Depois de vendida pelo eBay, a Skype está mais livre do que nunca

Nos últimos quatro anos, a Skype não teve do que se queixar. Numa transação de US$ 4 bilhões que causou muito espanto em 2005, o eBay comprou o popular operador de serviço que permite ao usuário fazer chamadas telefônicas gratuitamente de qualquer parte do mundo através da Internet. Que sonho ousado tinha o eBay? Fundir a rede de comunicações da Skype ao talento da empresa para o comércio eletrônico. Não foi o que aconteceu, conforme previam muitos observadores externos que acompanharam o acordo na época. Portanto, com a venda da Skype pelo eBay por US$ 2,75 bilhões para um grupo de investidores em 1º. de setembro, chega ao fim uma era de turbulências e começa outra.

A boa nova é que embora a Skype não tenha sido a melhor aquisição do eBay — a melhor delas foi a PayPal, em 2002 — as duas empresas saíram relativamente ilesas do negócio. O eBay se retirou “com um olho roxo”, já que conseguiu um preço de venda razoável apesar de todo o esforço despendido para preservar a Skype, observa Saikat Chaudhuri, professor de administração da Wharton. Com relação ao Skype, a empresa tornou-se rentável depois de adquirido pelo eBay. “A melhor coisa disso tudo foi que o eBay não prejudicou a empresa”, observa Gerald Faulhaber, professor de políticas públicas da Wharton.  

Com a liberação da Skype, seu futuro é certamente mais promissor hoje do que quando começou em 2003 cercada de grandes expectativas. Contudo, embora tenha um número de assinantes maior do que qualquer provedor de serviço de telecomunicações do mundo, a Skype precisa ainda aprimorar sua estratégia de crescimento à medida que concorrentes como o Google e a Microsoft se tornam cada vez mais ameaçadores, observam os especialistas da Wharton. Agora, a empresa precisa encontrar novos meios de tornar rentável um serviço que a maior parte dos clientes se acostumou a usar de graça.

O eBay vai ter lucro?

O eBay havia planejado anteriormente o desmembramento da Skype através de uma oferta pública de ações, porém uma ação judicial ameaçava jogar seus planos para o final de 2010. O eBay e a Joltid, empresa controlada pelos fundadores da Skype, Niklas Zennstrom e Janus Friis, estão processando judicialmente um ao outro por causa do licenciamento da tecnologia de ponto-a-ponto (“peer-to-peer”) que o Skype utiliza para distribuir as chamadas. (Por meio dessa tecnologia, os computadores conectados a Internet são interligados, o que lhes permite compartilhar sua capacidade computacional e seus recursos de dados).

Não se sabe se o eBay vai ter lucro com a Skype com a consumação do acordo no final do ano. Não é de surpreender que John Donahoe, CEO do eBay, refira-se à venda de forma positiva, tendo declarado que “o acordo atinge nosso objetivo de gerar valor a curto e a longo prazo ao eBay e a seus acionistas, sem as possíveis demoras e risco de mercado de uma IPO […] A venda da Skype no momento em que seu valor é maior, embora mantendo uma participação acionária [de 35%], faz sentido para [o eBay]. Isto nos permite concentrar todas as nossas energias nas oportunidades oferecidas pelo PayPal e pelo eBay.”

Como parte do acordo de setembro, o eBay receberá US$ 1,9 bilhão em dinheiro e US$ 125 milhões em notas de um grupo de investidores do qual fazem parte empresas de private equity como a Silver Lake e a Index Ventures, além da Andreessen Horowitz, uma empresa de risco criada pelo co-fundador da Netscape, Marc Andreessen e seu antigo colega de negócios, Ben Horowitz. Como o eBay mantém uma participação na Skype, a empresa se beneficiará no caso de uma IPO ou de outro tipo de venda.

O eBay pagou US$ 2,6 bilhões pela Skype em 2005, mais US$ 1,5 bilhão por “considerações relativas ao desempenho” ou adicionais aos acionistas, caso a empresa atinja receitas não reveladas, margem bruta e alvos de usuários ativos. No relatório anual de 2007, a empresa declarou que havia feito um acordo sobre adicionais com os acionistas de US$ 530 milhões. Em outras palavras, o eBay não pagou inteiramente os US$ 4,1 bilhões pela Skype. Houve também redução no valor contábil de US$ 1,4 bilhão (incluindo-se aí os US$ 530 milhões em bônus de desempenho) em 2007.

Enquanto isso, a Skype disparou. Em 2006, no primeiro ano de aquisição do eBay, as vendas, que haviam sido de US$ 24 milhões em 2005, saltaram para US$ 195 milhões. Em 2008, as receitas eram de US$ 551 milhões e nos primeiros seis meses de 2009, a Skype, que conta com 480,5 milhões de usuários registrados, teve receitas de US$ 323 milhões. “A Skype não foi uma aquisição ruim”, diz Kevin Werbach, professor de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton. “Ela jamais produziu as sinergias que o eBay esperava, porém a Skype é hoje muito mais forte, mais lucrativa do que quando o eBay a comprou.”

