

Dave Seleski: Para nós, muito bom. Para as empresas americanas, porém, o ano tem sido excelente. Basta ver quantas hoje mantêm contato com Cuba: companhias aéreas, navios de cruzeiro. Verizon, Sprint, essas empresas estão conversando atualmente com a AT&T, Starwood. Eu diria que, provavelmente, cerca de 100 empresas da Fortune 500 já se relacionam com Cuba ou já exploraram essa possibilidade.

No ano passado, as pessoas diziam: “Bem, talvez eu faça contato, talvez eu investigue como estão as coisas; veremos que oportunidades existem.” Agora, a situação é fantástica. Obama visitou a lha. Creio que isso resultará em muitas outras coisas boas.

Knowledge@Wharton: Em que medida a visita do presidente Obama contribuiu para essa situação? Na visita, ele disse a um grande público para que lado ia essa relação.

Seleski: Isso mesmo. Tem a ver com permanência. O fato de que Obama tenha estado em Cuba é só mais um exemplo da permanência dessas mudanças e de como essa relação não pode mais recuar a esta altura. Creio que visita enfatiza isso, além de ser um legado ― isto é, trata-se de uma mudança de impacto significativo para o povo cubano.

Knowledge@Wharton: O que você fez no ano passado para ampliar sua presença em Cuba e montar a infraestrutura do banco na ilha?

Seleski: Temos nos preocupado mais em ajudar as empresas americanas e suas necessidades financeiras no contato com Cuba. Esse é o tipo de relação que está em vigor. Uma coisa importante foi descobrir como transferir dinheiro de uma parte à outra e vice-versa em tempo hábil. Isso foi um grande problema nos últimos nove meses. Agora, movimentamos o dinheiro através de um banco intermediário em 24 horas ou menos, num processo mais rápido do que outro qualquer. Formamos nosso grupo bancário em Cuba internamente com duas pessoas encarregadas de lidar com tudo o que se refere ao país. Emitimos cartões de débito para as pessoas que se dirigem ao país. Isso é muito importante para quem viaja por motivos comerciais e tem necessidades constantes.

Estamos trabalhando também em outras coisas […] Quando se é pioneiro, é preciso lidar com muitos custos de pesquisa e desenvolvimento na hora de pôr as coisas para funcionar. Portanto, há uma certa demora. Contudo, estamos muito satisfeitos com os resultados até o momento.

Knowledge@Wharton: Qual a próxima etapa desse processo?

Seleski: Bem, existem outros produtos e serviços em que estamos trabalhando, mas creio que é mais uma questão de ajudar essas empresas americanas a entrar em Cuba, ser capazes de navegar pelo sistema financeiro ― ajudá-las a agregar valor. Você sabe como é, banco é banco. Se você faz um empréstimo para comprar um carro, o empréstimo está feito. É tudo a mesma coisa, certo?

Knowledge@Wharton: Claro.

Seleski: Talvez a taxa de juros seja um pouco diferente, mas o que vale é o serviço e a possibilidade de agregar valor. O importante é ajudá-las a navegar pelo sistema bancário cubano, por exemplo, contribuir com os sistemas de pagamentos, de modo que atendam ambas as pontas. Creio que esse será o componente crítico daquilo em que estamos realmente trabalhando.

Knowledge@Wharton: Quais as diferenças básicas entre o sistema bancário que temos nos EUA e o cubano?

Seleski: Bem, o sistema bancário cubano é sofisticado, isto é, há cerca de cinco ou seis bancos e todos são totalmente de propriedade do governo, mas o sistema é sofisticado. Eles têm todos os produtos que normalmente temos também. Contudo, há dois bancos em particular voltados para negócios internacionais com grande volume de relações correspondentes. Nós nos associamos a esses bancos ― há questões culturais, de língua e de tecnologia que precisam ser resolvidas. Esperamos conseguir preencher essa lacuna para as empresas americanas, de modo que elas não tenham de se preocupar com isso.

