Como a escassez de água se transformou em um problema mundial

A escassez hídrica é um sério problema ambiental que afeta várias regiões do mundo. A jornalista Judith Schwartz fez uma análise profunda do problema em seu livro recentemente publicado, “Água em plena vista” [Water in plain sight], em que conduz o leitor a uma jornada pelo mundo explicando-lhe as causas básicas da escassez hídrica e propondo algumas soluções para atenuar esse problema terrível. Schwartz conversou recentemente com a Knowledge@Wharton sobre seu livro.

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Em seu livro, você diz que os seres humanos são os maiores defensores da ideia de tornar este planeta melhor e menos sujeito à sede, você poderia explicar isso?

Judith Schwartz: A água nos coloca diante de inúmeros desafios. Não é preciso procurar muito para descobrir um lugar afetado pela seca, por enchentes, fogo na mata etc. Tudo isso tem a ver com desidratação da paisagem. Mas não precisa ser assim. Muita coisa tem a ver com a forma como entendemos o que vem a ser a água, mas estou convencida de que podemos ampliar nosso conhecimento a respeito dela. Quando pensamos na água como uma espécie de recurso estático ─ há um certo volume de água, você pega um pouco e eu também ─, isso nos deixa meio que paralisados. No entanto, no momento em que entendemos de que modo a água circula pela paisagem e pela atmosfera, vemos que são muitas as oportunidades para usá-la de um jeito melhor.

Knowledge@Wharton: Você disse que em algumas partes do mundo a água acaba se tornando objeto de disputa entre as pessoas. A confrontação chega, às vezes, às vias de fato.

Schwartz: Sim. Gostaria, entretanto, de reiterar que não precisa ser assim. Converso com as pessoas, com especialistas em água, sobre a possibilidade de guerras por causa dela. Eles dizem que a falta de água muitas vezes cria mais oportunidades para as pessoas trabalharem juntas. Contudo, o importante é que reconheçamos aqui ─ e não creio que o façamos o suficiente ─ a ligação que há entre a água e a paisagem. Nós nos preocupamos o tempo todo com a água que cai do céu. Nossos olhos estão fixos no volume de chuva quando pensamos na quantidade de água que temos e se temos o bastante. Igualmente, porém, se não mais importante ainda, é o que acontece à água quando atinge o solo: em que medida somos capazes de retê-la na natureza?

Você falou em conflitos por causa de água. É muito importante saber que a maior parte das áreas de conflito no mundo se encontram nas regiões que chamamos de terras secas sazonais. Entender como trabalhar melhor com essas paisagens é extremamente importante. A palavra não pronunciada aqui e que, creio eu, deveria ser mais explicitada é “desertificação”, que é, basicamente, a perda da função da terra. Podemos observar isso também na Costa Oeste. Atualmente, a seca na Califórnia é objeto constante do noticiário, depois desaparece. No entanto, ninguém fala da degradação da terra. Esse é um elemento extremamente importante dentre as coisas com que temos de lidar na Califórnia.

Knowledge@Wharton: A Califórnia tem sido apontada como principal exemplo de uso impróprio da água na última década, talvez há uma década e meia. O que estaria faltando ali ou o que está sendo usado de maneira imprópria?

Schwartz: Uma coisa seriam as cidades. Quando construímos as cidades, tratamos a água como um estorvo. Aí então construímos nosso meio ambiente, nossas cidades e bairros de modo que a água seja drenada da região. Nós nos livramos dela o mais rápido possível. Isso, porém, gera problemas de todos os tipos. Em primeiro lugar, é um recurso que estamos perdendo. Além disso, quando chove em uma cidade como Los Angeles, a água escorre e leva junto os poluentes.

Há vários meios possíveis de não desperdiçar essa água. Um deles se dá pela colheita de água, que pode ser feita de acordo com vários modelos diferentes. Há um sujeito que é especialista nisso: Brad Lancaster. Ele criou um verdadeiro oásis em Tucson, no Arizona, e escreveu sobre diferentes estratégias de colheita de água.

Contudo, uma outra maneira de analisar a questão, e é isso que me deixa empolgado, consiste em indagar: “Onde essas paisagens deram certo e quais foram os fatores diferentes?” Jamais pensaríamos em Los Angeles como uma área de terra úmida com deltas. Mas no passado foi assim. Em algumas áreas, a vegetação costeira está sendo recuperada. Há hoje um projeto no rio L. A., que é um túnel de concreto. Está sendo criado um parque linear. Em certas áreas, seu comprimento é de vários quilômetros, portanto é um projeto e tanto. Estão acrescentando vegetação e restaurando as margens, de modo que se trata de um projeto bonito, aberto à recreação e que preserva a água.

Knowledge@Wharton: O que a motivou a escrever um livro sobre esse assunto?

