Espiga de milho e geradores: um jeito revolucionário de iluminar o Haiti

Em áreas rurais do Haiti, os moradores têm dificuldade em acessar eletricidade barata e confiável. A Limyè Pa w — fundada por três empreendedores sociais — está tentando mudar isso com a instalação de uma rede elétrica que usa espigas de milho descartadas como fonte de combustível. Ben Shell, um dos fundadores da empresa, fala de tecnologia, do povo haitiano e dos desafios de construir uma empresa sustentável em um dos países mais pobres do mundo.

Segue abaixo uma versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Nosso convidado de hoje é Ben Shell, um dos fundadores da Limyè Pa w — start-up de energia elétrica rural de fundo social do Haiti. Ben, muito obrigado por estar aqui hoje conosco.

Ben Shell: É um prazer.

Knowledge@Wharton: O que significa Limyè Pa w?

Shell: Em língua crioula do Haiti significa “sua luz”. Queríamos dar ao nosso negócio um nome que as pessoas compreendessem imediatamente. A luz talvez represente o uso mais importante da eletricidade nas áreas rurais do Haiti.

Knowledge@Wharton: Você poderia falar um pouco da situação da eletrificação rural no Haiti e como foi que isso culminou com seu projeto?

Shell: Claro. São três os fundadores da empresa: eu, outro americano chamado Dan Bierenbaum e um americano natural do Haiti, Duquesne Fednard. Duquesne cresceu numa área rural do Haiti, foi para os EUA e se tornou cidadão americano. Trabalhou e se formou aqui. Contudo, depois do terremoto, ele voltou ao Haiti para ajudar a desenvolver — e a curar — o país. Para ele, o acesso à energia era algo realmente imprescindível para que isso acontecesse.

O Haiti tem a menor taxa de uso da eletricidade per capita do hemisfério ocidental. Estima-se — é difícil conseguir estatísticas confiáveis — que menos de 10% das pessoas nas zonas rurais do Haiti tenham acesso de fato à rede elétrica. Portanto, há uma necessidade enorme  ali, uma necessidade que Duquesne procurava meios de satisfazer. Faz alguns anos, Dan, que cursou a universidade com Duquesne, começou a discutir com ele a respeito de uma nova tecnologia que poderia contribuir para isso. Na verdade, eu já conhecia Dan, ele então me chamou e começamos nosso negócio.

Knowledge@Wharton: Qual o objetivo de sua empresa?

Shell: Nosso objetivo é eletrificar as áreas rurais do Haiti usando para isso a energia renovável. Achamos que isso poderá proporcionar uma série de benefícios para as pessoas, a começar pela luz, que pode ajudar as crianças a estudar à noite e, com isso, melhorar a educação permitindo que as famílias tenham uma renda adicional, porque disporão de uma luz de boa qualidade para o trabalho. As lâmpadas de querosene tornam a leitura realmente muito difícil, e mais difícil ainda qualquer outro tipo de trabalho.

É aí que entramos. Na medida em que as pessoas possam usar mais eletricidade, e nós possamos gerar mais por família e por empresa, elas terão a possibilidade de  usar novos eletrodomésticos e equipamentos e com isso abrir novas empresas ou ampliar as que já existem. Em relação à economia local, isso significaria importar menos […] fabricar mais produtos locais e até mesmo começar a exportá-los, gerando assim mais riqueza.

Quando as pessoas puderem usar a eletricidade para ligar eletrodomésticos que lhes permitam cozinhar e, possivelmente, máquinas de lavar, poderão economizar um tempo enorme em tarefas domésticas. Isso, assim espero, repercutirá efetivamente sobre o tempo livre que as mulheres e as jovens haitianas têm, ajudando-as a promover uma maior igualdade de oportunidades.

Knowledge@Wharton: Acho que são de fato objetivos muito louváveis. Sei que em outras partes do mundo, como na África, alguns dos perigos próprios das lâmpadas de querosene etc. foram resolvidos pelas pessoas que procuram usar a energia solar para lidar com suas necessidades. Você poderia explicar sua tecnologia e como ela difere, digamos, das lâmpadas de LED e da energia solar para resolver o mesmo problema?

