Conselhos de quem entende do assunto para interessados em fazer negócios no Oriente Médio e no norte da África

Para quem quer que tenha feito negócios na região do Oriente Médio e do norte da África (MENA), é evidente que tratar a região como um bloco único, e não como uma coleção de países árabes muito diferentes, é um grande erro. Recusar-se a compreender a política regional e local, bem como o papel que elas desempenham na empresa e nos investimentos, pode ser extremamente prejudicial, disseram vários personagens importantes de empresas árabes presentes ao terceiro congresso anual da Wharton, na Filadélfia, dedicado à região do MENA sob o patrocínio do MENA Club.

“A experiência no Oriente Médio, que nos obriga a lidar sempre com o governo, é totalmente distinta se o negócio em vista for a abertura de uma concessionária da Chevrolet ou de uma franquia de fast food“, disse Nassef Sawiris, o homem mais rico do Egito e CEO da OCI N.V., construtora de porte mundial e conglomerado de produção de combustível. “Se você puder evitar de negociar com o governo, seu modelo de negócio será mais tranquilo”, disse. “O Oriente Médio não é um lugar transparente. Há muita gente sussurrando conselhos ruins nos ouvidos das autoridades.”

Durante o congresso, de um dia apenas, Sawiris e seus colegas procuraram comunicar informações que só tem quem é da região, e com isso ajudar o público ocidental a superar os estereótipos do Mundo Árabe. Stephen Sammut, pesquisador bolsista da Wharton e sócio da empresa de capital de risco Burril & Co., que atua no segmento de ciências da vida, além de moderador do congresso, disse que tais informações eram importantes.

“Estamos falando de sociedades em movimento, interessadas nos mesmos bens de consumo que nós [no Ocidente]”, observou Sammut. “Elas querem fazer negócios e têm as mesmas aspirações que todo o mundo: isto é, querem dar a seus filhos um futuro promissor. São sociedades que estão passando de um período da história para outro, o que constitui uma oportunidade especial para elas, para as empresas americanas e para o povo americano, que poderão forjar novas relações.”

Muitos investidores internacionais são impelidos pelas manchetes, disse Minoush Abdel-Mequid, diretora-gerente e uma das fundadoras da Union Capital Partners, com sede no Cairo. “As saídas são muito mais difíceis por causa da turbulência política na região, o que afeta o desempenho do mercado acionário”, disse. “Até mesmo empresas que são perfeitamente capazes de fazer uma IPO constatam a dificuldade de fazê-lo.”

Contudo, esses investidores não se dão conta de que há oportunidades na região, porque não sabem se a política local terá, de fato, impacto sobre o investimento de risco, disse Hossam Radwan, sócio da empresa de private equity Abraaj Group, de Dubai. “Passamos por instabilidades políticas”, disse. “Investimos no Egito e o desempenho dos nossos investimentos foi exatamente o que esperávamos, a despeito de quem estava no poder. Tudo depende dos riscos nos quais você incorre na região.”

Diferenças de geração

Joe Saddi, vice-presidente sênior e diretor gerente da Booz & Co. no Oriente Médio, analisou em profundidade os dados da região em busca de insights e disse ao auditório presente ao evento da Wharton que as atitudes dos árabes e o comportamento do cliente estão agora divididos entre as gerações. Há três gerações no mundo árabe, disse: a mais antiga, que desfrutou da independência depois da Segunda Guerra Mundial e abraçou o pan-arabismo; a geração seguinte, moldada pelas imensas fortunas derivadas do petróleo floresceu no Golfo nos anos 70; a geração mais nova, uma geração digital, está mais em sintonia com a globalização do que com o regionalismo e o nacionalismo.

Cada um desses três grupos têm características específicas, disse Saddi: os mais jovens estão bem menos satisfeitos com a educação na região do que a geração mais antiga, e se sentem mais à vontade interagindo em rede e se comunicando através de meios digitais. Tais mudanças estão gerando oportunidades, disse, sendo a maior delas a necessidade de realinhar os gastos com publicidade na região, onde 32% de todos os orçamentos com publicidade ainda são gastos em revistas e jornais, e apenas 10% em mídias sociais e anúncios online.

Saddi foi um dos primeiros dos muitos palestrantes e membros do painel no congresso a questionar a insistência dos governos árabes em subsidiar as empresas prestadoras de serviços públicos — só os subsídios com energia custaram aos governos do MENA US$ 237 bilhões em 2011, de acordo com o Fundo Monetário Internacional. “Enquanto as pessoas não se derem conta do custo daquilo que consomem por meio de subsídios, esse valor será insignificante”, disse. “É hora de começar a deixar claro o real valor da gasolina, da energia e da água.”

