Contando histórias verdadeiras: insights de uma redatora de discursos da Casa Branca

Nos oito anos em que passou na Casa Branca, Michelle Obama se tornou conhecida por seus discursos francos e pessoais que remetiam com frequência à sua infância na região sul de Chicago. Durante boa parte desses oito anos, a primeira-dama partilhava o que ia por sua mente com a ajuda da redatora de discursos Sarah Hurwitz, que se juntou à campanha de Obama depois de trabalhar na mesma função para Hillary Clinton durante sua campanha de 2008 à presidência. Hurwitz esteve no câmpus da Wharton recentemente para participar da série de palestras Authors@Wharton. A Knowledge@Wharton conversou com Hurwitz sobre os elementos que tornam bem-sucedida a redação de um discurso.

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Além de trabalhar com Michelle Obama e Hillary Clinton, você também escreveu discursos para o ex-vice-presidente Al Gore e outros. Que procedimentos iniciais você adota quando escreve para um novo cliente?

Sarah Hurwitz: Se a pessoa tiver escrito um livro ou coisa parecida, é importante ler esse material para entender um pouco sua história e como ela vê as coisas. Ajuda muito também, na minha opinião, ler e ver discursos feitos por ela no passado. No entanto, acho que a melhor maneira de saber como alguém fala é conversando com a pessoa. Converse informalmente com ela em um ambiente natural. Aí você perceberá a cadência da sua voz, como ela fala normalmente. É isso que todo redator de discursos tem de tentar captar ─ esse modo verdadeiro e autêntico com que o indivíduo fala.

Knowledge@Wharton: Você sentiu uma diferença muito grande ao escrever para Michelle Obama e Barack Obama?

Hurwitz: Todas as pessoas para quem já escrevi têm uma voz própria. É muito difícil fazer comparações porque cada um tem seu jeito especial de falar que é específico dele.

Eu diria que os papéis de presidente e de primeira-dama são muito diferentes porque, nos momentos de crise, as pessoas não olham para a primeira-dama; elas olham para o presidente. Quando você escreve para o presidente, o ambiente normalmente é de muita urgência, é mais volátil. As coisas tendem a mudar depressa demais. Quando você escreve para a primeira-dama, geralmente há mais tempo. Ela pode ser mais proativa porque não precisa reagir às novidades que estão ocupando o noticiário. Assim, o redator tem um pouco mais de margem de manobra e de flexibilidade para escrever, e eu gosto disso.

Knowledge@Wharton: Você disse ao The Washington Post que perto do fim do seu trabalho com Michelle Obama, era como se você ouvisse a voz dela na sua cabeça criticando o que você escrevia. Quando você trabalhou para ela, você tinha algum arquivo de dados? Às vezes ela dizia alguma coisa que você arquivava para usar posteriormente?

Hurwitz: Geralmente, no caso de discursos mais longos, eu me reunia com Michelle Obama e lhe perguntava: “O que você gostaria de dizer?” A primeira-dama tinha consciência de quem era e sabia sempre o que queria dizer. Ela sempre tinha uma ideia muito clara de qual seria o tema do discurso. Ela especificava o tom, em seguida expunha os assuntos dos quais queria tratar. Era tudo muito claro e preciso, por isso eu sempre saía dos nossos encontros sabendo efetivamente como deveria ser o discurso.

O meu trabalho, portanto, consistia em produzir um rascunho. Michelle então o submetia a uma crítica e editava o estilo, o tom etc. As pessoas muitas vezes me diziam: “Uau, Sarah, que discurso fantástico!”, mas o fato é que eu nunca me sentia muito à vontade para agradecer, porque não era o meu discurso. Era o discurso dela. Ela trabalhava nele do começo ao fim. É claro que eu ajudava, mas não me sinto à vontade para dizer que era meu.

Às vezes, Michelle me dizia algo que queria pôr em um discurso, mas, por uma razão qualquer, aquilo não se encaixava ali naquele momento. No entanto, um mês depois, me ocorria o seguinte pensamento: “Ela mencionou uma ideia muito interessante para aquele outro discurso, mas é neste aqui que ela se encaixa perfeitamente.” Então, eu a usava. Quando ela contava uma história cativante ou sugeria uma citação interessante, eu tomava nota para talvez no futuro retomá-la.

Knowledge@Wharton: Uma das frases mais famosas de Michelle Obama foi dita durante seu discurso por ocasião da Convenção Nacional Democrata de 2016, quando recorreu à seguinte expressão: “Se eles baixam o nível, cabe a nós elevá-lo.” A frase pegou. Qual é a história por trás dela?