Shell: Claro. Usamos uma tecnologia de gasificação, que não é uma tecnologia nova. Já existe há mais ou menos cem anos, mas há novas versões de gasificadores em pequena escala que torna econômica sua aplicação na área rural, permitindo a criação de um negócio em torno da geração e da venda de eletricidade. Funciona assim: pega-se a biomassa — é o que estamos usando, e tenho um exemplar bem aqui — de espiga de milho. Aqui está uma espiga da área rural do Haiti, onde é basicamente tratada como lixo. Depois que os agricultores tiram o miolo, eles simplesmente jogam fora ou queimam as espigas quando falta carvão para o fogão.

Colocamos isso em nosso sistema que cria carvão a partir da espiga. Em seguida, através da combustão e de outro processo conhecido como “redução”, é finalmente gerado um gás ou dois tipos de gases: monóxido de carbono e gás hidrogênio, H2 — que são ambos combustíveis. Pode-se usá-los em um motor, onde são queimados, assim como usamos o propano ou outro tipo de gás em motores.

Estamos muito animados com essa possibilidade porque é uma energia muito mais barata do que a energia solar. No caso de um sistema solar independente, é preciso ter baterias, transformadores, painéis solares. As baterias, em especial, são muito caras e de manutenção complexa. Um sistema de energia solar de tamanho semelhante ao do nosso gasificador custaria quatro vezes mais. Portanto, estamos muito animados com essa nova tecnologia. Ela nos permitirá ter um negócio sustentável e que poderá crescer para atender à enorme necessidade existente no Haiti e também em outros países.

Knowledge@Wharton: Quantas pessoas seriam beneficiadas inicialmente por essa tecnologia?

Shell: Temos um sistema piloto que planejamos lançar agora no verão. Esse sistema poderá atender em torno de 100 a 200 famílias. Depende realmente de quanto cada família gasta com energia. Contudo, estamos calculando montantes bastante modestos — entre 60 watts e 300 watts por moradia. Portanto, o sistema funcionará como piloto. Mas é possível adicionar outros sistemas a este inicial. Podemos adicionar sistemas de maior porte. Nosso objetivo é fazer com esse piloto funcione de fato e assim provarmos que as pessoas estão dispostas a pagar um preço pela eletricidade que nos permita crescer, ter lucro e saldar os custos que tivemos com o investimento feito — além de atrair investidores que, provavelmente, não serão fundos de hegde ou gente em busca de retornos de 20% a 30%. Gostaríamos de atrair investidores sociais que queiram ganhar dinheiro, mas que se preocupam em como ganhá-lo e estejam realmente interessados em ajudar milhões de pessoas nas áreas rurais do Haiti e bilhões de pessoas no mundo todo sem acesso à eletricidade atualmente.

Knowledge@Wharton: Então, falando de investidores, qual é sua fonte de financiamento no momento, e qual o grau de sustentabilidade dela?

Shell: Atualmente nosso financiamento vem dos nossos fundadores. Estamos investindo nosso tempo, esforço e dinheiro. Já ganhamos algumas concorrências envolvendo planos de negócios, o que nos garantiu um certo capital subsidiado que deverá nos levar ao ponto de onde será possível lançar o programa piloto […] Quando tivermos um modelo que funcione, poderemos levá-lo aos investidores para que nos ajudem a crescer.

Knowledge@Wharton: O Haiti é um dos países mais pobres do mundo. De que maneira isso afeta suas aspirações?

Shell: O Haiti é certamente um lugar difícil de fazer negócio. Mas acho que temos uma grande equipe, sobretudo com Duquesne e seu conhecimento e contatos no país. Desse modo, creio que estamos bem posicionados tanto quanto qualquer pessoa no país para fazer o que tem de ser feito. São inúmeras as necessidades do Haiti, por isso queremos trabalhar ali — no Haiti ou em lugares como o Haiti, porque é ali que as necessidades e as dificuldades correspondem à oportunidade. Para nós, o país oferece  muitas oportunidades.

