Cultura do amor: o que é necessário para criar um local de trabalho feliz

Já dizia a célebre música dos Beatles “tudo de que você precisa é amor”, porém um novo estudo de Nancy Rothbard, professora de administração da Wharton, constatou que talvez o amor somente não seja suficiente no local de trabalho. Em sua pesquisa mais recente “Tudo de que você precisa é amor? Efeitos da cultura emocional, da supressão e do conflito entre trabalho e família sobre a saúde dos bombeiros e da exposição ao risco a que estão sujeitos” (Is Love All You Need? The Effects of Emotional Culture, Suppression, and Work–family Conflict on Firefighter Risk-taking and Health), a pesquisadora analisa o papel da emoção nas empresas de maioria masculina. Rothbard e Olivia Amanda O’Neill, coautora da pesquisa e professora de administração da Universidade George Mason, fizeram um estudo qualitativo dos corpos de bombeiros em áreas metropolitanas e constataram que os locais de trabalho mais recompensadores se caracterizam pela compaixão e pelo bom convívio. Rothbard conversou com a Knowledge@Wharton sobre sua pesquisa.

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Sua pesquisa foi feita em um ambiente interessante, em postos de bombeiros e com bombeiros. Por que bombeiros? O que você estava procurando e o que estava tentando descobrir?

Nancy Rothbard: Mandy e eu queríamos realmente compreender como a cultura emocional de uma organização afetava a maneira como as pessoas interagiam no local de trabalho, e também quais seriam os efeitos fisiológicos disso sobre elas. Queríamos analisar a cultura emocional, em especial a cultura do amor, bem como outro tipo específico de cultura que muitas vezes aparece em empresas, principalmente nas que têm maioria masculina e que é chamada de “cultura da jovialidade”. A cultura de jovialidade se caracteriza por brincadeiras, piadas, “pegadinhas”, tapas nas costas e coisas típicas da identidade masculina. Uma cultura de amor pelos companheiros é aquela em que há um sentimento de compaixão, de cuidado e de afeição um pelo outro.

Foi interessante analisar essa questão no contexto de um corpo de bombeiros porque se trata de um local extremo para se pensar a questão do amor. Há algumas pesquisas que examinaram a cultura de amor pelos companheiros, mas que se concentraram sobretudo em ambientes de saúde e em outros tipos de ambientes organizacionais em que essa cultura era esperada, ao passo que nós queríamos realmente analisar um caso extremo para ver se o amor era importante e se era evidente em organizações masculinas.

Knowledge@Wharton: Você descobriu que o amor é importante, mas que há outras coisas importantes também. Fale um pouco sobre o trabalho que você fez, sobre as visitas que fez aos postos de bombeiros e as conversas que teve com esses profissionais.

Rothbard: A pesquisa compreende dois estudos. O primeiro deles foi um estudo qualitativo em que nós entrevistamos 27 grupos diferentes de bombeiros […] Fizemos perguntas sobre a cultura, mas também o que tornava o trabalho deles difícil ou quais eram os desafios que tinham de enfrentar. Disso surgiram algumas coisas muito interessantes. Por exemplo, quando perguntamos a eles qual era a coisa mais difícil do seu trabalho, a resposta que nos deram foi surpreendente. Entrevistamos 100 pessoas no primeiro estudo, sendo 97 homens. Havia três mulheres no grupo todo, mas isso era de se esperar nesse segmento. Quando perguntamos “Qual o principal desafio do seu trabalho?”, mais da metade disse que era o conflito entre o trabalho e a vida familiar, o que nos deixou muito surpresas. Não esperávamos essa resposta. Agora, retrospectivamente, faz muito sentido, porque o trabalho deles sofre muita influência do turno que fazem, e é um tipo de trabalho muito estressante emocionalmente.

É interessante que a maior parte do tempo eles não estão apagando fogo. Eles atendem principalmente a chamadas de emergência. Toda vez que alguém liga para 911, os bombeiros têm de responder, portanto eles estão presentes nos locais de todo tipo de ligação e de situações de emergência. Algumas situações são mais estressantes do que outras. Descobrimos ao conversar com eles que havia uma preocupação muito grande de que o estresse no trabalho transbordasse para dentro de casa.

