Como o resultado da eleição na França poderá impactar a Europa

Emmanuel Macron obteve no domingo uma vitória retumbante sobre a candidata de extrema direita da Frente Nacional, Marine Le Pen, na disputa pela presidência da França, o que representa uma trégua, por enquanto, à ameaça de saída da França da União Europeia. A votação ─ 66% para o centrista Macron e 34% para Le Pen ─ deu ao vencedor uma vitória ainda mais avassaladora do que muitos analistas e pesquisas haviam previsto.

O resultado decisivo a favor de Macron reverteu a ideia de que Le Pen e seu partido pudessem estar ganhando força suficiente para surpreender com uma vitória atípica, conforme a que ocorreu com o voto favorável ao Brexit e a vitória de Donald Trump nos EUA. Contudo, a eleição foi marcada também pelo maior número de votos dados ao partido de Le Pen até hoje. Le Pen é a favor da rejeição do euro e da criação de medidas protecionistas mais rigorosas para as empresas além da redução do número de imigrantes. (Pouco antes da eleição, Gérard Araud, embaixador da França nos EUA, deu uma palestra na Wharton sobre alguns dos fatores que levaram à ascensão do populismo e do nacionalismo na Europa e nos EUA).

Macron, de 39 anos, é o mais jovem candidato à presidência a disputar o cargo na França. A ausência de apoio significativo ao candidato por parte de um grande partido político leva os analistas a conjecturar sobre a eleição para o parlamento no mês que vem em busca de pistas sobre o futuro da França e a capacidade de Macron de criar políticas.

Sua vitória foi a terceira derrota seguida dos partidos de extrema direita na Europa depois de saírem perdedores na Holanda, em março, e da Áustria, em dezembro.

Para que se tenha uma perspectiva do que significa a vitória de Macron na França e para a UE, a Knowledge@Wharton conversou com João Gomes, professor de finanças da Wharton, e com Olivier Chatain, professor de estratégia e de política empresarial na Escola de Negócios HEC, além de pesquisador sênior do Instituto de Gestão da Inovação Mack da Wharton (Mack Institute for Innovation Management). Ambos foram entrevistados na Wharton Business Radio, canal 111 da SiriusXM. 

Incerteza imediata à frente

A vitória de Macron levanta mais dúvidas do que respostas, pelo menos por enquanto. “É o início de dois meses de incertezas”, disse Chatain ao se referir ao período até as eleições parlamentares de junho. Macron terá de garantir uma maioria na Assembleia Nacional de 577 membros ou formar uma coalizão de trabalho para que possa pôr em prática seus programas, acrescentou.

“Conseguir 289 membros para formar uma maioria absoluta no parlamento com um partido que não existia há dois anos será desafiador”, disse Gomes. Ele também questionou a maneira pela qual Macron garantirá a lealdade permanente de seus legisladores para implementar as reformas, algumas das quais serão politicamente complexas.

Chatain disse que espera para o verão a entrada em vigor das reformas de Macron. “Julho e agosto são meses em que tradicionalmente as reformas são aprovadas na França, quando a maior parte as pessoas está ocupada fazendo outras coisas, isto é, quando estão de férias”.

Segundo Gomes, a vitória de Macron não se traduz automaticamente em um mandato para a plataforma de reformas econômicas pelas quais ele fez campanha. “Trata-se mais de uma maioria negativa do que de um grande mandato, isto é, de um mandato objetivo para Macron”, disse. “Não creio que se trata de um endosso absoluto a um candidato que seja amado pelo povo francês.”

Os franceses não veem Macron como alguém que trará melhores soluções do que seus predecessores, disse Gomes. “Ele é apenas a melhor alternativa entre alternativas ruins.” Contra esse pano de fundo, ele duvida da “capacidade de Macron e de sua escolha para primeiro-ministro para pôr em prática reformas específicas que favoreçam o crescimento.”

