China valorizará o renminbi: um pequeno passo de grande impacto?

Durante depoimento prestado perante a Câmara dos Representantes dos EUA em março, C. Fred Bergsten, diretor do Instituto Peterson de Economia Internacional, um grupo de estudos formados por especialistas de Washington, D.C., culpou a desvalorização “extrema” da moeda chinesa — em torno de 40% em relação ao dólar — pelo grande número de desempregados nos EUA e pelos desequilíbrios da balança comercial no mundo todo. Discorreu também sobre um plano de ação que prevê, inclusive, a criação de uma coalizão multilateral de ajuda formada por vários países e até mesmo a imposição de tarifas sobre os produtos chineses, caso a China não flexibilize o controle rígido que mantém sobre o valor de sua moeda e permita que ela se valorize. “Portanto, a justificativa para o aumento substancial do valor do RMB é claríssimo”, disse. “É preciso que haja uma valorização de 25% a 40% para reduzir o superávit global em conta corrente da China para 3% ou 4% do PIB. Esse realinhamento produziria uma redução de US$ 100 bilhões a US$ 150 bilhões no déficit anual em conta corrente dos EUA.”

No dia 19 de junho, o Banco do Povo da China, que é o banco central do país, admitiu que desvalorizará a moeda nacional, pelo menos em parte. O banco informou que abandonará o câmbio fixo que há dois anos mantém o RMB atrelado ao dólar, permitindo que a moeda chinesa responda mais naturalmente às forças da oferta e da procura. Posta em vigor imediatamente, a medida, segundo o banco, fará com que o país comece a se deslocar em direção a um regime de câmbio flutuante, embora rigidamente controlado, parecido com o utilizado entre 2005 e 2008, em que o valor do RMB tomará por base uma cesta de moedas, e não apenas o dólar, no âmbito de uma banda muito estreita para cima ou para baixo.

No dia seguinte, porém, veio a notícia que acabou com as esperanças de muitos observadores da China: os estrategistas locais insistiam que qualquer desvalorização do RMB, que desde julho de 2008 está atrelado à moeda americana ao valor de 6,83 por dólar, será “gradual”. Para os analistas, isso significa uma desvalorização de alguns pontos percentuais apenas este ano.

Flexibilizar a cotação do RMB “é conveniente para a China”, diz Kent Smetters, professor de gestão de seguros e de risco da Wharton. “Isso não fará muita diferença para eles por enquanto. A demanda por dólares continuará alta e eles ainda podem posar de bons moços nessa história, mas a verdade é que no momento não custa muito aos chineses fazê-lo.”

A decisão, divulgada uma semana antes da reunião do G20, em Toronto, e em meio a diversas eleições nos estados americanos, foi sem dúvida alguma um sinal para os parceiros internacionais de comércio da China. A pressão mundial vinha se intensificando para que os estrategistas locais tratassem do que seus críticos chamavam de “manipulação da moeda” — algo inaceitável para o Fundo Monetário Internacional e outros organismos multilaterais —, bem como o apetite aparentemente insaciável da China pela aquisição de dólares americanos a um RMB barato, engordando dessa forma seu estoque de reservas em moeda estrangeira.

Todavia, independentemente de quanto o RMB se valorize, ou se deprecie, a decisão da China é importante não só para a discussão sobre a influência futura do dólar e da moeda chinesa no comércio e na política internacionais, mas também para a correção dos desequilíbrios econômicos globais, dizem os especialistas.

Sem terapia de choque

Diante desse cenário, “é possível compreender por que a China está retomando o sistema de câmbio flutuante controlado, diz Wang Jianmao, professor de economia e decano associado da Escola Internacional de Negócios China Europa (CEIBS), em Xangai. “Vamos dar alguns pequenos passos e esperar para ver qual será o desfecho. Não estou esperando nenhuma espécie de terapia de choque ou coisa parecida na China, não importa o grau de pressão externa.”

De acordo com Wang, as lições aprendidas no passado em casa e em outros lugares explicam por que a China optou por essa estratégia. Tome-se o caso do iene japonês. Durante muito tempo, os japoneses mantiveram sua moeda desvalorizada e a economia, que prosperou durante toda a década de 70 e 80, dependente das exportações numa situação bem parecida com a da China atualmente. “Os japoneses tentaram adiar a valorização do iene, mas não lhes restou alternativa senão ajustar muito rapidamente a taxa de câmbio pressionados pelos EUA”, diz. Depois que o Japão concordou em assinar o Acordo de Plaza, em 1985, que depreciava o dólar em relação ao iene e ao marco alemão, a moeda japonesa se valorizou rapidamente levando o país, por fim, a uma bolha de preços que viria a estourar com grande impacto.

