Deflação: ilusão ou perigo?

O colapso dos preços da casa própria nos últimos anos é um lembrete dos horrores da deflação. Milhões de donos de imóveis devem aos seus credores mais do que o valor de suas casas impossibilitando sua venda, troca por outra de maior ou menor valor e impedindo até mesmo que o proprietário se mude em busca de um novo emprego. O que aconteceria se a deflação se espalhasse por toda a economia empurrando para baixo os salários e os preços de todos os bens e serviços?

Não são muitos os economistas que esperam uma deflação profunda e prolongada semelhante ao que se viu na época da Depressão. Contudo, a economia dos EUA e do mundo não está emergindo da recessão tão rapidamente quanto muita gente havia predito no início do ano, e há quem diga que o risco de deflação deveria ser uma das principais preocupações dos gestores de políticas públicas. "Creio que há uma possibilidade muito plausível de que haja deflação em vários países do Ocidente no ano que vem ou nos próximos dois anos", observa Franklin Allen, professor de finanças da Wharton, que não exclui os EUA de sua avaliação.

Um dos fatores que mais podem contribuir para esse quadro seria a adoção de políticas, pelo governo chinês, para desacelerar o ritmo de crescimento e frear a ameaça de inflação, diz Allen. Isso reduziria a demanda mundial de commodities empurrando os preços para baixo. Além disso, muitos americanos, preocupados com o emprego e com o valor de seus investimentos e de sua casa, passaram a poupar mais, restando pouco dinheiro para gastar. Todavia, como o rendimento da poupança está num patamar muito baixo — bem abaixo de 1%, por exemplo, na maior parte dos programas de poupança dos bancos —, as pessoas se sentirão impelidas a poupar ainda mais.

Allen, porém, não crê numa deflação desenfreada, e diz que o Japão tem se saído bem, apesar de uma deflação anual de 1% a 2% há vários anos. Nesse nível pouco significativo, diz Allen, as pessoas e as empresas conseguem administrar sem grandes problemas suas dívidas, o que impede que mergulhem num ciclo de pânico que leva à deflação profunda.

Um grande número de especialistas, porém, considera a deflação um risco maior atualmente do que no início do ano. De acordo com as minutas da reunião de agosto da Comissão Federal do Mercado Aberto (FOMC) do Federal Reserve, "embora nenhum membro [da comissão] tenha identificado fortes riscos de deflação, houve quem ponderasse que o risco de desinflação prolongada havia aumentado discretamente". A desinflação é caracterizada por uma queda na taxa de inflação, e sua importância para os bancos centrais é a mesma de um espirro que precede um resfriado. Como a taxa de inflação atualmente está muito baixa, cerca de 1%, não precisaria muito para que a economia entrasse num estado de deflação.

Paul Krugman, economista da Universidade de Princeton e prêmio Nobel de economia, disse recentemente em sua coluna no New York Times que considerava "desconcertante a tranquilidade do Fed em relação à desinflação e à deflação". Depois de acrescentar que outros economistas partilhavam do seu ponto de vista, inclusive um dos principais economistas da Goldman Sachs, Krugman citou fatores como o declínio das expectativas da taxa de inflação refletidas nos preços dos títulos.

Num estudo recente, "As sete faces do ‘Perigo’", James Bullard, presidente do Fed de St. Louis, chamou a atenção para o fato de que o plano do FOMC, de conhecimento público, de manter as taxas de juros em níveis muito baixos durante um bom tempo "poderá contribuir para que se reproduza nos EUA o que ocorre no Japão", isto é, um período longo de deflação que, no caso do Japão, começou em princípios dos anos 90.

Um enorme empecilho aos gastos

Embora a ideia de queda dos preços pareça atraente à primeira vista, a deflação pode fazer muito mal à economia. Empresas e indivíduos descobrem que o nível de sua dívida continua o mesmo enquanto a renda cai, o que dificulta o pagamento dos empréstimos contratados. Consumidores e empresas deixam de comprar bens e serviços por receio, ou esperança, de que os preços caiam ainda mais. Isso se reflete nos lucros das empresas, afeta os preços das ações e leva a demissões, prolongando e aprofundando o ciclo ao reduzir os gastos ainda mais. Com pouco investimento, a economia encolhe. "O problema da deflação é que, uma vez desencadeada, é difícil impedir que prossiga", observa Howard Pack, professor de negócios e políticas públicas da Wharton.

