Como a tecnologia blockchain revolucionará as empresas de serviços financeiros

Neste segundo artigo da série “A revolução da rede: criando valor através de plataformas, pessoas e tecnologia”, os autores Barry Libert, Megan Beck e Jerry (Yoram) Wind analisam de que maneira a tecnologia blockchain revolucionará de forma marcante os setores público e privado, a começar pela indústria de serviços financeiros. Libert é CEO da OpenMatters e Beck é diretor de insights. Wind é professor de marketing da Wharton e diretor do Centro Sei de Estudos Avançados em Gestão da Wharton. Os autores agradecem a LiquidHub por patrocinar a pesquisa desta série. 

As regras básicas do jogo que preside a criação e a captura de valor econômico foram fixadas numa determinada época do passado. Durante anos, ou mesmo décadas, as empresas seguiram sempre os mesmos modelos empresariais (geralmente por meio da venda de bens e serviços, formação e aluguel de ativos e terras e por meio da oferta de tempo e serviço às pessoas) e tentaram sempre superar a concorrência. Agora, porém, a revolução em curso no modelo de negócios está mudando a própria natureza dos retornos econômicos e as definições da indústria. Todos os setores estão passando por uma rápida mudança, uma revolução e, em casos mais extremos, pela destruição pura e simples. A indústria de serviços financeiros, com seus imensos bancos comerciais e de investimentos e gestores financeiros, não é exceção.

“O Vale do Silício está chegando”, advertiu Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, em sua carta anual aos acionistas. Ele disse que as start-ups estão chegando a Wall Street inovando e gerando economias nas áreas mais importantes de empresas com o JPMorgan, sobretudo no segmento de crédito e pagamentos.

A Stripe, start-up do setor de pagamentos, está avaliada em vários bilhões de dólares e tem parceria com a Apple Pay. As empresas de bitcoins e de câmbio, como a 21 e a Coinbase, estão atraindo dezenas de milhões de dólares de investidores de risco. O empréstimo peer-to-peer [par a par, ou entre partes] está crescendo no pequeno mercado de crédito onde há inúmeros participantes ― entre eles, a Upstart, Prosper, Funding Circle etc. A start-up de planejamento financeiro LearnVest acaba de ser adquirida por mais de US$250 milhões.

Muitas dessas empresas atuam no setor de crédito, mas recorrem ao big data e às tecnologias de nuvem em vez de caixas e agências para agilizar a concessão de empréstimos e a conquista de clientes. Outras estão tirando proveito dos modelos de negócios em rede, como empréstimos peer-to-peer, para desse modo pôr em contato possíveis tomadores e credores. De acordo com Dimon, “vamos nos esforçar para tornar nossos serviços tão homogêneos e competitivos quanto os deles”. A ideia por trás desse pensamento é a seguinte: se sua empresa não se mantiver atualizada com as novatas de hoje, que são bem capitalizadas, ela começará a perder importância num mundo cujo centro são as plataformas.

Há muitos modelos inovadores de negócios em rede que vêm na esteira de serviços financeiros e bancos tradicionais. Os grandes bancos já começam a se dar conta de que têm de evoluir em resposta a isso, se quiserem continuar viáveis em um mundo eminentemente digital ― seja pela aquisição, parceria ou desenvolvimento de tecnologias de ponta. O que não está muito claro, porém, é por que, exatamente, essas novas empresas são tão subversivas e poderosas. O que as capacita a contornar as limitações evidentes dessas empresas antes “grandes demais para falir” e explorar possibilidades não vistas? Em suma: o pensamento centrado em rede com modelos de negócios baseados em plataformas.

O controle começa a se distanciar dos bancos

No Canary Wharf de Londres, uma equipe de tecnólogos e executivos está tentando compreender como usar a tecnologia blockchain para mudar o futuro dos bancos no mundo todo. Seu líder é Blythe Masters, ex-trader de commodities de Wall Street e hoje empresário digital decidido a virar de cabeça para baixo o modelo mental e empresarial da enorme indústria de serviços financeiros e todas as partes relacionadas a ela (consumidores, advogados, contadores).

Os executivos de bancos do mundo todo estão tentando imaginar o que essa evolução na tecnologia significará para suas empresas. “Podemos tomar o caminho da tecnologia de transferência de arquivos, que mudou a indústria da música, permitindo que novos negócios como o iTunes surgissem. É por isso que há uma atividade tão febril neste momento”, disse Michael Harte, diretor de operações e de tecnologia da Barclays, de acordo com artigo recente no Financial Times.

Para grande parte do setor de serviços financeiros, a tecnologia blockchain (isto é, o software por trás da moeda digital, a Bitcoin) oferece uma oportunidade de reformulação do modelo de negócio atual, inclusive de sua infraestrutura bancária, estratégia de acordos e interação com clientes. Contudo, aproveitar essa oportunidade e tirar o máximo proveito do blockchain não é tarefa fácil dada as crenças básicas e os sistemas de reforço próprios dessa indústria.

