Conseguirá a empresa farmacêutica francesa Aventis repelir seu hostil pretendente?

A audaciosa oferta de US$ 58 bilhões proposta pela Sanofi-Synthelabo pela aquisição da Aventis, sua rival na indústria farmacêutica, mexeu com os mercados europeus e com o orgulho francês. Embora a fusão possa custar o emprego de milhares de franceses, o negócio parece ter a bênção das autoridades governamentais que esperam com isso dar origem — ou pelo menos preservar — um campeão nacional no setor altamente lucrativo da indústria farmacêutica.

 

A empresa queixa-se de que é ela, de fato, a mais forte das duas companhias, bem como a  mais valiosa por si só. E não esconde que está à procura de quem possa salvá-la.

 

Contudo, as estatísticas dizem que é apenas uma questão de tempo, e preço, para que a Aventis concorde em se unir a Sanofi. A empresa combinada seria a terceira maior do mundo no setor em número de vendas — depois da americana Pfizer e da GlaxoSmithKline britânica — com 100.000 empregados em todo o mundo. “Trata-se de um casamento de conveniência, e não por amor”, observa Claude Allary, sócia-gerente da empresa de consultoria científica Bionest Partners.

 

Ambas as empresas são players medianos no mercado global e têm linhas de produtos complementares. A Sanofi, que tem entre seus remédios principais o antitrombótico Plavix, e a pílula para dormir Ambien, teve vendas de 8,08 bilhões de euros no ano passado. As vendas da Aventis, responsável pela comercialização do antialérgico Allegra e do anticoagulante Lovenox, somaram 16,79 bilhões de euros em 2003.

 

A Aventis é resultado da fusão ocorrida em 1999 entre a Rhone-Poulenc francesa e as operações farmacêuticas da fabricante de produtos químicos alemã Hoechst A.G.  A Sanofi cresceu graças a uma série de negócios na área de remédios e beleza estruturados por seu diretor-presidente, Jean-François Dehecq.

 

“Vai ser uma batalha e tanto”, observa John Kimberly, professor de administração da Wharton. “Há um desejo muito forte da parte da Aventis de preservar sua independência, sobretudo em relação a Sanofi. Por outro lado, Dehecq é negociador hábil e tem em seu currículo vários negócios de sucesso na Sanofi que se revelaram produtivos e lucrativos.”

 

Se deixada por sua própria conta, a Sanofi poderá se tornar alvo de aquisição. Os dois acionistas controladores da empresa — a Total, companhia francesa de petróleo, e a L’Oreal, empresa de cosméticos — selaram um pacto pelo qual não venderiam sua parte na Sanofi. Contudo, o acordo termina no final do ano. A Total já se declarou favorável à aquisição da Aventis. Ao mesmo tempo, expira em breve uma patente fundamental do Plavix, campeão de vendas da Sanofi, o que deixaria um vácuo em sua carteira de produtos.

 

“É sem dúvida uma jogada muito oportuna para a Sanofi”, assinala Philippe Haspeslagh, professor da INSEAD. “Sob muitos aspectos, a Sanofi precisa da Aventis mais do que esta daquela.” A Aventis daria a Sanofi uma melhor rede de distribuição, principalmente nos EUA, onde a Aventis se acha bastante consolidada. A companhia resultante da fusão, observa Haspelagh, ganharia massa crítica em pesquisa e desenvolvimento em algumas áreas terapêuticas, embora isso talvez seja difícil de se concretizar se persistir a hostilidade.

 

A Aventis argumenta que os mercados não valorizaram devidamente os produtos em potencial da empresa, por isso luta para encontrar meios que lhe permitam cortar custos e se desfazer de negócios de fraco desempenho. “Esse talvez seja um movimento de antecipação por parte da Sanofi”, diz Sean Nicholson, professor de sistemas de saúde da Wharton. “A Aventis está tentando dizer a seus acionistas que a Sanofi é uma empresa fraca. Por que vocês venderiam sua empresa a uma outra que é fraca?”

 

O governo francês, que tem uma longa história de socorro a corporações e indústrias que lhe são caras, parece estar apoiando a oferta de compra da Sanofi, já que não colocou obstáculo regulatório algum à fusão até o momento. Isso a despeito do prejuízo potencial de até 12.000 postos de trabalho bem remunerados na Europa, muitos deles na França. “Especula-se que o governo francês teria receio de que uma companhia de fora da França possa engolir uma das duas, deixando-o com um player menor no setor em vez de um representante mais forte”, observa Nicholson.

 

De acordo com analistas, a tão propalada amizade de Dehecq com o presidente francês Jacques Chirac seria outro sinal de que a operação tem o consentimento do governo. “Politicamente, Dehecq tem o apoio do Estado na França. Ele é amigo de Chirac e, provavelmente, Chirac deu seu apoio à forma como o negócio foi estruturado”, assinala Eric Le Berrigaud, analista da Natexis Bleichroeder, de Paris.