A deflação se apresenta sob duas formas, observa Richard Marston, professor de finanças da Wharton. Uma delas é causada pela oferta excessiva de bens e serviços. "Essa é a deflação que ameaçou a economia mundial há alguns anos. Nunca aconteceu, mas sempre achei que não fosse uma coisa tão ruim assim. Por que haveríamos de nos preocupar com a queda do custo de vida decorrente da abundância de produtos à nossa disposição?" A queda persistente dos preços dos produtos eletrônicos, por exemplo, é um tipo de deflação que muita gente gostaria de ver acontecer.

A outra forma de deflação, mais nociva, é causada pela escassez de demanda. Trata-se de uma espiral descendente que ocorre quando as pessoas se recusam a gastar dinheiro. "Foi o que aconteceu nos anos 30 — a demanda de investimentos, do consumidor e das exportações era tímida demais. É isso o que algumas pessoas temem atualmente. Esse último tipo de deflação é mais assustador. Contudo, não creio que seja uma ameaça real hoje.

Preocupados com o futuro, os americanos elevaram sua taxa de poupança para cerca de 6%, ante 1% e 2% em anos recentes, restando-lhes menos dinheiro para gastar. Isso deixa receosos os que veem com grande temor uma possível deflação, porque reduz o volume da demanda e tende a forçar os preços para baixo. Não obstante, diz Marston, a demanda do consumidor, que caiu do final de 2007 até o primeiro trimestre de 2009, vem crescendo constantemente desde então e hoje não está distante dos níveis de 2007.

"Além disso", acrescenta Marston, "o consumidor de outras partes do mundo está dano novo ânimo às nossas exportações que já estão praticamente no mesmo nível de 2007. Só os investimentos em negócios continuam sem reação". Mas até esse setor deverá se recuperar, talvez no início do ano que vem, depois que Washington puser fim às incertezas em relação ao futuro dos cortes de impostos da era Bush que expiram no final do ano, diz Marston. "Por que não estamos diante de um quadro de deflação semelhante ao dos anos 30?", indaga Marston. "Porque, diferentemente daquela época, o Fed inundou o sistema bancário de liquidez. O volume de dinheiro nos bancos é duas vezes maior do que o normal." O dinheiro disponível nos bancos comerciais, por exemplo, passou de menos US$ 400 bilhões, em meados de 2008, para cerca de US$ 1,4 bilhão no início do ano.

Mark Zandi, economista chefe e um dos fundadores da atual Economy.com, da Moody, também acha que os riscos "de uma deflação virulenta são baixos". Para que haja uma deflação séria, a economia teria de entrar novamente em recessão, e Zandi acredita que a recuperação, embora lenta, deverá prosseguir. "Creio que as chances de que haja outra recessão depois de um breve período de recuperação são bem reduzidas — talvez uma em três inicialmente", diz Zandi, acrescentando que a economia está criando empregos, embora não tão depressa a ponto de compensar o crescimento da população e diminuir a taxa de desemprego.

Além disso, os índices do aluguel residencial estão subindo, pressionando ainda mais os cálculos do índice de preços ao consumidor, observa Zandi. Os preços no mercado de títulos mostram que os investidores esperam que a inflação fique entre 1,5% e 2% em cinco anos, o que diminui ainda mais as chances de uma possível deflação. Embora as expectativas de inflação futura não sejam cem por cento imunes a erros, e é bom lembrar que não foram capazes (conforme aponta Krugman) de prever a deflação japonesa, o fato é que corroboram o ponto de vista de que não haverá deflação, observa Zandi. "Não é nenhuma garantia, mas acho que se trata de uma barreira importante."

Por fim, diz Zandi, "o crescimento dos salários continua positivo", permanecendo na faixa anual de 1% a 2% do ano anterior. Embora seja um índice modesto, dá aos consumidores mais dinheiro para gastar, se assim o desejarem. "Parece haver uma barreira psicológica que o empregador não deseja romper, pelo menos não em grupo", disse Zandi referindo-se à aparente relutância dos patrões em reduzir salários. Esse tipo de estratégia pode afastar o trabalhador, se não imediatamente, então logo depois que a economia voltar aos eixos, dando a ele outras oportunidades de emprego.

