Ezra M. Safra, da M. Safra & Co.: “Se você tentar pegar uma faca na hora em que ela está caindo, vai se ferir.”

A implosão dos mercados financeiros mundiais foi consequência do estouro das bolhas de liquidez excessiva nos EUA. Essas bolhas foram criadas pelo déficit exagerado em conta corrente dos EUA e pela disposição do mundo todo de financiar esse déficit, explica Ezra M. Safra, diretor-gerente da M. Safra & Co., empresa de gestão financeira de São Paulo, Brasil. Qual seria a estratégia de investimento mais adequada atualmente? Em entrevista concedida a Knowledge@Wharton, Safra adverte que é preciso ter cautela, porque decidir afobadamente num momento em que os mercados estão extremamente voláteis é como “tentar pegar uma faca na hora em que ela está caindo”.

Safra pertence a uma das famílias de empresários mais conhecidas do Brasil. Seu pai, Moise Safra, fundou o Banco Safra, o 10º. maior banco do Brasil. Ele vendeu sua participação para o irmão Joseph em 2006. Safra conversou com a Knowledge@Wharton em seu escritório em São Paulo. Segue abaixo uma versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: O que o Sr. acha da crise financeira mundial e qual seu possível impacto sobre o Brasil?

Ezra Safra: O que eu penso sobre o sistema financeiro mundial não é muito diferente do que pensam outras pessoas. A situação é fluida, muda rapidamente por causa da reação política que provoca no mundo todo. De hora em hora o quadro se altera. Contudo, o problema, de fato, é a implosão da bolha imobiliária nos EUA e de outras bolhas de ativos com liquidez excessiva no mercado de dólar americano.

Essas bolhas foram resultado do déficit em conta corrente que os EUA vêm empurrando há vários anos e da disposição do mundo todo de financiá-lo. Isso, por sua vez, gerou um montante elevado de liquidez no mercado americano originando a bolha de ativos. No fim do verão passado, era evidente que as hipotecas subprime constituíam um sério problema. Como todo mundo sabe, o problema tomou proporções enormes e atingiu todo o segmento de hipotecas golpeando duramente o setor financeiro, primeiro nos EUA, depois na Europa e, por fim, no resto do mundo. Isto, por sua vez, desencadeou uma crise de confiança muito grande entre todos os bancos. Reinava uma desconfiança absoluta no setor, entre os bancos na hora de emprestar um ao outro e entre as pessoas na hora de fazer seus depósitos nos bancos. Houve uma debandada do setor em busca de segurança.

Em seguida, os governos intervieram: “Não permitiremos que nossos bancos afundem.” Tomaram essa decisão na esperança de que isso fizesse com que as pessoas voltassem a confiar no sistema bancário e começassem novamente a investir nos ativos mais confiáveis em primeiro lugar. Inicialmente há uma preocupação com os ativos mais confiáveis — como os depósitos bancários — e só depois é que se pensa nos demais escalões. Isso demora, porque as pessoas normalmente levam tempo para tomar decisões. Acho que o capital vai começar a voltar aos poucos para os bancos. Espero que o problema de confiança que tivemos no sistema financeiro vá se extinguindo paulatinamente. Isto não significa que seremos capazes de evitar a recessão. É evidente para qualquer um que o mundo ia entrar em recessão. Os EUA estão em recessão, e o mundo terá de crescer a um ritmo mais lento do que vinha crescendo até então.

Knowledge@Wharton: De que forma o Brasil será afetado?

Safra: O Brasil participa da economia mundial. A “crise” demorou um pouco para nos afetar, mas acabou afetando. Talvez fosse ingenuidade das pessoas achar que o país não seria afetado, porque os preços das commodities permaneceram em níveis elevados durante algum tempo. Agora os preços estão caindo, e o Brasil, no fim das contas, é um grande exportador de commodities. Na medida em que os preços caírem, seremos afetados.

A contração do crédito na Europa, nos EUA e na Ásia afetou o Brasil. Os bancos aqui relutavam muito em emprestar uns aos outros e também às pessoas. No Brasil, o crédito novo crescia a uma taxa anual de 30%. Os empréstimos bancários estavam aumentando. Acredito, com base em casos relatados, que os bancos tenham segurado consideravelmente o crédito. Eles não estão concedendo novos empréstimos, estão apenas rolando empréstimos antigos. Além disso, a taxa de câmbio sofreu variações, ficou muito volátil e a um ritmo extremamente veloz. Portanto, temos um problema cambial e um problema de contração do crédito.