Uma história dessa pesquisa que ficou gravada na minha mente foi a de um bombeiro que descreveu como ele fazia para manter o local de trabalho separado da sua vida familiar: ele tinha um par de sandálias no posto que usava sempre que ia para casa, porque não queria que as botas que usava nas chamadas que atendia fossem usadas dentro de casa. Era como se quisesse que o trabalho não contaminasse seu lar. Era um exemplo extremo de como manter as coisas separadas.

Muitas outras coisas sobre as quais conversamos com os bombeiros também tinham a ver com a cultura do posto e do seu trabalho. Um tema que veio à tona foi a cultura de jovialidade que esperávamos encontrar ─ as “pegadinhas”, o humor, todas aquelas coisas engraçadas que eles fazem para se manter ocupados e aliviar o estresse. Contudo, o segundo tema emocional que emergiu em torno da cultura foi o tema do amor pelo companheiro. O amor fraternal é outra maneira de pensar nesse amor. Não é o amor romântico; é a troca de abraços quando algo acontece, sinal de que há alguém presente ao lado do companheiro quando necessário, a prova do quanto se conhecem e se preocupam um com o outro. Às vezes, são pequenos gestos, uma louça lavada, ou providenciar para que o colega encontre seu lanche preferido na cozinha. Há muita camaradagem e amor fraternal nos postos de bombeiros.

Achei muito interessante a pesquisa feita. Escolhemos os bombeiros por serem um caso extremo de organização masculina, mas o estudo pode ser aplicado a muitas organizações diferentes. Pode-se aplicá-lo a todo tipo de cenário em que as normas são realmente masculinas no que se refere ao comportamento dominante esperado. Vemos todo tipo de exemplo de camaradagem ─ a cultura de república das universidades, em Wall Street ─ assim como no corpo de bombeiros ou nas delegacias de polícia ou em ambientes militares. Talvez seja um pouco fácil demais ver a conexão com os bombeiros, mas observamos esse mesmo tipo de comportamento em vários ambientes profissionais distintos.

Knowledge@Wharton: Fale sobre a segunda parte da pesquisa e para onde ela direcionou vocês.

Rothbard: Na primeira parte do estudo, fizemos as entrevistas e tivemos algumas surpresas. Uma das coisas que observamos foi a maneira como os bombeiros falavam sobre como lidar com o estresse: pela supressão, isto é, era como se eles o engarrafassem e o deixassem ali, ou isolando-o, conforme eu disse anteriormente. Contudo, o que a literatura diz sobre supressão é que, em geral, é uma coisa ruim que pode levar a todo tipo de resultado negativo, além de outros desfechos problemáticos como, por exemplo, em situações de risco que eles muitas vezes têm de correr. Queríamos saber como eles lidavam com todas essas coisas juntas.

Por isso, fizemos um segundo estudo em que analisamos mais pessoas. Neste segundo estudo, trabalhamos com 68 postos de bombeiros e entrevistamos cerca de 600 pessoas. No caso de muitos dos nossos entrevistados, conversamos também com seus supervisores. Perguntamos ao chefe do batalhão: “Qual é a cultura do posto? O Sr. acha que poderíamos caracterizá-la como uma cultura de jovialidade? Em outras palavras, uma cultura de piadas, “pegadinhas”, provocações amigáveis, divertidas? Ou seria uma cultura de compaixão, de delicadeza, de amor?” Às vezes eles diziam que eram as duas coisas, e de fato em nossas entrevistas constatamos que alguns postos se caracterizavam pela presença das duas culturas. Havia postos em que só havia a cultura da jovialidade; em outros, só a do amor. Havia também postos em que nenhuma das duas estavam presentes.

Entrevistamos 324 pessoas. Quando elas diziam que sentiam um conflito muito grande entre o trabalho e o lar, e que também suprimiam o conflito, o sentimento era de coisa negativa, conforme diz a literatura. Na verdade, encontramos esse sentimento em maior grau nas pessoas que corriam mais riscos no trabalho. Elas disseram que consumiam mais álcool, tinham hobbies de alto risco etc. Mas quando as pessoas estavam em culturas que os chefes de batalhão haviam classificado como extremamente joviais e dominadas pelo amor ao companheiro, os riscos existentes eram menores. Havia algo nas culturas que permitia as brincadeiras, mas também a manifestação de expressões de cuidado, de amor fraternal pelo colega bombeiro, uma coisa que realmente abrandava os ânimos e permitia às pessoas ter um pouco de alívio no local de trabalho, de modo que não era necessário aliviar a pressão fora dele.