Impulsionando as reformas

As reformas trabalhistas têm lugar de destaque na agenda de Macron, tal como aconteceu nos governos anteriores da França, disse Gomes. Macron começou o processo de reformas trabalhistas quando foi ministro da Economia, Indústria e Assuntos Digitais (2014-2016). Ele não pôde levar a questão mais adiante tanto quanto gostaria por causa dos conflitos que teve com o presidente em fim de mandato, François Hollande, disse Chatain. Agora, o professor acredita que os sindicatos se oporão tenazmente às reformas que Macron pretende implementar.

Gomes disse que acredita em um “forte impulso ao crescimento” na França e na Alemanha e em outros países da zona do euro, ou em oportunidades para a França reforçar suas exportações. A França sempre foi tradicionalmente forte em exportações de serviços, disse Chatain. Aqui, ele espera que Macron “venda” a França como destino atraente para as empresas de serviços financeiros com sede em Londres, de modo que elas transfiram para a França suas operações e sedes na esteira do Brexit, que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia. “Acho que Macron não hesitará em tentar persuadir as empresas a cruzar o Canal da Mancha”, disse Chatain.

Contribui para isso o fato de que Macron tem apoio de “gente que se considera empresária e com preparo escolar, gente que acredita que aquilo que pode fazer para seu bem-estar econômico fará diferença para a economia francesa”, disse Chatain. Ele acrescentou que Macron, à medida que tentar explorar esse “otimismo empresarial”, terá também de se concentrar na mudança das estruturas institucionais para facilitar seu caminho. Macron teria também de lidar com “percepções de que a França é um lugar ruim para fazer negócios”, e que os impostos locais são altos demais e as regulações muito onerosas, disse Gomes.

Rejuvenescendo a Europa

A posição pró-Europa de Macron significa que “Bruxelas, neste momento, é o lugar mais feliz do mundo”, disse Gomes. “Esta é sua oportunidade de rejuvenescer a Europa e o sonho europeu.” Ao mesmo tempo, ele percebe “algum nervosismo em Londres”, especialmente no que diz respeito ao papel que Bruxelas poderá ter na negociação do Brexit “dada essa energia renovada resultante da eleição presidencial na França e das eleições parlamentares na Holanda”.

Para Chatain, a vitória de Macron garante que a UE prevaleça pelo menos por mais cinco anos. As próximas eleições parlamentares na França e a eleição federal na Alemanha, em outubro, “não provocarão muita turbulência na UE”, prevê. Ele se diz mais preocupado, em vez disso, com o resultado da eleição geral na Itália em 2018 e com o aprofundamento da crise da dívida grega.

No que se refere às relações entre EUA e França, a vitória de Macron não é motivo de muito otimismo, disse Gomes. Trump e Macron têm diferenças em várias questões, como a mudança climática e questões comerciais, observou. Contudo, ele espera que eles encontrem um terreno comum na luta contra o terrorismo. Chatain espera que EUA e França deem prosseguimento às questões relativas ao terrorismo e assuntos externos em geral.

O terrorismo e a imigração foram questões importantes na eleição presidencial francesa. Macron sustenta que, em vez de fechar as fronteiras, a França deve se concentrar mais na coordenação entre suas agências governamentais para que controlem a movimentação de pessoas, observou Chatain. Macron é um forte defensor do acordo de Paris sobre mudança climática elaborado pelas Nações Unidas em dezembro de 2015. Ele espera que Macron use “de boa diplomacia ou de argumentos confidenciais para explicar aos EUA que eles nada têm a perder se permanecerem signatários do acordo de Paris”.

 

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Como o resultado da eleição na França poderá impactar a Europa." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [10 May, 2017]. Web. [20 September, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/como-o-resultado-da-eleicao-na-franca-podera-impactar-europa/>

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"Como o resultado da eleição na França poderá impactar a Europa" Universia Knowledge@Wharton, [May 10, 2017].
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