‘Bom pai, bom chefe’: Como triunfar na vida pessoal e profissional sem morrer tentando

O ritmo atual da vida provoca muitas dores de cabeça em quem tenta equilibrar a vida pessoal com a profissional e quer ter sucesso nas duas. As longas jornadas de trabalho parecem incompatíveis com a presença constante perto da família. Contudo, Natalia Gómez del Pozuelo, professora de comunicação e gestão de projetos in-company do Icade e da Universidade de Nebrija, em Madri, crê que é possível equilibrar ambas as facetas e ser bem-sucedido em cada uma delas. Para isso, propõe em seu livro Bom pai, bom chefe, utilizar os conselhos e fórmulas que usamos no lar e aplicá-los à nossa vida profissional, bem como aplicar as habilidades profissionais e gerenciais na melhoria do trabalho de pai. Em entrevista concedida ao Universia Knowledge@Wharton, a professora e consultora de marketing e de novas tecnologias dá mais detalhes sobre essa filosofia prática.

Universia Knowledge@Wharton: Como surgiu a ideia de utilizar as sinergias da vida pessoal e profissional?

Natalia Gómez Del Pozuelo: Foi algo que me ocorreu há dois anos, no verão, em Zahara de los Antunes (sul da Espanha). Eu estava em um bar, o Ballena Verde, admirando o entardecer e ouvindo um concerto de jazz. Meus quatro filhos estavam na África com os primos. Decidi então escrever algumas de suas histórias (costumo fazê-lo de vez em quando para contar-lhes assim que tiverem mais idade). Escrevi no meu caderno: "Estou sentada de frente para o mar de Zahara, e vocês estão na África vendo os leões, mas estamos juntos e, provavelmente, de forma mais intensa do que quando vocês estão aqui, porque agora não tenho que ralhar com ninguém, não tenho de pôr nada em ordem e nem incentivar ninguém […] Esse vazio de obrigações maternas permite que surja a pessoa que analisa vocês e os vê como seres individuais de características próprias. A primeira coisa que me vem à mente é que eu deveria educá-los de uma forma diferente, mas que não parecesse diferente". Continuei aprofundando essa ideia e concluí que, na verdade, o mesmo se passava com meus colaboradores. Escrevi então no meu caderno: "Isto daria um bom livro."

Lembrei então de um comentário que me fazia sempre um amigo. Ele dizia que qualquer coisa que fizéssemos devia ter uma aplicação para outras situações também. Pensei em juntar as partes mais importantes da minha vida (família, trabalho e vocação) num livro que falasse da minha experiência e da experiência de vários amigos e companheiros, para que somando vivências e conselhos, pudéssemos ajudar outros pais e mães que também são, ou serão, chefes, a viver melhor a vida.

Naquele momento, estava escrevendo um romance, por isso só decidi abordar o assunto um ano depois. Quando retomei o tema, fiz numerosas entrevistas, li dezenas de manuais sobre gestão e educação e conversei com vários especialistas até que o livro foi tomando forma e o resultado é este: Bom pai, melhor chefe.

Universia Knowledge@Wharton: Em que aspecto é mais difícil vencer?

Natalia Gómez del Pozuelo: Creio que nosso trabalho como pais é muito mais importante, já que no trabalho podem prescindir de nós, mas nossos filhos não. Se não gostamos de um trabalho, podemos procurar outro, mas nossos filhos são nossos para sempre.

Por isso, creio que é mais difícil o trabalho paterno, mas, ao mesmo tempo, acho que é mais fácil refletir sobre ele e identificar pontos de melhoria, porque provavelmente somos mais modestos, ou talvez mais inseguros no trabalho paterno exatamente pela importância que ele tem, e é por isso que nos questionamos o tempo todo. Além disso, pelos filhos somos capazes de renunciar a muitas coisas — ao ego, por exemplo —, porque se trata de um trabalho que mexe com os sentimentos. Não seria bom ser mais modesto no trabalho, diminuir um pouco o tamanho do ego e usar mais os sentimentos? Foi isto que me levou a enfatizar no livro as atitudes que temos na família e que podem ser transferidas para o trabalho. É um caminho de ida e volta porque, no fim das contas, as pessoas são "uma" só, embora às vezes administremos nossas atividades como se fossem compartimentos estanques.

