Coca-Cola, estimativas trimestrais e “O jogo dos números”

Quando a Coca-Cola anunciou em meados de dezembro que abandonaria sua antiga prática de publicar previsões de lucros trimestrais, esta decisão mais pareceu uma heresia. Praticamente todas as companhias de capital aberto participam do ritual que se utiliza da orientação por lucros. E na era pós-escândalos da Enron, WorldCom e Tyco, as entidades reguladoras e os investidores estão fazendo pressão por mais divulgação financeira, e não menos.

 

O que está por trás da decisão da Coca-Cola? Ela será imitada por outras companhias?

 

De acordo com a Coca-Cola, as previsões trimestrais estavam desviando seu enfoque da estratégia de longo prazo. Embora a companhia deixe de fazer projeções de lucro por ação com precisão de centavos, como fazia no passado, a Coca-Cola continuará a discutir sua estratégia e os fatores que influenciam os lucros.

 

“Estamos bastante à vontade para medir nosso progresso à medida que o atingimos, ao invés de nos concentrarmos no estabelecimento e na concretização das previsões que publicamos”, declarou o presidente e diretor executivo da Coca-Cola, Douglas Daft. “Nossos acionistas estão em melhor situação com isso, pois não devemos administrar nossos negócios com base em ‘expectativas’ de curto prazo. Estamos administrando esse negócio com uma perspectiva de longo prazo”.

 

Alguns analistas observam que a Coca-Cola tem sido criticada por praticar uma contabilidade questionável e por previsões que não se concretizaram; o anúncio deixa uma leve impressão de que a companhia estava tirando seu time de campo. A Coca também tem bons motivos para pedir aos investidores que se concentrem no longo prazo, considerando que o total de lucros nos últimos cinco anos registra um resultado negativo de 30%, bem pior do que os 6% de perdas publicados pela Standard & Poors 500.

 

Além disso, alguns analistas ressaltam que a Coca está entre as primeiras que responderam às preocupações dos investidores após o escândalo da Enron, anunciando no ano passado que começaria a lançar como despesa a concessão de stock options. Abolir a previsão de lucros é outra forma de reduzir a publicidade exagerada e a distorção nas publicações financeiras, disseram esses admiradores da empresa. Dezenas de companhias seguiram o exemplo da Coca-Cola na contabilização de opções, porém o anúncio sobre a previsão de lucros não inspirou nenhum imitador até agora.

 

De acordo com a maioria dos relatos, o estímulo imediato veio provavelmente de Warren Buffett, um grande acionista da Coca-Cola e administrador que há muito tempo evita o jogo da orientação em sua própria companhia, a Berkshire Hathaway. Como investidor, Buffett tem os olhos voltados para o longo prazo; investidores dessa estirpe há muito tempo alegam que os executivos tentam cumprir suas previsões de lucro trimestral e se concentram em resultados de curto prazo às custas da estratégia de longo prazo, que deveria ser mais importante.

 

Mais grave ainda, a prática da previsão trimestral incentiva os executivos das corporações a “controlar” ou manipular lucros. Durante o trimestre, o diretor executivo pode, primeiramente, fazer comentários positivos sobre as projeções de sua companhia, depois emitir uma nota no final do trimestre para que os analistas estabeleçam previsões modestas, provocando um efeito positivo que estimula o preço das ações.

 

O ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários Arthur Levitt afirmou, num conhecido discurso de 1998 intitulado “O jogo dos números”, que a gestão de lucros se tornara um grave problema à medida que os executivos lutam para atender às expectativas de Wall Street. “Com o passar dos anos, esse processo evoluiu até o ponto em que pode ser caracterizado como um jogo do mercado – um jogo que se não merecer nossa atenção trará conseqüências adversas”, disse Levitt. De fato, os escândalos da Enron no ano passado, entre outros, envolveram estratagemas contábeis para fazer com que os resultados de curto prazo parecessem melhores do que eram.

 

“Sabemos que esses manipuladores podem obter tudo o que quiserem no próximo trimestre”, disse o professor de finanças da Wharton Andrew Metrick. “Há milhões e milhões de estratagemas contábeis, como antecipar lucros e retardar custos”.