Também há lições aprendidas em casa. “Desde 2005, acumulamos um conhecimento muito grande em razão das experiências que tivemos com a valorização da moeda”, diz Wang. “Percebemos que nos últimos anos — 2007 e 2008 — a velocidade com que o RMB se desvalorizava talvez tenha sido um pouco rápida demais.” Uma valorização paulatina “não significa necessariamente um deslocamento moroso numa única direção”, acrescenta. “Haverá altos e baixos, porém a tendência dominante será de alta.” Uma aposta de deslocamento do RMB em um único sentido pode ter desvantagens e vantagens se os investidores (e também os especuladores) correrem para a China, porém Wang prevê que todo fluxo de hot money [empréstimos a curtíssimo prazo] será “administrável”, sobretudo se houver algum tipo de imposto sobre os ganhos de capital. Além disso, “pode ser que uma valorização paulatina torne atraentes as reservas em RMB, embora as oportunidades de investimento da moeda chinesa continuem ainda bastante limitadas”.

Para Franklin Allen, professor de finanças da Wharton, esse último cenário é bem-vindo. “Nos próximos dez a 15 anos, a China terá de tornar o RMB totalmente conversível e terá de fazer dele uma moeda de reserva”, diz. “O verdadeiro problema da arquitetura internacional, desde que todos os problemas do euro começaram, é que o dólar tornou-se a única moeda de reserva, quando precisamos de três moedas que representem três regiões. Talvez fosse melhor ter mais, mas três já seria um bom começo.”

Contudo, há uma questão mais urgente para o governo chinês: o impacto da apreciação do RMB sobre a enorme reserva em moeda estrangeira do país, sendo que 70% dessas reservas estariam em dólar. “Boa parte dessas reservas são financiadas com dívida em RMB. Portanto, se o RMB se valorizar, os chineses sairiam perdendo”, diz Allen. Qualquer movimento, mesmo que seja gradual, provoca mudanças significativas de valor nas reservas, que chegaram a US$ 2,5 trilhões em março, um valor equivalente a aproximadamente 50% do PIB do país. “Se houver uma valorização de 10% em relação ao dólar, isso equivale a 5% do PIB, o que representa uma perda substancial. Os chineses precisam pensar muito bem na estratégia de longo prazo que pretendem utilizar.”

Onde fica o dólar nesse cenário? “Para a China, a decisão de desatrelar o RMB do dólar significa, na verdade, que os chineses vão deixar de tentar comprar grandes quantidades da dívida americana para manter a nova taxa de câmbio”, observa Smetters. “O problema é que os EUA ainda vão tentar vender uma grande quantidade de títulos da dívida no decorrer dos próximos anos, o que vai gerar uma demanda por dólares. Essa demanda será ainda muito forte porque o dólar é um porto seguro.”

Exportando desemprego

Tudo isso suscita diversas perguntas acerca da importância da valorização do RMB para o indivíduo comum. Vários observadores nos EUA acreditam que o tema é da maior importância. Para eles, a política da moeda fraca significa que a China está dando a suas empresas uma vantagem competitiva injusta em relação às empresas de outros países, já que fabrica produtos mais baratos. Como consequência, “a China está exportando desemprego em grandes doses para o resto do mundo — inclusive para os EUA, mas também para a Europa e para muitas economias emergentes, como o Brasil, Índia, México e África do Sul”, observou Bergsten, do PIIE, em seu depoimento no Capitólio. Num post de blog publicado em janeiro, o colunista do New York Times e ganhador do Nobel de economia, Paul Krugman, disse que “o mercantilismo chinês” já custou aos EUA 1,4 milhão de empregos.

Krugman, Bergsten e vários outros críticos da política chinesa dizem que embora a valorização do RMB talvez obrigue o consumidor americano e de outros países a pagar mais pelos produtos chineses antes baratos, isso tornará as exportações americanas mais atraentes tanto interna quanto externamente, o que, por sua vez, dará um forte impulso aos índices de emprego. Bergsten disse em seu depoimento que “cada US$ 1 bilhão em exportações sustenta cerca de 6.000 a 8.000 empregos de remuneração elevada na economia americana, sobretudo no setor de fabricação”.

Mas nem todo o mundo tem tanta certeza assim acerca do papel que o valor do RMB desempenhou durante a retração econômica mundial, ou tampouco está tão otimista em relação aos efeitos da nova política chinesa. “Os EUA precisavam de um bode expiatório para culpar pela crise”, diz Simon J. Evenett, professor de comércio internacional e de desenvolvimento econômico da Universidade de St. Gallen, na Suíça. Ele prevê que a discussão em torno da taxa de câmbio está longe de ter chegado ao fim. “Ela tem todos os ingredientes de um drama muito longo.” Enquanto isso, Evenett diz que as vantagens competitivas das empresas chinesas podem muito bem ficar mais fortes com o tempo, e não mais fracas. “Se o aumento do valor do RMB for gradual, isso simplesmente encorajará muitas companhias chinesas a modernizar seus produtos, em vez de tirar as empresas do mercado, conforme esperam alguns americanos. Os principais perdedores seriam as empresas dos EUA.”

