As empresas familiares são o melhor modelo para os mercados emergentes?

O que essas megaempresas têm em comum: Walmart, BMW, Tyson, Samsung Kohler, Christian Dior, Mars, Ford, Berskshire Hathaway, Roche, Maersk, Comcast?

São todas empresas familiares, embora não se pense nelas desse jeito.

Tarun Khanna, professor da Escola de Negócios de Harvard, lembra-se de que quando começou a pesquisar as empresas familiares 25 anos atrás, seus colegas lhe disseram: “Você não deveria se preocupar em estudar as empresas familiares, elas são um fenômeno passageiro. Com a modernização do mundo, elas desaparecerão.” Hoje, porém, essas empresas estão presentes “na maior parte dos países do mundo”, diz Khanna.

De fato, as empresas familiares ― algumas de capital aberto, outras, não ― constituem cerca de 80% das empresas no mundo inteiro, conforme explica Christine Blondel, professora adjunta do Centro Internacional Wendel de Empresas Familiares no INSEAD. De acordo com o Índice 2015 de Empresas Familiares Globais da Universidade de St. Gallen e EY, o “Family 500” (as 500 maiores empresas familiares do mundo), essas empresas respondem por um total combinado de US$ 6,5 trilhões em vendas anuais ― “o suficiente para ser a terceira maior economia do mundo”.

As empresas familiares estão presentes em “praticamente todos os setores”, observa Blondel. “Inclusive na indústria automobilística, que é de capital intensivo.”

Por que o modelo da empresa familiar funciona

Para os especialistas, as empresas familiares podem prosperar (e prosperam de fato) tanto em mercados desenvolvidos quanto em mercados em desenvolvimento. Algumas das vantagens, dizem, são as mesmas aonde quer que se vá. Blondel acredita firmemente no modelo e o chama de meio “natural” de fazer negócios. Ela diz que muitas vezes o empreendedor dá o pontapé inicial com dinheiro da família, ou convida membros da família para trabalhar na empresa. Além disso, uma empresa familiar é um lugar em que você “confia nas pessoas com quem trabalha”. Muitas vezes, por exemplo, um membro da família é colocado para tomar conta das finanças. “Em um mercado em que a estrutura legal e contratual não é muito desenvolvida, a confiança é ainda mais fundamental para os negócios.”

Tanto Blondel quanto Raffi Amit, professor de administração da Wharton, diz que um aspecto específico das empresas familiares é a ênfase na sustentabilidade de longo prazo. Amit acrescenta: “Não se trata de investidores que compram ações com base nos lucros do trimestre mais recente […] São famílias que possuem uma empresa há gerações ― elas são as donas e a controlam e, em alguns casos, também a administram.”

Blondel, que é assessora de empresas familiares, diz que ela realmente gosta de trabalhar com essas empresas. Embora, naturalmente, “não sejam de modo algum anjos”, diz ela, “não estão aqui por causa do valor apenas; elas estão aqui por causa de valores. É uma experiência revigorante, ao contrário do que você lê na imprensa: escândalos, perspectiva de curto prazo, o dinheiro antes de tudo”.

Amit diz que trabalha com muitas empresas familiares de grande porte no mundo todo, e cita um executivo que lhe disse: “Bem, nosso horizonte de planejamento é de 20 anos.” E acrescenta: “Mostre-me um CEO de empresa americana de capital aberto que tenha uma perspectiva de 20 anos”, diz ele, e conclui observando que nenhum desses CEOs nem sequer sobrevive no emprego esse tempo todo.

Além disso, de acordo com Blondel, as empresas familiares tendem a ter mais estabilidade financeira. Ela cita uma pesquisa segundo a qual as empresas familiares, embora passem por altos e baixos terríveis com mais frequência, “em geral, elas são muito mais estáveis e têm melhor desempenho”. Elas também cultivam um relacionamento mais duradouro com seus empregados, diz Blondel, o que as leva a uma maior relutância na hora de despedi-los, em momentos de crise, e as capacita a se recuperar mais rapidamente depois.

Uma grande família feliz?