É interessante refletir sobre os dois aspectos e elaborar, para cada um, um critério próprio, adaptá-lo a você e à sua capacidade em função do seu caráter e do tempo de que você dispõe, introduzindo pequenas modificações exequíveis que contribuam para melhorar sua atitude, não em casa ou no trabalho, mas na vida, que é uma só.

Universia Knowledge@Wharton: Existem diferenças entre o bom pai e bom chefe e a boa mãe e a boa chefe?

Natalia Gómez del Pozuelo: Creio que embora tenhamos formas diferentes de administrar as coisas (tanto em casa quanto no escritório), e embora de acordo com vários estudos as mães tenham níveis mais elevados de sobrecarga e de estresse relacionados à falta de tempo, o fato é que ser bom pai e bom chefe e boa mãe e boa chefe depende basicamente da capacidade da pessoa (homem ou mulher) de se questionar, de evitar a soberba e de ter muita vontade de melhorar.

Se houver predisposição, a pessoa será receptiva às diferentes possibilidades de melhora, às teorias de gestão e de liderança, à opinião de seus filhos e de seus colaboradores […] e, portanto, fará progresso e conseguirá melhores resultados.

Universia Knowledge@Wharton: O que você acha da figura do chefe paternalista? Seria uma figura em voga ou em desuso nas empresas?

Natalia Gómez del Pozuelo: Embora existam ainda chefes paternalistas, trata-se de uma figura que, na minha opinião, não produz bons resultados, por isso meu livro Bom pai, melhor chefe, não endossa esse tipo de gestão. Creio no chefe "profissional", que faz bem seu trabalho e consegue extrair o melhor de sua equipe. Acho também que a verdadeira autoridade de uma empresa são seus objetivos.

Universia Knowledge@Wharton: É possível ser um gestor permissivo e, ao mesmo tempo, um chefe de família autoritário (e vice-versa)?

Natalia Gómez del Pozuelo: É provável que todos conheçamos esse profissional amável e simpático que, em casa, é um pouco tirano, ou que é muito autoritário no trabalho, mas quando está com a família é um doce. Não creio, porém, que isso seja saudável.

Como diz Santiago Álvarez de Mon em seu livro Não sou super-homem: "Se minhas realidades são divorciadas umas das outras, incapazes de conviver uma com a outra e de contribuir para que eu seja um ser mais rico e poliédrico, essa ruptura interior cobrará de mim um preço muito alto."! Por que então essa dicotomia se a vida nos permite melhorar em ambos os aspectos simultaneamente? Por que não aprender e melhorar continuamente desfrutando dessa aprendizagem?

É muito saudável pensar enquanto se caminha e dar passos que nos aproximem da melhora desejada sem que nos aflijam e nos impeçam de desfrutar tanto da paternidade quanto do trabalho.

Universia Knowledge@Wharton: A ideia de que os filhos e os subordinados participem da tomada de decisões é boa em todos os casos ou pode apresentar inconvenientes na hora de tornar mais eficaz a gestão empresarial?

Natalia Gómez del Pozuelo: Há uma citação muito interessante de Bonald que diz: "A razão é a primeira autoridade, e a autoridade é a última das razões."

Para mim, é um erro impor nosso critério somente porque ocupamos uma posição dominante (de chefe ou de pai). Se, ao defender uma ideia ou uma decisão, temos argumentos sólidos e coerentes, é provável que a decisão seja correta, mas se temos de recorrer com frequência à expressão "porque eu disse", é possível que estejamos equivocados e que tenhamos de deixar que os demais participem mais ativamente das tomadas de decisão.

Se os pais são muito autoritários, os filhos podem ter sérias dificuldades para adquirir uma personalidade firme e decidida. Por isso, os especialistas aconselham que os filhos participem da determinação dos limites. Não se trata de deixá-los fazer o que bem entendem, e sim ensiná-los a gerir a liberdade com responsabilidade e critério. Portanto, a criatividade e a rebeldia são valores a serem incentivados, e será preciso aceitar as contribuições de todos na hora de tomar decisões. Isto significa que, tanto na família quanto no trabalho, a liderança real é um espaço compartilhado.

