Em alta: ações de empresas estrangeiras e índices de ações

As ações de empresas estrangeiras estão em ascensão, e os americanos estão despejando dinheiro nelas. Embora essas ações já tenham conquistado a simpatia dos investidores no passado, desta vez esse interesse vem acompanhado de um dado a mais: é cada vez maior o número de investidores que opta por um estilo de investimento passivo, baseado em índices, abandonando assim a antiga crença de que a gestão ativa [em que o negociador seleciona as ações com as quais deseja trabalhar] pode proporcionar retornos superiores aos dos índices de ações [em que o negociador trabalha com ações previamente selecionadas] no momento em que detecta barganhas em mercados estrangeiros pouco eficientes.

 

Será que as condições mudaram realmente a tal ponto que os índices de ações  dão hoje um retorno tão bom nos mercados estrangeiros quanto no mercado americano? Talvez seja cedo demais para saber com certeza. Contudo, não há dúvida de que os mercados acionários internacionais e o comportamento do investidor americano estão mudando.“Qualquer que tenha sido o argumento no passado no que diz respeito às transações ativas x passivas, hoje o cenário é outro”, observa Richard J. Herring, professor de Finanças e de Bancos Internacionais da Wharton. “É diferente porque os índices [que orientam os investimentos indexados] são mais bem formulados.”

 

Os especialistas observam que os fundos de índices de ações estrangeiras começaram a superar muitos competidores de gestão ativa em anos recentes.É natural que os investidores americanos, impressionados com os índices em seu país, tentem transferir a estratégia para o exterior. “As pessoas estão atrás de desempenho”, assinala Richard Marston, professor de Finanças e de Economia da Wharton.

 

Desde o início do ano e até meados de abril, o principal índice de ações estrangeiras, o Morgan Stanley EAFE, subiu mais de 9% em comparação com o principal índice americano, o Standard & Poor’s 500, que subiu 4,2%. O EAFE subiu mais de 13% em 2005; já o S&P 500 subiu cerca de 4,8%.

 

Alguns mercados estão em ebulição. No período de 12 meses encerrado em 13 de abril, os fundos mútuos especializados em ações latino-americanas tiveram um retorno impressionante de 82,5%, segundo a Lipper, empresa que monitora o desempenho dos fundos. Os fundos de ações japoneses tiveram um retorno de cerca de 46%; os fundos de ações chineses subiram 34,4%.

 

De acordo com os dados mais recentes disponíveis, colhidos em fevereiro, os investidores despejaram cerca de 19 bilhões de dólares em fundos mútuos de ações estrangeiras ante 8,4 bilhões em ações americanas.

 

Diante de tais retornos astronômicos, entende-se perfeitamente por que os americanos estão se deixando seduzir pelos fundos de ações estrangeiros. Contudo, esses mesmos investidores foram também seduzidos pelos índices de ações, que hoje são responsáveis por cerca de 15% dos ativos investidos em fundos de ações estrangeiros — um crescimento de 5% em relação a 2001 —, segundo o AMG Data Services. “As pessoas querem diversificação pelo menor custo possível”, observa Jeremy Siegel, professor de Finanças da Wharton, que em um podcast   incluído nesta edição discorre sobre os últimos eventos econômicos. “Como complemento à carteira de índices domésticos, muitos consultores recomendam agora uma estratégia igualmente calcada em índices para a carteira externa. É provável que essa orientação persista.”

 

Siegel diz que o investidor americano típico deveria investir 40% do seu portfólio de ações em ações estrangeiras, uma vez que muitos mercados estrangeiros têm potencial de crescimento maior do que o bem desenvolvido mercado americano. “Com o tempo, os EUA representarão uma fração cada vez menor do mercado mundial. Assim como ninguém deseja limitar sua carteira a duas indústrias, também não vai querer limitá-la a um país apenas [...] Aconselho o investidor a buscar a maior diversificação possível.”

