Como pessoas com acesso limitado ao banco podem prosperar sem dinheiro

No início de seu discurso de abertura por ocasião do mais recente Congresso de Impacto Social da Wharton, Ed McLaughlin apresentou um slide em que aparecia um recorte do Philadelphia Inquirer Headline de 11 de fevereiro de 1986 com os seguintes dizeres: “Inimigos do apartheid na Universidade da Pensilvânia encerram greve”. Como membro da Coalizão Anti-Apartheid da Universidade da Pensilvânia, McLaughlin estava entre os 70 estudantes que, 20 dias antes, haviam começado uma greve sem dia e hora para acabar do lado de fora da sala do reitor da universidade na época, Sheldon Hackney. No dia previsto para o final da greve, cerca de 150 estudantes se reuniram à tarde para exigir que os gestores da universidade se desfizessem de US$ 92 milhões em ações e títulos de empresas que operavam na África do Sul.

McLaughlin, hoje diretor de pagamentos emergentes da MasterCard, exibiu ainda a manchete de um press release de alguns dias antes do congresso: “Cartão de débito SASSA, da MasterCard, impulsiona a inclusão financeira”. Foi o coroamento dos esforços de McLaughlin — o “SASSA”, ou South Africa Social Security Agency [Agência de Seguridade Social da África do Sul], com McLaughlin à frente do setor de desenvolvimento e comercialização de plataformas de produtos de pagamentos, distribuiu mais de 10 milhões de cartões de débito para os sul-africanos.

A população com acesso aos serviços bancários no país, de acordo com pesquisa feita pela FinScope South Africa 2013, cresceu 8% desde 2012. Setenta e cinco por cento (27,4 milhões) da população adulta agora tem acesso aos bancos, o que  significa que essas pessoas têm conta em instituições financeiras tradicionais. A pesquisa atribuiu aos cartões de débito SASSA a inclusão, em 2013, de 1,9 milhão de pessoas à população com conta em banco.

“Nós, da MasterCard, estamos trabalhando na África do Sul, juntamente com o governo, para promover a inclusão de muitas das pessoas tão trágica e brutalmente excluídas pelos governo anteriores”, disse McLaughlin. “A balança da história pende para o lado da justiça. Podemos partir de uma situação terrível e usar as ferramentas à nossa disposição para ajudar, de fato, todo tipo de população anteriormente excluída.”

O sistema financeiro do qual os sul-africanos hoje fazem parte é vasto — quase dois bilhões de cartões MasterCard facilitam transações em 150 moedas em 210 países, observou McLaughlin, ligando 36 milhões de estabelecimentos comerciais a instituições financeiras. A empresa foi fundada em 1966 com o nome de Interbank Card Association e rebatizada de MasterCard em 1979. Em 2010, a empresa criou o MasterCardLabs, cujo objetivo é criar métodos novos e inovadores para a realização e processamento de pagamentos eletrônicos.

A telefonia móvel, disse McLaughlin, permitiu que a MasterCard alcançasse populações antes inacessíveis. Ele disse que vislumbra um mundo sem dinheiro, “em que todo aparelho conectado seja um aparelho para fins comerciais a serviço do indivíduo”.

“Estamos no negócio de conexões”, disse. “O que eu considero inspirador de fato é a oportunidade que temos de usar toda essa capacidade, toda essa tecnologia que desenvolvemos para servir pessoas como nós, e usá-la para alcançar pessoas e ajudá-las nas comunidades que jamais tiveram acesso a ela antes.”

Uma sociedade sem dinheiro

Antes de sua função atual, McLaughlin trabalhou na divisão de desenvolvimento e de conformidade de franquia da MasterCard com ênfase em regulações globais, padrões de licenciamento e de marca. Ingressou na MasterCard em 2005 depois de ter sido vice-presidente de produto e estratégia da Metavante, companhia de tecnologia de serviços financeiros. McLaughlin foi para a MasterCard depois que a empresa adquiriu a Paytrust, companhia de pagamentos online da qual McLaughlin fora um dos fundadores e da qual era CEO.

Mais de 85% das transações em todo o mundo, observou McLaughlin, ainda são feitas em dinheiro. E o dinheiro, acrescentou, é causa de todo tipo de obstáculo para a economia.