Hurwitz: Essa frase é dela. Minha única contribuição aí foi apenas digitá-la no meu notebook. Só isso. Eu lembro que pensei na ocasião: essa frase é muito boa. É emocionante. É realmente uma bela síntese de quem ela é. Gostei. Não tinha ideia que fosse pegar do jeito que pegou. Fiquei fascinada quando vi a repercussão.

Knowledge@Wharton: Você também escreveu o discurso de Hillary Clinton, em 2008, quando ela reconheceu que havia sido derrotada e fez uma referência ao fato de ter provocado “18 milhões de trincas” no que chamou de “o teto de vidro mais duro e mais alto” de todos. Você poderia discorrer um pouco sobre como foi o processo de escrever esse discurso?

Hurwitz: Eu tinha de equilibrar vários objetivos concorrentes: a honra de ter chegado aonde chegou, o acontecimento histórico que aquilo representava, a empolgação que Hillary sentiu em todo o país. Era preciso também deixar claro para as pessoas que estávamos em meio a um processo. Não era o fim; era o começo. Tratava-se também de endossar completamente a candidatura de Barack Obama. Essa também foi uma parte importante do discurso, e Hillary se saiu muito bem. Acredito que ela tenha argumentado com força e paixão diante dos que a apoiavam explicando-lhes por que era necessário apoiar Obama. Depois, ele a chamou para ser sua secretária de Estado, e Hillary fez um trabalho magnífico.

Knowledge@Wharton: Muitos de nós, a maioria, jamais fará um discurso diante de líderes mundiais, mas todos temos de nos comunicar diariamente. O que seu trabalho de comunicadora profissional lhe ensinou a respeito da comunicação incisiva, concisa e direta que realmente produz efeito?

Hurwitz: A lição mais importante que aprendi sobre como escrever discursos foi muito simples: diga alguma coisa que seja verdadeira. Quando as pessoas pensam em fazer um discurso, elas normalmente raciocinam da seguinte forma: “O que pode me fazer parecer brilhante, inteligente ou impactante?” Coisas desse tipo não deveriam de modo algum ocupar sua atenção. Sua primeira indagação deveria ser: “Qual a verdade mais profunda e mais importante que posso dizer agora?” Não importa se você está falando diante de 1.000 pessoas ou perante a diretoria da sua empresa ou ainda em uma reunião informal de liderança. O importante é dizer alguma coisa que seja clara e sem dúvida alguma verdadeira. Isso faz com que as pessoas acreditem em você. Elas o respeitarão por isso. Sua atitude mostra que você é autêntico, torna você confiável, e essa é uma boa maneira de começar as coisas. Diria que é também uma boa maneira de continuar e de finalizar um discurso.

Knowledge@Wharton: O que é preciso para ser honesto a ponto de conseguir isso?

Hurwitz: Essa é uma pergunta difícil: o que posso dizer de mais verdadeiro em um dado momento? A ideia parece ótima, fabulosa mesmo. Creio que uma maneira muito importante de se chegar a isso consiste em parar de escrever o discurso. Parar de se preocupar com ele. Pare simplesmente e pense no seguinte : “Se eu tivesse de fazer este discurso perante uma sala vazia e tivesse de dizer a coisa mais verdadeira que pudesse, o que seria?” Não se preocupe. O discurso virá. Mas, antes de mais nada, descubra que coisa mais verdadeira é essa e comece a trabalhar a partir desse ponto. Talvez você não diga toda a verdade sobre o assunto que tem em mente, porque as pessoas não estão prontas para ouvir. É possível que você tenha de falar de uma certa maneira. Contudo, acho que começar por aquilo que você sabe que é verdade, uma coisa sobre a qual você tem muita clareza, é um excelente ponto de partida.

Knowledge@Wharton: Um dos discursos mais comoventes de Michelle Obama foi sua reação a algumas alegações de abuso sexual por Donald Trump. Ela disse coisas que talvez não diríamos em público, que talvez disséssemos a amigos ou em particular. Ela estaria realmente disposta a essa franqueza toda?

Hurwitz: Ela queria falar sobre a misoginia que estávamos testemunhando na eleição antes da exibição do videotape “Acess Hollywood”, em que Trump se gabava de abusar sexualmente das mulheres. O discurso de Michelle foi profundamente pessoal. Foi uma coisa que mexeu muito com seus sentimentos. Dava para perceber a emoção naquele discurso, certo? Era visível o quanto aquilo a preocupava. Foi um discurso pautado sobretudo pelas palavras dela, por suas ideias. Do começo ao fim, ela sabia o que queria dizer, e disse.

