Crise na UE: o futuro do euro está em risco?

Os recentes problemas da Grécia e a incerteza quanto à possibilidade de que esses mesmos problemas se repitam em países de maior peso como a Espanha e a Itália chamaram a atenção para a necessidade de um novo modelo de supervisão e de medidas mais contundentes na União Europeia. Nesse ínterim, o euro perdeu força diante do dólar, os diferenciais da dívida do velho continente dispararam e é cada vez maior o número de especialistas que preveem o advento de dificuldades ainda maiores.

É o caso de George Soros, um dos investidores mais influentes do mundo e cuja fortuna aparece no 29º. lugar no ranking das maiores do planeta. Para ele, o futuro do euro está em perigo. O dono do Soros Fund Management disse recentemente em artigo publicado no jornal britânico Financial Times que a Europa precisa de “uma supervisão mais dinâmica que tenha, por exemplo, mecanismos institucionais de ajuda condicional.” E acrescentou: “Um mercado de eurobônus bem organizado seria desejável. Resta saber se é possível suscitar vontade política para que isso aconteça”, disse o investidor.  

Para Soros, “a sobrevivência da Grécia” não resolve o debate sobre o futuro do euro, já que o verdadeiro campo de batalha é constituído por Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha.

Além de Soros, um dos maiores críticos da atual situação da Europa é o economista e prêmio Nobel Paul Krugman. Em artigo para o Wall Street Journal, Krugman disse que o problema da região é a “arrogância das elites, isto é, das elites políticas que levaram a Europa a adotar uma moeda única muito antes de o continente estar preparado para uma experiência desse tipo”.

Conforme dizem Soros e Krugman, duas vozes de prestígio mundial inegável, a crise fez aflorar problemas antes imperceptíveis na zona do euro. Uma das correntes mais disseminadas atribui essas dificuldades à independência fiscal dos países membros da união.

“A Europa da zona do euro (16 países) não pode ter uma política monetária e 27 políticas fiscais (UE 27) distintas”, observa Robert Tornabell, professor de finanças da Esade e autor do recém-lançado O dia depois da crise. Os EUA, diz ele, “têm uma moeda única que obedece a uma mesma política monetária e, naturalmente, uma política fiscal idêntica para todos os Estados da União (incluindo o Alasca, Havaí etc.)”.

Os defensores dessa teoria argumentam que a União Europeia precisa de uma vigilância e de uma supervisão muito mais rígidas e consideram fraco o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), um acordo regional celebrado em 1997 com o objetivo de facilitar e de manter a união econômica e monetária. O pacto estabelece atualmente como limites de déficit dos países 3& do PIB e 60% da dívida pública. Contudo, a Comissão Europeia abriu um precedente em 2004 ao perdoar uma sanção à Alemanha e à França por ultrapassarem esses limites. Trata-se de um terreno para o qual George Soros pede um “monitoramento mais drástico”.

Em meio a esse cenário vem à tona outro debate que está chamando a atenção nos últimos meses: o abandono do euro por alguns países. Os países que mais estão sofrendo com a crise poderiam cair na tentação de voltar a ter ao alcance das mãos a possibilidade de desvalorizar a moeda, baixar as taxas de juros ou emitir mais moeda para impulsionar o consumo. Essa é uma possibilidade que Rafael Pampillón, diretor da área de economia da Escola de Negócios IE descarta. “Ninguém vai abandonar o euro”, diz, “e se algum país tiver se endividado demais, e não consegue agora pagar o que deve, que se declare falido”, acrescenta.

Possíveis soluções

O abandono da moeda única não seria algo simples porque, conforme advertiu recentemente a agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P), abandonar o euro implicaria uma desvalorização enorme da nova moeda e um custo maior de financiamento. “Embora seja possível negociar a saída do euro, a saída unilateral seria controvertida do ponto de vista político”, explica a agência em um comunicado.

Para Juan Mascareñas, professor de economia financeira da Universidade Complutense de Madri (UCM), “a imagem do euro sairia debilitada se algum membro abandonasse a moeda. Além disso, no caso espanhol, e creio que em qualquer outro, o impacto psicológico sobre a população seria de tal envergadura que poderíamos compará-lo a algo semelhante ao que se passou com a geração de 1898 depois da perda de Cuba. (Referência a um grupo de escritores espanhóis que ficou profundamente abalado pela crise moral, política e social que se instalou diante da derrota militar frente aos EUA em Cuba). E isso vale também para o resto do império. É como se não fôssemos capazes de nos manter em um clube economicamente sério”.

Outro agravante da situação da zona do euro consiste no fato de que seus órgãos não têm mecanismos suficientes para sustentar os países em dificuldades. Nesse contexto, uma possibilidade seria estabelecer apoio condicionado, conforme propõe Soros. “A solução mais eficaz consistiria em uma emissão de eurobônus garantidos em conjunto, e de modo particular, para refinanciar, por exemplo, 75% da dívida grega em fase de vencimento com a condição de que a Grécia cumpra suas metas. Os 25% restantes ficariam a cargo dos gregos”, observa o investidor.

