A compra do LinkedIn pela Microsoft foi um bom negócio?

A aquisição da rede de serviços profissionais LinkedIn por US$ 26,2 bilhões planejada pela Microsoft poderá ser um bom negócio para a empresa em vários níveis. Em primeiro lugar, a aquisição abriria novos fluxos de receitas que dariam respaldo ao amadurecimento do seu portfólio de negócios. Em segundo lugar, a Microsoft poderia usar o LinkedIn para descobrir novas formas de comercializar as ofertas da empresa, como os produtos Microsoft Office, Skype e a plataforma de aprendizagem online Lynda.com. Em terceiro lugar, o LinkedIn dá à Microsoft uma presença significativa no espaço de redes sociais que há muito tempo a empresa cobiçava. O LinkedIn tem 433 milhões de usuários, sendo que 60% deles em plataformas móveis, de acordo com uma nota à imprensa em que a aquisição foi anunciada.

Para o LinkedIn haveria também maiores oportunidades de venda de seus produtos que até agora não havia sido possível. Com a Microsoft ao seu lado, ela provavelmente teria o fôlego necessário para frustrar quaisquer tentativas do Facebook de invadir seu território. Os especialistas dizem que o desafio que agora se coloca para a Microsoft consiste em transformar em receita as oportunidades trazidas pelo LinkedIn e fazer com que o preço pago pela aquisição se justifique.

Local de trabalho do futuro

“A Microsoft criará o local de trabalho do futuro”, disse Pinar Yildirim, professora de administração da Wharton. “Satya Nadella, CEO da Microsoft, vislumbra uma plataforma em que um funcionário chegará ao seu local de trabalho e usará uma série de produtos ― para a criação de documentos, apresentações, para a comunicação com outras pessoas dentro e fora da empresa, dispondo ainda de informações sobre o background empresarial dos profissionais com que talvez tenha de interagir.”

A fusão planejada é “uma boa decisão”, explica Peter Zaleski, presidente do departamento de economia da Universidade Villanova. “De modo geral, não gosto de fusões entre empresas com negócios distintos […] mas há algumas sinergias no caso em questão que podem ser aproveitadas”, disse. A Microsoft tem uma presença forte nos mercados de software, navegadores e sistemas operacionais. O LinkedIn seria outro segmento a ser explorado.” Zaleski descreveu o negócio como uma transação em que as duas partes sairão ganhando, acrescentando que os primeiros beneficiários seriam os acionistas do LinkedIn.

Yildirim e Zaleski debateram a lógica empresarial que levou a aquisição do LinkedIn pela Microsoft durante o programa da Knowledge@Wharton na Wharton Business Radio, canal 111 da SiriusXM. Ouça o podcast clicando no alto desta página.

De acordo com Eric Bradlow, professor de marketing, estatística e educação da Wharton, o negócio permite à Microsoft, que é basicamente uma empresa de software, a oportunidade de se tornar uma companhia de conteúdo. Bradlow também é diretor adjunto do Wharton Customer Analytics Initiative [Projeto de Analítica do Cliente da Wharton].

“O LinkedIn, através de perfis gerados pelo usuário, é uma das empresas mais importantes no setor de conectividade entre pessoas, bem como para empresas em busca de profissionais e indivíduos que estejam procurando ampliar sua rede pessoal”, disse Bradlow. “A combinação disso tudo de forma sinergética com os ativos da Microsoft cria o potencial para que se ofereçam ainda mais serviços às pessoas.”

De acordo com os termos do negócio, o LinkedIn funcionaria como uma empresa independente dentro da Microsoft. “Isso tem alguma lógica a curto prazo, mas a longo prazo entendo a pesquisa feita por ambas as empresas como uma atividade em que há sinergia, e sem dúvida o mesmo se aplica aos dados”, disse Bradlow. “Em outras palavras, os numerosos dados do LinkedIn permitirão à Microsoft direcionar seus produtos e serviços.”

Uma rede rentável e em crescimento

Yildirim disse que a Microsoft vem tentando adquirir uma rede social há algum tempo. Faz parte dessas tentativas uma investida feita pela empresa há dez anos sobre o Facebook. Com o LinkedIn, a Microsoft adquire uma empresa com receitas em crescimento que é também rentável, disse. O LinkedIn teve receitas de US$ 2,99 bilhões em 2015, o que corresponde a um aumento de 35% em relação ao ano passado, bem como um EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de US$ 780 milhões. Em valores líquidos, porém, o LinkedIn vem registrando prejuízos sistematicamente. Em 2015, os prejuízos líquidos da empresa foram de US$ 166 milhões, um aumento acentuado em relação aos US$ 15,7 milhões de 2014.

Há pontos positivos nas finanças do LinkedIn. Seus serviços premium geram receitas muito acima da receita publicitária que a empresa tem. Esse modelo de negócio diferencia a empresa de outras redes sociais como o Facebook, que depende sobretudo, ou exclusivamente, da receita com publicidade, disse Yildirim. As receitas do LinkedIn com suas assinaturas premium em 2015 cresceram 22% a mais do que em 2014, saltando para US$ 532 milhões. Esse volume poderá ser ainda maior, informa Zaleski. Ele disse que o LinkedIn não soube transformar em receita os recursos de valor agregado que oferece, ao passo que a Microsoft “historicamente, sempre fez um bom trabalho” nesse sentido. “E poderá fazê-lo para o LinkedIn”, acrescentou.

