Estratégia do Yahoo: ficar fora das áreas de interesse da Microsoft?

O Yahoo se define como “empresa líder na área de comunicações, comércio e mídia na Internet” e, com isso, tem conseguido ficar de algum modo fora de uma disputa que reúne gigantes como o Google e a Microsoft, que brigam por tudo:  do predomínio no segmento de busca à imposição da plataforma onde se dará o desenvolvimento da próxima geração da Web. O fato é que a posição do Yahoo como empresa basicamente de mídia deverá lançá-lo discretamente à linha de frente da próxima geração de empresas de Internet, segundo especialistas da Wharton.

 

Ninguém sabe ao certo se o posicionamento do Yahoo é acidental ou se foi planejado, observam os especialistas, mas o fato é que a empresa descobriu uma forma astuta de competir com várias das principais empresas — isto é, dedicar-se a inúmeras áreas, como música, busca e comércio eletrônico — sem, contudo, provocar seus maiores concorrentes. (Vale lembrar o ataque impiedoso da Microsoft contra a Netscape no final da década de 1990). “É de enorme importância esse posicionamento que evita invadir a área de atuação da Microsoft”, diz Kendall Whitehouse, diretor sênior de tecnologia da informação da Wharton. “Atualmente, nenhuma outra empresa aparece mais no radar da Microsoft do que o Google.”

 

Desde o início, o Yahoo sempre se viu como uma empresa de mídia, ou — como disse várias vezes Jerry Yang, co-fundador da companhia, nos primeiros anos de funcionamento da empresa — uma plataforma de mídia. A empresa tem se mantido fiel às suas raízes durante sua evolução. Prova disso, por exemplo, foi a contratação do jornalista Kevin Sites, correspondente no Iraque, de colunistas financeiros, inclusive do professor de Finanças da Wharton, Jeremy Siegel, além de redatores que cobrem todo tipo de assunto, desde questões ligadas à aposentadoria até futebol.

 

Xavier Dreze, professor de Marketing da Wharton, diz que a estratégia do Yahoo permitiu à empresa voar baixo e escapar do radar de outras empresas, e ainda assim competir com inúmeros concorrentes em vários mercados de Internet. Conseqüentemente, a Microsoft compete com o Yahoo, mas é também parceira dele. “A Microsoft se sente mais à vontade na companhia do Yahoo”, diz Dreze, salientando que a Microsoft e o Yahoo entraram em acordo em 12 de outubro para tornar compatíveis seu software de mensagens instantâneas.

 

Os observadores estariam subestimando o Yahoo? Com ações cotadas a 42 dólares, a empresa tem uma capitalização de mercado de 59,7 bilhões. O Google, cujas ações eram negociadas recentemente a 428 dólares, mas que deve chegar a 500 dólares de acordo com alguns analistas, é duas vezes mais valiosa com uma capitalização de mercado de 126,7 milhões. Em uma nota de pesquisa de 1º de novembro, Brian Prenoveau, da Muriel Siebert & Co., referiu-se ao Yahoo como uma “superestrela da Internet a quem não se dá o devido valor”.

 

O Yahoo e o Google se acham em situação financeira semelhante, embora o Google esteja crescendo mais rapidamente. No período de noves meses encerrado em 30 de setembro, o Yahoo teve rendimento líquido de 1,2 bilhão de dólares sobre receitas de 3,75 bilhões, ante lucros de 467 milhões sobre receitas de 2,5 bilhões em 2004. Nesse mesmo período, o Google apresentou renda líquida de 1,1 bilhão sobre receitas de 4,2 bilhões, ante uma renda líquida de 195 milhões sobre receitas de 2,15 bilhões em 2004.

 

Talvez a própria Microsoft, em alguma medida, esteja subestimando o Yahoo. Ray Ozzie, diretor de tecnologia da Microsoft, disse que via no Google a maior ameaça à posição de domínio da empresa na área de desktop. Já o Yahoo, embora ocupe a segunda posição depois do Google no segmento de busca, mereceu apenas uma rápida menção de Ozzie. “Embora o Yahoo tenha também ativos de comunicação significativos, que combinam software e serviços, a empresa dedica-se mais à mídia e — com a notável exceção de sua plataforma de publicidade — parece utilizar as capacidades de sua plataforma em boa parte como um ativo interno”, observou Ozzie.

 

As observações de Ozzie indicam que o posicionamento do Yahoo como empresa de mídia tem suas vantagens — já que, aparentemente, não parece ser uma ameaça direta a nenhuma empresa. O Yahoo, por exemplo, contratou executivos de Hollywood, inclusive o CEO Terry Semel, mas continua parceira das redes de televisão e dos estúdios de cinema, que veiculam grandes quantidades de anúncios nos serviços online da empresa. O Yahoo  fica mais perto do Google no segmento de busca, mas oferece muito mais conteúdo em sua rede. O Yahoo tem negócios no segmento de música, mas não está no mesmo nível do iTunes da Apple; tem ainda serviços na área de comércio eletrônico, como leilões, mas não compete diretamente com o eBay.