Knowledge@Wharton: Qual a importância de se ter um parceiro local?

Shelter: Duquesne é um americano nascido no Haiti, portanto ele não é 100% haitiano, assim como não é também 100% estrangeiro. Ele é uma mistura das duas coisas. Contudo, ele é a razão pela qual estou envolvido nesse negócio. Depois que  o conheci, fiquei inspirado por sua visão e pelo trabalho que ele já havia feito no Haiti. Achei que seria um ótimo sócio. Já fizemos muita coisa juntos até o momento.

Knowledge@Wharton: Você pode nos contar um pouco sobre os maiores desafios que já enfrentou até o momento? Como foi que você lidou com eles?

Shell: Claro. São vários os desafios. Fazer as coisas no Haiti rural leva mais tempo do que eu esperava. Trabalhei basicamente durante toda a minha vida profissional em países em desenvolvimento, mas as coisas no Haiti caminham um pouco mais devagar do que em outros países e são mais difíceis num certo sentido. Por outro lado, tem sido surpreendente ver como o governo está aberto e empolgado com nosso projeto e como tem apoiado nosso programa piloto. A estrutura jurídica do programa é bastante flexível também. O governo a interpreta de um modo que é realmente encorajador.

Isso tem nos surpreendido e achamos tudo formidável. A tecnologia em si estamos adquirindo dos EUA, e tem levado mais tempo do que esperávamos para adaptá-la à realidade que observamos no Haiti rural. Portanto, é também um desafio.

Knowledge@Wharton: Em que aspecto você precisa de mais ajuda?

Shell: Precisaremos de ajuda no futuro, isto é, depois que o programa piloto estiver em andamento — para obter os fundos e achar os sócios certos que possam financiar nosso crescimento. Nós nos preocupamos muito com nosso negócio, mas estamos igualmente comprometidos no sentido de garantir que a eletrificação ajude de fato as pessoas e crie novas oportunidades para elas. Não é só a eletricidade. É também criar novas oportunidades e possibilitar o crescimento econômico e a mudança social no Haiti rural. Por isso, creio que achar o sócio certo que tenha também essa visão é provavelmente a coisa mais importante para nós.

Knowledge@Wharton: Qual foi o momento de maior inspiração para você até agora?

Shell: Acho que trabalhar com os agricultores nas áreas rurais, especialmente na aldeia onde estamos planejando lançar o programa piloto […] Eles querem realmente que a eletricidade chegue, e têm nos apoiado muito. Eles são uma inspiração no sentido de que trabalham duro e da visão que têm para sua comunidade. Portanto, estamos tentando formar uma parceria forte com eles. Juntos, creio que poderemos fazer muita coisa.

Knowledge@Wharton: Uma última pergunta: que cenário você vê para os próximos seis meses?

Shell: Lançar o programa piloto é a coisa mais importante para os próximos seis meses. Portanto, depois de seis meses o programa estará lançado e em funcionamento no que se refere ao modelo operacional. Começaremos então a levantar capital para crescer.

Knowledge@Wharton: Ben, muito obrigado. Tudo de bom para você e para a Limyè Pa w.

Shell: Muito obrigado, Mukul. Foi um prazer estar aqui.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Espiga de milho e geradores: um jeito revolucionário de iluminar o Haiti." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [09 June, 2014]. Web. [21 September, 2018] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/espiga-de-milho-e-geradores-um-jeito-revolucionario-de-iluminar-o-haiti/>

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Espiga de milho e geradores: um jeito revolucionário de iluminar o Haiti. Universia Knowledge@Wharton (2014, June 09). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/espiga-de-milho-e-geradores-um-jeito-revolucionario-de-iluminar-o-haiti/

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"Espiga de milho e geradores: um jeito revolucionário de iluminar o Haiti" Universia Knowledge@Wharton, [June 09, 2014].
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