Clubes de futebol da Espanha terão ações em bolsa

O futebol profissional vive um bom momento na Espanha. O Real Madrid acaba de vencer o campeonato europeu ao derrotar em partida decisiva o também espanhol Atlético de Madrid. Por outro lado, depois de vários anos de fairplay financeiro para sanear suas contas, os clubes, com algumas exceções, se acham em uma situação ideal para atrair a atenção não apenas dos fãs, mas também dos investidores.

Em entrevista concedida a Universia-Knowledge@Wharton, o diretor geral corporativo da Liga de Futebol Profissional (LaLiga), Javier Gómez, mostra-se favorável à facilitação de entrada de fundos de capital de risco no mercado de contratação e, inclusive, está convencido de que os times espanhóis têm tamanho e credibilidade financeira suficiente para negociar ações na bolsa.

Universia-Knowledge@Wharton: Qual a situação financeira atual do futebol espanhol?

Javier Gómez: Atualmente, o futebol profissional se acha saneado tanto na primeira quanto na segunda divisão, se entendermos saneamento como a inexistência de uma situação generalizada de dívida ou risco de falência. Contudo, é verdade que a Segunda Divisão A, chamada de Liga Adelante, devido à sua estrutura de receitas e à dificuldade de fazê-las crescer ― embora parta de uma base muito menor ―, contabiliza um certo atraso de um ou dois anos em relação à Primeira Divisão, a Liga BBVA, no que diz respeito aos lucros.

Desse modo, embora durante a temporada 2014-2015, conforme mostra um relatório que publicamos em 30 de março passado, o futebol profissional da Espanha tenha ganho em seu conjunto 183,4 milhões de euros, a Liga BBVA ganhou 187,3 milhões, ao passo que a Liga Adelante perdeu 3,9 milhões. Calculamos que na temporada 2015-2016 essa situação será superada e a Liga Adelante poderá entrar, finalmente, na trilha dos lucros.

Por outro lado, a dívida líquida da LaLiga diminuiu em sua totalidade em 81,8 milhões de euros em relação à temporada anterior. Nesse sentido, o grande esforço foi feito pelos clubes que integram o grupo denominado LaLiga Neteada (40 clubes), isto é, a reunião de todos os clubes que participam da LaLiga, exceto as duas equipes que geram o maior volume de receitas (Real Madrid e Barcelona), os quais reduziram sua dívida em 168,5 milhões de euros, embora, logicamente, fossem essas as equipes que tinham uma situação menos equilibrada nesse aspecto.

UK@W: Que lições se pode tirar da gestão dos últimos anos? Que erros deveriam ser evitados no futuro e quais foram os acertos?

J.G.: Com relação aos acertos, o principal deles foi a conscientização por parte dos clubes de que o caminho para continuar a desenvolver o futebol profissional na Espanha até o nível em que todos estamos convencidos que ele deve ocupar passa por um saneamento de sua situação financeira e pela vontade das equipes, diante de uma situação de não pagamento generalizado, de recorrer a ferramentas coercitivas que permitam a LaLiga tomar o controle da situação e reorientar suas finanças.

Por outro lado, com relação aos erros, a permissividade generalizada que se produziu nas Administrações Públicas , as quais, ante reiterados não pagamentos de dívidas por parte dos clubes e sociedades anônimas esportivas, responderam ampliando prazos sistematicamente para o pagamento das dívidas e injetando dinheiro nos clubes de modo que eles ficassem em uma situação irreal de receitas que provocou a realização de perdas quando, em uma situação de crise, não havia mais receitas e não foram concedidos mais prazos. Os clubes foram responsáveis por sua má gestão durante uma determinada época, mas não é menos certo que pela ação das Administrações Públicas foram considerados estruturais recursos que eram conjunturais, e que desapareceram na época de crise.

É preciso salientar que uma parte muito importante do esforço para reduzir a dívida foi destinada à regularização da situação da dívida com a Agência Tributária (AEAT) e, inclusive, sua amortização antecipada em relação ao calendário combinado. Nesse sentido, de junho de 2014 a dezembro de 2015, a dívida conjunta dos clubes de futebol profissional com a AEAT e Autoridades Financeiras (País Basco e Navarra) diminuiu, passando de 447,3 para 278,3 milhões de euros.

A partir desse momento, pode-se falar de problemas de clubes ou de sociedades anônimas desportivas individuais, mas em nenhum caso de uma situação de desequilíbrio no futebol profissional espanhol.

UK@W: Que medidas a LFP tomou para impulsionar o fairplay financeiro?

