Banda larga sem fio: a utopia já é realidade?

Embora tais avanços constituam possivelmente o próximo grande passo no acesso à banda larga sem fio, é cedo demais para dizer aonde tudo isso levará. Durante anos, a indústria sempre teve muita clareza sobre a forma como os usuários se conectarão à Internet no futuro: equipamentos sem fio de alta velocidade permitirão aos consumidores assistir a vídeos, compartilhar imagens, estabelecer contatos sociais e realizar muitas outras atividades ainda não imaginadas. A grande incógnita consiste em saber quando a tecnologia — ou uma combinação de tecnologias — tornará real essa visão.

 

Kendall Whitehouse, diretor sênior de tecnologia da informação da Wharton , sintetiza o atual estado das coisas: “A visão de futuro a longo prazo é muito clara e praticamente certa. Em algum momento, estaremos conectados  a um link de banda larga aonde quer que estejamos por meio de equipamentos sempre ligados. A pergunta que se faz é a seguinte: como chegaremos lá?”

 

Parece haver três respostas possíveis: expansão da rede de hotspots Wifi, consolidação do padrão WiMAX para serviços de dados sem fio no segmento de celulares 3G (terceira geração). Contudo, a resposta talvez fosse nenhuma das anteriores — ou todas acima.

 

A rede de Wi-Fi (“fidelidade sem fio”), hoje bastante conhecida, envia sinais sem fio de alta velocidade a curta distância e é comumente usada para acesso à Internet sem fio em casas, empresas, hotéis, cafés e outros hotspots. Já o WiMAX, acrônimo de “worldwide interoperability  for microwave acess” (interoperabilidade mundial de acesso via microondas)  é um padrão que permite enviar sinais a longas distâncias. O WiMAX é transmitido de torres que cobrem até 3.000 metros quadrados. Espera-se que esse sistema possa substituir as linhas de banda larga nas casas, assim como os telefones celulares já começam a substituir a linha fixa. A Intel está equipando alguns de seus semicondutores  com capacidades de WiMAX.

 

Provedores como Verizon e AT&T Wireless/Cingular constituem outra opção. Essas empresas  utilizam redes sem fio para celulares 3G em seus serviços de banda larga e multimídia. É o caso da Verizon e da Sprint, que usam o padrão de dados sem fio EV-DO (dados de evolução otimizados).

 

O Wi-Fi — que opera, em menor escala, de modo muito semelhante ao WiMAX — continua popular e é defendido por numerosas municipalidades como meio mais barato de serviço de banda larga. Diversas cidades, inclusive a Filadélfia, na Pensilvânia, planejam instalar pontos de acesso Wi-Fi em pólos telefônicos para colocar em rede boa parte da população.

 

No fim das contas, nenhum desses contendores é perfeito, e não se sabe ainda muito bem qual deles permitirá o surgimento do que a empresa de pesquisa e consultoria Yankee Group chama de “Consumidor sempre plugado” — alguém constantemente conectado á Internet para fins comerciais e de comunicação  Gerald Faulhaber, professor de Negócios e de Políticas Públicas diz que as redes sem fio são imprevisíveis por natureza, o que pode provocar instabilidades nos modelos de negócios. “Ninguém sabe o que o acesso de banda larga sem fio pode provocar, em que medida será bem recebido ou se funcionará a contento”, diz ele.

 

A tecnologia Wi-Fi é bem conhecida, mas não se pode esperar muito dela, acrescenta Faulhaber.  O WiMAX ainda é em grande parte desconhecido e “não se desenvolveu tão depressa quanto se esperava inicialmente”. Os serviços de banda larga sem fio dos provedores de celulares, observa, são limitados porque suas redes têm de alocar parte da banda larga para as ligações telefônicas.

 

Essa miscelânea de tecnologias de banda larga sem fio significa que pode levar algum tempo para que surja um vencedor — se é que haverá um. Um resultado mais provável seria um tipo de solução híbrida em que consumidores, dotados de aparelhos de computação inteligentes, se deslocam entre vários meios de acesso à Internet sem fio.

