Futuro da economia cubana: perspectivas energéticas, sociais e de compartilhamento

Com o degelo progressivo das relações entre EUA e Cuba ― conforme evidenciado pela recente viagem do presidente Barack Obama à ilha ― empresas e investidores têm diante de si uma pergunta de extrema importância: que tipo de economia Cuba construirá daqui para frente? No Segundo Encontro Anual de Oportunidades em Cuba, patrocinado pela Wharton e realizado recentemente na cidade de Nova York, essa pergunta foi analisada por Jillian Manus, sócia-gerente da Structure Capital. O que ela espera ver emergir ali não é um capitalismo puro. 

Pelo contrário, ela vê um papel importante para as empresas que têm tanto uma motivação para o lucro quanto para uma missão social ou comunitária, ou que reflitam a economia compartilhada. Sobretudo, porém, ela considera fundamental que o governo cubano se sinta confortável com o modo de evolução da sua economia. Manus participou de um bate-papo no programa da Knowledge@Wharton na Wharton Business Radio, canal 111 da SiriusXM, onde explicou por que acredita que essas ideias sociais e de compartilhamento podem ser uma parte importante do desenvolvimento de Cuba.

O áudio do programa está disponível no player acima. Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Explique, por favor, de onde foi que você tirou o conceito, o vínculo, entre economia compartilhada e Cuba.

Jillian Manus: Na verdade, não há realmente um vínculo. É uma coisa mais orgânica. Para mim, já existe uma versão incipiente de economia compartilhada em Cuba, uma vez que já há uma mentalidade de compartilhamento no país. Isto porque, diferentemente de outros países, nada nunca pôde se estabelecer de fato na ilha. Portanto, tudo o que eles dispõem ganhou um novo propósito.

Desse modo, minha tese de investimento para a Structure Capital consiste em investir na capacidade subutilizada e nos ativos em excesso ― em outras palavras, fazer melhor com o que temos, em vez de construir mais e mais indefinidamente.

Bem, Cuba nunca teve mais e mais indefinidamente. O país foi obrigado a fazer o melhor com o que tinha. Portanto, minha ideia é a seguinte: por que não construir sobre essa mentalidade de compartilhamento que já existe?

Knowledge@Wharton: Mas, como é que se faz isso?

Manus: Como? Bem, faço parte da diretoria da Duke Engage, que é o programa de serviço de imersão da Universidade Duke, e um dos nossos programas consiste em criar o que chamamos de cibercafés.

Eu gostaria de pegar a infraestrutura existente que, como sabemos, é limitada: temos 35 hotspots de Wi-Fi em Cuba. Vamos pegar 20, ou 10, em Havana, e vamos criar cibercafés movidos à energia solar em parceria com uma empresa do setor que, em primeiro lugar, introduziria a energia alternativa em Cuba de um modo orgânico. Isso seria feito em esquema de apoio, não seria forçado, não precisaria contar também com o subsídio elétrico do governo. Seria simplesmente um recurso natural. Teríamos esses cibercafés com pontos de acesso a Internet e, especificamente, destinado a um mercado que pode ser criado pelo governo. Isso é o que eu acho que deveríamos fazer.

Estou chamando esse mercado de compra e troca. Portanto, basicamente, haveria um mercado em que a pessoa chegaria e diria “eu tenho” ou “eu preciso” […] Ela compraria ou trocaria habilidades. “Sou carpinteiro, preciso de uma lâmpada. Quero fazer uma troca com minhas habilidades.”

Por exemplo, uma de nossas empresas na Structured Capital é a Totspot, um mercado muito grande de roupas infantis usadas, uma vez que há um grande giro nesse setor. Por que uma mãe com um filho que começou a andar, cujas roupas não lhe servem mais, não pode trocá-las por outras com outra mãe?

Com isso, cria-se toda uma comunidade de mães, de conhecimento e de compartilhamento. Agora, e se dermos um passo a mais? Em primeiro lugar, ao criar esse mercado, estaríamos criando dados. Os dados são muito importantes para o governo cubano. À medida que novas empresas forem chegando, elas poderão compartilhar esses dados ― na verdade, poderão principalmente vendê-los. Contudo, há duas moedas em circulação em Cuba, certo? Isto é, uma moeda sob duas formas: o peso cubano (CUP), usado para bens básicos e itens não luxuosos; e o peso conversível cubano (CUC), com um valor 25 vezes maior, e que é usado pelos turistas e pelos cubanos para a compra de bens de luxo.

Outra empresa da Structure Capital é a 99Gamers, que é basicamente uma plataforma de compra e venda de videogames. Contudo, como os games são regulados, não foi possível obter um percentual das taxas de transação. Foi criada então uma moeda virtual. É isso o que, basicamente, deveríamos fazer com esse mercado cubano. Pode-se entrar nele comprando duas CUCs, digamos, 20 moedas virtuais, que seriam então usadas nesse ecossistema fechado para comprar e vender o que a pessoa quisesse.

