Consequências da queda do euro para a Europa

O Banco Central Europeu (BCE) surpreendeu com o rebaixamento das taxas de juros ao seu valor histórico mínimo de 0,05% no início do mês de setembro. Além disso, em sua última reunião mensal (outubro), a instituição apresentou seu plano para introduzir mais moeda na economia mediante a compra de ativos bancários. Tudo isso tem como objetivo a recuperação, de uma vez por todas, da frágil atividade da região.

O presidente do BCE, Mario Draghi, disse em entrevista coletiva em 2 de outubro que o volume potencial de compra de ativos privados e de cédulas hipotecárias poderia chegar a um bilhão de euros. Além disso, acrescentou que o órgão estará pronto para começar o plano de compra de títulos com garantias em meados de outubro e de créditos titularizados (ABS) no quarto trimestre de 2014.

De acordo com uma sondagem feita pela agência de notícias Reuters entre analistas econômicos, o BCE comprará um total de 200 bilhões de euros em títulos e ativos titularizados (ABS na sigla em inglês, isto é, dívida transformada em títulos oriundos de créditos concedidos pelos bancos às empresas ou aos consumidores) no prazo de um ano. O órgão regulador garantiu que os programas durarão pelo menos um exercício. Essas medidas, juntamente com novos créditos do BCE no valor de até 400 bilhões de euros pelo prazo de quatro anos aos bancos (com juros muitos baixos e conhecidos como TLTROs), “apoiarão os segmentos específicos do mercado que têm um papel chave no financiamento da economia”, observa Draghi.

“A compra de ativos titularizados é uma das medidas adicionais já anunciadas e concretizadas”, observa Santiago Carbo-Valverde, professor de economia da Universidade Bangor de Londres e pesquisador da Funcas. Para ele, trata-se de uma medida que pode impulsionar, de algum modo, o mercado de titularização e, dessa forma, o crédito. “Seja como for, resta ver qual será efetivamente seu impacto.” De algum modo, disse, “isso se soma ao esforço de estímulo dos TLTRO que, por enquanto, tiveram uma resposta comedida, mas que, na próxima sessão, espera-se que haja uma demanda maior. Outras medidas extraordinárias que agora estão sendo consideradas — embora contem com forte oposição por parte da Alemanha [que teme o aumento dos riscos financeiros para a instituição] são as aquisições da dívida pública”.

Joaquín Maudos, professor de análise econômica  da Universidade de Valencia, diz que “por trás das várias medidas não convencionais (juros negativos para a facilidade de cedência de liquidez, penalização sobre o excesso de reservas de coeficiente de caixa, injeções de liquidez condicionadas à materialização em crédito ao setor privado etc.), a zona do euro continua com taxas de inflação muito baixas e com um crescimento insuficiente para criar emprego, principalmente nos países periféricos”. Maudos diz que a última medida aprovada foi a compra da dívida privada nos mercados “por valor não definido, portanto restaria apenas uma medida adicional: aquisição de dívida pública nos mercados secundários ao estilo da QE dos EUA”.

O euro inicia sua queda

Neste momento, é cedo demais para saber se tais iniciativas serão capazes de conseguir o que pretendem do ponto de vista macroeconômico, isto é, impulsionar a recuperação da economia da zona do euro que, de acordo com dados da Eurostat, escritório de estatísticas da União Europeia, cresceu apenas 0,2% no primeiro trimestre do ano e estagnou no segundo. Contudo, essas medidas já estão tendo consequências importantes no mercado de divisas, onde o euro vem perdendo força diante do dólar.

No início de outubro, a moeda europeia ficou abaixo de US$ 1,28, um nível que só havia sido registrado antes em julho de 2013. Desde que o BCE surpreendeu o mercado com uma redução das taxas em 4 de setembro, o euro se desvalorizou 3% ante o dólar. Se forem levadas em conta as máximas registradas em maio, muito próximas de US$ 1,40, fica claro que o euro perdeu 9% do seu valor em comparação com sua concorrente norte-americana.

José Villacís González, professor de macroeconomia da Universidade CEU-San Pablo, de Madri, observa que a cotação do euro em relação ao dólar depende em grande medida das expectativas de especulação do mercado, isto é, do que os investidores creem que ocorrerá com as moedas nos próximos meses. “A redução da taxa de juros e a deflação (queda de preços) na zona do euro levaram os especuladores a comprar dólares em vez de euros, o que se traduziu na valorização da moeda americana, o que equivale à desvalorização do euro. Isto significa que esses especuladores buscam ou esperam uma rentabilidade maior nos juros americanos do que nos juros da UE”, explica González referindo-se às especulações em torno da possibilidade de que o Fed antecipe a elevação da taxa de juros.

Ao mesmo tempo, acrescenta que existe a crença de que o BCE comprará títulos da dívida pública com dinheiro criado para injetar liquidez na economia. “Isto significa que as carteiras dos investidores terão um excesso de liquidez em euros, cujo excesso marginal repercutirá na compra em dólares. O mercado está se comportando como se isso já houvesse acontecido: é o efeito de desconto.”

Carbo-Valverde diz que se o euro continuar a se desvalorizar em relação ao dólar isto ocorrerá por meio de ações até agora não anunciadas e, principalmente, quando os EUA anteciparem a elevação das taxas de juros, o que, “por enquanto, não parece ser necessário, mas que em breve deve acontecer”. Maudos, por sua vez, acredita que o euro se desvalorizou nas últimas semanas devido às medidas anunciadas pelo BCE e também em razão das expectativas de elevação dos juros nos EUA, mas acha que “é preciso que o euro se desvalorize ainda mais para que possa dar sustentação à recuperação da Europa”.