 

Desfazendo-se de ações japonesas

Em vez de sair à cata de ações “quentes”, como fazem os fundos de gestão ativa, os fundos de índices simplesmente compram e mantêm ações com base em um indicador do mercado, como o S&P 500, ou o EAFE — sigla em inglês de Europa, Austrália e Extremo Oriente.

 

Em anos recentes, os americanos passaram a observar o desempenho dos índices na hora de investir em ações de empresas americanas. Atualmente, 347 bilhões de dólares estão atrelados aos 174 fundos do S&P 500, segundo dados da Morningstar, empresa especializada no monitoramento de fundos. Outros fundos mútuos, além de inúmeros fundos cujo processo de negociação se dá de forma dupla (conhecidos como ETFs, ou Exchange-Traded Funds), acompanham diversos índices americanos, do Dow Jones Industrial Average ao Nasdaq 100. Os ETFs são fundos mútuos negociados como ações pelas corretoras.

 

Os índices americanos estão em alta porque, de acordo com inúmeros estudos, eles tendem, com o tempo, a superar os fundos de gestão ativa. Isto se deve em grande parte ao fato de que os índices têm custos menores e pagam menos imposto. Os custos são baixos porque os índices não requerem equipes encarregadas de selecionar as melhores ações. Outra razão é que o rodízio de valores é modesto, os lucros anualizados não geram as enormes distribuições anuais de ganhos de capital que os acionistas recebem de vários fundos de gestão ativa, o que torna os índices menos sujeitos a impostos. Os baixos custos e a pouca incidência de imposto estimulam a acumulação por períodos mais longos.

 

Contudo, não é de hoje que os investidores demonstram pouco entusiasmo com os índices de ações estrangeiras. Muitos especialistas observam que devido à dimensão pouco expressiva dos mercados acionários estrangeiros, analistas e gerentes de portfólio deixam de examiná-los mais detalhadamente. Portanto, profissionais mais atentos, encarregados de selecionar ações, acabam descobrindo algumas jóias em número suficiente para superar com relativa freqüência o desempenho dos índices de ações estrangeiras. Nas décadas de 1980 e 1990, os dados de desempenho quase sempre respaldavam essa visão.

 

Há quem duvide de que situação hoje seja outra. Os indexadores de ações estrangeiras bateram os fundos de gestão ativa nos últimos três anos, mas só de leve, com ganhos anualizados de 33% ante pouco menos de 32% dos fundos ativos, segundo informações da Morningstar.

 

Entre os fundos de mercados emergentes, os índices de ações lideraram com cerca de 3 pontos de vantagem ao ano naquele período. Esses valores chamaram a atenção porque muita gente achava que os mercados menores, emergentes, apresentavam as maiores deficiências de preços, o que favorecia a gestão ativa.

 

Os índices de ações estrangeiras tiveram resultados invejáveis na década de 1990 porque as ações japonesas tinham um peso enorme no índice EAFE.  Depois que essas ações começaram a cair por causa da bolha, os gestores ativos conseguiram bater o índice evitando aquelas ações.

 

Contudo, em 2002, o Morgan Stanley mudou a composição do índice a se desfez de um número elevado de ações japonesas não disponíveis aos investidores internacionais. Isso diminuiu a influência do Japão e fez do índice um espelho mais preciso dos mercados estrangeiros. Além disso, a economia do Japão começou a se recuperar e suas ações recobravam o valor perdido.

 

Por causa disso, o índice EAFE tornou-se mais difícil de bater. “Acho que a concorrência está ficando muito forte”, disse Siegel, que defende o investimento em fundos de índices de ações estrangeiras.

 

Quando a gestão ativa faz sentido

Os investidores americanos também foram beneficiados no momento em que o dólar perdeu valor diante do euro de 2002 a 2004, diz Marston. Com a desvalorização do dólar, quem tinha investimentos em euros saiu ganhando se tomarmos a moeda americana como referência.

 

Embora o dólar tenha se fortalecido em relação ao euro em 2005, o prejuízo decorrente dessa valorização para os investimentos americanos em ações européias foi mais do que compensado pelos ganhos com ações nesses países, observa Marston, acrescentando que diversas ações estrangeiras subiram à medida que os países começavam a se recuperar da recessão de 2001, o que só se concretizou mais tarde, depois da recuperação dos EUA.

