Com o crescimento das economias em desenvolvimento, as cadeias globais de valor enfrentam um momento decisivo

No "paradigma dos gansos voadores", o economista japonês Kaname Akamatsu explica que as empresas se reestruturam em busca de custos de mão de obra mais baratos repassando as atividades de baixo valor para países vizinhos menos desenvolvidos. Hoje, isso é mais verdadeiro do que nunca, na medida em que as cadeias globais de valor (CGVs) se veem diante de um momento decisivo. Em outras palavras, as CGVs analisam de forma mais abrangente as cadeias de valor coordenadas por empresas multinacionais, mas também levam em conta análises econômicas dos países envolvidos em outras atividades.

No ano passado, pela primeira vez na história, as economias em desenvolvimento atraíram mais investimento externo direto (IED) — 52% — do que as economias desenvolvidas, de acordo com o último relatório sobre IED da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) e Da Organização Mundial do Comércio (OMC). O impacto desse relatório sobre as CGVs pode ser substancial, avaliam os especialistas da indústria.

"Há inúmeras mudanças em andamento. A cadeia global de valor está em fluxo", observa Morris A. Cohen, professor de gestão de operações e de informações da Wharton. As redes de abastecimento internacionais estão em operação há décadas, porém o ritmo da expansão do comércio mundial foi muito acima da taxa de crescimento do PIB global. "A recessão de 2008-2009 aumentou ainda mais o comércio com as economias em desenvolvimento", acrescenta Anthony Mistri, especialista em economia da Organização Mundial do Comércio (OMC). "As nações têm muitas fronteiras, mas isso não se aplica mais às empresas."

Como as CGVs estão mudando

Em 1990, os países em desenvolvimento tinham uma participação de 20% no comércio mundial. Atualmente, esse percentual é de mais de 40%. Além disso, as companhias transnacionais coordenam em torno de 80% do comércio mundial, conforme dados da UNCTAD. Esse impacto é particularmente significativo nas economias em desenvolvimento, onde o comércio de valor agregado contribui com aproximadamente 1/3 do PIB de um país em comparação com praticamente 1/5 das nações desenvolvidas.

Quanto mais investimentos diretos houver em um país, maior será o nível de participação das CGVs, disso resultando um maior valor agregado no mercado interno. Além disso, as economias em desenvolvimento com participação efetiva das CGVs podem elevar o crescimento do PIB per capita em 2% acima da média, observa Axèle Giroud, especialista da UNCTAD que ajudou o autor na confecção do relatório. Contudo, esse tipo de mudança não acontece da noite para o dia.  

As CGVs se adaptam de maneira dinâmica, porém dependendo do setor, as cadeias de fornecedores mudam de formas diferentes. "Observamos a desintegração ou a fragmentação das cadeias de valor na manufatura", diz Ann Harrison, professora de administração da Wharton. Na agricultura, entretanto, o que se vê é o oposto. O agronegócio está cada vez mais integrado."

"Os avanços tecnológicos atuais fizeram com que os processos se tornassem mais fragmentados", observa Mistri. "O aperfeiçoamento das comunicações facilitaram as atividades de operação à distância, não apenas no caso das matérias-primas ou do planejamento dos componentes, mas também no segmento de serviços e gerenciamento. A participação nas CGVs pode começar com o menor dos componentes — e para isso não há necessidade de construir uma fábrica totalmente nova — criando mais oportunidades de participação."

A China saltou do sexto para o terceiro lugar no ranking dos maiores investidores do mundo, atrás dos EUA e do Japão, diz Giroud. Embora a economia chinesa ainda seja considerada oficialmente uma economia em desenvolvimento, acrescenta Cohen, discute-se se a nação estaria em "desenvolvimento" ou se seria "desenvolvida".

De acordo com Marshall L. Fisher, professor de gestão de operações e de informações da Wharton, a China "deixou de ser o lugar mais barato para se produzir as coisas, por isso mesmo as pessoas estão se perguntando cada vez mais para onde ir agora". De fato, embora o custo de mão de obra na China esteja crescendo 20% ao ano, os aumentos de salário nos EUA estão crescendo lentamente em torno de 2% devido ao desemprego e à recessão, diz Cohen, acrescentando que "a vantagem da mão de obra está desaparecendo, e esse ponto de desequilíbrio" pode trazer de volta o emprego para os EUA, um fenômeno chamado de re-shoring. A General Electric anunciou recentemente que está reabrindo uma fábrica no Kentucky, enquanto a Apple planeja começar a montar Mac Pros nos EUA, informou a empresa em junho.