 

Comenta-se que a T-Mobile estaria empenhada na obtenção dessa estratégia híbrida. O Wall Street Journal informou em 3 de maio que a empresa está fazendo uma experiência denominada “HotSpot at Home”, em que telefones móveis utilizam pontos de acesso Wi-Fi mediante uma tarifa. Esses aparelhos seriam capazes de passar da rede de celular tradicional T-Mobile para hotspots de Wi-Fi, ampliando assim a cobertura da rede. A T-Mobile possui alguns hotspots em locais como aeroportos e lojas da Starbucks.

 

“Não existe uma tecnologia sem fio perfeita, e isto se deve às leis da física e da economia”, diz Kevin Werbach, professor de Estudos Jurídicos e de Ética nos Negócios da Wharton. “Temos de parar de pensar na conectividade sem fio como se fosse tudo ou nada. Mais adiante, muitos de nós utilizaremos múltiplas conexões sem fio em diferentes situações, sem necessariamente nos darmos conta disso.”

 

Kartik Hosanagar, professor de Gestão de Operações e de Informações da Wharton, também acha que a miscelânea no segmento de banda larga persistirá. Não me surpreenderia se, nos próximos cinco anos, não houver uma tecnologia vencedora”, diz Hosanagar. “Diferentes provedores podem lançar mão de tecnologias dsitintas, e o consumidor pode nem se dar conta” de que isso esteja ocorrendo.

 

Embora o ambiente de tecnologia sem fio esteja confuso, o final desse jogo é claro. A banda larga sem fio deverá fazer parte de novos programas e serviços voltados para o consumidor. Em um relatório de março, Boyd Peterson, analista do Yankee Group, resumiu de que maneira a próxima geração de consumidores  navegará pelo segmento sem fio. A maior parte dos EUA cerrará fileiras ao lado do “Consumidor sempre plugado”, que deseja ter acesso à Internet “da forma mais rápida e econômica possível, seja via compartilhamento do cabo Ethernet ou conexão Wi-Fi na casa de um amigo, seja em uma cafeteria, no parque  ou no aeroporto. A utilização do Blackberry pelo consumidor, ou de telefones inteligentes, mostra bem o que está por vir”, observa Boyd, acrescentando que esses consumidores livres de restrições comprariam e venderiam produtos, se comunicariam e compartilhariam informações de qualquer ponto.

 

WiMAX: esse negócio tem futuro?

O WiMAX é atualmente o sistema preferido do segmento de banda larga sem fio, e conta com o suporte de grandes empresas, como a Intel. A fabricante de semicondutores anunciou em 18 de abril que os processadores de notebooks serão equipados com WiMAX até fins de 2008. Craig McCaw, pioneiro em comunicações via celular, aposta alto também no WiMAX através da Clearwire, uma companhia de acesso sem fio à Internet. Em 30 de março, segundo McCaw, a Clearwire possuía 258.000 assinantes no mundo todo. A empresa concluiu recentemente uma oferta pública de ações. Em 1º. de maio, a FCC aprovou um cartão de laptop que capta os sinais de WiMAX da Clearwire.

 

A oferta pública de ações da Clearwire mostra que o WiMAX conta com uma certa receptividade. Em um relatório de previsão de crescimento do WiMAX, a empresa de consultoria e pesquisa Gartner Dataquest estima que o tamanho do mercado norte-americano de WiMAX crescerá de cerca de 30.000 conexões, em 2006, para 21,2 milhões em 2011. Por enquanto, a Clearwire tem procurado se concentrar em cidades de tamanho médio e em áreas rurais. David Janazzo, analista da Merril Lynch, diz que o serviço da Clearwire atualmente concorre com a tecnologia DSL (linha digital de assinante), que é mais lenta do que o acesso via cabo, e com a nova rede de fibra ótica da Verizon.

 

De acordo com Hosanagar, a Clearwire tem chances de se sair bem como provedora de serviços, mas não será nada fácil. “Existe campo para negócio aqui, sem dúvida. Acredito na proposição de valor de uma rede de banda larga sem fio efetivamente móvel. Contudo, essa tecnologia ainda precisa amadurecer até o ponto em que o custo seja suficientemente baixo, e os aparelhos suficientemente pequenos. Quando isso acontecer, a tecnologia estará pronta para ganhar o mercado. Portanto, não sei se a Clearwire será capaz de sobreviver por mais tempo. Se tomarmos por base o capital que a empresa conseguiu levantar, creio que sim.” A Clearwire levantou 600 milhões de dólares em 8 de março em uma oferta pública inicial de ações a 25 dólares cada. As ações fecharam em 17,30 dólares em 14 de maio.