J.G.: Já antes de sua eleição em maio de 2013 à presidência da LaLiga, Javier Tebas foi um dos impulsionadores da modificação dos estatutos da associação mediante a qual se incorporou uma norma semelhante à do fairplay financeiro da UEFA. Na Espanha, ela foi chamada de “Controle Econômico a Posteriori” e permite o acompanhamento da situação financeira dos clubes. Em função de determinados parâmetros, LaLiga estabelece um regime que a capacita a penalizar os clubes que não estiverem pagando suas dívidas e exigir deles planos de ajustes para estabilizar sua situação financeira e regularizar seus débitos, principalmente com a Agência Tributária. Tebas estava convencido de que a reestruturação do futebol profissional era necessária para que se obtivesse um incremento significativo da influencia da LaLiga em âmbito nacional e internacional e, portanto, permitisse atrair as operadoras de televisão que facilitassem o incremento do valor dos direitos de retransmissão e, desse modo, das receitas dos clubes. Este é um dos grande pilares sobre o qual assenta sua candidatura a presidente.

Uma vez eleito presidente, com a entrada da atual diretoria, seria implantado um cronograma de cumprimento rigoroso da mencionada modificação dos estatutos, obtendo-se em três anos uma mudança radical da situação financeira do futebol profissional da Espanha.

Contudo, diferentemente da UEFA, no caso de uma liga nacional, o “Controle Econômico a Posteriori” se mostrou insuficiente, já que, também diferentemente da UEFA, o objetivo da LaLiga não era que, na competição dos clubes, houvesse uma boa situação econômica, eliminando dela, portanto, o resto, mas sim uma reestruturação da situação financeira do futebol profissional. Nesse momento, foi desenvolvido e aprovado pelos clubes o “Controle Econômico a Priori”, que estabelecia um novo regime de não cumprimentos  e sanções que permitia exigir dos clubes orçamentos ainda não equilibrados, mas que permitissem gerar recursos para atender às suas obrigações e, portanto, estabilizar os clubes financeiramente impedindo o gasto excessivo. Essa era a grande revolução do Controle Econômico da LaLiga, sua capacidade de influenciar os orçamentos dos clubes e o gasto deles antes que houvesse prejuízos.

UK@W:  Algumas das decisões tomadas pela LFP, como a retirada da contratação do jogador do Getafe, Pedro León, por superar o limite salarial imposto pelo clube, foram logo corrigidas, pelo menos temporariamente, por juízes da vara empresarial. Por falta de jurisprudência clara, qual o limite entre liberdade de empresa das equipes e as regras do fairplay financeiro?

J.G.: A jurisprudência, graças às últimas sentenças referentes precisamente a Pedro León, em 31 de março passado, está fortalecendo a posição da LaLiga em relação à possibilidade de aplicar os regimes sancionados derivados do “Controle Econômico a Priori” e “A Posteriori”. De igual modo, o órgão regulador fez algumas mudanças necessárias na lei que permitem exigir dos clubes que participam de uma liga profissional a obediência a determinadas regras de cumprimento financeiro.

Com relação ao possível conflito entre liberdade de empresa e as regras do fairplay financeiro, e recorrendo a argumentos que o Tribunal Superior de Justiça de Madri apresenta em relação ao caso de Pedro León, o esporte é uma atividade em se deve considerar a existência de uma dimensão adicional à de outras atividades econômicas, no sentido de que é preciso possibilitar a existência de uma competição em que todos os participantes contem com um marco normativo homogêneo que impeça a existência de diferenças competitivas entre eles. Sem dúvida alguma, qualquer esporte, e o futebol profissional em particular, tem uma dimensão econômica e financeira que se assemelha a qualquer outra sociedade anônima. Contudo, os responsáveis pela organização da competição devem zelar para que ela seja justa e que os não pagamentos no plano financeiro não possibilitem uma vantagem competitiva em relação a outro participante.

UK@W: Que objetivos tem a LFP em relação às finanças no futuro e como espera cumpri-los?

J.G.: Os objetivos para as próximas temporadas são basicamente a volta dos clubes e sociedades anônimas esportivas aos circuitos tradicionais de financiamento. Para isso contamos com vários projetos em andamento entre os quais eu destacaria, por sua importância e novidade no plano internacional, o desenvolvimento de um sistema de qualificação homogêneo para todos os clubes de futebol profissional que permita estabelecer uma classificação para cada entidade em função da sua situação financeira.

UK@W: Está prevista na Espanha a modificação da distribuição das receitas por direitos audiovisuais do futebol a exemplo do que se vê no Reino Unido?