No fim das contas, a aquisição da Skype pelo eBay foi “muito melhor do que muitas fusões e aquisições de companhias de alta tecnologia, em que a empresa-alvo é totalmente desperdiçada”, diz. “A Skype tem hoje uma situação financeira sólida, portanto acho que ficará melhor independente.”

E agora? “Certamente a Skype tem um público enorme e numerosos usuários felizes, além de uma marca muito conhecida”, observa Kendall Whitehouse, diretor de novas mídias da Wharton. “Esse é um bom lugar para se começar.”

Nesse momento, as cartas parecem ser favoráveis a Skype. “Estou curioso para ver o que os investidores farão com a empresa”, diz Andrea Matwyshyn, professora de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton. “Há muito potencial não explorado na Skype. Seu público é fiel e a empresa conta com a vantagem do pioneirismo. Todo estudante estrangeiro que conheço é fã da Skype. Quando viajo para o exterior também utilizo o serviço da empresa.”

Um modelo de negócio melhor?

Embora Xavier-Dreze, ex-professor de marketing da Wharton e hoje na UCLA, concorde que a Skype “tenha um futuro brilhante”, ele diz que a empresa terá de obter mais receitas dos usuários. Não há escassez de serviços, mas nenhum deles foi plenamente desenvolvido. De acordo com a documentação apresentada pela Skype a SEC, sua fonte básica de recursos consiste em tarifas relativamente baratas que cobra dos clientes para chamadas de telefonia fixa para celular. Conhecido como SkypeOut, o serviço é contabilizado por minuto. (A assinatura de chamadas ilimitadas para telefones fixos dos EUA para mais de 40 países custa US$ 12,95 ao mês). Um telefonema da Skype para um número não-Skype custa pouco mais de 2 cents por minuto, enquanto as chamadas feitas pelo sistema são grátis. De acordo com Jim Friedland, analista do banco de investimentos Cowen & Co., a Skype gera receitas oriundas de 10% a 15% de seus clientes, principalmente através do Skypeout.

A empresa também vende números para utilização em aparelhos celulares em diversos países. Esses números permitem ao usuário pagar tarifas locais quando em viagem e economizar nas tarifas de chamadas de longa distância. Um usuário que esteja em Londres, por exemplo, pode ligar para um número Skype local que se conectará a um celular dos EUA sem que para isso tenha de rastrear a chamada original pelo globo. Empresas como a Nokia e a Hutchinson trabalham em parceria com o software da Skype no segmento de telefonia celular e sistemas de conferência.

“A promessa da empresa sempre foi a de transformar a telefonia. Ela continua buscando isso”, diz Werbach. “A Skype é a maior empresa de telefonia do mundo em número de assinantes, o que não é nada desprezível. A comunicação por voz em tempo real é um negócio global de trilhões de dólares, portanto deve haver meios para que uma empresa como a Skype transforme seus ativos em dinheiro.” Sob muitos aspectos, a Skype lembra uma companhia típica de telefonia, diz Faulhaber. “É claro que ela é líder de mercado e ainda não apareceu ninguém para derrotá-la nesse segmento popular.”

A empresa trabalha com um modelo de negócios conhecido como “freemium”, baseado na oferta gratuita de serviços para atrair clientes na expectativa de que muitos migrem para outros serviços mediante uma taxa. “A empresa está empenhada em faturar pela margem”, observa Whitehouse.

Contudo, para ter sucesso nisso — o eBay não informa separadamente os lucros de sua divisão, mas os analistas dizem que está no azul — ela precisará desenvolver novas linhas de negócios ou reforçar as existentes. “A Skype melhorou seu produto, mas ainda não ganha tanto com ele quanto poderia. Não sei por que não posso passar fax pelo Skype. Eu pagaria por isso”, diz Dreze. “A empresa não criou novos meios de gerar receita, o que é decepcionante.” O que a Skype — e seu CEO, Josh Silverman — deveria ter em vista agora é a geração de receitas que superem as atuais obtidas com 10% a 15% de seus clientes. “A empresa escolheu o caminho da gratuidade para ganhar clientes e, em seguida, gastar pouco com eles. Mas funciona. A empresa precisa melhorar oferecendo mais serviços Premium”, diz Dreze.

Os serviços corporativos são o filé do segmento premium. A Skype poderia diversificar suas atividades por meio de softwares colaborativos semelhantes aos da WebEx, da Cisco Systems. Poderia também oferecer serviços de videoconferência. “A empresa pode ampliar o negócio usando a Internet para fins comerciais”, observa Chaudhuri. “Com serviços de teleconferência e videoconferência, a empresa aumentaria o volume de receitas.

O fato é que a Skype tem investido de forma mais incisiva no mercado. Em março, ela anunciou um programa de teste batizado de Skype for SIP — ou Session Initiation Protocol, um padrão de voz sobre telefonia baseado em protocolo de Internet (VoIP) para redes corporativas. Isso significa que as empresas podem usar sua rede para obter descontos em seus telefonemas. O programa ganhou fôlego no início de setembro, quando a ShoreTel, que fornece serviços corporativos de telefonia, anunciou que seu sistema conectaria a Skype ao SIP.

