Banco para quem não tem acesso a banco: próxima etapa do segmento de transferência internacional de dinheiro 

A ZymPay, sediada na África e no Reino Unido, destina-se a facilitar a realização de pagamentos por quem não tem conta em banco, ou seja, metade da população do mundo. Essa é a visão do seu CEO e fundador, Dakshesh Patel, que também acredita na necessidade de regular o setor. Para ele, os bancos tradicionais não são concorrentes, e sim colaboradores. “Nosso objetivo não é subverter o sistema bancário tradicional”, disse ele a Knowledge@Wharton na entrevista que se segue.

Knowledge@Wharton: Como foi que a ZymPay começou?

Dakshesh Patel: Queríamos criar alguma coisa que fosse rápida, ágil e conveniente para operar nos mercados financeiros de expatriados, sobretudo no segmento primário de remessas. A ZymPay está tentando redefinir o tipo de vínculo que os expatriados têm com a família que deixaram em seu país de origem. Usamos a tecnologia para criar uma forma inovadora que permita lidar de modo cômodo com pagamentos internacionais de qualquer parte do mundo.

Knowledge@Wharton: De onde vieram a ideia e a inspiração para a ZymPay?

Patel: A inspiração veio há muito tempo, quando eu trabalhava no setor bancário. Eu era executivo de um grande banco de investimentos internacional. Cuidávamos da parte de transações e finanças comerciais. A aplicação de uma tecnologia simples que permitisse a realização de pagamentos de forma descomplicada sempre foi uma preocupação minha. Como me disse um dia um membro da minha equipe: “Você esboçou essa ideia em um guardanapo e agora a transformou em uma plataforma.” Foram necessários dois anos e meio para desenvolver de fato a plataforma toda, que foi construída internamente.

Knowledge@Wharton: Você poderia descrever o problema e a oportunidade? Muitas vezes o problema, quando o analisamos demoradamente, revela oportunidades.

Patel: Exatamente. Vamos tomar o produto de remessa básico. Nós já o analisamos, e há também outras análises feitas mundialmente. Elas mostram que cerca de 40% do fluxo de dinheiro enviado para o país de origem é usado para pagar contas. A segunda questão é de confiança. Quando mandamos dinheiro para casa, não raro ouvimos pessoas dizerem: “Eles não usam o dinheiro para o propósito para o qual ele foi enviado.” O propósito é pagar contas básicas ― de luz, água, tarifas escolares e gastos com saúde. Existe ainda uma terceira dimensão: os bancos analisam o risco de lavagem de dinheiro.

Tivemos recentemente inúmeros casos em que os bancos se retiraram de mercados específicos devido a esse ônus regulatório.

Queremos uma solução em que as pessoas paguem simplesmente, e de forma direta, a conta de luz da família. Por que elas têm de mandar dinheiro para casa, ter uma conta em um banco local? Os que têm acesso limitado aos serviços bancários não possuem conta em banco. Essas pessoas pegam então o dinheiro recebido, vão a uma loja local, compram tokens pré-pagos e atualizam em casa seus medidores de eletricidade. O sistema ainda tem muitas arestas.

O que fizemos foi desenvolver inicialmente uma plataforma que se integrasse diretamente à concessionária de eletricidade. Vamos tomar, por exemplo, o caso do Zimbábue, onde hoje é possível comprar tokens de eletricidade pré-paga de qualquer lugar do mundo em questão de segundos.

Como funciona o procedimento? Basicamente, nos conectamos à rede, que está ligada ao banco local. Pode-se acessar a Zym Pay online. Em breve, teremos um aplicativo. Clicamos em eletricidade, acessamos a empresa, inserimos o número da conta. Estou pagando a conta da minha avó: insiro o número do celular dela e pago de qualquer lugar usando meu cartão.

Na hora em que eu for aceito, a transação é realizada. Um token é enviado via SMS para minha avó em Harane através da nossa plataforma. Ela simplesmente digita o número recebido no medidor e o crédito de energia é atualizado sem deslocamento, sem custo de transferência. É uma solução muito simples que estamos hoje pensando em introduzir em diferentes localidades da África.

Knowledge@Wharton: Que oportunidades você vê na África?

Patel: A África está na vanguarda. O continente tomou duas medidas em relação ao que temos experimentado no Ocidente. A telefonia celular foi um grande fator de transformação, principalmente para os que têm acesso restrito aos serviços bancários. A inclusão financeira foi enorme. Você sabe como é a penetração da telefonia celular. Agora. com o custo dos smartphones caindo, as características de configuração estão começando a evoluir.

Creio que as pessoas já dominam bastante o uso do celular nos mercados africanos. Podemos introduzir serviços de valor agregado nos pacotes de celulares. O grande desafio é que, embora isso seja cômodo, ainda é muito caro. Portanto, creio que se trata de uma troca entre conveniência doméstica e custo. Essa será a próxima evolução na África […] Atualmente, é a comodidade, mas eu acho que a próxima etapa da evolução consistirá em saber como tornar o sistema econômico e ubíquo para o pagamento de contas e para lidar com pagamentos dentro da África. É uma oportunidade e tanto.

