Como diminuir a desigualdade global? Retomando um antigo debate

Praticamente todo mundo concorda que é preciso fazer alguma coisa para diminuir a desigualdade global, mas o consenso sobre as possíveis saídas é reduzido. A intervenção do governo seria uma solução ou um obstáculo? A globalização aprofunda a desigualdade ou a torna menos crítica? Qual seria exatamente o papel das agências multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional, a Organização Mundial do Comércio ou o Banco Mundial?

 

Recentemente, em Nova Iorque, um painel de acadêmicos e de executivos de empresas apresentaram seu ponto de vista sobre esse antigo debate no Fórum de Negócios Globais organizado pela Lauder Institute Alumni Association. Entre os conferencistas convidados estavam Lynn Hollen Lees, professora de história da Universidade de Pensilvânia; Richard Sabot, CEO da Eziba.com; Linda Rottenberg, CEO da Endeavor; Papa Ndiaye, diretor do The African Fund e Richard Herring, diretor do Lauder Institute of Management and International Studies (Instituto Lauder de Administração e de Estudos Internacionais).

 

“A história tem papel de destaque e é de extrema utilidade para a compreensão das causas da desigualdade”, observou o primeiro orador. Em seguida, explicou que a principal ferramenta utilizada pelos historiadores da economia para compreender a desigualdade é a curva de Kuznets, cujo nome é uma homenagem a Simon Kuznets, economista ganhador do Prêmio Nobel. A curva ¾ que tem a forma de um U invertido ¾ mede a relação entre a desigualdade de renda e o crescimento econômico. Kuznets dizia que as sociedades agrárias são marcadas pela baixa desigualdade de renda. No momento em que um país começa a se industrializar, a desigualdade de renda aumenta nos primeiros anos, mas depois entra em declínio à medida que os benefícios do desenvolvimento se espalham por todo o tecido social. As pesquisas mostram que este foi de fato o padrão de desenvolvimento em países como os EUA, Alemanha e Grã-Bretanha (no intuito de promover o livre debate, a Universia-Knowledge@Wharton cobriu o evento, mas concordou em não citar nominalmente os participantes).

 

“O que isso significa para a política pública?”, indagou o conferencista. Em seguida, explicou que os economistas clássicos acreditavam que as taxas de poupança de uma sociedade eram responsáveis por seu desenvolvimento. Para investir, rezava o argumento, os capitalistas necessitavam de um volume gigantesco de dinheiro ¾ em outras palavras, a desigualdade era a causa do crescimento. Na verdade, o registro histórico não respalda essa idéia. Em vez de taxas de poupança, a mudança tecnológica é que parece ser a principal impulsionadora do desenvolvimento. “Concluímos, portanto, que o crescimento econômico tem conseqüências sobre a desigualdade, porém esta relaciona-se tão-somente de forma marginal com o crescimento”, disse.

 

O declínio da desigualdade em países desenvolvidos não foi automático ¾ antes, parece ter sido o resultado do investimento feito em capital humano por empresários e pelo governo. Isso é sinal de que os governos devem investir mais em áreas tais como educação, saúde pública e moradia.

 

Outros conferencistas apresentaram uma perspectiva diferente. Para eles, no caso de muitos países em desenvolvimento, o desafio imediato consiste simplesmente em fomentar o desenvolvimento econômico como forma de gerar empregos para os pobres. Cabe aos empreendedores, e não ao governo, conduzir o desenvolvimento. “Observamos uma mudança”, disse um conferencista. “Os governos anteriores dos países em desenvolvimento achavam que tinham de cortar o bolo para  resolver o problema da desigualdade. Agora, chegaram à conclusão de que é melhor fazê-lo crescer para com isso criar novas oportunidades.”

 

A estratégia de um dos conferencistas para o desafio da desigualdade preconiza a organização de um grupo que identifique empreendedores na América Latina a quem seria dado acesso à consultoria e à aquisição de habilidades. Em seguida, sua história seria publicada como forma de incentivar os investidores locais a ajudá-los. “Há capital em abundância em muitos mercados em desenvolvimento, mas que não é investido”, disse. “Contudo, quando mostramos às grandes empresas o que os empreendedores estão fazendo, foi grande sua surpresa diante do talento extraordinário destes indivíduos em seus respectivos países. A partir deste momento, elas se mostram mais dispostas a correr riscos.”

 

O governo do Senegal é um dentre os vários que alimentam esperanças de que tais idéias produzam resultados. Um conferencista, que prestou consultoria econômica ao presidente do Senegal, descreveu algumas mudanças ocorridas em seu país. Em 2000, uma coalizão de partidos de oposição derrotou nas urnas o governo autocrático anterior. Esse novo governo vem procurando reformar a economia, privatizando indústrias estatais e rompendo os laços entre governo e negócios privados.

 

“Nosso governo colocou como meta simplificar seu papel na economia”, disse. “Estamos tentando criar incentivos que sejam os mais adequados para uma economia de mercado para depois sair de cena”. Disse ainda que a integração econômica regional será de grande importância para países como o seu. “No caso de países pequenos, há uma necessidade desesperadora de barreiras mais reduzidas que viabilizem o comércio internacional.”

 

Outro conferencista, estudioso dos elementos impulsionadores do crescimento econômico das economias asiáticas nos anos 1990, concordou que as pequenas economias requerem condições adequadas para florescer. “O crescimento da Ásia se deu juntamente com a redução da desigualdade”, disse. “Uma lição que aprendemos com essa experiência é que a melhor maneira de promover o crescimento consiste em criar um ambiente no qual seja possível delegar poderes aos empreendedores. O número de talentos existente em uma economia em desenvolvimento é tão grande quanto em qualquer outro lugar, mas é preciso que haja estabilidade macroeconômica, capital, orientação profissional e talento. Dadas essas condições, coisas surpreendentes podem acontecer.”