Knowledge@Wharton: O que você faz quando a pessoa quer uma privacidade maior? Talvez ela não queira revelar muito a seu respeito como fizeram a primeira-dama e o presidente Obama.

Hurwitz: Quando possíveis eleitores avaliam um candidato a um cargo político, acho que a pergunta que passa pela mente das pessoas é: “Você me entende? Você sabe de onde eu venho?” Creio também que é importante para o candidato partilhar um pouco da sua história pessoal, de tal modo que o eleitor possa ver a si mesmo nele. Mesmo que sua história seja muito diferente da história dos eleitores a quem o candidato está se dirigindo, que é geralmente o que acontece, acho que todo o mundo acabará descobrindo alguma afinidade. As pessoas podem ter tido uma educação muito diferente da que teve Michelle Obama, mas no discurso da Convenção Nacional Democrata de 2016, quando falou sobre o primeiro dia das filhas na escola, e de como se sentiu ao vê-las partir a bordo daqueles carros enormes acompanhadas de uma porção de seguranças, o rostinho delas colado ao vidro da janela ─ qualquer mãe, pai, qualquer um que tenha um filho na vida com o qual se importam, entende o que significa isso. A pessoa não tem de ser parecida com ela sob outros aspectos, mas naquele momento existe uma conexão verdadeira. Por isso, acho que é realmente importante que as pessoas, ainda que não se sintam à vontade para revelar muita coisa, descubram uma ou outra coisa capaz de estabelecer uma conexão com o público. Se mesmo assim ela ainda se sentir desconfortável, o redator pode se concentrar mais nas histórias de outras pessoas, gente a quem o candidato quer servir. Talvez contar as histórias dos eleitores e as coisas pelas quais estão passando. No fim das contas, é muito importante que você estabeleça um vínculo entre as pessoas e a sua história, porque os eleitores terão de decidir se querem que aquele candidato as sirva.

Knowledge@Wharton: Muitos de nós jamais teremos alguém para redigir nossos discursos, mas é bem provável que em algum momento tenhamos de falar diante de uma plateia. Quais seriam alguns dos artifícios do seu métier para melhorar nossa comunicação?

Hurwitz: A primeira coisa é ter sempre certeza de que você está dizendo alguma coisa profundamente verdadeira, algo autêntico de que você esteja convencido. A segunda coisa muito importante: fale como qualquer pessoa, não se esqueça disso. Muitas vezes, quando alguém sobe ao pódio para discursar, começa a desfilar uma porção de palavras e de frases que jamais usaria normalmente. Na área de negócios, ouvimos pessoas dizerem coisas como “temos de catalisar a alavancagem da verticalização sem feudos'”. É como se as pessoas não soubessem do que estão falando. Os políticos, por exemplo, dizem coisas como “temos de colocar em primeiro lugar os valores das famílias de americanos de classe média que trabalham duro”. Esse é o tipo de discurso político insosso e genérico que não cria conexão alguma com o eleitor. Você jamais diria uma coisa dessas para seu cônjuge ou para um amigo. Não é assim que as pessoas se comunicam, por isso é importante falar como as pessoas falam.

Também acho importante mostrar, e não dizer. Não raro, as pessoas usam uma porção de adjetivos, em vez de pintar uma imagem vívida e tocante de alguma coisa. Não é a melhor maneira de alguém se lembrar do que foi dito.

Knowledge@Wharton: Quando você escreve discursos, que palavras ou frases você evita?

Hurwitz: Várias, coisas como: “Quando você se esforça e joga conforme as regras, aí você prospera”, ou então: “Saúde é um direito, e não um privilégio”. São frases que exprimem sentimentos profundos, e eu concordo com elas de todo o coração. Contudo, é importante descobrir meios para expressá-los que sejam mais autênticos para quem fala e um pouco mais criativos, de modo que tenham uma repercussão maior junto ao público.

Knowledge@Wharton: Você diz que as pessoas devem beber no poço daquilo que é mais verdadeiro, mas é preciso mudar alguma coisa dependendo do público a quem nos dirigimos?