Também existem, é claro, desvantagens no modelo de empresa familiar. Por exemplo, conflitos familiares podem ocorrer facilmente. Blondel aponta alguns dos principais: pode ser difícil achar um sucessor entre os filhos do fundador, ou o fundador pode relutar em passar o bastão adiante. Membros da família contratados pela empresa que não desempenham bem suas funções podem ser outra fonte de tensão. Pode haver falta de comunicação adequada entre os membros da família que participam ativamente da empresa e os que não participam.

Khanna diz que às vezes é difícil atrair gente de fora, já que os candidatos podem bater no “teto de cristal da família” [que são os limites de ascensão impostos pela família que dificilmente serão ultrapassados]. Pode ser difícil também atrair capital externo. Os fornecedores de capital talvez sintam que não têm acesso suficiente a informações sobre como seu dinheiro será alocado. “Geralmente, eles não se sentem confiantes nesse tipo de situação, o que pode determinar o fim do acordo.”

Contudo, essas desvantagens são bem menos problemáticas nos mercados emergentes, diz Khanna, simplesmente porque há menos gente de fora e menos capital e, não raro, “para início de conversa, não há um conjunto imparcial e transparente de regras na sociedade e nas instituições”. Como consequência, o empreendedor decide prontamente manter sua empresa no âmbito de um círculo estreito de membros da família e sócios mais próximos. “Desse modo, há muito mais empresas familiares na Nigéria, Indonésia, Índia e lugares semelhantes.”

De igual modo, Amit diz que algumas famílias bem-sucedidas podem criar rum conglomerado e usar o capital interno para dar respaldo ao seu negócio. Por exemplo, durante a crise financeira asiática de 1997, um grande conglomerado nas Filipinas continuou a operar “porque recorreu aos seus próprios ativos para fazer empréstimos no banco, para ajudar a empresa a crescer e comprar outras empresas nesse período”.

Ramon Mendiola, executivo de uma multinacional emergente, vê vantagens tanto nas empresas familiares quanto nas não familiares. Mendiola é CEO da FIFCO (Florida Ice and Farm Company), empresa costa-riquenha de alimentos e bebidas. Controlada por um grupo de famílias e com ações na bolsa de valores da Costa Rica, a empresa tem mais de 6.000 empregados e receitas em torno de US$ 700 milhões.

Mendiola diz que ele é o único membro da família envolvido no dia a dia das operações. “Sou um espécime estranho”, diz. “Minha família é uma das proprietárias, mas faz 12 anos que trabalho na direção executiva da companhia.” Todos os CEOs anteriores da FIFCO eram de fora, diz.

A experiência profissional prévia de Mendiola foi em empresas multinacionais não familiares como a Philip Morris e Kraft Foods. “Quando fui trabalhar na FIFCO, tentei pegar o melhor das multinacionais [é o caso, por exemplo, da contabilidade], porém, ao mesmo tempo, tentei preservar alguns valores familiares que eram muito importantes para mim […] Acho que essa receita deu muito certo para nós.”

Mendiola diz que ele mudou a política da empresa de pagar e promover funcionários com base no tempo de casa ― que era uma tradição familiar ― e privilegiou os indicadores de desempenho. Por outro lado, manteve o valor familiar de tratar as pessoas como gente, “e não como um número”.

Além disso, Mendiola identifica na empresa familiar a capacidade de reduzir o que ele considera uma burocracia desnecessária. “A exemplo da Philip Morris e empresas semelhantes, costumávamos gastar muito tempo com orçamentos, reuniões e aprovações […] Tenho tentado ficar bem longe de gente que tem mania de controlar tudo.”

O poder da família nos mercados emergentes

Os mercados emergentes onde há grandes empresas familiares bem-sucedidas são a Índia, onde, de acordo com Amit, a maior parte das multinacionais são empresas familiares. Uma das mais destacadas é o conglomerado Reliance Industry, de propriedade dos irmãos Ambani. “Na Índia, as empresas familiares têm um papel extremamente importante no desenvolvimento da economia, na prosperidade e na criação de riqueza”, diz Amit. “Não apenas para a família, mas para o país e para milhares de empregados que trabalham ali.”

A Turquia é outro país onde as empresas familiares prosperam. Khanna cita os exemplos da Koç Holding e da Sabanci Holding, dois conglomerados muito grandes de propriedade de famílias turcas abonadas. Os especialistas destacam a Indonésia e as Filipinas como mercados emergentes conhecidos por suas prósperas empresas familiares.

