“Então, no que você trabalha?”: Repensando a conversa informal

Durante mais de dez anos, Tess Vigeland apresentou o programa Marketplace na rádio pública. Embora tivesse um emprego invejado por muita gente, ela decidiu deixá-lo. Vigeland conta como foi que isso aconteceu e dá conselhos para outros que estejam pensando em deixar o emprego em seu livro Salto: como deixar o emprego sem nenhum Plano B e descobrir a carreira e a vida que você realmente deseja.

No seguinte excerto tirado do livro, Vigeland discute o que acontece quando você não tem uma resposta para aquele quebra-gelo tradicional: “Então, no que você trabalha?”

Gostaria muito que acontecesse o seguinte: ir a uma festa em que a última pergunta que me fizessem fosse sobre o meu trabalho. É claro que quando eu trabalhava no jornalismo nacional, essa era a primeira coisa que eu queria contar para todo o mundo! Agora, não tenho mais nenhuma resposta boa para dar.

Tente se lembrar da última vez em que você conheceu alguém. Talvez tenha sido em um bar. Talvez você estivesse na aula. Talvez em uma festa perto da comida torcendo para que ninguém se aproximasse porque você não é bom de conversa “de elevador”, mas aí aparece alguém:

“Olá, me chamo Kathy!”

“Olá, meu nome é Tess. Prazer em conhecer você.”

“E aí, no que você trabalha?”

Antigamente, eu esperava que essa fosse a primeira pergunta que me fizessem, isto é, se a pessoa não me reconhecesse de imediato, como eu esperava que acontecesse, já que, na minha cabeça, o tom da minha voz era muito doce e meigo. Se o sujeito não me reconhecia, eu dizia sempre com enorme satisfação: “Sou jornalista.”

Ok, ponto para mim!

“Ah, você escreve para jornal?”

“Não, trabalho no rádio.”

Mais um ponto.

“É mesmo? Você está no rádio? Será que já te ouvi?”

“Provavelmente. Trabalho na rádio pública.”

Mais um ponto para mim: já é o terceiro.

“Eu amo a rádio pública! Você conhece o Carl Kasell?”

“Pessoalmente, não, mas também sou fã dele. Trabalho em um programa de negócios chamado Marketplace.”

“Esse programa é muito bom! Você trabalha com Kai Ryssdal?”

“Isso mesmo. Na verdade, começamos a trabalhar na rádio em 2001 com duas semanas de diferença apenas um do outro. Nossas salas ficam no mesmo corredor, só que a dele é mais chique.”

“Gosto muito dele! Será que eu sei seu nome? Espere, você disse que se chamava Tess?”

“Isso mesmo, Tess Vigeland.” (Atenção para os raios de orgulho e de presunção fluindo do eu. Adoro plateia).

“Já te ouvi, sim. Adoro você!”

“Ah, que bobagem. Valeu.”

“Você não se parece nem um pouco com a imagem que eu tinha na cabeça.” Ponto final.

Para ser honesta, esses momentos eram como maná para mim. Eu os saboreava como saboreio um pinot noir terroso do Willamette Valley, no Oregon. Minha maior alegria era responder a pergunta: “No que você trabalha?” Na verdade, se por vezes a pergunta não vinha à tona imediatamente, eu dava um jeito para que ela viesse. Sei que parece uma coisa muito egocêntrica e egoísta de dizer, mas é verdade, e aposto que não estou sozinha. Quando se tem um emprego fantástico com um certo brilho associado a ele, você quer que as pessoas saibam. Você quer que as pessoas lhe perguntem para que você possa responder do modo mais impassível que puder: “Ah, trabalho no rádio.”

Não sou a única que pensa desse jeito. Depois que Jill Abramson foi despedida do New York Times, em 2014, ela disse a Cosmopolitan:

“É um perigo você se definir pelo emprego que tem. Sinto falta dos meus colegas e das coisas que fazia no meu trabalho, mas não sinto falta de dizer ‘Jill Abramson, editora-executiva’. Verdade. Me disseram uma vez que um ex-editor executivo do New York Times, cujos dias de editor estavam contados, e ele sabia disso, fez questão de fazer uma reserva em um restaurante específico porque temia não conseguir mais mesa alguma depois que deixasse o cargo. Esse tipo de coisa não está na minha lista de prioridades!”