 

Se a empresa não for bem-sucedida, outras companhias de telecomunicações poderão ser. A Sprint Nextel informou em agosto de 2006 que construiria uma nova rede sem fio — apelidada pelos funcionários da empresa da Sprint Nextel de “4G” (quarta geração) e baseada na tecnologia WiMAX — juntamente com a Intel, Samsung e Motorola. “Nenhum de nós hoje consegue imaginar a vida sem conectividade sem fio e sem Internet”, disse Gary Forsee, CEO da Spring Nextel durante pronunciamento em que anunciou o projeto da rede.

 

Faulhaber diz que o esforço da Sprint Nextel é motivo de orgulho para o WiMAX, mas existem ainda outras dificuldades. O grande chamariz de vendas do WiMAX é o fato de que pode usar uma antena para enviar sinais de banda larga sem fio. Contudo, como observa Faulhaber, uma antena tem de alimentar um número grande de usuários de Internet, o que pode provocar congestionamentos. Uma grande cidade, por exemplo, com uma rede WiMAX poderia levar diversas pessoas a disputar a mesma antena de acesso. “Com o WiMAX, é preciso que haja um volume enorme de banda larga. Esse é o problema da Clearwire. Ela pode cobrir a cidade toda, mas necessita de mais banda larga.”

 

Tanto Hosanagar quanto Faulhaber dizem que as questões de engenharia do WiMAX serão solucionadas. Resta saber se a Clearwire, que teve prejuízos de 284 milhões de dólares em 2006, será capaz de resolvê-las. “O que me preocupa em relação a Clearwire e outras empresas semelhantes é que elas estão apostando alto em seu empenho de serem as primeiras nesse segmento. Creio que a vantagem dos primeiros a tomarem posição no segmento da banda larga sem fio não é muito significativa”, observa Hosanagar. “Do ponto de vista do operador, a oportunidade de diferenciação é limitada. Portanto, quando as grandes empresas — Verizon, Sprint, Comcast — partirem para a ação, o que fará a Clearwire para preservar seus clientes?”

 

Forsee, da Sprint, disse durante a conference call sobre lucros da empresa no primeiro trimestre, em 2 de maio, que o emprego do WiMAX vem caminhando a “passos firmes”, acrescentando que a companhia anunciará seu plano de negócios e cronograma de introdução da rede WiMAX no verão. A Sprint lançará sua rede WiMAX em Washington, D.C., e em Chicago em fins de 2007, e “estará em mais de 20 mercados em fins de 2008”, previu Forsee.

 

Os atuais serviços de telefonia celular darão conta do recado?

De acordo com Whitehouse, antes de pegar carona na onda do WiMAX, talvez fosse prudente examinar as redes sem fio de celular, e o que empresas como a Verizon e a AT&T/Cingular oferecem atualmente nas redes 3G. “As companhias telefônicas estão mais perto hoje de oferecer serviço de banda larga sem fio por toda parte. Se você tem um plano de dados ilimitado, pode se conectar a uma rede sem fio em muitos lugares do país”, diz Whitehouse. “Talvez não seja a mais rápida, nem a mais barata, mas pode ser acessada praticamente de qualquer lugar.”

 

As redes de celular funcionam bem para o acesso à Internet móvel, acrescenta Faulhaber, mas são limitadas no tocante à velocidade, porque operam em freqüências leiloadas pela FCC. O problema é que a FCC não disponibiliza um espectro muito grande de freqüências para a telefonia celular. “Simplesmente não há banda larga suficiente e há cinco anos não há largura de banda nova”, diz ele. “Isto significa que há tráfego de voz e de dados. As operadoras de telecomunicações desenvolveram uma forma de produzir banda larga sem fio, mas de alcance limitado.”

