Futura sede da Alca gera disputa entre cidades

Miami contra Atlanta. As duas cidades americanas disputam o privilégio de se tornar sede da Alca (Área Latino-Americana de Livre Comércio). Essa rivalidade oculta interesses econômicos substanciais, que vão desde a criação de 11.000 postos de trabalho até a atração de numerosas multinacionais, as quais movimentarão em torno de US$ 500 bilhões ao ano. Acima de tudo, porém, sediar a Alca permitirá à cidade escolhida converter-se em ponto de referência  do pujante mercado hispano, que já configura o surgimento de uma nova realidade empresarial nos EUA.

 

Miami tem como principal trunfo o fato de ser a cidade mais hispânica dos EUA. Atlanta, por sua vez, destaca-se por ser a capital onde a população latino-americana mais cresce. Em Miami, a maior parte da população hispana é proveniente de Cuba. Ao passo que, em Atlanta, os hispanos são de origem mexicana. Em Miami, a hispanização da sociedade é uma realidade já antiga, enquanto em Atlanta esse processo ainda não se firmou.

 

“O principal interesse em se tornar capital da Alca se deve ao fato de que todas as empresas que quiserem entrar no mercado latino-americano deverão afluir para lá”, observa José Ignacio González, presidente da Hemisphere Inc., empresa contratada pelo estado da Geórgia para  cuidar da candidatura de Atlanta. González participou do Congresso Sumaq, realizado em Atlanta nos dias 5, 6 e 7 de maio. O evento, organizado por sete escolas de negócios, foi uma das plataformas a que o estado da Geórgia recorreu na tentativa de obter a  indicação desejada.

 

O Instituto de Empresa (Espanha), a Fundação Getúlio Vargas (Brasil), a EGADE-Tecnológico Monterrey (México), IESA (Venezuela), INCAE (Costa Rica), Pontifícia Universidade Católica do Chile, Universidade dos Andes (Colômbia) e a Universidade de San Andrés (Argentina) reuniram-se durante três dias durante os quais 300 diretores, empresários e professores debateram as novas oportunidades de negócios na América Latina.

 

A Alca é, provavelmente, a expressão máxima dessa nova realidade. O futuro bloco constituído por 34 países reunirá uma população de cerca de 800 milhões de habitantes. As riquezas geradas e mobilizadas anualmente nestes países são de aproximadamente US$ 11,5 trilhões. “Creio que a formação da Alca é algo positivo”, dependendo, é claro, dos termos em que for proposta, observa a professora María Lucia Padua Lima, coordenadora do Centro de Estudos Internacionais da EAESP-FGV (Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas), que adverte ainda sobre a existência de “conflitos de interesses, embora o comércio seja mesmo uma guerra”.

 

Trata-se de uma guerra que apresenta atualmente vários frontes em aberto. Um deles é a relutância do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai em assinar o acordo. “Estes países formam o bloco do Mercosul, que lhes oferece uma série de vantagens tarifárias em relação aos demais países”, observa González. Outro grande fronte que permanece em aberto é o da escolha da sede da Alca. Miami e Atlanta contam com vários votos que podem lhes dar a vitória, provavelmente em dezembro. “Em princípio, o ganhador deverá ser eleito em dezembro, mas poderá haver atrasos, uma vez que os EUA estão em ano eleitoral”, assinala Michael Peck, fundador e CEO da Mapa Inc., empresa que presta consultoria a várias empresas espanholas como Iberdrola, Caixa, Gamesa e Corporación Mondragón, aconselhando-as sobre como proceder para entrar no mercado americano. “As oportunidades de negócios na América Latina passam por um triângulo formado por EUA, Espanha e países latino-americanos”, acrescenta. Puebla, no México, e Trinidad e Tobago, também estão nessa batalha.

 

Miami: o poder latino nos EUA

 

O principal trunfo de Miami para se tornar capital da Alca é sua condição de principal cidade hispânica dos EUA. Há mais de 30 anos, Miami recebe um número sem paralelo de hispanos, sobretudo cubanos, que foram se fixando na cidade até transformá-la por completo. Um artigo publicado pela edição em espanhol da Foreign Policy com o título de “Desafio hispânico aos EUA”, mostra que, em 2000, dois terços dos habitantes de Miami eram hispanos; 75,2% dos habitantes maiores de idade falavam uma língua distinta do inglês em casa; destes, 87,2% falavam espanhol; 59,5% da população havia nascido no exterior, e apenas 31,1% dos adultos falavam fluentemente o inglês.

 

Estes números mostram o peso que têm os hispânicos em Miami, tanto que já se converteram ali em fonte de poder econômico e político. Contudo, grande parte desta influência está em mãos de cubanos que, fugindo do regime castrista, fixaram-se nesta cidade dos EUA. Diante da impossibilidade de enviar dinheiro para seu país de origem, desde os anos 60 estes imigrantes investem o fruto do seu trabalho no desenvolvimento de Miami, gerando com isso um sólido desenvolvimento econômico cuja maior expressão se traduz pelo fomento ao turismo internacional.