Knowledge@Wharton: O Brasil tem um volume considerável de reservas de cerca de US$ 200 bilhões. O Sr. acha que o governo vai lançar mão delas em algum momento para proteger a moeda? Qual seria o impacto disso?

Safra: Ele já fazendo isso. É muito interessante — além dos US$ 200 bilhões em reservas, havia cerca de US$ 20 bilhões a US$ 30 bilhões de swaps no mercado local. O banco central tinha posição comprada em relação à taxa do dólar. Agora ele está se desfazendo desses swaps. É uma forma diferente de vender dólares no mercado, disponibilizando a moeda americana. O BC vem fazendo isso, embora tenha vendido muito pouco em comparação com o volume de reservas existente. Acredito que o BC continuará a recorrer a esse expediente, mas não creio que tenha em vista uma taxa de câmbio específica. O objetivo dessa estratégia é reduzir a volatilidade, porque é bom para o país se a taxa de câmbio se estabilizar em um certo nível. É difícil tomar decisões com uma taxa de câmbio volátil.

Knowledge@Wharton: Em que medida as empresas brasileiras estão vulneráveis ao swap cambial contratado num momento em que se esperava que o real continuasse a se valorizar em relação ao dólar? Agora que a moeda tomou o curso contrário, o governo está tentando cobrir suas posições. Qual é, de fato, a gravidade desse problema?

Safra: O assunto está no noticiário. Algumas empresas tinham posições descobertas em dólar e cobertas em real em um montante superior ao aconselhável. Trata-se de um problema realmente sério para algumas empresas. A médio prazo, isso tende a desaparecer, mas provoca volatilidade a curto prazo porque essas empresas precisam cobrir seu passivo em dólar. Em tempos de prosperidade, as pessoas costumam fazer coisas que seria melhor não fizessem. É natural que seja assim.

Knowledge@Wharton: Nos EUA, as dificuldades se devem, em parte, ao fato de que as instituições financeiras, uma depois da outra, tiveram problemas sérios. Por causa disso, o mercado continua à espera do próximo tombo, o que gera uma enorme incerteza. O Brasil tem problemas dessa mesma magnitude?

Safra: Não, acho que não. O que impulsiona o mercado hoje é o fato de que o Brasil, nos últimos anos, tornou-se um destino muito apreciado pelos investidores. As pessoas investiam demais no país, e hoje há uma grande desalavancagem no mundo todo. Primeiro, foram os bancos, agora são os fundos de hedge. Os bancos já não emprestam mais tanto para compra e venda. Uma vez que há menos alavancagem por toda parte, tem havido resgates em alguns fundos de hedge. Isso gera venda forçada e pressiona fortemente o mercado para baixo.

Knowledge@Wharton: O Sr. aludiu anteriormente à necessidade de investir nos ativos mais seguros. Nos dias de hoje, em que o mercado vem se deteriorando cada vez mais, é comum que surjam oportunidades de compras. O Sr. percebe alguma oportunidade desse tipo atualmente? Onde?

Safra: É evidente que o valor de algumas empresas se encontra num patamar muito baixo. Eu me fixaria nas empresas menos alavancadas, com poucas dívidas a vencer e que não estejam expostas a ciclos, como é o caso do varejo e das empresas concessionárias. Acho que há muitas barganhas por aí, mas ninguém vai comprar hoje se achar que pode comprar mais barato amanhã. Portanto, temos de esperar até que as coisas se estabilizem um pouco.

Knowledge@Wharton: Qual será sua estratégia de investimento nos próximos 12 a 24 meses?

Safra: É difícil dizer. O cenário é muito incerto. Neste momento, estamos na defensiva, trabalhando com dinheiro vivo. Estamos em compasso de espera só observando, porque não há razão para fazer coisa alguma. É com tentar pegar uma faca que está caindo: quem tentar pegá-la vai se ferir.

Knowledge@Wharton: Onde há mais riscos na sua opinião?

Safra: O maior risco está na atividade econômica. Qual será a gravidade da retração da economia? Os mercados financeiros esperam os cenários mais lamentáveis possíveis. Os preços dos ativos não podiam ser piores.Resta saber qual será a gravidade da recessão e quanto tempo ela vai durar.