J.G.: Desde 30 de abril de 2015, a distribuição das receitas derivadas dos direitos audiovisuais dos clubes é regulada por um decreto real que passará a ser aplicado a partir da temporada 2016-2017. Esse DR [Decreto Real] estabelece uma série de parâmetros com o objetivo de tornar mais equitativa a distribuição de receitas derivadas da comercialização dos direitos de exploração de conteúdo audiovisual entre todos os clubes e sociedades anônimas esportivas participantes. O resultado da aplicação desses critérios permite que se passe de uma diferença de 1 para 7 entre a equipe que menos e mais receitas gera por esse conceito, para uma proporção que, na próxima temporada, já atingirá o objetivo fixado de 1 a 3,5 vezes. Consideramos esse passo mais do que importante, e o futuro nos dirá que caminho deveremos continuar trilhando.

UK@W: O que seria preciso mudar no futebol espanhol para sanear a situação financeira dos clubes? Está prevista a criação de algum novo canal de financiamento?

J.G.: Conforme eu disse anteriormente, em nossa opinião, a situação financeira dos clubes está saneada de modo geral. Seja como for, em relação àqueles clubes que, individualmente, têm problemas financeiros, foram abertos novos canais de financiamento. O primeiro deles é a possibilidade de obter financiamento com a garantia dos direitos audiovisuais de todos os clubes para honrar a dívida com a Agência Tributária. O que se pretende é que os clubes, através da LaLiga e com a certeza da recuperação dos recursos prestados, possam apoiar determinados clubes que, por sua situação, teriam dificuldades para conseguir financiamento nos mercados que lhes garantissem fundos que permitissem atender os seus compromissos com a Agência Tributária.

O segundo canal surge como consequência do aumento das garantias que se podem oferecer a uma instituição financeira derivado do aumento das receitas recebidas pela comercialização dos direitos audiovisuais.

Seja como for, e como fruto da melhora que já comentamos, estamos observando a volta dos clubes e das sociedades anônimas esportivas de futebol profissional ao circuito tradicional de financiamento, o que supõe o acesso a fontes de capital que durante anos não estiveram disponíveis.

UK@W: Qual a opinião da LFP sobre a possibilidade de que o capital de risco invista na contratação de jogadores de futebol através de seus direitos econômicos, reduzindo assim a exposição dos clubes nas grandes contratações?

J.G.: Não se trata de redução da exposição dos clubes nas grandes contratações, e sim ― e aqui estamos falando efetivamente da liberdade de empresa e do direito à livre concorrência que mencionamos anteriormente ― de não proibir uma determinada fonte de financiamento que consideramos lícita e absolutamente necessária, no caso do futebol profissional espanhol, para que ele mantenha sua capacidade de concorrência com outras ligas. Achamos necessária a regulação dessa atividade no esporte em geral e do futebol profissional em particular para evitar os possíveis aspectos negativos que poderiam advir de uma posição de controle do capital de risco em vários clubes simultaneamente e que, portanto, poderia afetar o equilíbrio da concorrência. Contudo, em nenhum caso consideramos lógica uma proibição absoluta.

UK@W: O que podem ou devem fazer os clubes para incentivar o investimento privado?

J.G.: O caminho que, em nossa opinião, devem seguir as sociedades anônimas nos próximos anos para incentivar o investimento privado não é outro senão o de se converter em valores seguros e confiáveis. Os resultados econômicos, graças ao aumento das receitas obtidas pelos clubes e pelo controle demonstrado no uso deles para fortalecer sua estrutura financeira, os colocam em um caminho de crescimento que deverá se traduzir eficazmente no mercado mediante o aumento da qualidade e da transparência da informação oferecida, de modo que adquiram prestígio como instituições nas quais investir.

O investimento privado atende àquelas atividades que são rentáveis e confiáveis. A rentabilidade está se tornando possível graças ao aumento das receitas e ao controle dos gastos, de modo que é preciso perseverar para que cresça a confiança.

UK@W: Algum clube lançará ações na bolsa espanhola? Será prudente fazê-lo? E, nesse caso, o que deveria mudar para que cheguemos a ver uma equipe espanhola na bolsa?

J.G.: No futebol profissional, já existem, em nossa opinião, instituições com tamanho suficiente para  negociar suas ações nos mercados de capitais. Nesse sentido, a resposta seria a mesma que no caso anterior: melhora na qualidade e transparência de informação transmitida ao mercado por parte dos clubes lhes permitirá se converterem em organizações que interessam aos  investidores e, portanto, sim, veremos clubes com ações em bolsa.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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