Apoio às exportações

O principal objetivo do BCE com as medidas tomadas é fazer com que os bancos ofereçam mais crédito a empresas e consumidores, de modo que esse novo dinheiro que chega imediatamente ao mercado reative a economia. No entanto, conforme dizem os especialistas, tais medidas também estão levando à queda do euro, o que pode também ajudar a tão esperada recuperação.

Maudos diz que as exportações europeias são vitais para a recuperação da zona do euro, “sobretudo num momento como o atual em que, por questões geopolíticas (como o conflito na Ucrânia), as estimativas de crescimento do PIB foram revisadas para baixo”. Ele diz que até mesmo as economias que até agora impulsionavam a região, como a alemã, estão estagnadas. Portanto, a depreciação do euro ajudaria muito na reativação da zona do euro.

Contudo, Maudos considera importante salientar que para muitas economias da zona do euro, o principal destino de suas exportações é a própria zona do euro, por isso uma depreciação do euro não as afeta. Portanto, “convém igualmente ressaltar as consequências de uma desvalorização do euro, principalmente levando-se em conta que, no passado, alguns países, como a Alemanha, viram crescer suas exportações com o euro em alta”, observa Maudos.

De igual modo, José Villacís assegura que a queda do euro barateará as exportações dos produtos europeus, ou, “o que dá na mesma, os importadores mundiais de produtos europeus pagarão menos impostos pelo que comprarem”, explica. Contudo, ao mesmo tempo, Maudos adverte que “as compras de produtos estrangeiros pelos importadores europeus ficarão mais caras”. Villacís diz que isso fará com que “dependendo do peso que a balança comercial tenha sobre o PIB de cada país, haverá um leve aumento de preços”.

Durante a última crise, acirrou-se o debate que sempre houve em torno da disparidade da situação econômica nos países que fazem parte da zona do euro. A Alemanha, por exemplo, que suportou melhor as turbulências dos últimos anos, sempre defendeu a austeridade e as reformas internas como caminho a seguir, tendo se posicionado contra a tomada de medidas agressivas pelo BCE para estimular o crescimento. Depois das últimas decisões anunciadas por Mario Draghi, é inevitável indagar que países serão mais favorecidos e quais serão prejudicados pela desvalorização do euro.

Carbo-Valverde observa que a desvalorização do euro poderá ajudar a melhorar a competitividade das exportações dando-se o paradoxo de que um dos grandes beneficiados será a Alemanha e que isto, por sua vez, reforçará sua posição contrária a uma coordenação fiscal mais rigorosa, de modo que persistirá em sua luta em prol da austeridade a qualquer preço. Por outro lado, Carbo-Valverde acrescenta que há mercados que precisam de mais liberalização e reformas, sobretudo na Itália e na França, mas também na Alemanha em setores como o de serviços profissionais. “Isso também pode ter reflexos sobre a competitividade, apesar da taxa de câmbio do euro”, diz.

Carbo-Valverde insiste que “a Alemanha não apenas não seria prejudicada, como seria também muito beneficiada” pela desvalorização do euro. Seja como for, ele diz que um dos destinos cada vez mais frequentes das exportações europeias são os países emergentes “e, agora mesmo, eles não estão em seu melhor momento. O declínio da economia europeia se deve, em parte, às fragilidades internacionais em grande medida observadas nos emergentes”.

Maudos lembra que “diversas economias — como a francesa e a espanhola, só para mencionar as maiores — têm exigido do BCE medidas que depreciem o euro, tendo em conta o sacrifício feito por esses países por meio de política fiscais contracionistas e desvalorizações internas via salários”. O professor garante que esses países são os principais beneficiados pelas últimas medidas tomadas e pela queda do euro. Ele diz em relação à Alemanha que “seu caso é diferente”, já que no passado suas exportações aumentaram  com o euro forte. “Contudo, uma vez que exporta para fora da zona do euro um percentual de suas exportações superior ao de outros países, a Alemanha também se beneficiará de uma depreciação do euro”, prevê Maudos.

Em face do que a moeda única possa ocasionar às economias e às empresas da zona do euro, a grande pergunta que fazem os mercados e os investidores é até onde chegará a queda da moeda europeia em relação à moeda americana. O nível mais baixo do euro nos últimos cinco anos foi registrado em 31 de maio de 2010, quando a moeda europeia caiu abaixo do patamar de US$ 1,20, ficando em US$ 1,1934. Serão esses os níveis a que o euro retornará a médio e a curto prazos? Os especialistas não se atrevem a responder essa pergunta, embora estejam efetivamente de acordo no tocante à direção que seguirá a cotação da moeda única durante os próximos meses.

Villacís prevê que não haverá, a longo prazo, uma divergência muito grande entre as taxas de juros do mercado monetário europeu e as do mercado americano, “o que levará a uma aproximação (com uma diferença a favor do euro) na cotação entre o euro e o dólar”.

Já Carbo-Valverde descarta taxativamente à volta da paridade entre o euro e o dólar. “A menos que haja mudanças significativas na política monetária, os ajustes serão paulatinos. Embora seja previsível que a cotação da moeda europeia rompa a estabilidade demonstrada até o momento em suas taxas de câmbio na faixa entre US$ 1,30 e US$ 1,40”, conclui.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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