Estratégias de liderança para lidar com a crise

A Madrid ExpoManagement, a maior conferência para gerentes da Europa, foi realizada este ano em fins de maio em meio à crise financeira mundial. Organizada pela HSM, empresa de treinamento em gestão, o evento ofereceu a líderes de empresas e especialistas em recursos humanos, marketing, finanças, psicologia e política a oportunidade de debater estratégias para a gestão de empresas e pessoal no âmbito de uma recessão de nível mundial. Uma das principais prioridades do evento foi a formação de executivos dotados de flexibilidade e capazes de reunir pessoas em torno de um mesmo objetivo.

Anders Knutsen, ex-CEO da Bang & Olufsen, considerado um dos 20 maiores líderes de negócios do século 20, assumiu a direção executiva da empresa numa época em que a companhia do segmento eletrônico passava por uma grave crise que a levara à beira da falência. “São os consumidores que definem o mercado”, disse Knutsen ao público do fórum. “Eles escolhem sempre, de preferência, preços baixos e alta qualidade, dependendo da importância que conferem a um serviço em especial. Cabe às empresas escolher: competir pelo preço mais baixo ou buscar valores mais sólidos, um bom design e mercados em que as pessoas se disponham a fazer um esforço extra.” Na hora de elaborar uma nova campanha, Knutsen dá o seguinte conselho: “Seja corajoso! Se você não tem nada importante a dizer, que pena. Mas se tem, diga. Marque sua diferença. Veja o que se passa, seja acessível; mantenha contato com sua clientela e crie relações e alianças sólidas com ela.”

Para Knutsen, “os clientes se mostram mais abertos durante os períodos de crise. Eles procuram alternativas aos estilos prévios de consumo. Isso proporciona uma oportunidade significativa para aquelas empresas capazes de oferecer algo único e que vai ao encontro do interesse mundial pela proteção futura do meio ambiente. Embora eu gostaria de pensar que tais valores sejam universais, há muitas formas diferentes de atrair a atenção dos clientes. Não creio que o componente geográfico seja tão importante quanto os valores comuns compartilhados pelas culturas”. E acrescentou: “O marketing baseia-se na apresentação de valores e na oferta de estímulos às pessoas. Quanto mais empolgante for sua mensagem, mais as pessoas ficarão impressionadas. Tudo tem a ver com inovação e com a decisão de como proceder e garantir que todos se movam na mesma direção. Quanto mais isso acontecer, melhor!”

Desafios para a liderança

De acordo com Paul Schoemaker, especialista em estratégia e diretor de pesquisas do Centro Mack de Inovação Tecnológica da Wharton, “os gerentes precisam desenvolver a capacidade de seguir na direção das mudanças futuras, além de introduzir um elemento de flexibilidade em suas estratégias. Essa é a única maneira de avançar em tempos de incertezas. Também é necessário ter habilidades organizacionais e controlar as mudanças externas em tempo real”. Para ele, “a incerteza é uma oportunidade para os que estão preparados. Os gerentes costumam ficar na defensiva em relação àquilo que controlam, e esperam que, com o tempo, a incerteza acabe e as coisas voltem ao normal. Uma estratégia melhor consistiria em tirar proveito da incerteza. As melhores oportunidades surgem em tempos de crise, e não em tempos de estabilidade”. Qual o segredo para se obter o máximo dessas oportunidades? “Exceto no caso de flutuações históricas, os gerentes devem recorrer à imaginação, prestando atenção aos indicadores dos pontos fracos e estabelecendo comparações com outros setores, além de ouvir especialistas externos e de dentro da própria empresa.”

Schoemaker salientou que se as empresas repensarem suas estratégias, poderão evitar também a pressão causada pela avalanche de demissões que vem ocorrendo por toda parte. “Uma estratégia melhor seria estimular o crescimento e, em consequência disso, novos negócios. Contudo, muitas vezes, os gerentes se preocupam com o que deu certo no passado, e não conseguem adaptar sua estratégia para a nova realidade. As empresas são entidades dinâmicas por natureza. Atualmente, por exemplo, vimos a capacidade de grandes e pequenas empresas de se reinventarem.” Além disso, disse, “a crise atual permite aos líderes aprender com seus erros. Há alguns que são confiantes demais; outros ignoram fatos relevantes; outros ainda se sentem inseguros e desconfortáveis em situações extremamente confusas. O papel do líder se torna mais importante em tempos de crise. Ele deve ser capaz de tolerar erros, tantos os dele mesmo quanto os cometidos por outras pessoas. Deve aprender com eles e vencê-los. No fim das contas, entre as muitas qualidades que tornam o líder verdadeiro estão a curiosidade, a capacidade de antecipar eventos e mudanças, a capacidade de enfrentar o desconhecido e o carisma pessoal na hora de gerir pessoas e conquistar sua confiança”.