O near-shoring poderia transferir empregos da Ásia para o México. A China está desenvolvendo fornecedores nos mercados de mão de obra barata, como Vietnã, Camboja e Indonésia, diz Cohen.

Desafios e soluções

Embora os especialistas há tempos considerem a Ásia a região por excelência da mão de obra barata, essa realidade está mudando rapidamente. O continente africano, por exemplo, é um dos menos desenvolvidos, mas é também a região que apresenta possivelmente o maior potencial. "O IED caiu significativamente no mundo todo em 18%, ao passo que os influxos na África cresceram 5%. Esse é sem dúvida um sinal positivo para aquele continente. Pode não parecer muita coisa, mas ganha importância num momento em que caíram nas demais regiões", observa Giroud.

Contudo, embora as economias desenvolvidas retenham 31% do valor agregado das exportações, a África retém apenas 14%, e a Ásia, 27%, conforme relatório da UNCTAD. Isso se deve, em parte, ao fato de que as indústrias extrativas contribuem em grande parte com as exportações africanas, embora a parte final do processamento seja lamentavelmente pouco desenvolvida. Edwin Keh, professor da Wharton e ex-diretor de operações da divisão mundial de compras do Walmart, dá a esse fato o nome de "maldição da abundância dos recursos naturais. Ano após ano, petróleo e minério são extraídos do solo. Os países africanos não precisavam fabricar coisa alguma para atender às suas necessidades. Mas, e quando esses recursos se esgotarem?", indaga.

A África, por exemplo, é  o maior produtor mundial de castanha de caju, porém cerca de "90% da lavoura é exportada sem beneficiamento para países como a Índia e o Vietnã e dali é enviada para os EUA e para a Europa para torrefação", diz Miriam Gyamfi, da African Cashew Alliance (ACA), em Gana. "Isto significa que a África, maior produtor de castanha de caju, perde a parte mais importante da cadeia de valor do produto — o processamento da castanha. A missão da ACA consiste em ajudar as indústrias de caju possibilitando o acesso ao financiamento, à assistência técnica criando, ao mesmo tempo, conexões de mercado com as indústrias internacionais." A organização trabalha com empresas como a Kraft, Costco e Red River Foods.

Comparativamente, o processamento e a manufatura na Ásia respondem por uma parte significativa do valor de exportação, preservando dessa forma um volume maior de benefícios econômicos para a região.

As disparidades apontam para a necessidade de os países em desenvolvimento traçarem um plano mais sofisticado para maximizar seu papel nas CGVs com "boa infraestrutura, educação e know-how; capacidade de produzir de acordo com padrões internacionais reconhecidos; segurança financeira e estabilidade geopolítica, para citar apenas alguns itens imprescindíveis", diz Mistri. "Basicamente, quanto menos riscos para o empreendimento houver em um país, maiores serão suas chances de atrair empresas multinacionais."

De acordo com Fisher, "nos últimos dois ou três anos, a África se tornou mais visível no radar de muita gente que vê no continente a nova terra da oportunidade". Keh acrescenta: "A África atrai porque quem chega lá primeiro, ganha mais. O continente africano é extremamente subdesenvolvido em comparação com a China e a América Latina."

Outro desafio é a estabilidade política. "Precisamos de lei, regras e regulamentos, além de práticas contábeis que sejam aceitas no mundo todo", diz Keh. "Precisamos de uma transição ordeira de governos e um serviço público eficaz . As joint ventures constroem uma economia, mas precisamos de contratos de longo prazo que perdurem de dez a 15 anos."

Peter Draper, pesquisador bolsista sênior do Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais, acrescenta: "Houve inúmeros problemas com os governos da África subsaariana. Eles cederam aos lobbies, à corrupção etc. As coisas estão melhorando, mas precisam melhorar muito mais."

Enquanto isso, os empresários africanos descobriram maneira novas e criativas para se adaptar a esses obstáculos, diz Mistri. Por exemplo, o M-Pesa é um sistema móvel de finanças que funciona por meio de redes de celulares, e não de bancos físicos. Bethlehem Tilahun Alemu, fundadora da soleRebels, empresa de calçados da Etiópia que tem uma política de não agressão ao meio ambiente, produz sapatos e sandálias da matéria-prima ao produto acabado dentro do país antes de exportá-los anualmente para o mundo todo num total de US$ 6 milhões. "As nações em desenvolvimento, conforme mostrou a soleRebels, devem estar dispostas a reinterpretar a forma como apresentam seus ativos e depois encontrar meios de reposicioná-los e realavancá-los no mundo todo. Com isso, virá à tona um potencial antes invisível", diz Alemu.