 

Don Huesman, diretor sênior de Tecnologia da Informação da Wharton, observa que os comentários de Ozzie sobre o Yahoo talvez revelem uma certa miopia. “Dizer que o Yahoo não constitui uma possível ameaça é, na minha opinião, um julgamento prematuro”, diz Huesman. “O Yahoo ainda obtém metade de suas receitas no negócio de busca, e continua a ser o principal portal de Internet para centenas de milhões de pessoas. Contudo, será que a empresa está satisfeita em ficar em segundo plano enquanto a Microsoft e o Google brigam entre si? Pode apostar que sim.”

 

Com o tempo, o Yahoo poderá vir a se tornar um espinho tão grande para a Microsoft quanto o Google, observa Kevin Werbach, professor de Estudos Jurídicos e de Ética da Wharton. “O Google representa uma ameaça maior para a Microsoft atualmente em razão das proporções de sua ambição; porém, nos últimos tempos, o Yahoo passou a representar um desafio semelhante ao inclinar o centro de gravidade do desktop para a Internet.”

 

Conquistando audiência

Talvez uma das razões pelas quais o Yahoo não chame tanto a atenção quanto o Google se deva ao fato de que é difícil classificá-lo. Ele compete com o Google no segmento de busca, mas possui um pequeno grupo de outros ativos, como o Hot Jobs, um site de empregos; o Yahoo 360, dedicado aos blogs e comunidades; além de uma rede comercial composta por grandes e pequenos negócios. Durante a conference call da empresa sobre os resultados financeiros referentes ao terceiro trimestre encerrado em 30 de setembro, Semel disse que o objetivo da companhia consiste em “proporcionar a nossos usuários e anunciantes experiências mais ricas e relevantes […] O Yahoo atinge 73% de todos os usuários de Internet dos EUA todos os meses, o que demonstra o alcance dos nossos produtos.  O Yahoo atinge mais pessoas na Web, de inúmeras e variadas formas, do que qualquer outra empresa”.

 

Para Dreze, “O Yahoo briga para cobrir o maior número possível de áreas”, para  com isso conquistar um público cada vez maior. “A empresa está tentando ser tudo. É claro que o Yahoo não está na linha de fogo, mas também não é excelente” em área alguma. Embora ofereça uma vasta gama de conteúdo, de oportunidades comerciais e de serviços, acrescenta Dreze, com essa estratégia a companhia corre o risco de perder o foco. “Todo o mundo sabe o que o Google faz; é um mecanismo de busca. Sabemos no que o Google é bom, mas no caso do Yahoo a coisa não está muito clara. Se o Yahoo continuar tentando ser tudo para todas as pessoas, pode-se tornar vulnerável.” Por exemplo, o Yahoo segue de perto o Google no segmento de busca. De acordo com a ComScore Networks, a participação do Google no mercado de busca, em outubro, era de 39% comparado a 29,2% do Yahoo e 14,6% do MSN.

 

Whitehouse ressalta que o Yahoo é mais do que um serviço de busca. Isto significa, em outras palavras, que não será nada fácil para a empresa se definir. Contudo, são inúmeros os mercados de Internet nos quais o Google, Microsoft e Yahoo podem prosperar. Na verdade, é possível que todas as três desenvolvam negócios muito bons com o mínimo de concorrência direta. Conforme observa Werbach, “o Google e a Microsoft são, provavelmente, os concorrentes mais próximos do Yahoo no sentido de que são empresas semelhantes. Todavia, como empresa importante de Internet, e com interesses em diversas áreas, o Yahoo compete com praticamente todo o mundo em algum nível. A web não é um ambiente competitivo em que um ganha e o outro perde, portanto a questão não se resume simplesmente à vitória do Yahoo ou à de outro concorrente”.

 

A guerra pela Web 2.0

Outra frente de batalha em que o Yahoo aparece de modo discreto é o desenvolvimento da próxima geração da world wide web, mais conhecida como “Web 2.0”, uma referência às tentativas de construir uma plataforma de computação baseada na web com serviços de fácil criação e que substituirá o que o software de desktop faz hoje.

 

Whitehouse diz que o futuro desenvolvimento da web depende em grande parte de quais APIs (programas de interface) se tornarão padrão. Os APIs são uma série de rotinas, protocolos e ferramentas para a construção de aplicativos de software. “Uma das razões pelas quais a Microsoft preocupa-se tanto com o Google tem a ver com a batalha pelo controle dos APIs no desenvolvimento futuro da web”, observa Whitehouse. “Se o Google tornar-se a plataforma para o desenvolvimento da web 2.0, atingirá o coração da vantagem histórica da Microsoft.”

 

O que há de interessante em relação à disputa pelos APIs é que enquanto o Google atrai a maior parte da atenção, outras empresas como a Amazon e a Salesforce.com já dispõem de APIs próprios para agilizar o desenvolvimento dos seus serviços na web. Mas o Yahoo também começa a entrar nessa corrida.