Hurwitz: Sem dúvida. É importante perguntar: que público é este? Se for um grupo de alunos do ensino médio, ou um grupo de CEOs, ou de idosos, é óbvio que esses públicos têm perspectivas e necessidades diferentes. É importante levar isso em conta. Eu aconselharia dizer a mesma coisa a cada um deles, mas de um modo um pouco diferente, que leve em conta seu lugar de origem e faça justiça a eles. Não importa a que público você se dirija, é importante falar de um modo que leve em conta a história dele. Nos inúmeros discursos que escrevi, tanto para os Obamas quanto para outros, geralmente começamos da seguinte maneira: “É muito bom estar aqui hoje com vocês. Sei o que vocês têm feito, as coisas em que têm trabalhado. E vocês, jovens, vocês que estão hoje aqui, todos irão para a universidade. Sei que não foi fácil chegar aonde vocês chegaram, sei que deram muito duro para isso.” É importante reconhecer o esforço das pessoas e mostrar que você separou um tempo para conhecê-las melhor e que elas merecem reconhecimento pelo que alcançaram.

Knowledge@Wharton: Você tem um processo de escrita pessoal? Você escreve à mão ou no computador?

Hurwitz: Um colega me disse certa vez: “Sabe, Sarah, você simplesmente despeja uma porção de bobagens na página e depois passa uma semana editando o que escreveu.” Foi duro, mas ele não deixava de ter alguma razão. Eu pego a transcrição que fiz da reunião e acrescento ideias e observações minhas. As notas são um verdadeiro fluxo de consciência. Em seguida, organizo tudo em um esboço, que transformo depois em parágrafos específicos. Na etapa seguinte, revejo e edito cada um dos parágrafos. Às vezes, fico “encalhada”, mas quando isso acontece eu simplesmente sigo em frente. Não permito que o bloqueio mental tome conta de mim. Às vezes, nem mesmo sei o que estou tentando fazer no parágrafo três, mas sei o que quero dizer no parágrafo quatro, então pulo para o quarto parágrafo. Houve vezes em que escrevi primeiro o fim do discurso e depois o começo. Não sou aquele tipo de autor superlinear, mas me apego ao esboço feito, bem estruturado, de modo que sei exatamente para onde estou indo.

Knowledge@Wharton: Quando você “encalha”, qual a saída?

Hurwitz: As pessoas muitas vezes me perguntam: “O que você faz quando tem um bloqueio?” Digo a elas que isso acontece o tempo todo. É normal, mas não devemos nos conformar. Há um discurso a ser feito daqui a dois dias ou duas semanas. Portanto, o que faço é pedir ajuda a um colega: “Escuta, estou ‘encalhada’, você pode me ajudar?” Quando a coisa realmente não anda, às vezes eu simplesmente paro à noite e procuro começar de novo no dia seguinte . Outras vezes, imprimo o rascunho do discurso, espalho as páginas pelo piso do escritório e fico olhando para ele. Quando fazemos isso, nos damos conta de que temos um problema de estrutura. As coisas estão na ordem errada. Ou então você tem basicamente a mesma ideia em dois lugares diferentes e percebe que se mudar um parágrafo aqui e outro ali a transição fica melhor, o que me permite me livrar daquele palavreado de transição de antes e, com isso, o texto funciona. Olhar o texto no papel me ajuda muito.

Knowledge@Wharton: Você disse que trabalhou para o presidente, que fazia muita coisa às pressas e com prazos apertados. O que muda quando em vez de duas semanas ou dois dias você tem duas horas?

Hurwitz: Sim, isso acontece às vezes. Acontecia com a primeira-dama quando, infelizmente, havia uma crise e Michelle tinha de lidar com ela. Quando estivemos em Cuba, houve um ataque terrorista na noite anterior à fala dela em que dedicava um belo banquinho numa pequena cerimônia em uma biblioteca cheia de crianças. Tínhamos de falar do ataque. Foi sério. Devastador. Acordei de manhã, me informei sobre o que tinha acontecido e pensei: “Tenho de descobrir um modo de falar sobre esse assunto com as crianças. ” É uma coisa muito estressante, mas você faz o que tem de ser feito. Tenho colegas que me ajudam, e ai você simplesmente faz a coisa acontecer.

Knowledge@Wharton: Uma das coisas pelas quais Michelle Obama ficou conhecida em seus discursos foi o uso de histórias pessoais da vida dela. A ex-primeira-dama sempre fazia referência ao fato de ter crescido em Chicago. De vez em quando, ela contava histórias sobre suas filhas. Como você a ajudou nessas histórias, e como podemos usar um pouco disso para sermos melhores contadores de histórias?