Bill George, ex-CEO da Medtronic e professor de prática de gestão da Escola de Negócios de Harvard, deu exemplos semelhantes. “A crise coloca os verdadeiros líderes à prova. Essa é a hora em que você descobre qual a sua real situação e quem são os bons profissionais, aqueles que vão mostrar sua coragem, inteligência e capacidade de reunir, em uma mesma equipe, pessoas que darão respaldo à sua liderança. Creio que o segredo do verdadeiro líder em tempos de incerteza consiste em ser genuíno, autêntico e capaz de enfrentar situações reais e se adequar a elas. Os líderes devem enfrentar os problemas que os confrontam e reconhecer que estão em crise, mudando de direção a fim de se adaptar às novas condições. Caso contrário, fracassarão.”

De que maneira um gerente pode tirar vantagem das oportunidades que a crise mundial oferece? De acordo com George, “em primeiro lugar, precisamos saber o que causou a crise mundial. Creio que ela foi consequência de um projeto de curto prazo, e não de longo prazo. Nós nos endividamos demais, tanto o consumidor quanto as instituições. Não fomos conservadores com nossas finanças, a ponto de perdermos de vista o que era importante para as empresas: a criação de valores duradouros para nossos clientes, empregados e acionistas. Acho que hoje reconhecemos que priorizar o curto prazo é um erro, e que vivemos um tempo em que é preciso escolher líderes inteligentes que nos guiem em meio a situações difíceis. Acho que as empresas que tiverem esse tipo de gerente terão a oportunidade de vencer a crise e se tornarão vitoriosas. Muita gente acredita que os mercados voltarão a ser o que eram depois que a recessão acabar. Contudo, não creio que isso vá acontecer. As empresas que vencerem serão aquelas que souberam lidar com as necessidades dos seus clientes e consumidores”.

Jeffrey Immelt, da General Electric, e Indra Nooyi, da PepsiCo, são dois exemplos de CEOs que fizeram um trabalho extraordinário em anos recentes, disse George. “Os CEOs que estão agindo de acordo com a mesma mentalidade que tinham no século 20 — controle absoluto sem transparência — provavelmente deveriam ser substituídos”, disse George. “Vimos mudanças enormes depois do advento da geração de baby boomers: agora, há uma nova geração de líderes com menos de 45 anos. Esses novos líderes estão mais conscientes das necessidades das pessoas e sabem como pôr de lado as antigas hierarquias. Sou um otimista. Creio que esse novo grupo fará um trabalho excelente se se concentrar na criação de valores a longo prazo para os acionistas, empregados e clientes.” Mas, será fácil trilhar esse caminho? “Muitos líderes acabam perdendo o pouco de fé que tinham, seus valores e seus ideais. Creio que quando não se sentem mais motivados, é porque se sentem pressionados. Então, abandonam suas crenças e se deixam seduzir pelo dinheiro e pelo reconhecimento. Se você tiver consciência disso, e admitir seus erros, encarar a realidade e reconhecer que tais hábitos o levaram a se envolver em uma série de problemas, você será capaz de retomar o rumo certo e recuperar a motivação perdida. Caso contrário, a melhor coisa a fazer é renunciar ao posto que ocupa.”

George foi considerado um dos 25 líderes de negócios mais influentes pela forma como geriu a empresa de tecnologia médica Medtronic ao longo das últimas duas décadas. Para ele, “temos de ter líderes que saibam quem são, que tenham um alto nível de conhecimento sobre si mesmo e que sejam leais àquilo em que creem. Isto significa uma pessoa autêntica que saiba como delegar, de forma que outras pessoas também possam evoluir e chegar à liderança. Essas são as qualidades que julgo necessárias no líder do século 20. Ele precisa saber como trabalhar com seus colegas em prol de um mesmo objetivo, e precisa também criar valores corporativos. Deve ainda reconhecer que sua missão consiste em servir seus clientes e empregados, e assim criar um espírito de colaboração dentro da empresa. Creio que se os líderes são autocráticos e ditatoriais, ou se eles se mostram preocupados demais com seu próprio status, não podem ser bons líderes”.