No caso da empresa, embora os organogramas sejam mais planos, continua a haver uma distância psicológica significativa entre o chefe e o subordinado, uma comunicação excessivamente hierarquizada e pouco debate sobre a tomada de decisões.

Nos cursos de administração de projetos que dou nas empresas, utilizo um gráfico que mostra que quanto menos a equipe participa de uma decisão (o chefe ordena e manda), menor será o grau de comprometimento com ela e mais rapidamente, é claro, a decisão será tomada. Quanto maior o grau de consenso, maior a participação de todos nas tomadas de decisão, o que, naturalmente, requer mais tempo.

Continuamos a exigir que se respeite a autoridade, queremos gente "obediente" (tal como nossos filhos), que não discuta, que aceite nossos critérios. Contudo, quando baseamos a relação na responsabilidade, conseguimos resultados melhores do que se aplicássemos um controle férreo.

Universia Knowledge@Wharton: É possível usar as mesmas ferramentas para motivar filhos e empregados?

Natalia Gómez del Pozuelo: Cada pessoa e, portanto, cada criança e colaborador, é distinto e único. Se nos deixarmos levar pela ideia politicamente correta de tratá-los a todos da mesma maneira, vamos prejudicá-los e a nós mesmos. Muitos pais estão convencidos de que tratam a todos os filhos da mesma forma, e que isso é o certo. Na realidade, porém, não estão agindo dessa forma, embora não tenham consciência disso. Ser pai ou chefe exige um posicionamento, ou a responsabilidade de tratar cada um de tal forma que a pessoa possa crescer e evoluir, o que exige flexibilidade, perícia, observação e muito tempo.

Motivamos nossos filhos de formas específicas: a uns, compartilhando tarefas com eles; a outros, dando-lhes mais responsabilidade, deixando que cozinhem, usando um vocabulário específico etc. Isto porque cada um reage de maneira diferente aos estímulos oferecidos pelos pais.

Deveríamos fazer o mesmo no ambiente de trabalho. As motivações de cada membro da equipe são muito diferentes. Para uns, o mais importante é evoluir, ter cada vez mais responsabilidade e uma equipe sólida. Para outros, o que importa é dispor das ferramentas necessárias para executar seu trabalho da melhor maneira possível e se sentir seguro; outros precisam de um plano de carreira claro e de um projeto de crescimento na empresa etc.

Embora um bom salário tenha para todos um peso significativo, em nenhum caso é o mais importante. É conhecendo as particularidades de cada um que teremos uma equipe mais motivada e, portanto, um maior rendimento.

O segredo consiste em tratar cada um de acordo com suas necessidades, mas ninguém deve se sentir tratado de forma diferente, já que todos têm os mesmo direitos e oportunidades.

Universia Knowledge@Wharton: Em seu livro, você fala de um conceito denominado curiosidade positiva. Seria possível explicar em que consiste tal conceito e que benefícios proporciona tanto na vida profissional quanto pessoal?

Natalia Gómez del Pozuelo: Vivemos em uma sociedade em que as coisas mudam cada vez mais rapidamente. A tecnologia não consiste apenas nos novos gadgets que usamos, uma vez que eles mudam profundamente as práticas sociais e as formas do conhecimento, transformam a maneira de nos relacionarmos com nossos filhos e também a forma como trabalhamos.

Comecemos pela última. As novas tecnologias revolucionaram o trabalho e a comunicação. Agora podemos compartilhar arquivos, acessar bancos de dados de clientes de qualquer lugar, saber as novidades da empresa, colocar ao alcance de todos a informação de forma imediata, trabalhar em equipe em pontos distintos do planeta etc. O mesmo acontece em casa. Uma criança pode estar no quarto ao lado conversando com um amigo a milhares de quilômetros de distância e embora pareça estar perto de nós, está na verdade muito longe.