Schwartz: Pouco antes, eu havia escrito um livro sobre o solo. Duas coisas me impactaram e despertaram em mim o sentimento de que eu não podia negligenciar esse material. Uma delas foi que não falamos da terra quando conversamos sobre água. Outra coisa foi que em um capítulo que chamei de “O retorno da água perdida”, conversei com alguns europeus orientais muito interessantes que escreveram um livro chamado “Água para a recuperação do clima”. Essa conexão entre água e clima realmente me deixou atônita. Quando ouvimos falar dessa conexão, é sempre em uma única direção. É sempre o argumento de que a mudança climática pressionará ainda mais as fontes de água no mundo todo. É claro que isso é verdade e muito preocupante. Contudo, não falamos a respeito do impacto da água sobre o clima. Isso também abre oportunidades enormes a partir do momento que começamos a compreender do que se trata.

Knowledge@Wharton: Você usa a expressão pegada de água, que é semelhante à pegada de carbono, certo?

Schwartz: Sim. Acho que o conceito de pegada de água é uma ferramenta educativa muito boa para incentivar as pessoas a pensar sobre a água que está sendo usada nos alimentos que adquirimos, nas roupas que compramos e usamos e na energia que consumimos, dependendo das fontes de energia e de sua localização. Acho que é muito útil, mas pode ser decepcionante, e lhe digo por quê.

Um dos factoides da biblioteca de dados sobre a pegada da água é que a produção de um hambúrguer usa um número extraordinário de galões de água. Você escuta uma coisa dessas e diz: “Minha nossa, como eu gastei água!” Acontece que não incluíram nessa discussão o modo pelo qual a carne foi obtida. Portanto, é possível comer uma carne que não tenha contribuído para a exaustão do planeta, que permita restaurar o solo e, portanto, retenha mais água. Faço questão de seguir isso à risca sempre que possível.

Knowledge@Wharton: Qual a diferença entre os dois?

Knowledge@Wharton: Desperdiçamos água no setor de produção industrial de carne. Usamos a água para fazer o grão crescer. Damos água aos animais mantidos em confinamento no final da vida e esse confinamento produz metano. Como os animais vivem confinados, é preciso muita água para limpar o local onde vivem. Usa-se muita energia para isso. É um desperdício sob muitos aspectos e é também um problema.

Contudo, existe uma coisa chamada pastagem restaurativa, que é um local para pastagem planejado holisticamente em que o gado é tratado de uma maneira em que a terra é recuperada e o solo renovado. O solo é realmente importante, por isso volto a ele. Estamos renovando o solo. O gado está pastando em terras naturais de pastagem. A intervenção na terra ajuda a melhorá-la. Ao melhorar a terra, ela retém mais água. Visitei lugares em que os rios estão renascendo. Comi carne no México em que as terras [que serviram de pasto ao gado] estão sendo cuidadas de tal modo que o ciclo de água seja restaurado, mas está sendo restaurado também o hábitat de pássaros migratórios de pasto antes em perigo. Pode-se melhorar a paisagem cuidando dos animais de maneira especial.

Knowledge@Wharton: Parte disso caberia aos agricultores e criadores, que então introduziriam princípios e orientações desse tipo para regenerar a terra e restituir os suprimentos de água?

Schwartz: Sim, muitos criadores são motivados a fazê-lo por razões econômicas, porque o resultado é muito melhor quando a terra é mais saudável. No grupo de criadores, isso vem acontecendo com uma frequência cada vez maior. Na comunidade dos agricultores, eles se sairão melhor quando trabalharem mais eficazmente com o ciclo de água. Há muitas nuanças nessa área também, já que muitos insumos da agricultura, na verdade, solapam o sistema biológico que permite às plantas se servirem eficazmente de água. Há uma outra camada distinta aqui. Contudo, o desafio da agricultura é que há muitos incentivos financeiros, e as contas do setor são tão complexas que os agricultores são recompensados por práticas que não ajudam a ninguém. É nesse momento que a coisa se complica.

Knowledge@Wharton: Não deve ser difícil para os agricultores separar as duas coisas. Infelizmente, do jeito que as finanças são geridas no setor agrícola, eles são levados a fazer uma escolha em detrimento da outra.

Schwartz: É verdade, e aí acabam meio que presos em um sistema. Muitos dizem: “Puxa, não está funcionando. Disseram que se introduzíssemos tal insumo seria melhor.” É difícil se libertar disso. Além do mais, há uma questão de escala. Há um incentivo para que as fazendas aumentem muito, mas elas não se comprometem muito com a terra. Contudo, trabalhei com muitos agricultores que estão priorizando a restauração da terra porque a veem, basicamente, como seu banco. Um solo sadio gera riqueza.

Knowledge@Wharton: Você disse que esteve no México e observou políticas úteis à gestão da água naquele país. Isso também acontece em outros países? Os EUA estão atrasados nesse processo?