 

Os investidores americanos costumam compor sua carteira de ações e de títulos com cerca de 13% de ações de empresas estrangeiras, disse Marston, que recomenda um portfólio com 75% de ações e 25% de títulos, com pelo menos 20% desse total em ações estrangeiras. “Se eu achasse que os investidores investiriam mais [em ações estrangeiras], eu recomendaria uma porcentagem maior. Creio que meu raciocínio faz sentido sob vários ângulos diferentes.”

 

Algumas indústrias, como as montadoras de automóveis, são mais saudáveis no Japão e na Alemanha do que nos EUA, observa. A indústria de energia nuclear é forte na França, mas não nos EUA. “Ninguém deve limitar sua carteira àquelas indústrias em que somos fortes.” Além disso, Marston crê que o dólar cairá com o tempo em decorrência de fatores como o déficit atual em conta corrente dos EUA, valorizando os investimentos em papéis estrangeiros tomando-se como referência o dólar. “Como investidor em ações de empresas estrangeiras, serei beneficiado com isso.”

 

Embora Marston acredite que os índices de ações sejam uma boa estratégia para as ações americanas, para ele, a gestão ativa continua a ser uma aposta melhor em se tratando de papéis de empresas estrangeiras. Muitos países são política e socialmente instáveis. Vários são lentos demais quando têm de lidar com problemas econômicos, diz. O Japão, por exemplo, retardou o quanto pôde uma reforma bancária que era obviamente necessária. “O que todos querem é um gerente disposto a ousar e a buscar coisas interessantes fora do país.” Os gestores de índices não abrem mão de jeito nenhum de operações em seus países. Além disso, existem ainda inúmeras deficiências nos mercados estrangeiros, impossibilitando os gestores de compensar os custos incorridos na busca de barganhas, acrescentou Marston.

 

Herring não tem tanta certeza disso. Levantar a situação de empresas em outros países é um processo caríssimo, principalmente em países menores, menos desenvolvidos, observa. Os custos de negociação são muito mais caros em vários desses mercados do que nos EUA, o que dificulta mais ainda a gestão dos portfólios administrados por gerentes ativos, que compram e vendem com uma freqüência muito maior do que os gestores de índices.

 

Ele acrescenta ainda que muitos dos pequenos mercados estrangeiros têm problemas de liquidez, com um pequeno número de ações em circulação e um número reduzido de negociadores. Isto significa que um negócio de tamanho razoável, administrado, por exemplo, por um gestor de fundo mútuo, pode desequilibrar a relação entre a oferta e a procura. Portanto, o preço de uma ação pode dar um salto durante o período de acumulação, e despencar na hora em que o gesto a põe à venda, prejudicando os lucros da transação.

 

Por fim, observa Herring, a empolgação dos americanos com ações estrangeiras fez com que as companhias de valores mobiliários enviassem analistas pelo mundo todo. Conseqüentemente, os gestores ativos enfrentam dificuldades cada vez maiores para extrair dos mercados aquelas jóias ocultas.

 

Marston, Siegel e Herring observam que os mercados acionários estrangeiros e as oportunidades internacionais de investimentos mudaram tanto nos últimos anos que é quase impossível tirar conclusões concretas dos dados sobre índices e gestão ativa.

 

Todos concordam, porém, que os investidores americanos devem participar de forma significativa dos mercados acionários estrangeiros. Marston, diferentemente de seus colegas, acredita que os gestores ativos continuarão a ser importantes. Contudo, acrescenta, sejam quais forem as vantagens que tenham em relação aos gestores de índices, elas diminuirão com o tempo. “Creio que, aos poucos, os preços das ações blue chips se tornarão mais sólidos.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Em alta: ações de empresas estrangeiras e índices de ações." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [17 maio, 2006]. Web. [25 October, 2014] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/em-alta-acoes-de-empresas-estrangeiras-e-indices-de-acoes/>

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