Outra razão fundamental é que há na África uma tributação excessiva sobre remessas. O custo médio dessa tributação no resto do mundo é de 5% ou 6%; na África, esse percentual está mais próximo de 10% a 12%. Isso não se justifica. Nosso esforço é no sentido de baixar esse custo igualando-o aos padrões mundiais e, possivelmente, até mesmo diminuí-lo.

Knowledge@Wharton: Além das remessas básicas, sua tecnologia tem aplicações em outros mercados?

Patel: Temos um produto no segmento de seguro, o Advantage, lançado no ano passado. As seguradoras nos procuraram. É parecido com o segmento de pagamento de contas. Há o custo recorrente do seguro. Na África, o funeral é um grande evento familiar. A área de saúde é outro setor muito importante. As seguradoras descobriram que era difícil fazer a coleta dos pagamentos. O que fizemos foi permitir que elas vendessem seus serviços globalmente usando a Internet. A ZymPay é o agente encarregado da coleta nos países.

Hoje, portanto, é possível comprar um produto de seguro simples e deixar o pagamento a cargo da ZymPay. O benefício para o consumidor é que o serviço é grátis por ele ser cliente da seguradora, que paga a tarifa da transação. Não cremos que se trata de algo apenas para o setor C2C [de consumidor para consumidor], que é uma transferência de uma pessoa para outra, mas também para o setor de B2B [entre empresas].

Estamos ampliando ainda mais a ideia para o segmento da educação. Nesse setor, a aplicação é fascinante porque a migração global de estudantes tem sido bastante significativa. Trata-se de um mercado de US$ 100 bilhões de tarifas universitárias a serem coletadas. Estudantes estrangeiros vão para mercados como os do Reino Unido, EUA e Austrália. Até mesmo a África do Sul e partes da Ásia estão começando a emergir como centros importantes de educação. Nosso papel consiste em trabalhar com as universidades para baratear e tornar mais cômodo para eles esse processo.

Para os estudantes, isso significa não incorrer em cobranças significativas no exterior. Ao pagar em seu país natal e confiando a nós a coleta nas universidades, isso liquida o problema em ambas as pontas. Ex-alunos das universidades são colaboradores importantes. Para nós, trata-se de ligar as universidades aos ex-alunos para tornar o pagamento muito mais simples.

Knowledge@Wharton: Quais foram os riscos mais graves com que você se deparou e como foi que lidou com eles?

Patel: Acho que o maior risco é sempre o da confiança no sistema; é entender que o sistema bancário chegou para ficar. Quer gostemos, quer não, tudo deve funcionar dentro de uma estrutura regulada. Não estamos tentando subverter o sistema bancário. O que nos interessa é a forma como atraímos as pessoas para o sistema de maneira inclusiva e acessível. Essa foi a primeira dificuldade que tivemos de superar ― convencer os sócios institucionais de que se tratava de inclusividade, e não de exclusividade.

Há muito o que dizer a respeito da subversão provocada pela tecnologia aplicada às finanças (fintech). Contudo, para nós, subversão não é retirar alguma coisa do sistema. Trata-se, na verdade, de levar algo para ele. O outro desafio sempre consistirá no modo como você é comparado a concorrentes maiores no espaço tradicional de remessas. Não os vemos como rivais. Para nós, eles são colaboradores porque têm um papel a desempenhar. Não nos cabe competir ou criticar, mas acolhê-los, de fato, de um modo que crie uma equação financeira holística.

Knowledge@Wharton: Quais são as perspectivas para a ZymPay daqui a dois ou três anos?

Patel: Nossa opção foi trabalhar com cerca de 12 mercados importantes onde pudéssemos replicar os serviços de valor agregado dos quais tratamos, levando-os ao amadurecimento em mercados específicos. Eles foram escolhidos deliberadamente; esses serviços cobrem os principais aspectos de suporte aos expatriados em ambas as direções. Ao mesmo tempo, são também os países onde há deslocamentos significativos de fluxo educacional. Portanto, creio que para nós se trata de identificar as parcerias certas e desenvolver efetivamente o negócio até o ponto em que seja lucrativo, até que o modelo de receita seja comprovado, de modo que haja lugar para uma linha de receita e um lucro justo e transformacional. Ao mesmo tempo, porém, ele deverá propiciar à comunidade o tipo de solução que ela busca a um preço conveniente.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Banco para quem não tem acesso a banco: próxima etapa do segmento de transferência internacional de dinheiro ." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [16 May, 2016]. Web. [24 March, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/banco-para-quem-nao-tem-acesso-banco-proxima-etapa-segmento-de-transferencia-internacional-de-dinheiro/>

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