“Um dos sujeitos com quem trabalhamos diz que o dinheiro é o ‘inimigo do homem pobre'”, observou. “Ele é incrivelmente caro. De acordo com nossos cálculos, o dinheiro é responsável por cerca de 1,5% dos empecilhos que travam a economia, simplesmente por causa do custo decorrente de lidar com ele. O dinheiro é a base da corrupção. Ele é fonte de todo tipo de atividade ilegal. Contudo, talvez a pior parte disso tudo seja o fato de que o dinheiro não é muito útil. Ele está restrito a transações físicas, e isso significa que contingentes populacionais inteiros, quantidades enormes de indivíduos, estão hoje sem acesso a tudo o que é digital, tudo o que é eletrônico.

“É praticamente um novo apartheid”, prosseguiu. “Pense nisso. Pense no acesso à educação. Pense nos bens e serviços disponíveis online. Precisamos de acesso aos fundos eletrônicos. Precisamos de acesso aos serviços bancários para que possamos tirar vantagem deles. Portanto, a maior parte da população mundial ainda hoje vive à mercê de uma economia baseada no dinheiro. E nós podemos ajudar.”

De acordo com McLaughlin, a MasterCard tem colaborado em lugares como a Nigéria, onde a Comissão de Gestão da Identidade Nacional tornou-se parceira da empresa no que McLaughlin chamou de “um caso de estudo perfeito”. A MasterCard produziu 13 milhões de Cartões Inteligentes de Identidade Nacional com chips de identificação biométrica embutidos e recursos de pagamento eletrônico. A introdução dos chips, disse McLaughlin, reduziu a fraude decorrente do uso de cartões e transações falsas em 98%. Os cartões também contribuíram para a educação financeira de seus donos, os quais, segundo, McLaughlin, verificavam seu saldo até 30 vezes por mês. Essas pessoas, acrescentou, podem passar de uma situação em que não possuem ferramenta financeira alguma para outra em que podem acessar mais facilmente os subsídios dados pelo governo; depois, poderão acessar os bancos e contratar crédito para investimento.

“Isto não é, e não pode ser jamais, a versão simplificada de um produto que é usado em um mercado e que se tenta aplicar em outro”, disse McLaughlin. “É preciso que ele seja fruto de uma compreensão profunda do modo pelo qual podemos ajudar as pessoas; de como podemos ajudar uma comunidade. De que maneira recorremos às habilidades, capacidades e tecnologias de que dispomos e as adaptamos de modo que produzam exatamente os benefícios desejados?”

Livre de restrições

As populações sem acesso ou com pouco acesso aos bancos às quais McLaughlin se referiu tendem a ser formadas por jovens (42%, disse ele, têm entre 15 e 34 anos) urbanos (52% atualmente; 60% em 2030) do sexo feminino (54%). 

Entre os vários estudos de caso analisados por McLaughlin está o da Zuum, um serviço que permite aos brasileiros transferir dinheiro , comprar créditos para celulares pré-pagos e pagar contas com o telefone; uma parceria com o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas fornece cupons eletrônicos para refugiados sírios no Líbano e na Jordânia para compra de alimentos; o “Flous”, termo árabe para “dinheiro”, da qual faz parte a rede móvel Etisalat, pode ser usado em qualquer celular para a transferência, depósito ou retirada de dinheiro em todo o Egito.

“Um benefício não previsto decorrente do rompimento com o modelo de distribuição baseado em dinheiro”, disse McLaughlin, “foi que durante os distúrbios e levantes no Egito os únicos funcionários do governo que receberam pagamento foram, literalmente, os que usavam esse sistema. Eles estavam livres das limitações e dos distúrbios do mundo físico”.

Seja qual for a comunidade, acrescentou McLaughlin, os preços das transações da MasterCard são determinados da mesma maneira. Nos casos mencionados acima, os comerciantes têm um desconto modesto, porém o segredo do negócio, para McLaughlin e para a empresa, disse ele, consiste na remoção das barreiras que tolhem a participação das pessoas.

Seu conselho para os jovens presentes no auditório é que sejam ousados e que priorizem o efeito final do produto sobre o consumidor. “Não queiram participar de um indústria”, disse. “Pensem em uma maneira de mudá-la. Sempre me esforcei para que minha missão fosse essa. Quando estava projetando um software, tinha sempre em mente quem iria usá-lo: será que meu projeto pode tornar melhor a vida dela, seu trabalho, seu dia? Creio que vocês terão um lugar garantido em qualquer indústria, contanto que não percam jamais de vista essa perspectiva, esse impulso.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Como pessoas com acesso limitado ao banco podem prosperar sem dinheiro." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [07 July, 2014]. Web. [15 November, 2018] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/como-pessoas-com-acesso-limitado-ao-banco-podem-prosperar-sem-dinheiro/>

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"Como pessoas com acesso limitado ao banco podem prosperar sem dinheiro" Universia Knowledge@Wharton, [July 07, 2014].
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