Contudo, a regulação atual da UE não prevê a opção de socorro aos países membros e as diretrizes do Banco Central Europeu (BCE) a rechaçam literalmente. A única possibilidade no momento viria da ajuda de outros países, isto é, do recurso ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

“Cabe ao FMI resgatar a Grécia e introduzir medidas necessárias para a entrada de crédito, porque todos os países já pagaram suas contas ao fundo, e esse dinheiro aí está para casos como este”, observa Pampillón. Para o professor, seria um precedente brutal se a Europa saísse em socorro à Grécia. Seria como se estivesse autorizando os demais países membros a se endividarem excessivamente certos de que Bruxelas viria em seu socorro. “Que aqueles que compraram a dívida grega paguem pelo mau investimento feito. Por que deveriam os demais países da união pagar por isso?”, acrescenta o especialista da Escola de Negócios IE.

Tudo indica que é isso o que vai acontecer. Os dirigentes da zona do euro, liderados pela Alemanha e pela França, se comprometeram a ajudar a Grécia a enfrentar a crise da dívida, embora não especifiquem como. “A chanceler Angela Merkel e o presidente Sarkozy (disseram publicamente) que vão garantir a solvência da Grécia. A Alemanha e a França não podem permitir que seus próprios bancos, para ganhar milhões comprando a dívida pública grega, amarguem prejuízos vultosos”, explica Robert Tornabell.

Juan Mascareñas acrescenta que o mais correto seria que “os países com problemas os resolvam seja como for, mas que não comprometam aqueles que souberam gerir melhor seu crescimento. (Os cidadãos alemães devem estar fartos de pagar com sua poupança as festas dos demais). É preciso chamar esses países à responsabilidade. Ser socorrido para não ter de sair do clube do euro deve ter um custo”.

O custo do socorro

A opção de resgate entre os diferentes países membros é, para os especialistas, aceitável no caso da Grécia, mas não muito no caso da Espanha. De acordo com cálculos do BNP Paribas publicados pelo Wall Street Journal, um plano para restaurar a confiança na Espanha custaria US$ 270 bilhões de dólares (198,039 bilhões de euros), ante US$ 68 bilhões (49,876 bilhões de euros) da Grécia; US$ 47 bilhões (34,473 bilhões de euros) da Irlanda e US$ 41 bilhões (30,072 bilhões de euros) de Portugal. Para o jornal americano, a Espanha será o “próximo campo de batalha do euro”, o que poderia determinar se a moeda dos 16 países tem força, ou não, para resistir à pressão.

Juan Mascareñas diz que “a Itália e a Espanha são os dois países de maior peso no PIB da zona do euro. Juntos, respondem por 28%. Um sério problema em um deles, ou nos dois, seria algo grave para o euro, porque é preciso levar em conta que uma parte importante dos credores de ambos os países são os demais que compõem a zona do euro (principalmente, Alemanha e França)”.

Seja como for, essa opção continua distante para muitos especialistas, como Michel Camdessus, presidente honorário do Banco da França e ex-diretor gerente do FMI entre 1987 e 2000. Camdessus disse durante uma conferência realizada pela Fundação Rafael del Pino que “é uma estupidez pensar que as dificuldades de Portugal, Itália, Grécia e Espanha podem fazer estremecer, e muito menos derrubar, o euro”.

Robert Tornabell vai mais longe e diz que “não há, por enquanto, perigo algum para a Irlanda (que está reduzindo rapidamente o gasto público), nem para Portugal. Muito menos para a Itália e a Espanha.”

Longe desses cenários de quebradeira de países e abandono do euro, os especialistas reclamam medidas que criem uma união verdadeira entre os diferentes Estados que adotam o euro. A ausência de projetos claros que resolvam a situação atual começa a repercutir nos mercados: o euro se desvalorizou em 10,6% entre dezembro e fevereiro, passando de US$ 1,51 para US$ 1,35. Os diferenciais e CDS (seguros que dão garantias ante o não pagamento dos bônus) da dívida pública de alguns países europeus disparou.

Uma opção a isso é a proposta feita pelos ministros das Finanças da UE: que o BCE atribua classificações de crédito à dívida pública dos países membros, para que as decisões da S&P, Moody’s e Fitch não influam tanto na economia da região. Conforme observa Pampillón, “os investidores já distinguem entre países, embora todos tenham o euro como moeda, o que explica os diferenciais da Espanha e da Grécia em relação aos títulos da dívida alemã”.

Tudo leva a crer que a UE tem pela frente momentos históricos que determinarão sua existência, sua força e credibilidade. A exemplo das medidas necessárias para o setor financeiro, os especialistas esperam medidas que evitem situações similares no futuro e que permitam maior flexibilidade, possibilitando à União Europeia outras opções nos momentos mais difíceis. “A UE avança de crise em crise, e a do euro é só mais uma delas. Essa crise poderá impulsionar ainda mais a integração da região”, observa Juan Mascareñas.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Crise na UE: o futuro do euro está em risco?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [10 March, 2010]. Web. [09 March, 2021] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/crise-na-ue-o-futuro-do-euro-esta-em-risco/>

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"Crise na UE: o futuro do euro está em risco?" Universia Knowledge@Wharton, [March 10, 2010].
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