Faltam cérebros no Brasil: a falta de profissionais especializados pode comprometer o crescimento do país?

Em fevereiro, o ministro do Trabalho do Brasil disse que as empresas locais contrataram 280.799 trabalhadores. Foi uma alta histórica superando o recorde anterior de 34% há um ano. Enquanto isso, o desemprego no país, depois de atingir uma baixa histórica de 5,3% no ano passado, está em torno de 6% apenas. Num forte contraste com outras economias do mundo, há no Brasil uma ampla oferta de emprego. Por enquanto, parece ser um problema positivo, porém os especialistas se perguntam se o plano de crescimento das empresas pode ficar prejudicado se a oferta continuar em defasagem em relação à demanda.

"É difícil dizer se o Brasil terá a força de trabalho de que precisa no futuro", diz Rafael Pereira, analista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) do governo. "Temos os números, mas o problema é a qualidade. Muita coisa vai depender da disposição da empresa de treinar novos profissionais."

Em um novo relatório, o Ipea diz que se o Brasil crescer a uma média de 3,5% nos próximos dez anos, conforme aconteceu entre 2000 e 2010, a curva da oferta e da demanda de mão de obra especializada permanecerá relativamente estável, apesar de um déficit persistente em vários setores como, por exemplo, o de serviços financeiros e de engenharia. No entanto, se o crescimento for superior a 4%, o futuro do Brasil pode não ser tão promissor.

Mesmo que não haja um cenário ruim, o impacto da escassez de bons profissionais é perceptível. Uma das razões para isso é a migração, isto é, os trabalhadores da parte sul do país se deslocam em direção às regiões de maior crescimento do norte em busca de melhores oportunidades e melhores salários.

A imigração também está mudando. De acordo com o ministério do Trabalho, o número de profissionais estrangeiros autorizados a trabalhar no país subiu 30% em 2010, e hoje é de 50.000. A maioria é oriunda dos EUA e do Reino Unido, da Alemanha e das Filipinas. Paulo Sérgio Almeida, coordenador geral de imigração do ministério do Trabalho, diz que havia necessidade de muitos trabalhadores estrangeiros nas plataformas de petróleo em alto mar e no setor de gás: cerca de 15.200 no total. "O aumento se deve também à expansão do parque industrial brasileiro e à modernização da indústria, que nos obrigou a comprar equipamentos e tecnologia no exterior que exigem treinamento e supervisão especializada", diz Almeida.

Em busca de conhecimento

Nestes últimos anos de crescimento econômico, havia poucos trabalhadores altamente competentes e especializados na força de trabalho brasileira. Os engenheiros respondiam por 0,47% apenas da força de trabalho no final de 2009; diretores e gerentes, 1%, conforme dados do ministério do Trabalho. Se houver necessidade de uma mudança imediata, muitas empresas não estarão suficientemente preparadas, dizem os especialistas.

"O know-how de gerenciamento é um problema para as grandes multinacionais", diz Felipe Monteiro, professor de administração da Wharton natural do Brasil. Um caso específico é o da mineradora Vale. "A empresa tem operações no Canadá e na África, mas há uma escassez de profissionais na média gerência nesses países. Se compararmos a Vale com empresas como a IBM e a Unilever, veremos que elas estão mais preparadas para esse nível de know-how e de gestão de projetos internacionais do que as empresas brasileiras, que só agora estão chegando a esse nível."

A Vale, porém, está respondendo a esse desafio. Em 17 de março, o Wall Street Journal informou que a empresa gastará em torno de US$ 100 milhões em 2011, ou 50% a mais do que em 2010, para treinar novos gerentes de projetos de nível médio e sênior. O grupo de profissionais em treinamento este ano é o dobro de 2010 e conta com 29 brasileiros e 11 estrangeiros.