 

Embora quase todos concordem que a gestão de lucros é uma prática ruim, os analistas não afirmam que as previsões trimestrais levam inevitavelmente a essa prática. Metrick sugere que se todas as empresas seguissem o exemplo da Coca-Cola os efeitos seriam positivos. “Aprendemos que essas estimativas trimestrais não são tão informativas, seria bom se as companhias se distanciassem dessa prática”.

 

Metrick e outros analistas observam que a questão se resume realmente ao que dizem os executivos. “Se a orientação é usada para aumentar artificialmente as estimativas, isso é ruim”, ressalta o professor de finanças da Wharton Jeremy Siegel. “Mas se essas orientações significarem alguma coisa, não vejo problema nelas”.

 

De acordo com o professor de contabilidade David Larcker, o problema é agravado pelas normas de contabilidade americanas, que dão às companhias várias alternativas para compilarem seus números. A auditoria tende a se basear num tipo de sistema de verificação que julga a empresa pelas aparências, embora na realidade esteja mostrando um retrato enganoso de seus resultados. “Há uma tremenda arbitrariedade na maneira como se faz contabilidade”, disse. “Ela pode ser tão simples quanto optar pelo curto ou longo prazo para depreciar ativos… Alguns registros contábeis podem ficar bem disformes”, como o que aconteceu na WorldCom. Na Europa, acrescenta, as companhias seguem  uma norma que enfatiza a precisão do panorama como um todo.

 

O professor de contabilidade Brian Bushee concorda que a atenção dispensada às previsões dá aos diretores executivos um incentivo de curto prazo para manipular resultados, e acrescenta que a Lei Safe Harbor, de 1995, exime os executivos de responsabilidade legal caso suas previsões estejam erradas. Por outro lado, disse, a maioria dos executivos reconhece que sua reputação corre riscos no longo prazo.

 

A pesquisa de Bushee sugere que a Coca-Cola pode ter outro motivo para abolir as previsões trimestrais – mudar o perfil de seus proprietários, os acionistas. As companhias que fazem várias publicações financeiras tendem a atrair “investidores passageiros” que negociam com freqüência, sempre que se publicam boletins corporativos. Além dos candidatos óbvios, conhecidos como especuladores, os investidores passageiros incluem instituições como administradoras de fundos mútuos com altas taxas de rotatividade, carteiras altamente diversificadas e estratégias de investimento agressivas que requerem a compra de ações com surpresas positivas de lucro.

 

“O problema é que quando uma companhia atrai mais investidores transitórios com uma política mais ampla de divulgação, o preço da ação tende a se desestabilizar devido à freqüência dos negócios e à reação exagerada decorrente de novas notícias”, disse.

 

Investidores transitórios tendem a se concentrar em resultados de curto prazo e não se preocupam com a estratégia de longo prazo. Quando uma companhia possui muitos acionistas com esse perfil, o executivo sofre pressões para demonstrar lucros imediatos, mesmo que isso acarrete conseqüências para os ganhos de longo prazo. Na verdade, disse Bushee, um de seus estudos constatou que as empresas com alto grau de controle acionário transitório estão mais propensas do que outras a reduzir gastos em pesquisa e desenvolvimento, com vistas a reforçar os lucros imediatos. “Reduzir o investimento de longo prazo para cumprir objetivos de curto prazo é sem dúvida ruim, portanto, se a decisão da Coca-Cola puder eliminar essa pressão e permitir que ela se concentre em maximizar o valor de longo prazo, então os acionistas estarão de fato em melhor situação”.

 

Ao abolir as previsões de lucro trimestral, a Coca-Cola pode parecer menos atraente para os investidores transitórios, deixando maior controle nas mãos de investidores que compartilham a opinião da empresa, onde o longo prazo, e não o curto, é o que importa. Esses investidores podem ter o perfil necessário para esperar pacientemente que os executivos da Coca encontrem uma maneira de levantar a empresa.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Coca-Cola, estimativas trimestrais e “O jogo dos números”." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [12 March, 2003]. Web. [19 November, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/coca-cola-estimativas-trimestrais-e-o-jogo-dos-numeros/>

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Coca-Cola, estimativas trimestrais e “O jogo dos números”. Universia Knowledge@Wharton (2003, March 12). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/coca-cola-estimativas-trimestrais-e-o-jogo-dos-numeros/

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"Coca-Cola, estimativas trimestrais e “O jogo dos números”" Universia Knowledge@Wharton, [March 12, 2003].
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