Beth Comstock e a GE: Imaginando o futuro

Beth Comstock sentia-se paralisada. Natural de uma pequena cidade da Virgínia, como ela mesma costuma dizer, tinha pouco mais de 20 anos e uma filha de quatro quando se divorciou. Também era tímida e tinha receio de mudanças. De um modo ou de outro, porém, havia uma mudança a caminho. Ela decidiu, então, reunir toda a coragem de que dispunha.

"Achei que era hora de me sentir incomodada comigo mesma — e isso significava, em termos práticos, ir atrás de um sonho", disse Comstock, vice-presidente sênior e diretora de marketing da General Electric, durante conferência da Wharton sobre liderança. Ela foi para Nova York, trabalhou para uma empresa de cabo local e depois teve vários empregos no setor de relações com a mídia da NBC e da CBS. "Eu estava na CBS e tudo caminhava às mil maravilhas", disse. Foi então que ela recebeu um telefonema do seu antigo chefe da NBC oferecendo-lhe uma posição em que seria responsável pelo setor de relações com a mídia e de marketing da divisão de notícias. "Acho que a vaga estava em aberto havia um ano. O setor de notícias não estava prosperando em parte alguma […] "As pessoas não se conformavam: 'O que deu em você?' Parecia suicídio profissional."

Contudo, alguma coisa dizia a Comstock que fosse em frente. O fato de que se tratava de um trabalho que ninguém queria, disse, era positivo, porque as chances de introduzir mudanças são infinitas numa situação dessas. Foi uma decisão que mudou o rumo da sua carreira. Pouco depois, Comstock estava envolvida na criação da MSNBC.

"Fui trabalhar com dois personagens lendários do mundo dos negócios: Jack Welch [ex-CEO da GE] e Bill Gates [fundador da Microsoft]", disse. Com o tempo, ela acabou indo trabalhar definitivamente na GE onde foi promovida à diretora de marketing [CMO]. "Vim de uma cidade pequena, não tinha curso superior, mas a GE foi a escola que me faltava, foi minha escola de negócios, e tudo isso só porque decidi aceitar um desafio. Recebi de braços abertos a oportunidade de me sentir incomodada."

É evidente que Comstock tem prazer em trabalhar em uma empresa que foi fundada há 130 anos pelo maior de todos os inovadores, um sujeito que primava em correr riscos, Thomas Edison — o "Steve Jobs" do seu tempo —, disse ela. "Na verdade, ele não inventou a lâmpada incandescente, mas aprendeu a usá-la para iluminar o mundo. Foi um pensamento audacioso em que nossa empresa continua a perseverar há 130 anos."

Comstock disse que duas citações famosas de Edison lhe servem de inspiração e ainda hoje têm tudo a ver com o que a GE faz. "Descubro do que o mundo precisa; em seguida, invento", é uma delas; a outra é: "O valor de uma ideia consiste em usá-la". Num certo sentido, disse, o propósito da GE é garantir que outras boas ideias tenham escala, de modo que muita gente possa se beneficiar delas. Sua função como diretora de marketing é fazer com que todos saibam da existência dessas ideias.

Comstock disse que não foi nada fácil, logo no início da gestão do CEO da empresa, Jeff Immelt, mudar o antigo moto da companhia: "Damos vida às coisas boas" para o atual "Imaginação no trabalho". Comstock administrou os 18 meses de desenvolvimento do novo slogan que, disse ela, não era muito bem aceito dentro da empresa. "Na verdade, eram 300.000 contra dois", disse. Felizmente, ela tinha Immelt a seu lado, e a empresa acabou comprando a ideia. "Achávamos que o novo slogan recuperava o espírito de Thomas Edison. É preciso ter paixão e curiosidade para ser bem-sucedido naquilo que achamos que somos — uma empresa que traz à luz produtos num mundo que se move a um ritmo veloz."

A campanha, acrescentou, mostrou a ela como era importante seguir em frente, apesar das adversidades. "Você tem de confiar naquela voz, inclusive quando você não sabe em que língua ela está se comunicando […] Tenho uma regra pessoal quando deparo com uma coisa que acredito que funcionará: não desista." Alguém lembrou a ela de um episódio ocorrido quando trabalhava na divisão de entretenimento da NBC sob as ordens do CEO Robert Wright. Ela teve a ideia de abrir uma loja na sede da empresa no 30 Rockefeller Center, prédio emblemático da companhia, onde seria comercializado o material licenciado da empresa. Comstock queria que o negócio se chamasse "The NBC Experience".