Hurwitz: Acredito que os detalhes têm uma importância enorme. Quando Michelle fala do pai, que trabalhou na estação de tratamento e distribuição de água da cidade e que foi vítima de esclerose múltipla, ela dizia coisas do tipo: “Sabe, meu pai teve esclerose múltipla. Ele trabalhou na estação de tratamento de água. Não era um trabalho fácil. Ele sacrificou muita coisa.” Isso é contar o que aconteceu. Não estou vendo o pai dela. Contudo, o que ela disse em alguns de seus discursos, “e então, à medida que a doença do meu pai piorava, ficou mais difícil para ele se vestir de manhã. Ele se levantava uma hora mais cedo para que pudesse abotoar devagar a camisa. Arrastando-se pela sala apoiado em duas bengalas, dava um beijo em minha mãe”. Em 2012, Michelle contou que quando o pai voltava para casa do trabalho, ela o via subir as escadas erguendo com dificuldade uma perna e depois a outra até se amparar nos braços dela. São detalhes vívidos que mostram o quanto o pai se desgastava no trabalho. Mostram a humanidade dele. Mostram seu sacrifício e seu amor pela família. Detalhes específicos assim são fundamentais na reprodução de uma história.

Knowledge@Wharton: Você não se pegou perguntando coisas do tipo “Qual era a cor da camisa dele na cena da escada?”

Hurwitz: Às vezes, mas Michelle cuidava de todos os detalhes. Eu não precisava perguntar muita coisa. Ela se lembrava bem das coisas, então eu usava as informações que ela me dava.

Knowledge@Wharton: Você escreveu recentemente no USA Today sobre a importância da verificação dos fatos e o rigor com que devem ser tratados. Você poderia falar um pouco a esse respeito?

Hurwitz: Na Casa Branca de Obama, sabíamos que tudo o que o presidente e a primeira-dama dissessem teria vastas ramificações. Eles eram dois megafones potentes. O que eles dizem dá a volta ao mundo e é submetido a um escrutínio severo. Nós também achávamos que estávamos servindo o povo americano e por isso tínhamos uma responsabilidade enorme e precisávamos garantir que tudo o que eles diziam seria reproduzido com 100% de exatidão. Havia toda uma equipe em nosso departamento de pesquisa que checava os fatos referentes a cada uma das linhas dos discursos que escrevíamos. Era um processo que realmente exigia muito de nós porque o pessoal da checagem geralmente nos respondia com um e-mail imenso que dizia: “Encontramos uma estatística um pouco diferente da que vocês usaram. De onde vocês tiraram a estatística que está no discurso? Vamos colocar a equipe de política no jogo.” No exemplo que eu havia usado no artigo, o presidente ou a primeira-dama diziam “Ah, meu amigo fulano de tal”. O departamento de checagem retrucava: “Será que eles são amigos mesmo? Que prova vocês têm disso? Qual a natureza desse relacionamento?”

Às vezes, os redatores diziam: “Como isso é frustrante. É tão bobo.” Contudo, não era bobagem. A ideia era que tínhamos uma lealdade verdadeira às pessoas a quem servíamos. Nossa lealdade era com a verdade, e nós a levávamos muito a sério. Gastávamos muito tempo com isso, o que aproximou os redatores do setor de checagem. O pessoal do setor se tornou muito amigo nosso, porque sabíamos que aquelas pessoas estavam nos protegendo e protegendo também o povo americano.

Knowledge@Wharton: Ultimamente tem se falado muito sobre verdade, fatos e fatos alternativos. Você acha que o atual clima político obscureceu um pouco as fronteiras entre uma coisa e outra? O que podemos fazer a esse respeito?

Hurwitz: Sem dúvida as fronteiras estão totalmente obscurecidas. Temos um presidente que faz falsas afirmações o tempo todo […] Só nos cabe nos opor a esse tipo de comportamento o tempo todo denunciando-o. Nós o fazemos sempre que acontece porque, infelizmente, quando se repete muito uma mentira, as pessoas passam a acreditar nela.

Knowledge@Wharton: O que você pretende fazer depois de sair da Casa Branca?

Hurwitz: Sou pesquisadora do Instituto de Política de Harvard, o que é fantástico. Vou trabalhar com os alunos e dar aulas. Vai ser muito divertido. Com relação ao que virá depois disso, não tenho ideia. Estou gostando muito de escrever em meu próprio nome, e acho que vou querer fazer isso mais vezes. De algum modo estarei sempre envolvida com política, mas ainda não sei como.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Contando histórias verdadeiras: insights de uma redatora de discursos da Casa Branca." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [10 April, 2017]. Web. [24 July, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/contando-historias-verdadeiras-insights-de-uma-redatora-de-discursos-da-casa-branca/>

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"Contando histórias verdadeiras: insights de uma redatora de discursos da Casa Branca" Universia Knowledge@Wharton, [April 10, 2017].
Accessed [July 24, 2017]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/contando-historias-verdadeiras-insights-de-uma-redatora-de-discursos-da-casa-branca/]


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