De modo geral, porém, o crescimento do Brasil se deu fora dos departamentos de RH das empresas. O setor industrial, que inclui energia e mineração, cresceu mais de 10% no ano passado. O surto de desenvolvimento na parte norte do país compreende, pelo menos, três grandes barragens hidrelétricas que requerem milhares de trabalhadores experientes, e também a reforma da infraestrutura de aeroportos, rodovias e portos a tempo para a realização da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. O governo diz ainda que quer colocar em funcionamento um trem-bala, que custará alguns bilhões de dólares, entre São Paulo e Rio de Janeiro até 2015 — um projeto novo que jamais foi tentado antes.

Esse crescimento é um fenômeno relativamente novo no Brasil e que não se via desde a época do "milagre", nos anos 80, quando o país estava sob a ditadura militar. Nos anos 90 e princípio dos anos 2000, o crescimento industrial foi praticamente nulo. Os estudantes não estavam interessados nos cursos de engenharia ou administração e o volume de formados nessas áreas diminuiu, diz Carlos Cavalcanti, diretor do Instituto Euvaldo Lodi de Brasília.

Em 2009, cerca de 38.000 estudantes se diplomaram em engenharia. Cavalcanti acredita que com o crescimento do PIB acima de 5%, o país precise de 60.000 engenheiros. Em 2010, apenas 9,3% dos formados nas universidades cursaram engenharia, conforme dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), com sede em Paris, ante uma média de 12,2% entre os países membros.

"As grandes empresas contratam rapidamente os estudantes mais brilhantes de administração e engenharia do país e os treina", diz Cavalcanti. "Contudo, as empresas de médio porte, que não têm marcas de prestígio, enfrentam dificuldades."

À medida que as empresas se tornam mais sofisticadas, o mesmo acontece às suas necessidades de mão de obra. Esse é o caso do próspero setor de açúcar e de etanol do Brasil. As empresas de setores voláteis e em rápido processo de globalização não precisam apenas de engenheiros químicos, mas de engenheiros químicos que entendam de agricultura ou de engenharia de materiais. "Houve muitas mudanças nas exigências feitas pelas empresas aos trabalhadores especializados da indústria do açúcar e do etanol nos últimos cinco anos", diz Antonio Pádua, diretor técnico da Única, associação das indústrias de cana-de-açúcar de São Paulo. Com o interesse mundial por combustíveis não fósseis, e a demanda pelo crescimento do etanol de cana-de-açúcar, "tornou-se necessária a presença de engenheiros ambientais, bem como de um novo tipo de gerente financeiro, além de engenheiros mecânicos e gerentes de primeira linha para as usinas de cogeração que entendam como se usa o bagaço (fibra) da cana-de-açúcar e o etanol na geração de eletricidade. Isso era, e continua sendo, novidade para o mercado de trabalho".

Precisa-se de especialistas

Os níveis salariais, de modo geral, estão em elevação para todo tipo de engenheiro e de gerente. De acordo com a Catho, empresa local de recrutamento de executivos, o salário médio de gerentes de nível sênior subiu 20% desde 2008, e hoje é de US$ 30.000 ao mês.

Ao mesmo tempo que os níveis salariais aumentam, a disputa por profissionais é cada vez mais intensa, diz Flávio Marques, gerente da CTIS, uma das maiores e mais antigas empresas de tecnologia da informação do Brasil com 8.500 funcionários e uma receita, em 2010, de R$ 720 milhões (US$ 436 milhões).

Marques diz que é fácil encontrar generalistas, mas achar especialistas é praticamente impossível. "Se peço ao meu RH que encontre 50 engenheiros de TI, terei 50 engenheiros qualificados em duas semanas", diz. "Se peço ao RH dez profissionais com conhecimento de engenharia de software e que falem inglês fluentemente, é provável que eles não encontrem ninguém [...] Se você precisar de alguém com sólidos conhecimentos de língua estrangeira e que faça o mesmo que um profissional formado pelo MIT (Massachussets Institute of Technology), aí então a coisa se complica de verdade."