Desafios à frente

Para monopolizar com sucesso o mercado corporativo, a Skype terá de disputá-lo ombro a ombro com a concorrência, algo que os especialistas consideram uma experiência nova para a empresa. A Skype sempre concorreu com muitas empresas, porém indiretamente. A documentação de regulação do eBay apresenta uma lista de empresas de telecomunicações que fornecem pacotes de serviços e que são consideradas concorrentes da Skype, além de empresas como a Microsoft, Yahoo, AOL e Google, que permitem comunicação via voz em seus serviços de mensagens instantâneas. Contudo, conforme explica Faulhaber, a Skype opera em um nicho que, até agora, a manteve fora do interesse de gigantes como a AT&T e a Verizon, e de empresas de VoIP como a Vonage. Conclusão: a Skype prosperou como unidade pequena de uma empresa maior. Não será um salto muito grande, diz Faulhaber. “A Skype não precisará mudar muito.”

Contudo, Matwyshyn acrescenta que a presença da Skype levou várias empresas a elevar o padrão, embora a Skype tenha mantido seu serviço praticamente sem alteração. “A empresa obrigou outras a inovar”, diz ela. “O Google, Microsoft e o Yahoo oferecem agora serviço de voz gratuitamente em seus sistemas de mensagens instantâneas. Quando a Skype surgiu, não havia nada disso.” Outra novata que está crescendo no segmento é a Vivox, de Boston, Massachussets, que está fazendo parceria com o Facebook para o fornecimento de recursos que permitirão o bate-papo via voz no popular site de relacionamento.

Houve uma época em que o Google era considerado o maior desafio a Skype. Seu serviço de Google Voice fornece, entre outras coisas, chamadas telefônicas grátis nos EUA. Embora o Google Voice não seja um rival direto, a expectativa é de que se torne mais parecido com o Skype. “Dependendo do desempenho do Google Voice, ele poderá ser semelhante ao Skype”, diz Matwyshyn.

De acordo com Werbach, a Skype está diante de um cenário em rápida transformação. Duas coisas mudaram desde que o eBay comprou a empresa, diz. Em primeiro lugar, o Google se tornou concorrente no segmento de telefonia, com o Google Voice, e a Microsoft entrou no ramo da telefonia com a aquisição, em 2007, da Tellme, uma desenvolvedora de aplicativos de telefonia. “Trata-se de concorrentes de peso, embora nenhum deles tenha a plataforma de usuários e o alcance global da Skype”, observa Werbach. Outro evento importante foi o surgimento dos smartphones. “A Skype está restrita ao iPhone e não tem acesso a algumas outras plataformas de telefonia móvel. O desafio maior para a empresa será descobrir um meio de se situar no novo ecossistema de comunicações. Com quem deve se associar e quem a vê como concorrente?

O que virá a seguir?

À medida que o eBay e a Skype se distanciam, algumas perguntas continuam sem resposta. Chaudhuri diz que o eBay redirecionou o foco do seu negócio — leilões online e comércio eletrônico. Ele explica que a aquisição da Skype pelo eBay tinha como propósito ajudar na diversificação de sua base de receita, de modo que pudesse continuar a crescer sem rival algum, já que Yahoo, Microsoft e Google também estavam adquirindo empresas rapidamente. Por enquanto, o eBay precisa ficar de olho na Amazon.com, seu principal rival; no futuro, porém, a estratégia da empresa talvez tenha de ser reavaliada em maior profundidade. “O eBay quer continuar como provedor de leilões ou deseja se expandir em novos segmentos de serviços?”, indaga Chaudhuri. “É bom ter foco, mas haverá um momento em que a empresa terá de se perguntar: ‘Para onde queremos ir?’ São perguntas que continuam sem resposta.”

Os desafios da Skype são diferentes. Primeiro, porque a presença de um de seus novos proprietários, Andreessen, é sinal de possibilidades interessantes. Ele tem um histórico de inovação, fundou a Netscape, que vendeu em seguida para a AOL. Juntamente com Horowitz, criou a Loudcloud, que depois se tornou a Opsware. A Ospware, com atuação no setor de softwares corporativos, foi por fim vendida a Hewlett-Packard. Matwyshyn espera que Andreessen leve a Skype a diversificar seus serviços e crie novas fontes de receitas, principalmente no mercado corporativo.

Chaudhuri se diz surpreso com a composição dos novos investidores da empresa. “Essa venda me parece mais uma solução temporária”, diz. “O papel das empresas de private equity e de outros investidores financeiros consiste em oferecer uma solução provisória e, em seguida, gerar lucros.”

A Skype, na verdade, não deverá continuar independente para sempre. A Cisco, o Google e outras são fortes candidatos a compradores. Se o mercado de IPOs não se abrir, os futuros donos da companhia talvez venham a descobrir “que a melhor solução seja vender”, diz Chaudhuri.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Depois de vendida pelo eBay, a Skype está mais livre do que nunca." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [23 September, 2009]. Web. [05 July, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/depois-de-vendida-pelo-ebay-a-skype-esta-mais-livre-do-que-nunca/>

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