Com relação aos trabalhadores americanos, Evenett prevê que um RMB mais forte não levará ao cenário cor-de-rosa que, segundo muita gente, um número maior de exportações e menor de importações produziria. Ele cita uma pesquisa recente sobre a produção e o emprego nos EUA que fez no início do ano juntamente com Joseph François, professor de economia da Universidade Johannes Kepler de Linz, na Áustria. A pesquisa constatou, por exemplo, que a maior parte das exportações chinesas para os EUA não se destinam aos consumidores americanos, e sim às empresas sob a forma de componentes e outros produtos não acabados. “Isso não se aplica apenas às importações da China, mas a todas as importações”, observam os dois professores em um artigo sobre suas descobertas publicado em abril no Voxeu.org, um site de análises políticas. “Consequentemente, as importações da China e de outros países desembocam na estrutura de custos gerais da economia americana influenciando dessa forma a competitividade global das empresas dos EUA.”

Além disso, observam os pesquisadores, “num mundo em que só fossem vendidos produtos acabados — em que o efeito principal das valorizações recaísse sobre os preços das exportações — faria sentido entender como uma coisa só a apreciação da moeda, as melhorias em conta corrente e a criação de empregos. Contudo, esse não é o mundo em que vivemos”. Evenett e François calculam que cerca de 420.000 empregos seriam sacrificados se o RMB fosse valorizado em 10%.

Um momento decisivo

Com relação ao que os chineses devem esperar da valorização de sua moeda, Wang, da CEIBS, chama a atenção para a importância de se analisar a questão juntamente com outra grande mudança: a elevação dos salários na China. “A China está passando por um momento decisivo”, diz ele. “Nos últimos 25 anos, os salários vêm crescendo menos do que o PIB. Isso fez com que surgisse no país um problema maior” do que a política cambial. O superávit em conta corrente do país, de cerca de 15% do PIB — resultante de desequilíbrios crônicos no consumo das economias —, tem um impacto negativo sobre a saúde econômica do país. “A menos que os salários cresçam mais depressa do que o PIB, não creio que consigamos atingir o reequilíbrio interno”, diz. “E foram os desequilíbrios internos que causaram os desequilíbrios externos.”

Marshall W. Meyer, professor de administração da Wharton, também acha que o aumento de salário tem um papel fundamental a desempenhar. “Os aumentos de salário funcionam como uma espécie de apreciação ‘oculta’ do RMB. Tenho certeza de que os preços subirão com o aumento dos salários, que terá de ser repassado aos consumidores — já que é isso o que significa, na verdade, valorizar o RMB. A menos, é claro, que as companhias chinesas imprimam alguma eficiência à produtividade ou aos processos de distribuição, o que evitaria que os preços ao consumidor não subissem tanto.”

Contudo, conforme observam Wang e Meyer, o governo está num beco sem saída no que se refere ao aumento de salários. “O governo não pode evitar os aumentos. Ele tem consciência de que seu lugar é ‘ao lado do povo’”, diz Meyer. Embora queira persistir na trajetória de crescimento do PIB, a única maneira de reduzir sua dependência das exportações e, ao mesmo tempo, aumentar o consumo interno, consiste em incentivar a possibilidade de salários mais elevados, acrescenta.

Conforme diz Wang, “os chineses precisam realmente controlar a velocidade da mudança, isto é, não podem permitir que a taxa de câmbio suba depressa demais. Seria um tiro na culatra, e muita gente perderia o emprego. Portanto, um aumento moderado dos salários — um pouco mais rápido apenas do que o crescimento do PIB — resolveria o problema”.

Wang acredita que é pouco provável que as exportações chinesas percam mercados internacionais importantes e que haja demissões no país com a valorização do RMB, uma vez que a China tem forte presença no mercado americano e em outros países. “É preciso ter em mente que não há substitutos a curto prazo para os produtos importados da China. Talvez daqui a dez anos os importadores tenham outra opção, mas atualmente não importar da China significa ter de pagar mais”, diz ele. “Nenhum outro país tem condições de atuar em escala tão grande. Alguns países tentarão fazê-lo; entretanto, construir uma base de fabricação e toda a infraestrutura de produção necessária — transporte, energia, toda uma cadeia de valor até o bem final — é algo que leva muitos anos.”

Não há dúvida de que a apreciação da moeda por si só não pode dar conta do grande desafio global, observam os especialistas. De acordo com Bergsten, “adequar-se com sucesso ao cenário internacional [...] requer uma ação corretiva por parte dos EUA, principalmente no que diz respeito ao déficit orçamentário do país e à baixa taxa nacional de poupança, porém essa correção terá de ser obra de outros países e da China também. Contudo, é impossível para os países com déficit reduzir seus desequilíbrios, a menos que os países superavitários reduzam os seus”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"China valorizará o renminbi: um pequeno passo de grande impacto?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [14 julho, 2010]. Web. [30 October, 2014] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/china-valorizara-o-renminbi-um-pequeno-passo-de-grande-impacto/>

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"China valorizará o renminbi: um pequeno passo de grande impacto?" Universia Knowledge@Wharton, [julho 14, 2010].
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