Emoção como “poder”: como lidar com o estresse crônico

Em recente simpósio na Filadélfia, o ex-chefe as saúde pública dos EUA, Vivek Murhty, perguntou à plateia: para a sociedade, as emoções são uma fonte de fragilidade ou de poder? “Fragilidade” foi a resposta consensual dos que levantaram as mãos, mas parece que a maioria respondeu erradamente.

“As emoções são fonte de poder”, disse Murthy em entrevista a Patti Williams, professora de marketing da Wharton, no evento de 12 de abril “Sob pressão: usando a emoção como poder contra o estresse”, patrocinado pelo Instituto Leonard Davis de Economia da Saúde [Leonard Davis Institute of Health Economics] na Universidade da Pensilvânia. “Não estou dizendo isso porque se trata de crença filosófica minha. É o que diz a ciência.”

“Quando sentimos emoções sobretudo positivas, seja de gratidão ou de inspiração ou um sentimento de assombro, ou de conexão ou de amor, produzimos mais, damos conta de mais coisas, nosso desempenho melhora”, disse Murthy, apontado para o cargo que ocupava por Barack Obama e que em 21 de abril anunciou sua renúncia depois que o governo Trump pediu que deixasse a função. “Quando a maior das emoções que sentimos são negativas, como temor, ou ira, ciúme ou cólera, é possível que venhamos a descobrir, a curto prazo, que essas coisas podem nos servir de incentivo a fazer mais; no longo prazo, porém, elas minam nossa força, nossa vitalidade e energia.”

Veja o caso dos atletas de alto desempenho. “O segredo do sucesso não se limita ao preparo físico apenas”, disse Murthy. “Há também o preparo emocional. É por isso que o jogo mental é uma parte muito importante do treinamento dos atletas. É o que distingue os que ganham dos que perdem.” Por exemplo, quando um jogo profissional de tênis entra no quinto set, disse Murthy, a vitória dependerá do jogo mental do atleta à medida que a competição avança para sua parte final.

“O bem-estar emocional é aquela força que nos dá resiliência em face da adversidade. É o que nos permite funcionar no grau máximo da nossa escala de desempenho”, disse Murthy. Com frequência, porém, as pessoas têm uma compreensão limitada do bem-estar emocional, igualando-o principalmente à ausência de depressão, ansiedade ou outras disfunções mentais. “Bem-estar emocional é mais do que ausência de doença mental. Queremos que as pessoas não apenas estejam saudáveis, sem doenças, queremos que elas funcionem da melhor maneira possível.”

Elo entre estresse crônico e doença

É verdade que nem todo estresse é ruim. O estresse de curto prazo ─ o cumprimento de um prazo para a entrega de um ensaio, os últimos minutos de um jogo de basquete ─ pode ampliar a capacidade da pessoa de ter um bom desempenho. O “estresse crônico”, porém, “é um problema”, disse Murthy. “Ele ocorre quando aquela resposta crítica persiste por muito tempo.” Quando o estresse persiste por algum tempo, “o impacto sobre nós é fisiológico. O efeito sobre nosso corpo não é saudável.”

Murthy disse que quando “ocorrem ativações prolongadas de repostas ao estresse e elevação prolongada dos níveis de cortisona […] isso pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares, câncer e várias outras doenças crônicas”. Ele disse ainda que o estresse crônico é uma forma de dor ─ tanto física quanto emocional. “É instrutivo que os caminhos em nosso cérebro da dor emocional e da dor física sejam muito semelhantes e que possamos, de fato, experimentar dor emocional como dor física.”

Como chefe da saúde pública, Murthy disse que uma de suas responsabilidades consistia em fornecer informações científicas, de modo que as pessoas fizessem boas escolhas para sua saúde. “Ficou muito claro para mim que não se tratarmos do estresse crônico em nosso país, se não procurarmos meios de ampliar o bem-estar emocional, deixaremos de lidar com um impulsionador importante e decisivo do nosso bem-estar”, disse.

A epidemia da solidão

Murthy citou o trabalho seminal de Martin Seligman ─ professor da Universidade da Pensilvânia conhecido como pai da psicologia positiva ─ que vincula gratidão e outras emoções positivas à felicidade, o que pode aliviar o estresse. Em uma experiência, foi pedido aos participantes que escrevessem três coisas boas que lhes aconteceram durante o dia durante uma semana. Seis meses depois, eles continuavam mais felizes e menos deprimidos do que no início. “A gratidão é uma emoção realmente poderosa e pode influenciar a maneira como vemos a vida de modo geral”, disse Murthy.

Sentir-se socialmente conectado também é importante para a saúde emocional. O ser humano evoluiu “e se tornou uma criatura que se relaciona socialmente”, disse Murthy. “Isso não significa que todos temos de ser extrovertidos. Quer você seja introvertido ou extrovertido, você precisa igualmente de algum grau de conexão social. Resta saber quanto.” Na época em que a humanidade vivia principalmente em tribos, disse ele, as pessoas que se relacionavam socialmente tinham um estoque de alimentos mais estável e conseguiam se proteger melhor dos predadores.

“A conexão é importante. Quando estamos isolados, estamos subjetivamente sós, o que nos deixa num estado de estresse porque não foi assim que nosso corpo foi feito para funcionar”, disse Murthy. “Esse estresse pode ter uma porção de efeitos adversos semelhantes ao estresse oriundo de outras fontes.” As pessoas podem se surpreender ao saber que juntamente com a enfermidade crônica, pobreza, discriminação e violência, a solidão pode efetivamente contribuir com o estresse crônico.

