Cloud Drive e Cloud Player da Amazon: sucesso também na nuvem?

Com o lançamento do Cloud Drive e do Cloud Player, a Amazon.com leva para o plano virtual a gestão de mídia, permitindo ao consumidor armazenar e acessar remotamente suas músicas nos servidores da Amazon (ou, "na nuvem", conforme se diz) reproduzindo-as sempre que desejar no computador, no tablet ou no smartphone.

A decisão da empresa chama a atenção para o que deverá ser uma batalha gigantesca para dar ao consumidor opções de armazenamento e de gestão online dos seus arquivos digitais, uma vez que os analistas do setor esperam que a Apple e outras empresas lancem serviços similares de drives virtuais. Foi o que aconteceu em 10 de maio, quando o Google lançou um serviço de música em nuvem batizado de Music Beta. Assim como o serviço da Amazon, a intenção do Google é gerir bibliotecas de músicas e transmiti-las via streaming pela nuvem. "Não há dúvida de que a proliferação de aparelhos deu grande destaque à possibilidade de o consumidor acessar sua coleção digital diretamente da nuvem", avalia David Hsu, professor de administração da Wharton. "E isso não vai ficar só na música."

O Cloud Drive da Amazon é um serviço de armazenamento que permite ao consumidor salvar até 5GB de documentos, música ou outro conteúdo qualquer gratuitamente. Para ter direito a mais espaço, ele terá de pagar aproximadamente um dólar por gigabyte adicional ao ano, mas se comprar um álbum de mp3 da Amazon, ganha 20GB de brinde (um artifício que poderá ajudar a empresa a aumentar suas vendas relativamente fracas de música digital).

Com o Cloud Player, o usuário que guarda sua música na Amazon poderá acessá-la de qualquer aparelho móvel equipado com o Android e de PCs ou computadores da Apple. O Music Beta do Google funciona também em computadores e aparelhos com sistema operacional Android, e permite que o usuário faça o upload de 20.000 músicas. O serviço será gratuito inicialmente e, por enquanto, só será possível acessá-lo nos EUA mediante convite.

O Music Beta difere de serviços de streaming como o Pandora e o Spotify, que permitem ao consumidor ter acesso a uma coleção de músicas onde quer que esteja, mas não lhe permite fazer o upload da sua coleção pessoal. E diferentemente de um HD externo, ou de um pendrive, o usuário não precisa carregar nenhum aparelho a mais para fazer a ponte entre o computador, o celular e o tocador de mp3. "A Amazon está tentando mudar os hábitos de consumo de música", observa Peter Fader, professor de marketing da Wharton. "Nós nos resignamos a fazer toda espécie de ponte com inúmeros aparelhos. Sob alguns aspectos, é como se tivéssemos passado por uma lavagem cerebral que nos compelisse a isso."

Muita gente na indústria da música, porém, é contra os novos serviços de Cloud Player e Cloud Drive da Amazon, porque a empresa não paga os direitos de uso e reprodução das músicas armazenadas. A Amazon, entretanto, rebate dizendo que a empresa não precisa licenciar as músicas de propriedade do usuário. Em artigo publicado pelo New York Times, Craig Pape, diretor do setor de música da Amazon, comparou o Cloud Drive e o Cloud Plater a um disco rígido externo. Contudo, um representante da Sony Music disse ao Wall Street Journalque a empresa estava desapontada com o fato de que a Amazon estava promovendo o serviço sem a devida licença das gravadoras e dos estúdios de cinema.

Andrea Matwyshyn, professora de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton, diz que a transferência de conteúdo para a nuvem "é o modelo que melhor atende ao consumo de música". "O modelo da Amazon é uma evolução lógica para o consumidor que quer ouvir música em casa, no trabalho e em qualquer outro lugar". Em última análise, o modelo de licenciamento e de consumo de música diretamente da Internet será decidido pelos tribunais, acrescentou Matwyshyn.

A estratégia da Amazon suscita várias perguntas: O Cloud Drive e o Cloud Player vão garantir a permanência da empresa no mercado de música digital e farão dela uma concorrente mais forte do iTunes da Apple, que domina o segmento? A decisão da empresa de oferecer streaming de música ao consumidor obriga a Amazon a licenciar esse conteúdo? De que maneira o Cloud Drive e o Cloud Player impactam as perspectivas da empresa?

Corrida para a Nuvem

É impossível prever se a decisão da Amazon de recorrer à computação em nuvem aumentará sua participação no mercado de venda de música. A Apple domina os downloads digitais e é a maior varejista de todos os tempos, tendo eclipsado o Walmart em 2008. De acordo com a Nielsen Soundscan, a Apple é dona de 26,7% do mercado de música. A Amazon tem 7,1% desse mercado — sendo 1,3% referente às vendas de mp3.

"Acho interessante a iniciativa da Amazon", observa Dan Levinthal, professor de administração da Wharton. "Com isso, a empresa aproveita sua enorme infraestrutura de computação em nuvem [através de sua unidade de serviços de Web] permitindo-lhe, ao mesmo tempo, personalizar de maneira eficaz seu papel de distribuidora."

