Como a crise financeira afeta o Brasil, Rússia, Índia e China

A crise financeira continua a inquietar os mercados de crédito e de ações no mundo inteiro, e tudo indica que nenhum país ou continente está sendo poupado dos seus desdobramentos. Brasil, Rússia, Índia e China — conhecidos como Brics — não são exceção. Shiv Khemka, vice-presidente do Grupo Sun, com representações em Londres, Nova Délhi e Moscou; Silas K. F. Chou, presidente e CEO da Novel Holdings, de Hong Kong; e Odemiro Fonseca, fundador da Viena Rio Restaurantes, no Rio de Janeiro, discutem a reação dos seus respectivos países à crise, seu impacto sobre setores específicos, a hipótese do descolamento e os perigos do protecionismo, entre outros assuntos.

 

Knowledge@Wharton: Em primeiro lugar, gostaria de discutir um pouco a situação de cada um dos países a que vocês pertencem e de que maneira eles estão sendo afetados pela crise econômica atual. Shiv, qual a sua opinião?

 

Khemka: Sou indiano. A situação na Índia é de queda considerável dos mercados de ações, mais de 50% de baixa. O crédito encolheu muito. O carro-chefe da Índia não são as exportações, como na China. O crescimento subjacente da economia ainda é razoável. Creio que as expectativas de crescimento continuam acima de 5%, talvez entre 6% e 7%. Com relação ao país onde eu trabalho, a Rússia, os mercados acionários também estão em baixa. Contudo, dado o grande volume de reservas que o país possui, bem como a ação concatenada posta em prática imediatamente pelo governo russo para injetar liquidez na economia através de quatro bancos principais, creio que existe uma percepção de confiança de que a tempestade vai passar, portanto as coisas deverão, no mínimo, ser administráveis nos próximos anos. É claro que os empreendedores terão enormes desafios pela frente. Não é segredo para ninguém que muitos oligarcas se acham em situação bastante complicada. No entanto, acredito que, no fim das contas, de um ponto de vista mais abrangente, a Rússia está razoavelmente bem posicionada para suportar a tormenta.

 

Knowledge@Wharton: E com relação à China?

 

Chou: Na China, a situação ainda não é de todo ruim. Pelo contrário, a economia chinesa continua a crescer velozmente. De alguns anos para cá, o governo chinês vem pensando numa forma de desacelerar o crescimento. A crise fez o mundo todo pôr o pé no freio, e a China não é exceção. O país está tentando, na medida do possível, se tornar menos dependente do setor exportador privilegiando o consumo interno. Essa pode ser a oportunidade que a China esperava para desacelerar um pouco o crescimento econômico, baixar a inflação e passar suavemente para uma situação econômica de consumo interno. É claro que com o acirramento da crise no Ocidente, as coisas começam a ficar relativamente fora de controle. A crise afeta a todos. Portanto, esperamos que os EUA e a Europa exerçam, de fato, sua liderança para solucionar o mais rapidamente possível as dificuldades atuais.

 

Knowledge@Wharton: E o Brasil?

 

Fonseca: Os preços das commodities brasileiras já estavam caindo antes da crise; com relação ao mercado de ações, a queda foi de 30%. Tem havido muita flutuação, mas não há sinal algum de desaceleração econômica. O Brasil tem hoje um grande volume de reservas — pela primeira vez na história econômica do país, não teremos crise cambial, como tivemos no passado, graças ao enorme volume de reservas e à taxa cambial flutuante. Os ajustes cambiais já começaram […] e foram interpretados como fato positivo por todos. Não há dúvida, porém, de que o Brasil será afetado. O mercado de crédito externo, por exemplo, ficou paralisado durante 15 dias, mas já voltou a operar. Os bancos que financiavam carros em 60 meses oferecem agora crédito de 30 meses. Portanto, o mercado de crédito encolheu muito. Creio que algumas indústrias específicas serão particularmente afetadas, como a indústria automobilística. Não há previsão, entretanto, de recessão. O crescimento será possivelmente menor, da ordem de 4% este ano, ante 5,3% no ano passado.

 

Knowledge@Wharton: Com relação ao que o Odemiro disse, haveria setores específicos da Índia, Rússia ou China que estariam se retraindo mais do que outros?

 

Khemka: No tocante à Índia, os setores de exportação seguramente serão afetados. O segmento imobiliário foi seriamente prejudicado por causa da retração do crédito. Evidentemente a demanda interna cairá. Portanto, esse é outro setor que requer muita vigilância em razão do excesso de alavancagem. Qualquer setor que tenha sido excessivamente alavancado exige muita atenção. Na Rússia, como você sabe, a baixa atual do preço do petróleo é sinal de que os bons tempos dos últimos anos, um tempo de crescimento, talvez esteja chegando ao fim. A poupança sabiamente acumulada pelos russos nos últimos anos deve agora ser investida com muita ponderação. Contudo, dada a grande importância das commodities na economia russa pouco diversificada, creio que as atenções estarão voltadas para o setor de commodities, de energia e mineração.