As redes estão tomando conta de tudo

O que é o blockchain? É uma base de dados distribuída entre vários computadores que conserva registros e gerencia transações. Em vez de ter um autoridade central (como em um banco), o blockchain usa a rede para aprovar os “blocos”, ou transações, que são em seguida adicionadas à “cadeia” do código do computador. Usa-se a criptografia para manter as transações seguras. A natureza da distribuição da aprovação da transação dificulta mais ainda a tentativa de interferir no sistema.

A tecnologia blockchain foi saudada pelos investidores de risco que a apoiam como uma promessa revolucionária para todos os envolvidos. “Devemos levar essa tecnologia tão a sério quanto devíamos ter levado o desenvolvimento da Internet em princípios dos anos 90. Ela equivale ao e-mail em termos financeiros”, disse Masters, segundo o Financial Times. 

Os entusiastas do blockchain acreditam que as possibilidades de aplicação são infinitas ― aperfeiçoando a maneira como mantemos e transferimos dinheiro, escrituras, música e propriedade intelectual. Na verdade, o blockchain, como tecnologia de plataforma pura, pode acabar com os intermediários (ou empresas intermediárias) por toda parte, subvertendo até mesmo empresas revolucionárias como a Airbnb e Uber.

No modelo atual de empresas de serviços financeiros, um livro-razão central funciona, muitas vezes, como elemento de custódia de informação (tal como o faz o Federal Reserve e bancos membros). Contudo, no mundo do blockchain, as informações referentes a cada transação são preservadas de modo transparente em um banco de dados compartilhado na nuvem, portanto não há um agente central único que aja como intermediário. Essa ausência de uma autoridade central é exatamente o elemento que está pondo de cabeça par abaixo os atuais modelos mentais e empresariais das instituições financeiras tradicionais.

Em muitas áreas, tudo indica que o blockchain substituirá o atual modelo centralizado de negócios da indústria de serviços financeiros. É fácil ver como isso poderia revolucionar Wall Street. A capacidade da tecnologia de propiciar um histórico de identidade imune a falsificações, inclusive o histórico de transações de uma pessoa, é uma área que vem sendo avidamente explorada. David Grace, diretor de finanças globais da PwC, disse que “se tivermos um livro-razão distribuído que seja seguro, poderemos usá-lo para armazenar dados do tipo ‘conheça seu cliente’ de indivíduos ou empresas […] Trata-se de uma aplicação de potencial global que proporcionaria maior segurança para os dados de identidade e para seu local de armazenagem”.

É evidente que estamos entrando em um período de rápida evolução, na medida em que a indústria de serviços financeiros avalia o blockchain e o que ele significa para seu modelo de negócio. Ou, outro cenário: uma série de start-ups identificam as possibilidades e puxam o tapete das grandes instituições. As percepções tradicionais a respeito do papel das empresas financeiras já estão sob ataque ― já que, assim parece, o código tem performance superior à de um intermediário real na maior parte dos casos. Os antigos modelos empresariais em breve cairão presa da tecnologia e dos modelos mentais em rápida evolução. A rede está prestes a fazer sua mágica: crescer e evoluir sem controle central.

Os modelos empresariais de rede dominarão

O blockchain já está sendo usado fora do setor de serviços financeiros, onde começou. A IBM, empresa de tecnologia e de serviços, está adaptando a metodologia do blockchain para desenvolver um sistema sem moeda que poderia ser usado para qualquer fim ― por exemplo, para a execução de contratos mediante entrega.

Arvind Krishna, vice-presidente sênior da IBM Pesquisas, acredita que, a longo prazo, essa tecnologia poderá facilitar as transações entre os bancos ou empresas internacionais. “Quero levar os serviços dos bancos a 3,2 bilhões de pessoas que ascenderão à classe média nos próximos 15 anos”, disse. “Portanto, preciso de um livro-razão que seja bem barato de preservar. O blockchain oferece algumas possibilidades interessantes nessa área.” Um sistema bancário centrado na empresa ou controlado de um ponto central evidentemente não o levará aonde deseja ir, mas o blockchain lhe permitirá tirar proveito futuro de uma rede de funcionamento digital.

Junte-se à revolução das redes 

Com o apoio de empresas como IBM e JPMorgan Chase, bem como da Andreessen Horowitz, importante empresa de investimento de risco, as transações financeiras se darão com maior facilidade, e é só uma questão de tempo até que serviços financeiros maiores e os setores bancários migrem para o blockchain e para as estratégias baseadas em redes para complementar, ou substituir, a estratégia centralizada atual. A questão não é se os modelos de negócios em rede apoiados pela tecnologia blockchain subverterão essas empresas, mas quando isso se dará. Portanto, se você faz parte da elite atual da indústria de serviços financeiros ― ou de um banco local ou de uma cooperativa de crédito ― é hora de se unir à revolução digital e participar do mundo emergente de redes e de plataformas.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Como a tecnologia blockchain revolucionará as empresas de serviços financeiros." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [29 May, 2016]. Web. [19 June, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/como-tecnologia-blockchain-revolucionara-empresas-de-servicos-financeiros/>

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