Fader concorda e salienta que "a Amazon está abrindo caminho e legitimando a música como serviço de nuvem. É só uma questão de tempo para que esse se torne o meio primordial de armazenamento e consumo de música". Contudo, quem chega primeiro raramente domina o mercado. É possível que a Amazon esteja apenas preparando o caminho para que a líder do segmento de música digital, a Apple, entre em cena, acrescenta. "A Apple não tem a infraestrutura necessária, mas tem a marca que transcende os atributos do produto."

De acordo com Karl Ulrich, professor de empreendedorismo e de comércio eletrônico da Wharton, a entrada tardia, porém decidida, da Apple nesse mercado, não seria nenhuma novidade. "O Google entrou tarde no segmento de busca. A Apple demorou para entrar no setor de celulares. Talvez não seja vantagem alguma para a Amazon entrar primeiro nesse mercado", diz Ulrich.

"Outras empresas verão de imediato de que maneira o consumidor reage ao serviço da Amazon e darão uma resposta à altura. Na verdade, quem chega primeiro faz uma pesquisa de mercado útil a quem vem depois."

O Google agora competirá com a Amazon; entretanto, a negociação das licenças com as grandes gravadoras talvez venha a ser um enorme desafio para a empresa, diz Levinthal. Quando o Google anunciou o lançamento do Music Beta esta semana, disse que o consumidor não poderá comprar novas músicas pelo serviço porque não fora possível chegar a um acordo de licenciamento com as gravadoras. "Os serviços atuais do Google baseiam-se em materiais sem proteção de copyright [assim como o projeto do Google Books], ou em materiais fornecidos pelo usuário. A empresa é novata no setor que, de certa forma, não tem muito a ver com seu modelo de negócio."

David Pakman, sócio da empresa de capital de risco Venrock, acredita que a utilização do serviço de música e de armazenamento em nuvem da Amazon "se limitará, provavelmente, aos clientes atuais da empresa". Pakman não acredita que a Amazon consiga melhorar muito sua participação nesse mercado. Pakman foi um dos fundadores, em 1999, da MyPlay, serviço de música digital disponível em drive virtual, e foi também CEO da eMusic, provedor de música digital online.

Mais cedo ou mais tarde, Fader acha que a Amazon, Microsoft, Apple, Google e, muito provavelmente, o Facebook, estarão no mercado de música em nuvem. "A nuvem é a primeira oportunidade de combate de igual para igual entre essas empresas", diz.

Primeiro, porém, os advogados

Com a ampliação da intersecção entre música e computação em nuvem, aumenta também a possibilidade de escaramuças jurídicas. A solução dessas dificuldades é "uma questão de contornos mais jurídicos do que tecnológicos", observa Kendall Whitehouse, diretor de novas mídias da Wharton. "A Amazon está no caminho certo", diz ele. "As pessoas querem ouvir a música que compraram em qualquer lugar, a qualquer hora, em qualquer aparelho. As gravadoras, porém, querem que as pessoas paguem separadamente por usos diferentes. No fim das contas, os tribunais decidirão o que eles poderão fazer com sua biblioteca de música."

Para Matwyshyn, uma disputa legal de licenciamento pode levar anos para chegar a um resultado final se for a julgamento. Uma das questões legais mais importantes envolvendo os "drives" virtuais de música é o cabo-de-guerra em torno dos modelos limitados e ilimitados de licenciamento. O que se tem aqui são músicas licenciadas para utilização limitada com base em fatores como: onde serão ouvidas (no cinema ou na televisão, por exemplo), quantas vezes poderão ser executadas ou copiadas. Acontece que os serviços de computação em nuvem permitem que o usuário ouça sua biblioteca em qualquer parte e em aparelhos diversos. Outro ponto de disputa com as gravadoras é que algumas músicas que o consumidor ouvirá em streaming podem ter sido obtidas ilegalmente.

"Do ponto de vista do proprietário do conteúdo, o objetivo é conseguir o maior número possível de fontes de receitas", diz Matwyshyn. "Os serviços em nuvem exigem modelos de licenciamento de tarifa ilimitada. O licenciamento baseado em fontes diferentes não seria intuitivo para o usuário. Por que, no caso da música, é diferente de ter cópias locais e em nuvem de um documento?" A lei é obscura quando se trata de transferência de conteúdo no tempo e no espaço — isto é, quando se trata de movê-lo e de acessá-lo, a critério do consumidor, em qualquer aparelho, acrescenta Matwyshyn.

Ulrich acha que a Amazon pode acabar vencendo se a disputa for decidida no tribunal. "Em princípio, a nuvem é simplesmente um aparelho de armazenamento virtual, bastante parecido com um pendrive ou mesmo com um CD. Contudo, os advogados certamente acharão alguma coisa aí pela qual brigar", diz Ulrich. "A questão se complica ainda mais porque os dados podem estar armazenados pelo fornecedor do serviço em vários locais da nuvem para um melhor desempenho e preservação de sua integridade."