Crescimento lento

Embora a maior parte dos especialistas esteja de acordo com o fato de que não é grande o risco de uma deflação séria, poucos esperam uma recuperação econômica rápida. Um obstáculo, diz Pack, é a ressaca resultante dos empréstimos excessivos na escalada que levou à crise financeira. As empresas e os indivíduos convencidos de que seu nível de endividamento está muito alto deverão recorrer a um dinheiro extra para pagar os empréstimos contraídos, em vez de adquirir produtos e serviços. "Não são muito boas, de fato, as perspectivas de crescimento econômico enquanto todos os países não começarem a crescer novamente, e isso ainda vai demorar um pouco, já que há um processo de desalavancagem em curso que vai persistir por um bom tempo", diz Pack.

Embora quase sempre otimista, Zandi acha que a recuperação será lenta. Ele espera que o Fed mantenha as taxas de juros baixas por algum tempo e retome os programas de quantitative easing [injeção de liquidez na economia], como as compras de títulos do Tesouro, para impedir que as taxas continuem a subir.

As taxas já estão muito baixas: as taxas básicas de juros do Fed estão entre 0% e 0,25%; as dos títulos do Tesouro de dez anos estão em 2,7% e as das hipotecas de 30 anos estão abaixo de 4,5%. A concessão de empréstimos, que pode estimular a economia e fazer com que os preços subam, encolheu devido ao nervosismo entre credores e tomadores, diz Zandi. "A situação é parecida com a do ovo e a galinha." Ele observa, porém, que os grandes bancos têm muito dinheiro para emprestar, e logo que se sentirem um pouco mais confiantes, vão tornar mais flexíveis as exigências de concessão de crédito que dificultaram a contratação de empréstimos para muita gente.

Até mesmo o mercado de moradia, onde não faltam problemas, já mostra sinais de melhoria, diz Zandi. Os preços das casas já recuaram para onde deveriam estar em relação à renda e aos aluguéis. O ritmo de construção do setor anda tão lento — os níveis são os mesmos observados durante a Segunda Guerra Mundial — que a oferta de casas à venda encolherá gradualmente, ajudando a empurrar os preços para cima, acrescenta.

Mauro F. Guillén, professor de administração internacional da Wharton, diz que o governo ainda tem de gastar boa parte dos US$ 787 bilhões separados em 2009 para estimular a economia, e que o governo Obama anunciou recentemente um plano de gastos de mais US$ 50 bilhões para a área de infraestrutura de transporte. Esse gasto deverá ajudar a impulsionar a economia, mas não muito depressa, diz Guillén. "Eu, pessoalmente, não creio que o risco de deflação seja tão alto quanto as pessoas creem que seja. Não estou dizendo, porém, que a economia crescerá a 3% ou 4%. Acho que estamos a caminho de um período de crescimento relativamente lento, que talvez não seja suficiente para reduzir o desemprego de maneira significativa." Índices elevados de desemprego desestimulam os gastos.

O governo está diante de um terrível dilema, acrescenta Guillén, porque terá de escolher entre gastar para estimular a economia e impedir que o déficit do orçamento se aprofunde ainda mais.

Mesmo que as desavenças políticas não tenham influenciado as políticas públicas, não se sabe ao certo se medidas convencionais como a redução das taxas de juros serão capazes de estimular a economia e evitar a deflação, adverte Allen. Ele acrescenta que a deflação persistiu no Japão apesar das políticas de juros baixos. Para Allen, a elevação dos juros pode dar melhor resultado. Se o consumidor perceber que suas economias estão rendendo bem, ele poderá se sentir suficientemente animado com a situação econômica para gastar ainda mais. O Fed, porém, admite Allen, dificilmente enxergará as coisas desse jeito: "Eles não dão a devida atenção ao fato de que as pessoas que vivem de juros estão sendo drasticamente afetadas por essas taxas baixas."

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Deflação: ilusão ou perigo?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [22 September, 2010]. Web. [20 January, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/deflacao-ilusao-ou-perigo/>

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