O conceito de "estar fisicamente" já não é o parâmetro mais importante a se levar em conta e dá margem a uma nova forma de fazer as coisas com base na flexibilidade, na responsabilidade e na confiança tanto em casa quanto no trabalho.

Essa nova forma de nos relacionarmos é, por um lado, mais fácil, já que embora nossos horários sejam complicados podemos, sem a necessidade da presença física, manter contato e cultivar uma relação pessoal ou de trabalho fluida e intensa. Contudo, para isso é preciso um "acompanhamento emocional" baseado na comunicação, no respeito mútuo e na flexibilidade. No caso das empresas, elas estão cada vez menos burocráticas e a organização mais flexível. A presença física já não é tão importante, e os grupos de trabalho se reorganizam constantemente. No lar, são cada vez mais numerosos os casos de estruturas mutáveis devido às separações, novos casamentos, filhos de um, filhos de outro, custódias compartilhadas etc.

Portanto, pais e diretores devem se adaptar às mudanças e manter sempre ativa a curiosidade, para que a cabeça esteja sempre fresca e criativa. De nada adianta nos aferrarmos a métodos antigos, rígidos e hierarquizados. A flexibilidade mental e a capacidade de adaptação são coisas cada vez mais importantes.

Universia Knowledge@Wharton: Por último, um dos problemas mais comuns da sociedade de hoje consiste em conseguir conciliar vida pessoal e profissional. É possível ser bem-sucedido nas duas ao mesmo tempo?

Natalia Gómez del Pozuelo: O estresse e o cansaço são freqüentes quando tentamos harmonizar a vida pessoal e a profissional. A principal causa de estresse se deve ao fato de que temos muitas tarefas a realizar, queremos fazê-las todas e, além disso, desfrutar de bons momentos ao lado dos filhos.  

Quando estamos estressados, temos a sensação de não controlar nossa vida, e isso compromete a qualidade do dia-a-dia e a qualidade da nossa relação com as outras pessoas. Por isso, deveríamos procurar desfrutar desse gotejar constante de momentos que compartilhamos com os filhos e fazer as coisas com tranquilidade, porque nossa atitude diante das tarefas e nossa relação com o tempo influenciam nossa maneira de viver e de trabalhar, e afetam também aqueles que estão próximos de nós. Se nos sentimos estressados, eles também se sentem.

É preciso ocupar o tempo de outra maneira, não como se fosse uma corrida de obstáculos. Para isso, deveríamos fazer uma avaliação objetiva de como usamos o tempo e rever nossas prioridades. Existem alguns comportamentos que são fáceis de adotar e que podem modificar nossa percepção do tempo e reduzir significativamente o estresse: fixar prioridades, usar novas tecnologias a nosso favor, saber delegar e várias outras coisas simples de que fala o livro.

De modo geral, falta-nos análise crítica do nosso dia-a-dia. Estamos envolvidos em um turbilhão do qual é difícil sair. Portanto, seria muito proveitoso parar um pouco para refletir sobre isso e fazer algumas mudanças na medida do possível.

O importante é saber organizar o tempo de forma equilibrada, com atividades variadas que não nos deixem esgotados, que desenvolvam nosso lado físico, mental e afetivo.

Deveríamos tomar o quanto antes as medidas necessárias para que nossos dias nos proporcionem prazer e satisfação agora, e não quando for tarde demais.

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"‘Bom pai, bom chefe’: Como triunfar na vida pessoal e profissional sem morrer tentando." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [25 August, 2010]. Web. [19 April, 2021] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/bom-pai-bom-chefe-como-triunfar-na-vida-pessoal-e-profissional-sem-morrer-tentando/>

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‘Bom pai, bom chefe’: Como triunfar na vida pessoal e profissional sem morrer tentando. Universia Knowledge@Wharton (2010, August 25). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/bom-pai-bom-chefe-como-triunfar-na-vida-pessoal-e-profissional-sem-morrer-tentando/

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"‘Bom pai, bom chefe’: Como triunfar na vida pessoal e profissional sem morrer tentando" Universia Knowledge@Wharton, [August 25, 2010].
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