 

Knowledge@Wharton: E a China?

 

Chou: A China sofreu um baque muito forte nas exportações. Se, porém, analisarmos a situação em retrospectiva, veremos que o ritmo das exportações chinesas era assombroso. Um superávit fantástico era responsável por boa parte dos problemas políticos em todo o mundo, principalmente nos EUA. Portanto, a desaceleração deve fazer bem à China. Agora, tudo depende da capacidade da economia chinesa de passar de uma condição de dependência extrema das exportações para uma situação de consumo interno. Essa é uma boa oportunidade para a China testar um novo modelo. É claro que não podemos nos dar ao luxo de prolongar a recessão ou a depressão no mundo ocidental. Isso provocaria o rompimento dos vasos comunicantes que nos dão fôlego. Nossa esperança, por conseguinte, é que a recessão no Ocidente seja breve. Este momento constitui, portanto, uma excelente oportunidade para a China. Por outro lado, o mercado imobiliário chinês foi bastante prejudicado, mas isso também não é ruim. Há dois anos o governo vinha tentando desacelerar a subida dos preços no segmento, que se tornara proibitivo para as pessoas comuns. Portanto, consideramos a situação atual um bom momento para fazer os ajustes necessários […] para o crescimento futuro.

 

Knowledge@Wharton: Por falar no papel do governo, vocês poderiam explicar para nossos leitores de que modo cada governo reagiu à crise? O que vocês acharam da resposta dada? Vamos começar pelo Brasil.

 

Fonseca: Bem, o governo — o Executivo — não fez nada por enquanto, o que me deixa muito feliz, porque o banco central está fazendo o que dele se espera: está vendendo dólares, injetando liquidez na economia, principalmente agora que os mercados de crédito se retraíram. O governo está à espera do que virá. A crise está em pauta, mas nenhuma medida concreta foi tomada ainda. Silas?

 

Chou: As pessoas estão assustadas […] porque se os bancos estão falindo, então é porque a coisa é séria. É claro que elas já tinham ouvido falar em falência anteriormente, mas nunca haviam visto um banco falir de verdade. A maior parte das reservas chinesas está nos EUA […] em papéis do Tesouro, o que não é mau. A China fez poucos investimentos em instituições como o Morgan Stanley, Blackstone — perdeu-se ali algum dinheiro, mas foi muito pouco se pensarmos em tudo o que aconteceu. Em casos assim, o governo se limita a esperar e a observar, mas está convencido de que os EUA tomarão as medidas necessárias. Portanto, estamos otimistas em relação ao término da crise.

 

Knowledge@Wharton: Qual sua opinião, Shiv?

 

Khemka: O governo russo agiu de um modo bastante organizado, objetivo e coordenado — restaurando de certa forma a confiança no sistema bancário ao anunciar que elevaria liquidez do sistema. Garantiu os depósitos e anunciou que faria cortes nos impostos de exportação, fortalecendo a economia. Anunciou também investimentos significativos na infra-estrutura pública e gastos nos segmentos menos sofisticados da economia para garantia de emprego etc. Creio que o governo tem se comportado de forma proativa e feito um excelente trabalho de planejamento objetivo, que já está em fase de implantação. Os primeiros sinais de liquidez já começam a aparecer na economia.

 

Knowledge@Wharton: Havia uma hipótese muito popular algum tempo atrás que ficou conhecida como “descolamento”. Em outras palavras, acreditava-se que o crescimento — especialmente nas economias dos Brics e dos países emergentes de modo geral —se manteria mesmo na ausência de crescimento no mundo desenvolvido. Diante dos últimos acontecimentos, até que ponto essa tese seria verdadeira? Vocês teriam algum comentário a esse respeito?

 

Khemka: O mundo está cada vez mais interligado. É claro que há alguns lugares — como as sociedades rurais e as microeconomias locais — que talvez não se achem ainda interconectadas. No entanto, se observarmos o que se passa nas grandes economias do mundo hoje em dia, veremos que estão cada vez mais conectadas através do capital humano, do conhecimento, da tecnologia da informação, dos fluxos de capitais etc. Num mundo em que os EUA desempenham um papel tão preponderante na economia global, não condiz com a realidade imaginar que uma economia possa subsistir descolada dela. Contudo, os comentários em torno de parte do raciocínio que serve de base para o descolamento referem-se às economias cujos mercados internos são muito grandes — como a Índia e a China. Esses mercados estão começando a crescer. Observa-se o aumento do capital doméstico, do poder de gasto do consumidor etc. Creio que há alguma razão nisso, e é por esse motivo que economias como as da Índia, China, Brasil e outras continuarão a crescer. A taxa de crescimento cairá, com reflexos substanciais sobre o desempenho de longo prazo dessas economias. No entanto, há crescimento nessas economias. Nesse sentido, portanto, há, de fato, um certo descolamento.