Knowledge@Wharton: Imagino que tudo isso lhe dê uma boa perspectiva geral sobre as mudanças que ainda precisam acontecer em Cuba. Conforme observamos ao conversar com várias pessoas, é evidente que há muitas coisas que precisam ser atualizadas para que se chegue pelo menos ao nível básico.

Seleski: Sim, mas creio que boa parte disso consiste em criar empresas privadas em Cuba e trabalhadores que trabalhem por conta própria. Acho que há meio milhão de empresas privadas em Cuba e muitas delas irão gerar riqueza. É a velocidade do dinheiro. Na verdade, no fim das contas ― porque, como você disse, a infraestrutura e tudo o mais foram negligenciados durante tantos anos ―, precisamos de um montante significativo de capital.

Esse capital virá do investimento estrangeiro, ou pode-se obtê-lo com a melhora do desempenho das empresas em Cuba. Espero que ambas as coisas aconteçam.

Knowledge@Wharton: Imagino que a preocupação com as empresas locais ― seja por meio dos empresários, pequenas empresas ou turismo ― seja parte importante disso. É fundamental que essa peça do quebra-cabeça do lado cubano se consolide. O investimento estrangeiro direto é ótimo, mas é importante que ele ocorra dentro do seu país, porque com isso a economia e o capital crescem. Seleski: Bem, é óbvio que há muita emigração de Cuba para os EUA, e já vimos o tanto que os cubanos contribuíram com a sociedade americana. Tivemos dois candidatos a presidente de origem cubana. Portanto, havendo oportunidade, tenho certeza de que o povo cubano aproveitará ao máximo a oportunidade.

Creio também que muitas medidas tomadas por nós serão benéficas, especialmente a última ordem executiva, que eliminou algumas restrições a viagens, o que deve aumentar o volume de turismo. Isso, é óbvio, geraria mais dinheiro em Cuba. Com isso, permitimos aos cubanos abrir conta em banco nos EUA. Eles já podiam fazê-lo anteriormente, mas havia muitas restrições. Se houvesse um empresário cubano que talvez precisasse comprar materiais, ele iria à Flórida, ou a outro lugar qualquer, e depararia com muitas limitações de uso em sua conta americana. Agora ele pode fazê-lo. Isso é apoiar o empresário cubano, é apoiar as empresas privadas de Cuba e trabalhar em harmonia com elas.

Knowledge@Wharton: Você está em Miami, e quando conversamos anteriormente, discutimos como a população cubana em Miami estava reagindo. É óbvio que, durante décadas, prevaleceu uma perspectiva negativa em relação à ilha entre os cubanos americanos. Se bem me lembro, você disse que esse quadro estava mudando, porque a geração dos millenials, obviamente, não foi tão impactada diretamente pela revolução de Fidel Castro quanto os cubanos americanos mais velhos.

Seleski: Isso mesmo. Acho também que agora muita gente que talvez não concorde com a nova política entenda que é impossível votar atrás a esta altura.

Portanto, o melhor a fazer é apoiar a política em vigor ― mesmo que muitos não concordem com ela ― porque ela serve aos interesses do povo cubano. Essas pessoas têm parentes em Cuba, por isso elas estarão ajudando seus familiares se eles a apoiarem. Creio que muita gente acaba vendo com mais pragmatismo a ideia de que o trem já saiu da estação, por isso é hora de embarcar. São poucos, portanto, os comentários negativos a respeito do que está acontecendo.

Knowledge@Wharton: Como é para você participar de um evento desses? Ser uma das primeiras empresas com esse nível de contato com Cuba e com as empresas cubanas deve estar suscitando muitas indagações sobre sua experiência.

Seleski: Na verdade, é muito recompensador. Originalmente, você iria a um evento, todos se olhariam, mas não haveria nenhuma interação real. Mas agora, sinta só a energia que há nesta sala […] É fantástico fazer parte dela. Espero que mais bancos acabem se envolvendo, de modo que não sejamos os únicos. Creio que esse é o objetivo final. No entanto, é empolgante ver o que se passa ali.