Em alguns países em desenvolvimento, as empresas familiares não apenas ajudam a construir a economia como também participam de campanhas filantrópicas. A Ayala Foundation, nas Filipinas, é um segmento da empresa familiar Ayala Corporation, cuja missão é formar “comunidades onde as pessoas sejam criativas, autoconfiantes e orgulhosas de serem filipinas”. Na Índia, o Grupo GMR tem um braço de responsabilidade social corporativa conhecido como GMR Varalakshmi Foundation, cujo objetivo é “desenvolver infraestruturas sociais e ampliar a qualidade de vida das comunidades”. Também na Índia, segundo Khanna, a multinacional familiar Grupo Tata, “numa atitude caridade surpreendente, abriu mão totalmente de sua propriedade entregando-a uma fundação de caridade que beneficia o país em geral”.

É claro que as empresas familiares só podem operar em países em que o modelo é permitido. A China está tradicionalmente associada às empresas estatais. Contudo, diz Blondel, “você ficaria surpreso em saber que na China há muito empreendedorismo privado. Não tenho números, mas eu mesma fui convidada para lecionar em Xangai há dez anos por um magnata do setor têxtil chinês […] Tive um público constituído de muitas famílias, todas da China continental, e algumas delas de várias gerações”.

Quando as empresas familiares ficam grandes demais a ponto de se tornarem nocivas para a economia de um país?

Khanna diz que isso aconteceu em tempos pré-Mandela na África do Sul, “onde havia quatro ou cinco empresas que detinham boa parte das ações negociadas na Bolsa de Valores de Joanesburgo, o que é muito ruim”. Ele contrasta essa situação com a da Índia dos tempos atuais, por exemplo, onde “é muito difícil até mesmo para as dez famílias mais importantes exercer controle significativo sobre qualquer coisa. Essa é uma situação muito mais saudável, onde ninguém é por si só tão poderoso que possa provocar confusão”.

Khanna e Amit citam também o exemplo da Coreia do Sul, onde um pequeno grupo de empresas familiares não apenas domina o cenário empresarial como também possui conexões com o governo. Fazem parte desse grupo nomes bem conhecidos como Samsung, Hyundai, LG e SK. Amit acrescenta: “A Samsung é […] controlada pela família Lee na Coreia. O Sr. Lee é ex-presidente da Coreia. Quer melhor conexão política do que essa para uma família?”

Salientando que essas empresas estão envolvidas em muitos setores da economia ― não apenas no setor de carros e eletrônicos ―, Amit diz que “a concentração de ativos pode afetar de modo adverso a competitividade na economia”. Ele explica: “Isso dá a elas um monopólio maior nas várias empresas de que participam, porque lhes permite controlar preços.”

Embora famílias dominantes como essas fossem em grande medida responsáveis pela transformação do país em uma potência econômica depois da Guerra da Coreia, “nos últimos dez ou 15 anos o Estado vem tentando pôr fim a essa situação”, diz Khanna. Amit concorda: “A Coreia do Sul sabe muito bem disso […] Creio que as oito maiores famílias do país controlam cerca de 75% do PIB.”

De modo geral, há vantagens e desvantagens na estrutura de empresa familiar, diz Khanna. E acrescenta: “De modo especial em tempos de turbulências, as empresas familiares podem ser um tipo de estrutura muito bom. Isto porque há um clima de confiança mútua na empresa, mas todos se preparam devidamente e sobrevivem.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"As empresas familiares são o melhor modelo para os mercados emergentes?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [10 June, 2016]. Web. [23 August, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/empresas-familiares-sao-o-melhor-modelo-para-os-mercados-emergentes/>

APA

As empresas familiares são o melhor modelo para os mercados emergentes?. Universia Knowledge@Wharton (2016, June 10). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/empresas-familiares-sao-o-melhor-modelo-para-os-mercados-emergentes/

Chicago

"As empresas familiares são o melhor modelo para os mercados emergentes?" Universia Knowledge@Wharton, [June 10, 2016].
Accessed [August 23, 2019]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/empresas-familiares-sao-o-melhor-modelo-para-os-mercados-emergentes/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far