Schwartz: Não diria que estamos atrasados. Diria que há muito interesse por isso no mundo todo. Estive na África. Fui ao Zimbábue. Ali, Allan Savory, aquele sujeito que desenvolveu a pastagem holística planejada, comanda o Centro Africano de Gestão Holística. Ali vi uma mudança e uma melhoria fenomenais. Tive a oportunidade de visitar algumas aldeias rurais com as quais o Centro Africano de Gestão Holística estava trabalhando. Ali as pessoas diziam que tinham conseguido obter mais ajuda alimentícia porque tinham controle sobre a água. Eles tinham mais acesso a ela. E isso foi decorrência do impacto animal.

Knowledge@Wharton: Isso acaba tendo um impacto econômico significativo sobre esses países, certo?

Schwartz: Sim, quando há escala suficiente. Acho que até mesmo tentar compreender a economia do Zimbábue não seria um exercício produtivo. Mas sim, sem dúvida há um impacto econômico.

Knowledge@Wharton: A Califórnia tem sido um foco de uso e de oferta de água nos EUA. Mas isso é uma coisa que vem ocorrendo em vários outros estados, não é?

Schwartz: Sim. Você perguntou se estávamos atrasados nos EUA. Eu diria que uma oportunidade que perdemos até agora tem a ver com um projeto internacional ─ estive na COP21, em Paris, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática ─ e com um movimento crescente em torno da agricultura regenerativa. Basicamente, é bom para todos. Ajuda todo mundo e contribui para restaurar os ecossistemas e tudo o mais de positivo que o acompanha.

Existe um projeto chamado “4 por 1000”, lançado pelo ministério da Agricultura francês. Trata-se de um compromisso de armazenar 0,04% de carbono no solo todo ano. Depois de cinco anos, isso praticamente compensa as emissões de carbono. Não tenho os números comigo, mas essa é a ideia. Foi assinado por muitos países. Foi assinado pelo México e pelo Canadá, mas não foi assinado pelos EUA. Com isso, muda-se realmente o incentivo para os agricultores e criadores, para as pessoas que trabalham na terra. Acho que isso talvez seja algo que deveríamos explorar um pouco mais.

Knowledge@Wharton: Você mencionou o termo biodiversidade. Fale um pouco mais a esse respeito e qual seu papel nesse processo.

Schwartz: A biodiversidade é o objetivo da espécie e a riqueza da vida selvagem e vegetal de uma área específica. Certamente faz sentido que o ciclo de água saudável suporte uma quantidade e uma variedade maior de espécies. Contudo, constatei também que uma maior diversidade contribuía para a manutenção do ciclo da água. Você, por exemplo, mencionou a Califórnia. Podemos indagar o que mantinha o ciclo de água funcionando antes de entrarmos e cortarmos as árvores, arar o campo e construir cidades.

A existência de castores é uma resposta. A Califórnia tinha castores em boa parte do estado. Os castores são uma espécie muito importante. São conhecidos como engenheiros da natureza. Constroem diques que represam água. À medida que a água escorre, cria um solo muito rico e terras úmidas, que retêm a água na paisagem. O estado mais seco dos EUA é Nebraska. Há projetos em andamento em Nevada atualmente que pretendem levar castores de volta à paisagem. Começaram com os agricultores, recuperando o solo, depois vieram os castores. Agora, há muito mais água. Há rios e riachos que correm o ano todo. Há a neve que vem das serras e que, em seguida, fica represada no solo ou escorre para outros lugares.

Knowledge@Wharton: A mesma coisa poderia muito bem acontecer na Califórnia, porque você está se referindo ao mesmo tipo de demografia onde há neve nos lugares mais altos que escorre para os mais baixos.

Schwartz: Correto. Na Califórnia existe agora uma organização chamada Occidental Arts and Ecology Center, e seu instituto WATER tem uma campanha intitulada “Traga de volta o castor”. Os castores têm muitos fãs na região. Há também fãs de marmotas, de besouros de estrume e outras espécies que são realmente essenciais para o funcionamento do ciclo da água.

Knowledge@Wharton: Esse é um processo que levará tempo, mas que será discutido e, provavelmente, em níveis elevados, de modo que seja possível introduzir algumas dessas mudanças, certo?

Schwartz: Isso seria ótimo. Contudo, as mudanças muitas vezes acontecem literalmente de baixo para cima. Elas podem acontecer bem depressa. Os agricultores que visitei no México trabalham com organizações de preservação de pássaros ─ essa é uma parceria que ninguém imaginava que pudesse acontecer. Mas há um sujeito, Alejandro Carrillo que conseguiu transformar uma fazenda em poucos anos (a área dos chihuahua, no México, tem um índice de chuva bastante significativo). Uma vez que a grama começa a crescer, os pássaros aparecem. A natureza é complexa. Quando você lhe dá um empurrãozinho, ela responde maravilhosamente bem.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Como a escassez de água se transformou em um problema mundial." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [21 September, 2016]. Web. [20 September, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/como-escassez-de-agua-se-transformou-em-um-problema-mundial/>

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"Como a escassez de água se transformou em um problema mundial" Universia Knowledge@Wharton, [September 21, 2016].
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