Knowledge@Wharton: Qual a importância, porém, das delegações que estão visitando Cuba e levando empresas para a ilha? Há outras nações no Caribe fazendo o mesmo. Essas são também peças importantes, certo?

Seleski: Concordo. Creio que se trata de um processo educacional de ambos os lados. Você está educando a delegação de Nova York, do Texas ou da Virgínia a respeito da cultura cubana, mas está educando também o outro lado, em certa medida, ensinando-o a fazer negócios. Há uma curva de aprendizagem para eles também.

Na minha opinião é um modelo socialista, e continuará a sê-lo sob certo aspectos. Educação e saúde são áreas em que os cubanos tiveram muito sucesso. No entanto, há uma curva de aprendizagem em ambos os lados; portanto, quanto mais contato, melhor.

Knowledge@Wharton: Como foi a curva de aprendizagem no seu caso?

Seleski: Não foi muito acentuada, porque banco é banco.

Knowledge@Wharton: Entendo. É uma coisa muito objetiva.

Seleski: É engraçado, um banqueiro me disse: “Sabe, o aumento do seu volume de empréstimos ficou um pouco a desejar; não foi como era antes.” Portanto, estamos preocupados com as mesmas coisas ― não com prejuízos, questões operacionais, lavagem de dinheiro e coisas semelhantes. O mesmo provavelmente acontece quando se tem um grupo de advogados reunidos ― a diferença cultural não é muito grande.

Knowledge@Wharton: É interessante você tocar na questão da lavagem de dinheiro, porque falávamos com alguém do Royal Bank do Canadá anteriormente e eu não me dei conta de que essa era uma coisa com que muitos bancos terão de se preocupar agora que terão operações em Cuba.

Seleski: Correto. Os procedimentos de combate à lavagem de dinheiro em Cuba são, na verdade, mais rigorosos do que os nossos […] Em outras palavras, o combate existe no mundo todo, mas as regras deles são mais duras do que as nossas.

Knowledge@Wharton: É mesmo?

Seleski: Sim.

Knowledge@Wharton: É um controle do governo ou são os bancos que fazem esse controle?

Seleski: Acho que se trata de algo que eles levam muito a sério. Foi engraçado. Eu tinha uma funcionária encarregada do meu sigilo bancário em Cuba, e ela era muito severa. Fomos a várias agências, e todas elas tinham uma pessoa com essa função em cada uma.

Knowledge@Wharton: Que coisa!

Seleski: Eles acompanham isso muito de perto. Levam a questão muito a sério. O tráfico de drogas também é levado muito a sério. Sabe como é: lavagem de dinheiro e tudo o mais que vem junto com isso.

Knowledge@Wharton: Então a preocupação de que ouvimos falar de vez em quando nos EUA sobre a possibilidade de hackear o sistema cubano e subverter o setor financeiro não são preocupações válidas?

Seleski: Não creio que sejam. A preocupação dos bancos se deve ao fato de que o embargo ainda não foi suspenso. Se você transfere dinheiro ou faz transações em Cuba ou com pessoas que fazem negócios em Cuba, é preciso compreender as ramificações disso e o que é legal e o que não é. Creio que no caso de muitos bancos, não é do interesse deles lidar com isso. É muita dor de cabeça. É por isso que temos um grupo especializado nesse assunto. Em outras palavras, eles provavelmente sabem de cor os regulamentos. Contudo, isso é provavelmente o que de mais forte poderá atingir os bancos que forem operar em Cuba. Portanto, logo que o embargo for suspenso, ou partes dele pelo menos, creio que outros bancos se envolverão mais com o país.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Até que ponto bancos cubanos e americanos já conseguiram se reaproximar? ." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [17 May, 2016]. Web. [17 June, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/ate-que-ponto-bancos-cubanos-e-americanos-ja-conseguiram-se-reaproximar/>

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"Até que ponto bancos cubanos e americanos já conseguiram se reaproximar? " Universia Knowledge@Wharton, [May 17, 2016].
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