 

Rob Burns, professor de sistemas de saúde da Wharton, destaca que em muitos países europeus a indústria farmacêutica é considerada um tesouro nacional. “É um negócio de alta tecnologia, de margens altas e que cresce significativamente, pelo menos até o presente momento, por isso outros países vêm tentando obter uma fatia desse bolo — é o caso da Índia, do Sudeste Asiático e do Japão. Interessa ao governo francês que a aquisição da Aventis, caso venha a ocorrer, seja feita por outra companhia francesa. As autoridades francesas já puderam perceber o efeito que teria a migração de parte da capacidade de pesquisa das empresas farmacêuticas para os EUA.”

 

Apesar de lucrativa, a indústria de remédios vem passando nos últimos tempos por uma série de problemas bastante noticiados pela imprensa, inclusive a escassez de novos produtos em sua linha de desenvolvimento. Por causa disso, o setor vem se consolidando rapidamente por mais de uma década, à medida que as empresas se fundem para cortar custos, ganhar acesso a novos produtos e  incrementar seu poder de vendas. “O boom de fusões e aquisições na indústria farmacêutica data de finais da década de 1980 e ainda não deu sinal de estar chegando ao fim”, diz Burns.

 

Fusões: resultados heterogêneos

 

O sucesso das fusões no setor farmacêutico, porém, é motivo de questionamentos. De acordo com uma pesquisa realizada por Nicholson e Patricia Danzon, professora de sistemas de saúde da Wharton, as fusões não realizam aquilo que prometem. “As fusões parecem ser uma estratégia a que as firmas recorrem em momentos difíceis”, observa Nicholson, “e cujos resultados não são grande coisa; nem para melhor e nem para pior”.

 

Para Nicholson, a consolidação das duas empresas francesas, o que as colocaria  no terceiro lugar entre as companhias de remédios do mundo, não deverá afetar significativamente a Pfizer ou outras concorrentes. “O que veremos de mais interessante nessa fusão será o fim de algumas linhas de produtos. Isso criará oportunidades para empresas menores que queiram comprá-los e pôr a seu serviço uma campanha de marketing muito forte.”

 

Nos primeiros tempos das fusões no setor farmacêutico, um grande negócio costumava puxar outro. Nicholson acrescenta: “Acontece nestes casos um fenômeno em que os demais seguem o líder, pois acreditam que seja isso o que os investidores desejam que façam. Não creio, porém, que os investidores considerem tais fusões algo tão valioso. Quando as fusões recomeçaram em 1993 e 1994, dizia-se que era preciso ser grande para ter escala. Creio que isso hoje não teria uma acolhida significativa. Há inúmeras empresas de pequeno porte que estão se saindo muito bem.”

 

De acordo com Haspelagh, a fusão internacional — Alemanha e França — que deu origem a Aventis saiu-se relativamente bem na criação de uma cultura integrada. “A Aventis, enquanto fusão, foi um sucesso relativamente único tanto no que diz respeito às fusões internacionais quanto à fusão entre iguais”, acrescenta. “O fato de que os franceses agora se referem à nova fusão como o surgimento de um novo campeão nacional deve soar mal aos ouvidos dos alemães da Hoechst, que concordaram com a instalação da sede da companhia fora de seu território.”

 

A proposta de fusão dificilmente propiciará o surgimento de um salvador que resgate a Aventis, embora a empresa tenha se declarado aberta a uma proposta favorável. Uma possível candidata seria a Novartis, que há algum tempo vem tentando ganhar escala, mas que só tem olhos no momento para sua rival suíça, a Roche. Por enquanto, porém, a Novartis não conta com a simpatia dos controladores da concorrente.

 

“A Aventis procura um salvador, porém acho difícil que apareça algum”, observa Christophe Van Vaeck, analista da KBC Securities, de Bruxelas. Ele destaca que a empresa dispõe há alguns anos de um grande volume de ações de valor flutuante que não foram capazes de atrair a atenção de um possível comprador. “Por que alguém haveria de entrar em cena agora e comprá-la por um preço superior ao que vigorava há alguns meses?”

 

A Sanofi estima que seu lance tem um ágio de 15% em relação ao preço médio das ações da Aventis cotado um mês antes da oferta. Igor Landau, diretor-presidente da Aventis, disse que seria preciso elevar esse percentual entre 40% e 50% para que merecesse atenção. O principal acionista da Aventis, a Kuwait Petroleum Corp., dona de 13% da empresa, já sinalizou que o preço oferecido é baixo demais. “Creio que a chance de a Aventis continuar independente é relativamente pequena”, observa Van Vaeck, “mas existe a possibilidade de que a Sanofi aumente sua oferta para convencer os acionistas a venderem sua parte.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"Conseguirá a empresa farmacêutica francesa Aventis repelir seu hostil pretendente?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [25 February, 2004]. Web. [06 July, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/conseguira-a-empresa-farmaceutica-francesa-aventis-repelir-seu-hostil-pretendente/>

APA

Conseguirá a empresa farmacêutica francesa Aventis repelir seu hostil pretendente?. Universia Knowledge@Wharton (2004, February 25). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/conseguira-a-empresa-farmaceutica-francesa-aventis-repelir-seu-hostil-pretendente/

Chicago

"Conseguirá a empresa farmacêutica francesa Aventis repelir seu hostil pretendente?" Universia Knowledge@Wharton, [February 25, 2004].
Accessed [July 06, 2020]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/conseguira-a-empresa-farmaceutica-francesa-aventis-repelir-seu-hostil-pretendente/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far