Knowledge@Wharton: O estudo analisa bem de perto as culturas organizacionais nos postos de bombeiros. Como aplicar isso ao escritório? Às vezes, é muito difícil saber qual a cultura da empresa porque a pessoa tem de ser muito honesta consigo mesma, especialmente se você é gerente e está encarregado de definir as atitudes.

Rothbard: O diagnóstico de uma cultura é uma coisa muito objetiva. Em primeiro lugar, é preciso que você esteja disposto a descobrir e estar aberto ao que encontrar. Quando pensamos na cultura emocional, há sinais à nossa volta. Há objetos, afirmações, histórias que as pessoas contam e que você pode usar para diagnosticar realmente a cultura e compreendê-la. No caso da cultura da jovialidade, como gerente você deve se perguntar se ela está indo longe demais. As provocações e as “pegadinhas” podem ser muito engraçadas, passam muita energia, adrenalina, mas estariam indo longe demais? Isso é o que deve preocupar um gerente em uma cultura de jovialidade. Será que ela não está ultrapassando os limites e se tornando uma espécie de bullying ou constrangimento? Nem um gerente quer isso.

Para diagnosticar a cultura do amor pelo companheiro, observe se as pessoas se importam umas com as outras. Elas querem saber de alguém que faltou porque está doente? Elas procuram saber se está tudo bem com uma determinada pessoa? Como gerente, você pode definir esse comportamento. Se alguém estiver ausente por alguns dias porque está doente, mande um cartão ou ligue para a pessoa e diga: “Olá, estava pensando em você. Como vai? Posso fazer alguma coisa para ajudá-lo?” Essas coisas ajudam a dar forma a uma cultura de amor em que as pessoas sentem que os outros se importam com ela, que ela se importa com eles e que eles são importantes para a empresa. Acho que não é tão difícil quanto parece definir as coisas e checar para ver se há na empresa uma cultura de jovialidade e também de amor.

Knowledge@Wharton: Sua pesquisa parece pôr abaixo alguns dos estereótipos que temos sobre locais de trabalho dominados por homens, já que você encontrou grandes doses de amor pelo companheiro ou amor fraternal. O estereótipo esperaria encontrar esse ambiente em locais dominados por mulheres.

Rothbard: Exatamente. Uma das coisas que descobrimos nesse ambiente e que achamos fascinante quando analisamos a cultura de amor foi que não esperávamos encontrar o que encontramos. Foi fascinante ver como aquela era uma cultura forte naquele ambiente. Quando pensamos em empresas masculinas, muitas vezes achamos que são organizações onde não se deve expressar nenhuma emoção, muito menos amor. Contudo, vimos todo tipo de expressão emocional, inclusive amor.

Knowledge@Wharton: Como vocês pretendem acompanhar os desdobramentos da pesquisa?

Rothbard: Mandy, coautora do estudo, tem uma pesquisa em que ela está analisando diferentes culturas emocionais em um ambiente de hospital, e acho que será fascinante. No meu caso, me interessou muito esse aspecto do conflito entre trabalho e lar, que parece surgir praticamente do nada nas organizações masculinas. A literatura não se preocupou muito com isso. Quando falamos do assunto, a tendência é achar que as mulheres é que experimentam esse conflito. Foi muito importante constatar que essa é também uma preocupação dos homens. Quero muito desenvolver mais esse tópico em uma pesquisa futura.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Cultura do amor: o que é necessário para criar um local de trabalho feliz." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [12 April, 2017]. Web. [27 May, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/cultura-amor-o-que-e-necessario-para-criar-um-local-de-trabalho-feliz/>

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Cultura do amor: o que é necessário para criar um local de trabalho feliz. Universia Knowledge@Wharton (2017, April 12). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/cultura-amor-o-que-e-necessario-para-criar-um-local-de-trabalho-feliz/

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"Cultura do amor: o que é necessário para criar um local de trabalho feliz" Universia Knowledge@Wharton, [April 12, 2017].
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