 

De acordo com a Foreign Policy, o comércio internacional movimentou US$ 25,6 bilhões em Miami em 1993. Cinco anos depois, uma estação de televisão de língua hispânica tornou-se a emissora mais assistida na cidade. Em 1999, os principais diretores do maior banco de Miami, a maior empresa imobiliária, a maior banca de advogados, o prefeito, o chefe de polícia e o fiscal do condado de Miami-Dade, além de dois terços dos representantes da cidade no Congresso dos EUA, bem como praticamente a metade da câmara dos deputados eram constituídos por cubanos ou por indivíduos de origem cubana.

 

A posição alcançada pelos hispânicos explica o interesse de Miami em sediar a capital da Alca. Além da riqueza gerada na cidade, vale destacar também a ajuda que a população hispânica envia a seus países. “Os hispanos residentes nos EUA constituem a principal fonte de riqueza do país. Os US$ 42 bilhões enviados em 2003 aos seus países de origem correspondem ao PIB de toda a América Central. Se a este valor somarmos os US$ 6 bilhões procedentes dos hispanos que emigraram para a Espanha, veremos que a região criou uma nova forma de gerar riqueza, e os EUA não podem deixar de ser sensíveis a isto”, explica James Alonso, decano do EGADE-Tecnológico de Monterrey, no México.

 

Atlanta: o novo boom latino

 

O interesse de Atlanta pela população hispana é muito mais recente que o de Miami, mas conta com a vantagem de ser a região da qual fazem parte o estado da Geórgia e demais estados fronteiriços, onde esta população mais cresce. Um estudo recente publicado pelo departamento do Censo dos EUA sobre as dez áreas com maior crescimento da população hispana na última década mostra que, das dez maiores cidades, oito estão situadas nas imediações de Atlanta e dos estados da Geórgia, Carolina do Sul, Carolina do Norte, Tennessee e Alabama. O número de hispanos na área metropolitana de Atlanta cresceu assombrosos 350% na última década, chegando a um milhão de habitantes, quase um quarto do total. Em seguida aparece Chattanooga, no Tennessee.

 

“Diferentemente de Miami, a população hispana de Atlanta não é majoritariamente cubana. Existe ali uma representação maior de todos os países. Os cubanos representam apenas 8% de toda a população hispana dos EUA, ao passo que os mexicanos constituem 67%”, observa Michael Peck, que é favorável à candidatura de Atlanta. Em sua opinião, na hora de escolher a capital da Alca, “deve-se buscar a melhor fórmula para integrar o comércio e melhorar as condições sociais dos países latino-americanos. Portanto, a ideologia a nos impelir aqui não deve ter caráter político, mas sim comercial, por isso a capital deve estar localizada em um centro comercial onde as empresas tenham suas sedes, como em Atlanta, que é a terceira cidade dos EUA depois de Nova Iorque e Chicago em número de sedes de grandes empresas. Ali estão a Coca-Cola, CNN e a Delta. É preciso saber onde a indústria está, porque a cidade que for escolhida para capital da Alca atrairá dinheiro e trabalho.”

 

Peck destaca também o elo de conexão entre a América Latina e os EUA representado pelo aeroporto de Atlanta em contraste com o de Miami. “O aeroporto de Atlanta é utilizado por 80 milhões de passageiros, o de Miami, por 30 milhões. A diferença equivale a toda a população da Itália”. Neste fluxo de pessoas e mercadorias, os especialistas recomendam ter sempre em mente o triângulo representado pela Espanha, EUA e América Latina. Isto porque a diversidade própria da América Latina e a idiossincrasia de seus povos é assunto ainda não resolvido para as empresas americanas que, diferentemente das espanholas, não souberam adaptar-se às peculiaridades culturais desses países.

 

“Nos EUA, o perfil do executivo é o do homem branco, protestante e gestor. É o anglo-saxão clássico que pouco tem a ver com os hispanos. Os esquemas de gestão nestes países são diferentes, por exemplo, dos esquemas americanos. É preciso saber conviver com o risco e não se apavorar diante das crises. As empresas espanholas entenderam esse desafio por causa de sua proximidade cultural. Portanto, os sucessos do futuro terão por base as redes e alianças que convergirem para o vértice do triângulo”, ressalta Alonso.

 

As vantagens de ser escolhido

 

A cidade que finalmente se tornar sede da Alca reviverá toda a explosão de trabalho, riqueza e poder político que viveu Bruxelas quando foi eleita capital da União Européia. Ignacio González afirma que “haverá um impacto notável sobre o desenvolvimento  econômico da cidade que for eleita capital. Ela deverá atrair escritórios de advocacia, empresas e instituições de todo tipo, bem como lobbies que darão origem a cerca de 11.000 postos de trabalho. Todas as empresas que quiserem fazer negócios nas Américas terão de passar por ali. Por isso é tão importante tonar-se sede”.