 

Construindo e gerenciando uma marca em nível global

 

Em outra sessão do Fórum Global de Negócios, um painel de especialistas em marketing quis saber se era melhor manter uma marca global ou várias marcas locais diferentes.  Trata-se de um questionamento que já deu origem a milhares de seminários. Economias fabulosas de escala apontam para a marca única. Dentre os fatores contrários apontados acha-se a dificuldade de criar um vínculo pessoal com o consumidor. A resposta dada pelos conferencistas presentes a esta questão foi um sonoro “depende”.

 

De acordo com os palestrantes, os produtos transacionados entre empresas parecem, de modo geral, mais suscetíveis à marca global. Entretanto, aqui também o patrimônio da marca regional com freqüência demonstra sua consistência, sobretudo se o produto atende a um segmento de mercado de mentalidade bastante tradicional. Já no caso dos produtos de consumo pessoal, a resposta é menos óbvia. De acordo com os conferencistas, há linhas com excelente desempenho no mundo todo, enquanto outras exigem um toque mais regional. No caso das marcas de produtos de consumo pessoal, grande parte do problema de escala depende muito de sua influência sobre os valores de uma cultura, observou um conferencista.

 

Liderado por David Reibstein, professor de marketing da Wharton, participaram também do painel A. G. Lafley, presidente e CEO da Procter & Gamble; Jean Pierre Rosso, presidente da CNH Global NV, fabricante de equipamentos pesados; Phil Grabfield, chefe de marketing da Mercer Human Resource Consulting e Randall Swope, diretor de marketing de produtos para soluções de produção e do mercado de artes gráficas da Xerox do Brasil.

 

Para os conferencistas especializados em ambientes globais complexos, a questão da consistência global da marca pareceu um objetivo desejável, porém não essencial. Um dos oradores, falando em nome dos demais, disse que em sua empresa a criação de uma marca global não era prioridade máxima. “Para nós, o fato de uma marca ser global ou local constitui um meio, e não um fim”, observou.

 

Outro participante disse que naturalmente o ideal seria que a marca fosse global. Com o tempo, seria ótimo, por exemplo, fazer com que uma de suas marcas estritamente européia migrasse para a sombra de uma companhia de marca mais influente, “porém a realidade é que não se pode dar baixa no patrimônio do seu mercado. É impraticável”, disse.

 

Contudo, embora a consistência da marca global possa, de certa forma, gerar valor para a empresa, também gera riscos. Isto porque a marca global pode tornar a segmentação local de mercado mais complexa. Um conferencista disse que para manter a venda de um produto que fracassou em outros mercados, porém apresentava ótimo desempenho em um mercado secundário de um determinado país, ele decidiu primeiramente mudar-lhe o nome ¾ não queria que possíveis clientes, ao consultar a Internet, descobrissem que o produto havia sido tirado de circulação na maior parte do mundo.

 

Isso também significa que todos os desafios de relações públicas são potencialmente globais. Atualmente, advertiram os palestrantes, o surgimento de um problema em um local qualquer pode rapidamente se espalhar por toda parte. A menos que os executivos sejam cautelosos, a velocidade das comunicações pode hoje transformar rapidamente até mesmo uma ocorrência local de pouca importância, envolvendo supostos danos causados por um produto, em dúvidas globais acerca dessa marca.

 

No momento em que surgem desafios desse tipo, é imprescindível que a reação seja imediata, disseram os conferencistas. “É preciso resolver imediatamente o problema e impedir que o processo continue, caso contrário as pessoas começarão a questionar a marca”, disse um conferencista. Um palestrante explicou que se um produto qualquer vai mal na China, por exemplo, a primeira medida que se toma é comunicar o evento ao resto do mundo.

 

Os participantes concordaram que o controle de qualidade é fonte primordial de risco para a empresa global, sobretudo  se o produto em questão é feito localmente ou regionalmente. Falhas na alimentação local podem levar a resultados desastrosos para a marca, alertaram os conferencistas  ¾ e, uma vez mais, não apenas no mercado onde o problema foi detectado, mas no mundo todo. “Talvez seja essa a questão mais espinhosa que uma empresa como a minha tem de enfrentar”, disse um dos palestrantes.

 

Nesse contexto, o silêncio raramente é de ouro. Um executivo disse que quando alguém lhe informa sobre a existência de um probleminha que logo será resolvido, isso na verdade significa que ele terá de lidar com um problema enorme mais adiante. “Sempre que alguém me diz que vamos dar um jeito nisso ou naquilo, sei que teremos um enorme problema pela frente”, disse.

 

Por fim, a solução não se resume apenas a uma questão de controle, disse um conferencista, é também uma questão de comunicação. O ensino desempenha um papel igualmente importante. Um dos conferencistas disse que procura mostrar aos seus funcionários, por meio de exemplos, como gostaria que o trabalho fosse feito. Sempre que visita um escritório em outro país, ele faz questão de ir a campo e conversar com os clientes. Não porque, diz ele, sua pesquisa possa contribuir com algo de valor, “mas porque quero que os cem empregados daquele lugar vejam como eu ajo e me imitem”, disse.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Como diminuir a desigualdade global? Retomando um antigo debate." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [14 July, 2004]. Web. [04 July, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/como-diminuir-a-desigualdade-global-retomando-um-antigo-debate/>

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"Como diminuir a desigualdade global? Retomando um antigo debate" Universia Knowledge@Wharton, [July 14, 2004].
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