Mais força aos produtos existentes

À medida que as empresas se tornam cada vez mais globais, o banco de dados do LinkedIn pode vir a ser “extremamente útil” para a Microsoft, disse Yildirim. Isso faria do Microsoft Outlook, por exemplo, um produto mais forte. O LinkedIn reforçaria o Outlook ao proporcionar a seus usuários informações sobre as pessoas para quem elas talvez queiram enviar um e-mail ou atualizações sobre as coisas em que seus contatos estejam trabalhando, disse.

Com o LinkedIn, a Microsoft poderia também fortalecer outros produtos, como o Skype, disse Yildirim. “O Skype tem muitos usuários, mas a Microsoft não tem conseguido tirar muito proveito disso”, disse. “As empresas dependem cada vez mais da comunicação à longa distância, e o Skype poderia se beneficiar das redes do LinkedIn.”

O Skype enfrenta a concorrência do Facebook que oferece também comunicação em vídeo, mas o Skype deverá prevalecer, explica Yildirim. Contudo, o negócio de fato da Microsoft é o serviço que ela oferece às empresas, e não a indivíduos, que é o forte do Facebook, disse Yildirim. O Skype tem a vantagem de recursos como a divisão de tela e a teleconferência, acrescentou. “O problema do Skype é que ele não é muito intuitivo para o usuário, é meio complicado, e não evoluiu com o passar dos anos”, disse. “A aquisição permitiria o desenvolvimento do produto.”

Preço certo?

Reportagens dos meios de comunicação questionaram o preço que a Microsoft está pagando pelo LinkedIn. Entre fevereiro de 2015 e fevereiro de 2016, o preço da ação do LinkedIn passou de US$ 270 para US$ 100, subindo para US$ 131 na semana retrasada. Na semana passada, já era cotada a US$ 196, valor este que será o preço pago pela Microsoft por cada ação do LinkedIn, o que representa um ágio de 50% em relação ao fechamento da semana anterior.

Zaleski não acha que a Microsoft tenha pago um preço excessivo pelo LinkedIn. O valor da empresa havia caído e a Microsoft viu a oportunidade de melhorá-lo, disse. Yildirim salientou que a queda do preço da ação do LinkedIn reflete projeções de um crescimento mais frágil em sua base de usuários. A informação não a surpreendeu: à medida que as redes sociais ficam maiores, seu índice de crescimento diminui, disse.

Yildirim, porém, disse que o timing da compra do LinkedIn foi correto, uma vez que a empresa “vem enfrentando dificuldades” para se tornar um negócio maduro. É o que pensa também Zaleski, acrescentando que a Microsoft está “no auge de sua curva de crescimento” e poderia usar o LinkedIn para acelerar sua prosperidade.

Para o LinkedIn, a evolução de start-up para uma empresa mais madura exige investimentos significativos, disse Yildirim. O LinkedIn poderia tirar proveito da base de conhecimento e de produtos da Microsoft na medida em que tenta expandir seus negócios, acrescentou.

Desafios à frente

A Microsoft tem “um histórico pobre de grandes negócios”, de acordo com um artigo da Economist. O texto cita a compra do Skype pela Microsoft em 2011 por US$ 8,5 bilhões como um “sucesso comportado”, além de outros negócios, dentre eles a compra em 2007 da empresa de publicidade online aQuantive por US$ 6,3 bilhões e a aquisição, por US$ 7,2 bilhões, do negócio de celulares da Nokia em 2014. As aquisições da empresa ao longo dos últimos cinco anos, disse Zaleski, “foram malsucedidas na maior parte das vezes”.

Segundo Zaleski, Nadella comanda uma empresa bastante madura com perspectivas de crescimento em declínio. Sua principal área de interesse seria a alocação de capital, e se seus horizontes de investimentos estiverem encolhendo, o objetivo primordial consistiria em proteger os interesses dos acionistas, disse. Ao mesmo tempo, a empresa estaria atenta a oportunidades de investimentos lucrativos, acrescentou.

Yildirim disse que Nadella “lidera um empresa madura, e empresas assim nunca são fáceis de administrar”. Contudo, para Yildirim ele foi bem-sucedido ao deslocar o negócio da empresa cada vez mais para a nuvem. A aquisição do LinkedIn dará retorno nos próximo anos, previu.

Microsoft e LinkedIn terão ainda outros desafios pela frente. Yildirim disse que um dos desafios do LinkedIn é a possibilidade de que o Facebook entre em seu espaço. “Não há nada que impeça o Facebook de criar um software através do qual empregados e empregadores possam se conectar, não apenas para comunicações profissionais, mas também de forma social.”

De acordo com Zaleski, o LinkedIn tem a vantagem de ter chegado primeiro no espaço de rede de profissionais. “Provavelmente, a presença do LinkedIn dificultou a entrada do Facebook nesse mercado”, disse. “O Facebook poderia entrar nesse mercado, mas o fato é que o LinkedIn entrou primeiro, o que levou as pessoas a pensar no Facebook como uma rede mais social e o LinkedIn, mais profissional.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"A compra do LinkedIn pela Microsoft foi um bom negócio?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [27 June, 2016]. Web. [16 June, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/compra-linkedin-pela-microsoft-foi-um-bom-negocio/>

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