 

A maior parte destes empregos estarão em mãos de empresas privadas, e não públicas, como talvez pudesse se imaginar num primeiro momento. “O futuro Secretariado, como instância máxima, criará 200 postos de trabalho”, adianta González, que adverte ainda para o fato de que “outro grande impacto econômico decorrerá da diminuição das taxas e tarifas, além da criação de mais 16.000 postos de trabalho. Em termos econômicos, o impacto global de sediar a capital da Alca será da ordem de US$ 500 milhões ao ano”.

 

O poder político decorrente do status de capital poderá ser, inclusive, mais importante do que o econômico. Bruxelas, por exemplo, é considerada a capital européia do lobby. Ali, os grupos de pressão cresceram a uma velocidade vertiginosa. Atualmente, há 3.000 destes grupos inscritos junto às instituições comunitárias, de acordo com um artigo do diário econômico espanhol Expansión. Os grandes escritórios de advocacia constituem um dos lobbies mais importantes, já  que procuram impor condições às decisões da Comissão sobretudo em questões de concorrência, fusões e aquisições. Escritórios internacionais como Clifford-Chance, Baker & McKenzie, Freshfields, Stanbrook Hooper, Cleary Gottlieb e Linklaters representam os interesses de grandes multinacionais.

 

Contudo, antes de saber quem será a Bruxelas das Américas, os países da Alca deverão superar suas diferenças e assinar primeiramente o acordo, que deve ser referendado por 30% dos países. “O fator mais preocupante é que o Brasil não está apostando todas as suas fichas (na negociação do acordo)”, assinala o especialista político Christopher Gorman, consultor da Tendencias Consultoría Integrada.

 

No início de fevereiro, foi realizado em Puebla, no México, um encontro importante para o lançamento da estrutura jurídica e regulamentar de um acordo anterior, de bases mínimas, elaborado em Miami. As divergências tornaram-se manifestas nesta 17a. Reunião do Comitê de Negociações Comerciais da Alca, principalmente pela insatisfação dos países do G-3 (Canadá, Chile e México), interessados em ampliar as bases da Alca. Contudo, foi mantida a essência do acordo firmado pelos EUA e pelo Mercosul, em que se prevê a criação de uma Alca Light.

 

Obstáculos para a formação da Alca

 

As reticências do Brasil se devem sobretudo ao fato de que é o grande temor de enfrentar de igual para igual a indústria altamente desenvolvida dos EUA. Por esse motivo, o Brasil tenta obter o maior grau possível de concessões nos setores em que é mais competitivo, como o setor agrícola. Para o diplomata Tovar Nunes, chefe da Divisão da Alca no Itamaraty (sede do Ministério de Relações Exteriores do Brasil), Miami abriu novas perspectivas e tornou viável a negociação. “O Mercosul provocou, no bom sentido, uma crise que levou a uma reflexão: ‘As coisas não podem continuar como estão. Que devemos fazer?’ Foi uma crise difícil, administrada diplomaticamente por meio de muito diálogo, tendo-se chegado finalmente ao acordo de Miami, em que se prevê uma mesma base possível para todos os países. O que não for possível resolver será objeto de um acordo plurilateral ou bilateral a cargo daqueles com interesses na formulação desses acordos”, explica o diplomata.

 

Embora lembre que há posições contrárias ao acordo mínimo da Alca, como no caso das posições defendidas pelo G-3, Tovar se diz otimista em relação ao cumprimento do calendário previsto para a criação do mercado comum panamericano.

 

“Estamos agora muito próximos dos EUA; tanto eles como nós temos consciência de que devemos ter mais sensibilidade”, disse Tovar. “De modo que esta Alca, a que nos referimos como Alca possível, levará em conta esse tipo de situação (em que há interesses distintos). Estamos também propondo acordos mais profundos, mais generosos em relação ao teor do texto final da Alca, com todos os países membros — principalmente os que integram o Caricom (Comunidade de países do Caribe) — e com as nações da América do Sul. Procuraremos mostrar a eles que estamos dispostos a adotar uma regra assimétrica”, esclarece o diplomata.

 

Apesar desta maior sintonia, os detratores da postura brasileira, em particular, e do Mercosul, em geral, lembram que consideram praticamente perdida a batalha com os EUA. “Para que a Alca entre em vigor, é preciso o aval de 30% dos países. Os americanos têm atualmente acordos com países do Nafta (Canadá e México), Cafta (Guatemala, El Salvador, Nicarágua, Honduras, Costa Rica e Rerpública Dominicana), com os países andinos, países do Caribe e com o Chile, com os quais sem dúvida alguma poderão levar adiante o acordo”, assinala Ignacio González.

 

Na sua opinião, “os EUA se acham atrelados a uma estratégia que os obrigará a firmar o acordo comercial, independentemente do que ocorra nas próximas eleições gerais”, embora Tovar reconheça que “como há eleições este ano nos EUA, poderá haver atrasos na celebração do acordo”.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Futura sede da Alca gera disputa entre cidades." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [02 June, 2004]. Web. [24 November, 2020] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/futura-sede-da-alca-gera-disputa-entre-cidades/>

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"Futura sede da Alca gera disputa entre cidades" Universia Knowledge@Wharton, [June 02, 2004].
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