Knowledge@Wharton: Há alguma coisa que o Sr. gostaria que os governos fizessem e que não foi feito até agora?

Safra: É muito difícil pedir ao governo que faça alguma coisa. Ele precisa ser cauteloso, não pode dar garantias a todos, porque se não a garantia deixa de ter credibilidade.

Knowledge@Wharton: Com relação à sua empresa, o Sr. pertence a uma das famílias de empresários mais respeitadas do Brasil. O Sr. poderia falar um pouco da história da sua família no Brasil e onde sua empresa de gestão de investimentos e de capital se encaixa nos negócios dela?

Safra: Somos uma empresa de gestão de capital. Decidimos recentemente levantar fundos junto ao público em geral. M. Safra & Companhia foi fundada por meu pai, Moise Safra. Ele foi um dos fundadores do Banco Safra, um dos 10 maiores bancos do Brasil. Ele fundou o banco juntamente com seu irmão Joseph e vendeu sua parte em 2006. Hoje, meu pai se dedica basicamente a investimentos, caridade e coisas semelhantes. Essa é resumidamente a nossa história. Somos uma família de imigrantes vinda do Líbano em meados dos anos 50. Os Safra fundaram bancos no Brasil, nos EUA, Suíça e Luxemburgo. Essa é a história.

Knowledge@Wharton: De que maneira o Sr. diferencia sua estratégia de investimentos de outras que talvez estejam oferecendo serviços semelhantes?

Safra: Acho que se trata, basicamente, de alinhamento de interesses. Nossa estratégia consiste em fazer por nossos clientes o que fazemos por nós mesmos. Somos também grandes investidores em nosso fundo, o que alinha os interesses dos gestores aos dos acionistas do fundo. Essa é a principal diferença. É claro que contamos com uma equipe excepcional de gestores, todos eles experientes e com excelente preparo educacional e anos de prática. Nós cuidamos dos nossos investimentos.

Knowledge@Wharton: O Sr. poderia falar um pouco sobre seu background e como foi que se tornou diretor-gerente?

Safra: Faz pouco mais de dez anos, desde 1998, que assumi a direção administrativa da companhia. Quando meu pai fundou a empresa, eu estava a seu lado. Antes disso, trabalhei no Republic National Bank de Nova York, na Suíça, que era um dos bancos da minha família, no setor de asset management. Mudei-me para a Suíça depois de me formar na Wharton. O acionista principal do banco era meu falecido tio Edmond e eu trabalhava no departamento de fusões e aquisições, mais especificamente no segmento de F&A proprietary. Estávamos comprando alguns bancos do setor de varejo na época. Antes disso, estudei na Wharton e, antes ainda, morava no Brasil. Nasci e fui criado no Brasil.

Knowledge@Wharton: Qual o maior desafio que o Sr. teve de enfrentar em sua carreira de gestor de capitais?

Safra: O maior desafio foi conseguir atrair os melhores profissionais — gente que trabalhasse com comprometimento e que estivesse disposta a dedicar muitos anos à empresa. Achar as pessoas certas, formar uma equipe, e conseguir de todos um comprometimento real foi meu maior desafio.

Knowledge@Wharton: Como o Sr. define o sucesso?

Safra: Sucesso para mim é estar feliz consigo mesmo. Se você está feliz com o que faz e com sua vida pessoal, você é um sujeito bem-sucedido.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Ezra M. Safra, da M. Safra & Co.: “Se você tentar pegar uma faca na hora em que ela está caindo, vai se ferir.”." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [04 February, 2009]. Web. [15 December, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/ezra-m-safra-da-m-safra-co-se-voce-tentar-pegar-uma-faca-na-hora-em-que-ela-esta-caindo-vai-se-ferir/>

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Ezra M. Safra, da M. Safra & Co.: “Se você tentar pegar uma faca na hora em que ela está caindo, vai se ferir.”. Universia Knowledge@Wharton (2009, February 04). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/ezra-m-safra-da-m-safra-co-se-voce-tentar-pegar-uma-faca-na-hora-em-que-ela-esta-caindo-vai-se-ferir/

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"Ezra M. Safra, da M. Safra & Co.: “Se você tentar pegar uma faca na hora em que ela está caindo, vai se ferir.”" Universia Knowledge@Wharton, [February 04, 2009].
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