"Bem', disse Wright, "não", e depois, "não" e "não", disse Comstock. "No fim das contas, porém, disse "sim", e desde então a loja é um sucesso. Um dia, ele me chamou de lado e disse: "Só queria ver até que ponto você estava decidida a levar sua ideia adiante." Às vezes, as pessoas colocam barreiras na sua frente para ver se você é capaz de melhorar sua ideia — ou para ver até que ponto você está decidido a colocá-la em prática.

"Aprender a fracassar"

Comstock disse que vivemos em uma época de grandes possibilidades, e que elas serão desfrutadas por pessoas capazes de entender a escalabilidade das soluções. "A disparidade entre os que têm e os que não têm neste mundo é o maior problema que temos de resolver — refiro-me à disparidade financeira, de saúde, nutrição e ar limpo. Há campos desocupados no mundo inteiro, mas há centenas de milhões de pessoas que não têm acesso a uma boa nutrição." Dois bilhões de pessoas não têm acesso à geração contínua de energia — um grande desafio para uma empresa como a GE, cujo ícone máximo da inovação é a lâmpada incandescente. Contudo, esse é um desafio que estamos dispostos a enfrentar.

"As exportações de petróleo da Arábia Saudita chegarão ao fim em 2030, portanto essa é uma boa data para ocupar nossa atenção", disse ela. "Dois bilhões pessoas em sete não têm acesso a um sistema de saúde razoável. Se uma mulher engravida na África, terá sorte se conseguir um médico. Talvez, se tiver muita sorte, conseguirá uma parteira."

Comstock cita o avanço da empresa nos setores de baterias de alta tecnologia e redes de telefonia celular como possível solução de escala para a questão da energia, e observa que a África migrou para a telefonia celular. De igual modo, a GE tem trabalhado em uma máquina mais simples de ultrassom que atenderá mais facilmente a algumas necessidades de saúde, principalmente nos casos de gravidez. "É um botão para ligar e outro para desligar. Mesmo que não haja médico no local, qualquer um saberá usar um aparelho de ultrassom equipado com uma luz vermelha e outra verde. Com esse tipo de inovação, podemos resolver vários problemas de um jeito simples. Nós nos esforçamos para fazer as coisas do jeito mais simples possível, de modo que até uma criança possa fazê-lo."

Comstock disse estar convencida da verdade do mantra do Vale do Silício de que o fracasso, ao contrário do que diz a intuição, é o caminho que conduz finalmente ao sucesso. O fracasso é sinal de que a paixão e a criatividade estão por perto. Ela recorre novamente a algumas citações: "Samuel Beckett escreveu: 'Tentou uma vez, falhou, não importa, tente de novo, falhe outra vez, você falhará melhor agora.' T. S. Elliot disse: "Só quem se arrisca a ir longe descobrirá até onde é possível ir.'" Comstock adora também o filósofo/cartunista Scott Adams, criador do "Dilbert", que disse: "O único risco do fracasso é a promoção."

Muita gente, disse ela, é criado com medo de fracassar. "Isso nos atrapalha, porque não podemos falhar. Nossos pais adoram falar do nosso sucesso. Contudo, um dos desafios que temos consiste em descobrir se somos capazes de fracassar da melhor maneira possível. Não nos faltam ideias, o problema é a execução delas, porque queremos ser perfeitos, e isso nos imobiliza."

Comstock disse que é sempre a voz destoante da sala, porque chama a atenção para o ponto em que a pessoa com a ideia aparentemente "perfeita" tem falhas. "Muita gente tem vontade de dar um pontapé numa pessoa assim, mas nosso objetivo é desafiar os outros. Fazemos perguntas incômodas que as pessoas prefeririam não ter de responder […] Contudo, você tem de estar disposto a se expor. É preciso sair a campo. É gente provocadora que aceita grandes desafios. Ser líder significa, principalmente, ser provocador e agente de mudança.

"Para uma pessoa como eu, muito tímida, essa foi uma experiência de difícil aprendizagem", disse Comstock. "Contudo, no fim das contas, foi o que fez com que aquela garota de uma cidadezinha da Virgínia fosse trabalhar em uma empresa realmente magnífica."     

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Beth Comstock e a GE: Imaginando o futuro." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [29 May, 2013]. Web. [25 February, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/beth-comstock-e-a-ge-imaginando-o-futuro/>

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Beth Comstock e a GE: Imaginando o futuro. Universia Knowledge@Wharton (2013, May 29). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/beth-comstock-e-a-ge-imaginando-o-futuro/

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"Beth Comstock e a GE: Imaginando o futuro" Universia Knowledge@Wharton, [May 29, 2013].
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One Comment So Far

antonio santos

Esta garota é oque podemos chamar de uma garota papo firme e a frente de seu tempo, e diga-se de passagem muito alem..