 

A empresa, por exemplo, inovou com o Flash, da Macromedia, aplicando-o a seus serviços de mapas; também adquiriu o Flickr, um site que permite aos seus usuários anexar e compartilhar fotos entre grupos. “O Yahoo tem condições de costurar tudo isso em um conjunto abrangente de serviços”, observa Whitehouse. “Esse tipo de coisa pode acabar colocando o Yahoo na linha de frente dos serviços online.”

 

Contudo, nem o Google nem o Yahoo podem ignorar a Microsoft, diz Huesman. “A rápida inclinação em direção aos serviços da web é um fato óbvio para todo o mundo, até para a Microsoft. O objetivo da empresa de Bill Gates é retardar essa migração, se possível, até que possa reposicionar seus enormes recursos para esmagar ou comprar os líderes dessa tecnologia.”

 

Como será a empresa de mídia do futuro?

Embora o Yahoo pareça ter lançado seus tentáculos sobre dúzias de mercados, o que pode estar emergindo é o protótipo daquilo que será uma companhia de mídia do futuro. É possível, por exemplo, que a empresa tenha de desenvolver conteúdo, além de transitar com facilidade nas áreas de software, serviços e comércio.

 

Keith Weigelt, professor de Administração da Wharton, observa que o Yahoo está se preparando para a convergência entre a televisão e a Internet com a criação de um mecanismo de busca para vídeo, fazendo parcerias com produtores como Mark Burnett, criador de “O Aprendiz” e “Survivor”, além da construção de instalações em Santa Mônica, na Califórnia, nos arredores de Hollywood. “O plano da empresa é bom”, disse Weigelt.

 

Werbach acrescenta que ninguém sabe ao certo como será a empresa de mídia do futuro, mas são grandes as probabilidades de que se pareçam mais com o Yahoo, Google e Microsoft do que com a ABC, CBS e NBC. “À medida que a convergência avança, a definição de companhia de mídia se tornará menos clara”, prevê. “O Yahoo, o Google e a Microsoft são todas empresas que congregam um grande número de usuários, de conteúdo, ferramentas e aplicativos.”

 

A principal razão pela qual o Yahoo pode se tornar líder se deve ao papel que tem a Internet em desmantelar os meios tradicionais de distribuição de mídia. “A migração persistente de usuários de Internet da conexão discada para a banda larga é sinal extremamente positivo para os sites do Yahoo voltados para conteúdo”, disse Clayton Moran, analista do Stanford Group, em relatório de 16 de novembro. “Diferentemente do Google, que é essencialmente um site de busca e é conhecido como tal, o Yahoo fornece conteúdo informativo e de entretenimento, inclusive conteúdo interativo. A empresa está em posição de tirar vantagem da proliferação dos serviços de alta velocidade na Internet, como jogos interativos, streaming, vídeo e downloads de música, além de eventos de mídia em tempo real.”

 

Isto significa que as empresas tradicionais de mídia terão no Yahoo tanto um parceiro quanto um concorrente, na medida em que a empresa cria conteúdo próprio e integra mídia com informações geradas por seus usuários. As fronteiras já começam a se confundir. Durante a conference call do Yahoo para divulgação dos lucros da empresa, Semel observou que o Yahoo “mal começou a se beneficiar de oportunidades significativas de longo prazo”, e destacou o grupo de mídia, que vem “expandindo seus projetos de conteúdo e sua integração com características de comunidade.” Semel destacou, por exemplo, que a empresa integrou fontes de notícias profissionais com “o jornalismo cidadão através da integração de blogues, fotos Flickr e My Web Links”. Uma das inovações mais interessantes do Yahoo foi a integração do RSS (usado para distribuir o conteúdo dos blogues) com alertas de e-mail. Isto significa, por exemplo, que um morador da Califórnia que assine a U.S. Geological Survey poderá ser notificado sobre um aviso de terremoto no mesmo momento em que uma mensagem de alerta for enviada a um celular ou a um PDA. Os executivos do Yahoo debateram pormenorizadamente essa característica em um podcast hospedado no podtech.net.

 

É muito cedo ainda para dizer que forma tomará o negócio de mídia do Yahoo — e o desenvolvimento da próxima geração da web. Neste momento, porém, acredita-se que a empresa terá papel de destaque. Como diz Whitehouse, “privilegiando a mídia e a plataforma de conteúdo, o Yahoo talvez seja mais bem-sucedido do que seus colegas na tentativa de ficar longe dos centros de interesse da Microsoft.  A história já mostrou que topar de frente com a Microsoft pode acarretar conseqüências terríveis.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Estratégia do Yahoo: ficar fora das áreas de interesse da Microsoft?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [11 January, 2006]. Web. [23 August, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/estrategia-do-yahoo-ficar-fora-das-areas-de-interesse-da-microsoft/>

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Estratégia do Yahoo: ficar fora das áreas de interesse da Microsoft?. Universia Knowledge@Wharton (2006, January 11). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/estrategia-do-yahoo-ficar-fora-das-areas-de-interesse-da-microsoft/

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"Estratégia do Yahoo: ficar fora das áreas de interesse da Microsoft?" Universia Knowledge@Wharton, [January 11, 2006].
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