Hsu diz que a indústria da música pode acabar chamando a atenção para a possibilidade de que os usuários abusem do sistema. "O que aconteceria se você franqueasse o acesso à sua biblioteca de música a um amigo? De que maneira esse conteúdo seria licenciado?", indaga Hsu. "Vai levar algum tempo até que se resolvam detalhes desse tipo."

Perspectivas da Amazon

Com o Cloud Drive e o Cloud Player, a Amazon talvez esteja tentando atingir dois objetivos: criar uma relação mais pessoal com o consumidor e construir um ecossistema que, em última análise, dê suporte a um tablet capaz de desafiar o iPad.

A imagem que se tem hoje da Amazon é a de um site de transações: o cliente o visita quando quer comprar alguma coisa. A Apple, em comparação, está muito mais próxima do consumidor, já que ele usa o iPhone, iPad e iPod de várias maneiras ao longo do dia. O Google tem uma situação semelhante, uma vez que a pesquisa é a porta de entrada para muitas das atividades de Internet. A natureza dessas interações permite ao Google e a Apple ter um relacionamento mais próximo com o usuário do que a Amazon. "A Amazon não faz parte do nosso cotidiano", diz Fader. "O consumidor está em contato com o Google, com a Microsoft e com Apple o tempo todo. Ele só procura a Amazon quando quer comprar alguma coisa. A Amazon quer estar presente na vida das pessoas várias vezes ao dia."

Whitehouse observa que a Amazon tem feito vários lançamentos que poderão ajudar a empresa a ficar mais próxima do seu cliente. O Kindle, leitor de livros digitais, é um companheiro frequente dos apaixonados por livros, e o serviço de streaming de filmes da empresa — gratuito para membros premium que pagam pelo uso gratuito e ilimitado do serviço durante dois dias — aproxima ainda mais o usuário da empresa.

Um tablet com a marca da Amazon também daria à empresa outro ponto de contato com o consumidor. Além de inaugurar um serviço de armazenamento em nuvem e outro de música, a Amazon lançou há poucos meses um mercado de aplicativos para Android e criou uma versão tablet mais avançada do Kindle para aparelhos com Honeycomb (3.0).

Sarah Rotman Epps, analista da Forrester Research, disse em um post de blogque a maior parte dos tablets concorrentes não está à altura da loja de aplicativos [App Store] e da estratégia integrada da Apple. Epps, porém, diz que a Amazon é a única empresa devidamente equipada para concorrer com a Apple. "A Amazon poderia criar um Android convincente — ou um tablet com sistema operacional Linux que oferecesse fácil acesso à loja da Amazon (e também, em breve, à loja de aplicativos Android), além de recursos diferenciados, como a compra com um clique apenas, serviços prime e o motor de recomendações da empresa", diz Epps. Ao contrário de outros concorrentes, a Amazon tem a motivação (vide as tentativas da Apple de entrar no mercado de livros eletrônicos e de outros conteúdos digitais), o modelo de preços (poderia vender seu tablet a preço de custo, ou menos, compensando a diferença com ofertas tentadoras de conteúdo), visibilidade da marca e um nível de tranquilidade para o consumidor suficientes para romper com o domínio do iPad no mercado de tablets, diz Epps.

Para Matwyshyn, com o Cloud Drive e o Cloud Player, "a Amazon está tentando deixar para trás a imagem de loja onde se pode comprar de tudo. A empresa está sondando o terreno em busca de um espaço de mídia que atenda seus objetivos. Faz sentido". Na próxima década, acrescenta Fader, as atenções não estarão em torno do melhor aparelho disponível no mercado, e sim do modelo de serviço mais conveniente e da melhor interface. "As pessoas terão em mãos alguma coisa que lhes permitirá ter acesso a todo o conteúdo desejado. O segredo consistirá em levá-lo ao consumidor de maneira intuitiva."

Para Hsu, é evidente que, com o Cloud Drive e o Cloud Player, e outras estratégias, a Amazon está tentando romper as plataformas existentes para tirar proveito da formidável base de clientes da Apple. "São poucas as empresas em condições de desbancar a Apple. A Amazon tem os ativos necessários para competir com ela", diz Hsu. "O problema é que a Amazon terá de superá-la para que os clientes decidam fazer a troca."  

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Cloud Drive e Cloud Player da Amazon: sucesso também na nuvem?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [01 June, 2011]. Web. [28 May, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/cloud-drive-e-cloud-player-da-amazon-sucesso-tambem-na-nuvem/>

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Cloud Drive e Cloud Player da Amazon: sucesso também na nuvem?. Universia Knowledge@Wharton (2011, June 01). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/cloud-drive-e-cloud-player-da-amazon-sucesso-tambem-na-nuvem/

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"Cloud Drive e Cloud Player da Amazon: sucesso também na nuvem?" Universia Knowledge@Wharton, [June 01, 2011].
Accessed [May 28, 2020]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/cloud-drive-e-cloud-player-da-amazon-sucesso-tambem-na-nuvem/]


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