 

Knowledge@Wharton: Silas e Odemiro, algum comentário?

 

Chou: Concordo com esse ponto de vista, mas é preciso acrescentar que as economias da China e da Índia — a do Brasil também, mas principalmente a chinesa e a indiana — encontram-se em um patamar muito básico. Portanto, se o Ocidente não crescer o tanto que se espera, mesmo assim China e Índia crescerão, uma vez que a renda per capita da China é inferior a US$ 5.000; a da Índia talvez seja de US$ 3.000. Isto significa que ainda há grandes perspectivas de crescimento tanto para a China quanto para a Índia, apesar de uma possível recessão nas economias ocidentais.

 

Fonseca: É evidente que não há descolamento em se tratando dos mercados de capitais. Os fundamentos do Brasil não mudaram, mas o ritmo de queda do mercado de ações é de 40%. O mercado de crédito estagnou. Portanto, não há descolamento nos mercados de capitais, nos mercados financeiros, nem mesmo no caso de um país tão isolado quanto o Brasil. Infelizmente, o descolamento acontecerá pelo motivo errado no Brasil, já que 94% de tudo o que é consumido no país é produzido internamente. Portanto, o país está bastante isolado. Gostaria que não houvesse o descolamento, mas haverá, porque o Brasil é muito menor do que outros países citados, e a renda per capita nacional é muito inferior. Seria ótimo se 20% do PIB brasileiro fosse exportado para os EUA!

 

Knowledge@Wharton: Que coisa você mais teme e que poderia prolongar a crise no Brasil?

 

Fonseca: Tenho medo do que diz o presidente, isto é, que somos uma ilha. Isso é um equívoco. Tentar proteger o Brasil contra a chamada especulação, ou tentar começar a comprar commodities novamente para dar sustentabilidade aos preços — isso é coisa que não faremos mais no Brasil, mas que foi feito durante 50 anos. Tudo isso está errado, e é perigoso.

 

Chou: Exatamente: o problema é o protecionismo. Se os EUA, por quaisquer motivos, se voltar para dentro de si mesmo, em atitude protecionista, isso seria ruim para o resto do mundo. O fato é que vivemos hoje em uma aldeia global. Todos dependem de todos.

 

Khemka: Concordo inteiramente. Se levantarmos muros pelo mundo afora, em culturas diferentes, isso só contribuirá para criar problemas e acentuá-los. Também acho que no caso da Rússia, em particular, é muito importante que o governo tenha políticas que contemplem a todos. Há muita injustiça nessas políticas, favoritismos etc. Creio que isso também envia sinais equivocados.

 

Knowledge@Wharton: Uma última pergunta para todos: qual o cenário mais otimista, e também o mais pessimista, para o ano que vem?

 

Khemka: Infelizmente, não espero nada de bom. Acho que temos de nos proteger e esperar pela tempestade. É preciso ser realista […] e prudente numa situação dessas. Para mim, o que era uma crise financeira está se transformando, talvez, em crise de confiança. É preciso levar isso muito a sério, e também ter paciência. O mais importante neste momento é a sobrevivência.

 

Chou: Otimismo seria crer que tudo voltará a ficar bem novamente daqui a dois trimestres. Pessimismo seria acreditar que teremos de esperar dois anos pelo fim da crise. Na primeira hipótese, dos dois trimestres, a China sairia da crise relativamente ilesa. Na segunda, estaríamos em sérias dificuldades.

 

Fonseca: Estou otimista em razão de um fator novo. Os bancos centrais e a Fazenda estão trabalhando juntos em todos os países e ao mesmo tempo. Fiquei surpreso ao ler outro dia no jornal que o secretário do Tesouro dos EUA, Paulson, e sua equipe, conversam todos os dias com o ministério da Fazenda chinês. Isso é novidade […] e se ajudar a deter o pânico, creio que passaremos por tudo em clima de recessão amena nos EUA. O Brasil e a China sobreviverão. É claro que se o pânico persistir e se o preço do petróleo continuar despencando ainda mais, haverá problemas na Rússia, no Oriente Médio, na Venezuela. O clima de inquietação aumentará. Mas se o pânico for controlado — e o trabalho conjunto ajuda muito nisso — tenho razão para ficar otimista.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Como a crise financeira afeta o Brasil, Rússia, Índia e China." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [12 November, 2008]. Web. [21 September, 2018] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/como-a-crise-financeira-afeta-o-brasil-russia-india-e-china/>

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"Como a crise financeira afeta o Brasil, Rússia, Índia e China" Universia Knowledge@Wharton, [November 12, 2008].
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