Especialmente no Golfo, o que levou os países a buscar soluções em energia renovável não foi a produção, segundo informa Shafiq Ali, chefe de grupo de investimentos principais da Gulf Investment Corporation. “A demanda está descontrolada, porque energia e água são praticamente gratuitas”, disse.

Contudo, o desmonte do uso de subsídios oculta uma questão mais complicada para os governos árabes na esteira dos levantes populistas que varreram a região em 2011, disse Adel Iskandar, professor da Universidade de Georgetown cuja pesquisa se concentra em mídia e comunicação do Oriente Médio. “A cidadania no Mundo Árabe está sendo revisitada de modo muito profundo”, observou. “O indivíduo está sujeito ao governo, seu benfeitor, ou dele recebe aquilo de que necessita sob a mesma perspectiva de benfeitoria?”

Aaron Reese, diretor de pesquisas interino do Instituto de Estudos de Guerra de Washington, D. C., disse que as populações que vivem nos países árabes estão tentando vislumbrar onde pôr sua lealdade. Estão em busca de respostas para a pergunta: “Posso ter o que quero na estrutura política atual?”, disse Reese.

A resposta, em parte, a essa pergunta, consiste em criar alternativas aos subsídios, observou Moustafa Murad, presidente da One Global Economy, empresa de desenvolvimento associada a uma comunidade internacional. “Existe uma mentalidade de que o governo proverá o que for preciso, porém os governos estão ficando sem dinheiro e não podem cumprir todas as promessas”, disse. “Temos de dar à sociedade civil a capacidade de assumir responsabilidades no governo, inclusive a oferta de bens e serviços, sobretudo aos mais pobres.”

Papel reduzido do governo

É preciso que haja também menos influência do governo no setor de negócios, segundo Saad Al Barrak, ex-CEO do Zain Group, empresa de telecomunicação móvel do Kuwait. “O papel do Estado na economia peca pelo excesso de desequilíbrio”, disse. “No Kuwait, fala-se constantemente sobre livre empresa, no entanto o Estado é dono de 90% das fontes de produção no país.”

Durante o tempo que ficou na Zain, disse Al Barrak, ele passou a maior parte do tempo falando com órgãos reguladores do governo. Na indústria de  telecomunicações árabes, acrescentou, a influência do Estado não deverá desaparecer devido aos eventos da Primavera Árabe. “Todas as grandes empresas de telecomunicações são controladas por empresas do governo, porque temem o vazamento de dados. Portanto, elas querem se certificar de que poderão tapar quaisquer buracos.”

Este é hoje um dos novos desafios da região, disseram os palestrantes no congresso. Saddi observou que dúvidas acerca da censura é uma das questões que preocupam a todos os grupos etários da região, enquanto Iskandar ressaltou que o sentimento responsável pela Primavera Árabe não desapareceu, razão pela qual os governos dali agora veem como ameaça as mídias sociais: “Muitos países da região estão acostumados a oportunidades limitadas de expressão pessoal. Essa geração não está mais preparada para aceitar tal situação.”

O desejo de mudança está sendo expresso de outras formas, e não por protestos violentos, observou Reem Asaad, consultora financeira da Arábia Saudita cuja campanha no Facebook levou seu país a permitir que as mulheres pudessem trabalhar em lojas de lingerie, antes só permitido a homens.

Asaad, que escreveu o prefácio do e-book recentemente publicado pela Knowledge@Wharton, Arab Women Rising [A ascensão das mulheres árabes], disse que não há volta para as mudança institucionais em curso, nem mesmo em seu país. “Gostaria de ver minha filha crescer em uma economia mais saudável”, disse ela. “Não quero esperar outros 20 anos.”

Asaad admitiu que, na Arábia Saudita, a resistência à mudança foi enorme, mas as mulheres sentiram que havia respaldo da liderança do atual governante, o rei Abdullah. “Ainda há inúmeros obstáculos, mas pelo menos o mundo sabe de que lado o governo está”, disse ela.

“Estamos em uma era de transformação”, concluiu Asaad. “A independência traz poder. Estamos otimistas.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Conselhos de quem entende do assunto para interessados em fazer negócios no Oriente Médio e no norte da África." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [12 May, 2014]. Web. [23 August, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/conselhos-de-quem-entende-do-assunto-para-interessados-em-fazer-negocios-no-oriente-medio-e-no-norte-da-africa/>

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Conselhos de quem entende do assunto para interessados em fazer negócios no Oriente Médio e no norte da África. Universia Knowledge@Wharton (2014, May 12). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/conselhos-de-quem-entende-do-assunto-para-interessados-em-fazer-negocios-no-oriente-medio-e-no-norte-da-africa/

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"Conselhos de quem entende do assunto para interessados em fazer negócios no Oriente Médio e no norte da África" Universia Knowledge@Wharton, [May 12, 2014].
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