Para George Kohlrieser, professor da escola de negócios IMD, na Suíça, e especialista em liderança, “estamos vivendo uma época propícia para as mudanças. Temos de compreender que, hoje, muita gente pensa apenas em sua sobrevivência, o que limita sua criatividade e sua busca de oportunidades. A sobrevivência é sempre o objetivo mais importante para o cérebro, portanto o líder e seus subordinados buscam uma forma de se defender e não enxergam as oportunidades externas. Poucas condições são mais destrutivas do que esse tipo de impotência mental e emocional. O líder tem de ser alguém resistente e positivo, ele tem de se preocupar com as oportunidades. É preciso que ponha um limite às queixas, uma vez que esse tipo de comportamento leva apenas ao desânimo. Hoje é o tempo de aprender, de desenvolver os talentos para encontrar formas inovadoras e criativas de fazer as coisas. O líder deve se ater aos fatores positivos e às oportunidades comuns aos tempos de crise, porque é nesse momento que os empregados se tornam mais fortes e mais determinados a descobrir meios de progredir”.

Kohlrieser acrescenta: “Os líderes que se deixam vencer pelo pânico, que têm a mente fechada, pouca resistência e habilidades de comunicação reduzidas; aqueles que são distantes e nada inspiradores — são esses os que não dão certo. O mundo jamais voltará a ser o mesmo, portanto precisamos de CEOs que compreendam como lidar com a sustentabilidade, com a mudança climática, com o surgimento de um novo tipo de capitalismo e com a disputa por bons profissionais. As habilidades de liderança do futuro exigirão o maior grau possível de colaboração para vencer de maneira eficaz as limitações. Essa mudança nas habilidades de liderança ajudará os empregados a adotar uma atitude mais ativista em relação aos riscos e às mudanças. Há ainda outros desafios como, por exemplo, a criação de equipes eficientes nos diferentes países com acesso à comunicação virtual; uso da influência sem recorrer à autoridade; busca de inovação; treinamento; desenvolvimento de habilidades que permitam a adaptação a novas situações; valorização da complexidade de vários pontos de vista; aprendizagem rápida por meio do diálogo; conquista da confiança, de modo que possa agir mesmo em casos de ambiguidade. É aí que dois opostos verdadeiros se encontram: a busca pelo crescimento e a busca pela redução de custos. As habilidades de comunicação são mais importantes do que nunca, sobretudo no caso da liderança virtual. Os lideres precisam ser mais eficientes na hora em que se torna indispensável que sejam compreendidos.”

Esforços psicológicos

Em meio a tanta incerteza, a ExpoManegement procurou também descobrir como lidar com a crise não só do ponto de vista da empresa, mas também da perspectiva pessoal. De acordo com Mario Alonso Puig, professor de cirurgia da Universidade de Harvard e membro da Academia de Ciências de Nova York, as pessoas precisam exercitar o controle da ansiedade, de modo que possam aprender a relaxar durante a recessão. Para ele, “qualquer decisão que tomemos está intimamente ligada à forma como percebemos as coisas. Portanto, é fundamental dirigir nossas mentes para o que queremos e para o que temos. Não faz sentido algum nos desgastarmos com coisas que não podemos mudar. É preciso sair daquela situação em que as coisas se encontram e ir em direção à forma como as coisas devem ser. Isso significa deixar de ser vítima e passar a protagonista”.

Para Alonso Puig, “em situações de crise, pode-se distinguir com muita clareza aqueles líderes que acreditam nas pessoas, e pedem que se comprometam, daqueles que não são capazes de criar um sentimento de pertença e de confiança na possibilidade de todos saírem mais forte da crise”. E acrescenta: “As grandes ideias surgem da paixão ou da necessidade. Numa crise, as pessoas precisam urgentemente encontrar uma saída. Contudo, muita gente desiste quando topa com a adversidade. Sobretudo em tempos muito difíceis, o líder sente uma solidão profunda, portanto é fundamental para ele depender de pessoas em que possa confiar plenamente, que permitam a ele expressar suas emoções, e que o capacitem a sentir que está tratando com pessoas que o estão ouvindo de fato. Quando uma pessoa compartilha seus sentimentos com outras, ela vê com mais clareza se é chegado o momento de tomar uma decisão”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Estratégias de liderança para lidar com a crise." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [03 junho, 2009]. Web. [19 September, 2014] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/estrategias-de-lideranca-para-lidar-com-a-crise/>

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"Estratégias de liderança para lidar com a crise" Universia Knowledge@Wharton, [junho 03, 2009].
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