“A razão pela qual é importante refletirmos sobre a solidão se explica pelo fato de que ela está bem debaixo do nosso nariz”, disse Murthy. Ela está se tornando endêmica. Nos anos 80, 20% dos americanos adultos disseram que viviam sós, disse Murthy. Hoje, o percentual duplicou, é de 40%, “apesar de vivermos na era tecnológica mais conectada da história da civilização”, disse. “Isso se explica pelo fato de que a tecnologia, sob alguns aspectos, é vista como solução para a conexão. Temos inúmeras plataformas de mídia social. Contudo, o problema é que nos esquecemos de que nem todas as relações são a mesma coisa.”

Murthy prossegue: “O tipo de gratificação e de forças que se pode obter de uma relação profunda com alguém que nos compreende e que nós, por nossa vez, compreendemos, é diferente de alguém com quem fizemos amizade no Facebook depois de o termos visto durante dois minutos em um congresso três anos atrás” e desde então interagimos muito pouco com essa pessoa. “Essas relações não são equivalentes.” Pesquisas mostram que ferramentas locais podem ajudar a fortalecer as relações offline. “Contudo, se as plataformas online se tornarem um substituto e, de fato, reduzirem nossos relacionamentos offline, aí as coisas podem ficar um pouco perigosas, porque teremos de enfrentar sozinhos os desafios “, disse Murthy.

Construindo uma América socialmente conectada

Para construir um país mais socialmente conectado, é preciso começar localmente. “Tudo começa com a forma como se constroem conexões bem aqui no câmpus, em sua comunidade ou em sua cidade”, disse Murthy. Ao fortalecer os laços sociais, a sociedade se torna também mais forte. Faz parte da “solução que aumentemos as taxas de bem-estar e ajudemos a lidar com os impulsionadores de vícios e de outras enfermidades”.

Murthy revelou que quando era mais jovem, não lidava muito bem com o estresse. “Eu me sobrecarregava de demandas e de expectativas. Não era algo que meus pais ou professores me impunham. Eu impus a mim mesmo uma série de padrões e não conseguia atingi-los ─ isso era uma coisa estressante e que me isolava muito”, especialmente porque Murthy era tímido, disse ele. Em retrospecto, ele admite que “as relações podem ser terapêuticas. Se eu soubesse disso, teria me esforçado mais […] para, em momentos de estresse, me relacionar com pessoas que me compreendem ou que me aceitam pelo que sou”. Exercícios também são terapêuticos, disse Murthy.

“Uma coisa que também gostaria de ter feito é de ter me aproximado mais proativamente de pessoas sob algum estresse”, disse Murthy. “Houve pessoas que me viram estressado e que só não se aproximaram de mim porque não quiseram me incomodar temendo invadir minha privacidade. A privacidade é importante, mas todos podemos ser fonte de alívio, aquela fonte de potencial terapêutico para as pessoas à nossa volta.”

Juntamente com as conexões sociais, é preciso reconhecer o “poder da pausa”, disse Murthy. “Há ocasiões em que uma pausa é necessária para darmos um tempo à loucura do dia a dia. Vivemos uma vida de experiências que nos vêm o tempo todo por meio dos aparelhos móveis.” O coração humano é exemplo dos benefícios da pausa, disse ele. Na fase da sístole, o coração ejeta sangue nos órgãos vitais, tais como cérebro, pulmões e outros. Na diástole, ele aguarda um momento até se encher de sangue. “A pausa, na verdade, é o que sustenta o coração”, disse Murthy. “Há uma lição muito importante para nós aí. Se pudermos criar momentos de pausa em nossa vida, seja através da prática de meditação, seja através de um momento que respiramos antes de nos lançar a uma nova empreitada, ou simplesmente quando aguardamos um momento do lado de fora do quarto de um paciente antes de cumprimentá-lo e de lhe dar assistência”, disse Murthy, “esses momentos de pausa também podem ajudar a nos dar forças.”

No fim das contas, há duas emoções responsáveis pelas decisões que tomamos: amor e temor. Tudo o mais é manifestação de uma ou de outra, disse Murthy. O amor se manifesta como generosidade, bondade e compaixão. O temor se revela no ciúme, na ira e na cólera. “Quando o temor direciona nossas decisões, com muita frequência ele tende a nos levar a lugares tenebrosos. Seu efeito sobre nós geralmente tem impacto negativo em nossa saúde e tende a nos afastar dos outros, nos separar e nos isolar”, disse.

“Quando o amor dirige nossas decisões e permeia nossas interações uns com os outros, ele tende a ser bom não apenas para nossa saúde, mas também para construir essa conexão, essa coesão na sociedade de que tanto precisamos.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"Emoção como “poder”: como lidar com o estresse crônico." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [10 May, 2017]. Web. [24 July, 2017] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/emocao-como-poder-como-lidar-com-o-estresse-cronico/>

APA

Emoção como “poder”: como lidar com o estresse crônico. Universia Knowledge@Wharton (2017, May 10). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/emocao-como-poder-como-lidar-com-o-estresse-cronico/

Chicago

"Emoção como “poder”: como lidar com o estresse crônico" Universia Knowledge@Wharton, [May 10, 2017].
Accessed [July 24, 2017]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/emocao-como-poder-como-lidar-com-o-estresse-cronico/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far