 

Hosanagar concorda. “O sistema 3G não atende completamente às necessidades dos serviços sem fio de banda larga das regiões metropolitanas.” Além disso, as limitações do 3G se tornarão críticas à medida que a Internet começa a acolher um número cada vez maior de vídeos, acrescenta Werbach. “As operadoras sem fio que elogiam a capacidade de dados de suas redes de 3G já enfrentam dificuldades para veicular vídeos e outras programas que requerem banda larga.”

 

Faulhaber destaca que as redes de dados sem fio postas em funcionamento por empresas como a Verizon e Sprint Nextel deveriam simplesmente complementar o serviço de voz. Em vez disso, tornaram-se outra via de acesso à Internet. Agora, as provedoras têm de escolher entre serviços de voz e de dados, já que a largura de banda é limitada.

 

Além disso, deverá haver confusão entre as redes de celular, uma vez que utilizam diferentes padrões mundiais. Os fornecedores de equipamentos sem fio querem impor sua tecnologia. A Qualcomm, por exemplo, tem feito demonstrações de uma tecnologia batizada de banda larga ultramóvel (UMB), uma melhora em relação ao padrão CDMA (acesso múltiplo por divisão de código). As companhias de telecomunicações asiáticas e européias têm padrões próprios, gravitando em torno do HSDPA, protocolo de telefonia móvel de alta velocidade.

 

Estratégias híbridas

Em face da inexistência de tecnologias vencedoras evidentes, são grandes as possibilidades de que o consumidor  mencionado por Peterson tenha de recorrer a uma combinação de serviços. Por exemplo, o WiMAX será utilizado para suplementar as redes atuais de telefones celulares, prevê Hosanagar. As redes de WiMAX e de celulares continuarão a evoluir. A rede conjunta de celular e de Wi-Fi da T-Mobile poderá ser a precursora de futuros serviços. Whitehouse crê que há mérito na idéia, mas reforça que o sucesso depende do grau de êxito da integração dos serviços híbridos. “Uma solução que combine Wi-Fi e 3G pode resultar no melhor de dois mundos”, diz Whitehouse. “O diabo, porém, mora nos detalhes. O serviço requer que a mudança entre as diferentes redes ocorra de forma imperceptível. Isso só dará certo se a costura de redes for totalmente invisível  para o usuário.”

 

Supondo-se que as dificuldades tecnológicas com a próxima geração de redes de banda larga sem fio sejam superadas, há algumas perguntas sem respostas que precisam ser analisadas. O que os consumidores farão com o acesso generalizado à Internet? Quais serão os principais aplicativos? Os serviços sem fio serão baratos o bastante para que possam ser utilizados pela maior parte dos consumidores?

 

Peterson observa que muitas das características mais valorizadas da Internet — convívio social, compartilhamento de imagens e vídeos — serão reproduzidos em qualquer aparelho no momento em que as barreiras tecnológicas forem removidas. Whitehouse diz que o acesso online generalizado inaugurará uma nova geração de aparelhos que tirarão proveito do serviço. “No momento em que você estiver o tempo todo online, não se limitará a enviar textos de mensagens curtos, tampouco se contentará em digitar repostas breves a e-mails no seu Blackberry. Creio que teremos aparelhos novos, que carregaremos no bolso, dotados de teclado completo e que nos permitirão fazer tudo o que fazemos agora no desktop — só que em trânsito”, diz.

 

Será de fundamental importância nesse processo o surgimento de novos aparelhos que permitam a navegação por vários padrões de tecnologia de forma imperceptível ao usuário. Afinal de contas, o consumidor de tempo integral não quer ficar enroscado em uma sopa de letrinhas de acrônimos padrões sem fio. “O suporte aos usos diversos do sistema sem fio, desde vídeos em tempo real ao envio confiável de mensagens, exigirá um mosaico de tecnologias distintas”, observa Werbach. “E não se deve minimizar a possibilidade de um azarão vencer.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Banda larga sem fio: a utopia já é realidade?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [30 May, 2007]. Web. [19 April, 2021] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/banda-larga-sem-fio-a-utopia-ja-e-realidade/>

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"Banda larga sem fio: a utopia já é realidade?" Universia Knowledge@Wharton, [May 30, 2007].
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