Contudo, Paulo Nascimento, um dos principais pesquisadores do estudo feito pelo Ipea, diz que a falta de mão de obra altamente qualificada não é tão crítica quanto parece. Ele salienta que 38% dos estudantes que se formaram em cursos superiores de engenharia trabalham como engenheiros, e se a economia crescer a um ritmo constante de 3,5%, esse contingente subirá para 44%. "No momento em que 70% dos formados em engenharia estiverem em campo, será então uma questão de oferta", diz. "Mas um nível desses estaria acima do que se vê mundialmente."

Tal com outros, porém, ele prevê que "gerentes e engenheiros especializados em alguns poucos setores terão salários mais altos e maiores oportunidades de trabalho, porque há uma maior demanda e o know-how nessas especialidades pode ser escasso".

Entre 2004 e 2009, o salário dos engenheiros de biotecnologia aumentou 24,4%, enquanto a demanda por esse profissional subiu 35,5%, segundo dados do Ipea. Geólogos e geofísicos, engenheiros especializados na localização de gás natural e depósitos de petróleo, para não falar de minérios, tiveram aumento salarial de 11% e um crescimento de 43,1% na demanda por seu tipo de trabalho. A demanda por engenheiros da computação, assim como por analistas de sistemas, subiu 12% com aumento médio de salário de 3,5%.

Um setor que vale a pena acompanhar de perto é o da energia. Segundo o Ipea, se a economia crescer em média 2,5% apenas, mesmo assim o setor terá um aumento na demanda por engenheiros de 13,3%. Se a economia crescer 4% nos próximos dez anos, a demanda por engenheiros deverá aumentar 16%. No setor de mineração, 2,5% do crescimento do PIB se traduzirá em um aumento anual de 8,7% na demanda por engenheiros entre 2011 e 2020; se o crescimento for de 4% do PIB, a demanda subirá para 10%.

Sucesso

Alguns setores estão mais preparados do que outros. Pádua, da Única, diz que as faculdades e universidades locais voltadas para o agronegócio, como a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) constituem um grupo importante de fornecedores de novos cérebros para o imenso setor do agronegócio brasileiro. "A Esalq está preparando o setor para aquilo de que ele necessita hoje", diz Pádua. "As empresas estão treinando os trabalhadores menos preparados para que aprendam novas tarefas. As necessidades da mão de obra do setor estão sendo atendidas."

Há outras instituições seguindo na mesma direção. Eike Batista, investidor bilionário e magnata do petróleo, estaria investindo em uma escola naval do Rio de Janeiro com o objetivo de preparar engenheiros e gerentes para o enorme complexo de Porto Açu.

"A solução a longo prazo, é claro, é a educação", diz Monteiro, da Wharton. "A solução a curto prazo consiste em treinar pessoas para o trabalho. Se não for possível contratar o engenheiro desejado, deve-se contratar profissionais com formação em engenharia e treiná-los. Depois, é preciso segurá-los pagando-lhes mais. Isso é sério, é algo que tira o sono dos gerentes que estão contratando e pode vir a se transformar num gargalo para as empresas."

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Faltam cérebros no Brasil: a falta de profissionais especializados pode comprometer o crescimento do país?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [06 April, 2011]. Web. [23 December, 2014] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/faltam-cerebros-no-brasil-a-falta-de-profissionais-especializados-pode-comprometer-o-crescimento-do-pais/>

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Faltam cérebros no Brasil: a falta de profissionais especializados pode comprometer o crescimento do país?. Universia Knowledge@Wharton (2011, April 06). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/faltam-cerebros-no-brasil-a-falta-de-profissionais-especializados-pode-comprometer-o-crescimento-do-pais/

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"Faltam cérebros no Brasil: a falta de profissionais especializados pode comprometer o crescimento do país?" Universia Knowledge@Wharton, [April 06, 2011].
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