Nunca fui famosa o bastante para conseguir uma mesa em um restaurante da moda; porém, se tivesse sido, talvez fizesse o mesmo que aquele editor fez. Mas, que bom para Jill Abramson! Quando a gente não tem mais uma resposta chique para dar, aí vem o medo daquela pergunta: no que você trabalha? Você tenta evitar. Acho que o negócio fica pior quando se é figura pública, porque aí então se sente muito mais a queda do chique para outra coisa.

Tanto é assim que depois de quase um ano, quando as pessoas me perguntavam o que eu fazia, eu dizia: “Sabe, eu era…” Aí então tinha de absorver os olhares de aprovação e de surpresa. Eu sorria e respondia afirmativamente que conhecia Scott Simon ou Robert Siegel.

Mas aí vinha a pergunta seguinte: “E agora, o que você faz?”

Essa pergunta eu não queria responder. Eu me sentia envergonhada. Receava ser julgada. Não tinha mais nada chique para dizer. Sentia-me fracassada, embora a decisão tivesse sido minha.

“Sou freelancer.” Seguia-se um olhar de pena.

“Sou empreendedora solo em fase de construção de uma carreira de escritora, de locução de voiceover e mestre de cerimônias de eventos.” O olhar agora era de perplexidade.

“Estou deixando a vida de escritório.” Ah ― então você está desempregada e está procurando emprego? Que pena.

“Abandonei uma carreira de 20 anos e não sei o que virá a seguir.” Você ganhou na loteria ou coisa parecida? Está entediada? Perdeu a ambição a caminho do banheiro? A maior parte das pessoas não consegue imaginar a ideia de abandonar uma carreira sem ter antes o próximo passo já programado. Por isso, o olhar de estranheza brota de um sentimento muito real de que você desistiu de si mesmo ou de que há algo de muito errado com sua saúde mental ou física. Explicar costuma ser desgastante, porque todo o mundo quer saber por que você saiu, como vai se sustentar, o que sua família disse etc. Além disso, o tempo todo sua psique está revisitando todas essas perguntas que você havia banido antes desse evento.

Qual a primeira pergunta que fazemos? Por que nosso trabalho é a coisa mais importante que as pessoas querem saber a nosso respeito?

Hoje em dia eu faço questão de fazer outra pergunta ― qualquer outra pergunta ― quando conheço alguém. Por exemplo:

― Qual a coisa que você mais gosta de fazer na cidade?

― Que tipo de viagem você gosta de fazer? Quando foi a última vez que você viajou e para onde foi?

― Que parte do fim de semana você gosta mais?

Às vezes, isso parece esquisito. Eu, porém, digo à pessoa que acabei de conhecer que odeio perguntar imediatamente no que as pessoas trabalham, por isso tento fazer perguntas diferentes. A maior parte delas gosta da ideia e retorna o favor me fazendo perguntas sobre coisas que não têm a ver com trabalho.

É isso o que acontece em muitos outros países. Na verdade, em alguns lugares é até considerado grosseria fazer perguntas sobre o trabalho de alguém. Só depois que conhecemos bem a pessoa é que fazemos a tal pergunta. Aí está uma boa ideia.

Não somos nosso trabalho. Saber o que alguém faz não deve ser a coisa mais importante para nós em relação ao nosso semelhante.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"“Então, no que você trabalha?”: Repensando a conversa informal." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [16 November, 2015]. Web. [22 July, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/entao-no-que-voce-trabalha-repensando-a-conversa-informal/>

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“Então, no que você trabalha?”: Repensando a conversa informal. Universia Knowledge@Wharton (2015, November 16). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/entao-no-que-voce-trabalha-repensando-a-conversa-informal/

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"“Então, no que você trabalha?”: Repensando a conversa informal" Universia Knowledge@Wharton, [November 16, 2015].
Accessed [July 22, 2019]. [http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/entao-no-que-voce-trabalha-repensando-a-conversa-informal/]


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