Na Espanha, essa estratégia de negócio tem dado certo para a grife de roupas Zara. Harrison diz que a empresa contrariou a tendência global ao desenhar todos os seus produtos e fabricar 50% deles na Espanha. "A empresa diz que desse modo pode responder rapidamente às tendências da moda. Funcionou para eles", diz Harrison.

De acordo com Isaac Esseku, empresário que trabalha em um empreendimento que pretende abrir uma rede de varejo supermercadista em Gana, "não há uma cadeia evidente de fornecedores que possa interagir com a produção local. Não há instalações refrigeradas para armazenamento de produtos, portanto o desperdício é grande. O sistema de transportes tem tráfego ruim e as estradas estão em mau estado de conservação, o que é um desafio. Nas redes de supermercados de estilo ocidental que operam na África e no mundo em desenvolvimento, é mais fácil vender bens embalados importados da Europa, porque o prazo de validade é bem longo". Seu plano é ampliar as cadeias locais de fornecedores em círculos concêntricos para criar redes regionais.

"A verdade é que as cadeias locais de fornecedores não são prioridade do governo. Ele deveria se concentrar, e com razão, na infraestrutura básica — estradas, rede elétrica —, mas tudo isso é feito com muita morosidade", diz Esseku. "A agricultura como commodity de exportação, como no caso do cacau, é enfatizada, mas deveria haver um plano de sustentação da agricultura local para que se criasse circulação de riqueza no sistema."

O segredo das CGVs "consiste em não depender da cadeia vertical para impelir os produtores de pequeno porte em direção à produtividade e à prosperidade", observa Bill Vorley, pesquisador do Instituto Internacional de Meio Ambiente e Desenvolvimento de Londres. Ele cita o sucesso da Agência de Desenvolvimento  do Chá do Quênia, com 150.000 acionistas e responsável pelas operações de 63 fábricas processadoras. A instituição fez uma parceria com a Unilever, o que lhe rendeu uma promoção no ranking da cadeia de fornecedores. Outro exemplo, acrescenta Harrison, é a Olam International, que trabalha com agricultores na África ajudando-os na venda de ingredientes alimentícios no mundo todo. A organização começou exportando castanha de caju não processada da Nigéria para a Índia em 1989. Desde então, transferiu sua matriz de Londres para Cingapura e opera em mais de 16 plataformas em 65 países.

A vantagem competitiva da China e Hong Kong é que esses países desenvolveram uma cadeia de fornecedores. Eles partem da matéria-prima bruta e chegam até o produto manufaturado final", diz Keh. Essa especialização está levando ao surgimento de investimentos "sul-sul", observa Harrison. "As multinacionais nos mercados emergentes estão investindo em outros mercados emergentes. Os chineses estão investindo na África, subempreiteiros taiwaneses e sul-coreanos estão produzindo peças de vestuário na Indonésia. Eles podem perfeitamente entrar em mercados emergentes e ser bem-sucedidos."

Soluções para uma nova ordem mundial

As CGVs se tornaram mais complexas no mundo todo, portanto as empresas transnacionais e os países em desenvolvimento precisam encontrar meios para se beneficiarem mutuamente. "Temos de pensar de maneira mais dinâmica […] para combinar as políticas de comércio e de investimentos. Podemos construir capacidade doméstica para dar suporte às empresas globais, de modo que elas deem atenção aos fatores sociais e ambientais", diz Giroud.

"O desenvolvimento de estratégias regionais  através da integração do comércio de investimento, construção conjunta de capacidade e industrialização transnacional" é um dos primeiros passos a ser dado pelas economias emergentes, diz Giroud. Outra recomendação, diz Draper, consiste em "criar zonas econômicas especiais para promoção das exportações manufaturadas e permitir a entrada de importações sem impostos. Qualquer política testada com sucesso em outros lugares pode dar certo".

No fim das contas, acrescenta Keh, "as cadeias globais de fornecedores têm a ver com isso mesmo, com abastecimento, do princípio ao fim do processo, da matéria-prima à montagem final. O mundo em desenvolvimento está desaparecendo. Somos uma sociedade global com uma enorme capacidade para crescer".

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Com o crescimento das economias em desenvolvimento, as cadeias globais de valor enfrentam um momento decisivo." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [30 October, 2013]. Web. [20 January, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/com-o-crescimento-das-economias-em-desenvolvimento-as-cadeias-globais-de-valor-enfrentam-um-momento-decisivo/>

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"Com o crescimento das economias em desenvolvimento, as cadeias globais de valor enfrentam um momento decisivo" Universia Knowledge@Wharton, [October 30, 2013].
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