Isso permitiria ao governo cubano monitorar o que está sendo comprado e vendido. E criaria receita.

Knowledge@Wharton: Não será fácil o governo cubano abrir mão desse controle. Ele quer saber o que as pessoas estão fazendo.

Manus: Correto, mas essa é uma forma muito melhor de saber o que as pessoas estão fazendo. Como elas se comportam, quais as suas necessidades, quanto estão comprando, quanto estão vendendo e quais os verdadeiros recursos da sociedade cubana. Acho que isso, no fim das contas, acabará criando o que eu gostaria que fosse uma classe de consumidores. E com essa classe de consumidores, haverá mudanças nas políticas de gestão.

Knowledge@Wharton: Existe alguma classe de consumidores em Cuba atualmente?

Manus: Sim, você acha que não?

Knowledge@Wharton: Bem, tanta gente nunca teve basicamente nada durante tanto tempo. E agora há pessoas em estratos mais elevados que têm tudo. O que não se vê mais é o setor médio.

Manus: Bem, a classe que consome é a classe média. Será criada uma classe média. Mas há duas coisas aqui que devem ser bem entendidas: nos últimos dois anos, mais de meio milhão de empresas privadas foram abertas em Cuba. Isso é muita coisa. É o empreendedorismo em sua melhor expressão. Em segundo lugar, essas empresas criam empregos. Aliás, isso já está acontecendo de qualquer forma. Segundo previsões das autoridades, nos próximos cinco anos, 50% do PIB cubano será obra do setor privado. Isso é muita coisa.

Knowledge@Wharton: Agora, é evidente que uma parte muito importante disso é a conectividade […] Não será nada fácil desenvolvê-la, uma vez que será preciso passar de zero para o nível a que se deseja chegar.

Manus: Pelo que entendi, e se você conversar com o pessoal da Universidade de Havana, há um serviço de Internet muito sólido aqui […] bastante robusto e, basicamente, o que muita gente diz em Cuba é que apenas 10% da capacidade do sistema está em uso atualmente.

Knowledge@Wharton: Então, o sistema está implantado.

Manus: Sim, sem dúvida. Mas é preciso desenvolvê-lo? É óbvio que sim, só assim será possível mudar drasticamente.

Knowledge@Wharton: Então a coisa não é tão ruim quanto ouvimos o tempo todo? Isto é, que só 1% ou 2% da população tem acesso à Internet?

Manus: Existe uma possibilidade, o acesso ao Wi-Fi, à capacidade de acessar a Internet. Não é que a estrutura de Internet não esteja instalada. Na verdade, boa parte dela está instalada. Agora, porém, é preciso desenvolver o que já existe, e eles não vão permitir que ninguém participe disso. O Google quer participar, certo?

Contudo, acho que a chave de tudo é que as pessoas não nos vejam de modo insidioso, como se chegássemos e tentássemos pôr a Internet para funcionar e assim estabelecer a comunicação.

Knowledge@Wharton: E desse modo começar uma revolução.

Manus: Isso mesmo. É por isso que estou propondo a criação de cibercafés. Acho que essa é uma maneira de usar o que já existe, desenvolver a estrutura instalada e ganhar escala com ela de um jeito que não incomode o governo. Com isso, ele teria receitas, bem como dados, dos quais vai precisar. É uma situação em que todos saem ganhando.

Knowledge@Wharton: Então, com o modelo do cibercafé, você pretende também usar a tecnologia solar, que é desconhecida dos cubanos, mas de um modo bastante incipiente.

Manus: Correto.

Knowledge@Wharton: Isso dará a eles a oportunidade de ver a eficácia do sistema e, obviamente, a novidade se espalhará dando à energia solar a oportunidade de crescer ainda mais.

Manus: Através das empresas.

Knowledge@Wharton: Exatamente.

Manus: Vamos aplicar a energia solar às empresas. Parece que, a julgar pela conversa de hoje, a energia é fundamental para o investimento em Cuba. Essa é então uma maneira de introduzi-la. Gostaria muito que fosse construída uma ponte entre o Vale do Silício e Cuba.

Knowledge@Wharton: Qual seria o peso dessas empresas?

Manus: Simplesmente imenso. Penso em quatro empresas que poderiam efetivamente crescer em Cuba. Bem, o país tem um mercado emergente, vamos chamá-lo assim. É um mercado que jamais vimos antes; é, digamos, um cavalo de cor diferente. Contudo, é um mercado emergente. Em vez de reinventar a roda, por que não usar as melhores práticas empregadas na escalada feita em outros mercados emergentes? Sei que há inúmeros investidores no Vale do Silício que se interessariam em ir a Cuba para tentar criar uma forma mais disciplinada de introdução da tecnologia na ilha ― não de forma insidiosa, e sim de um modo que desse suporte ao que já existe lá, de forma semelhante à mentalidade de compartilhamento vigente em uma economia compartilhada.

Knowledge@Wharton: É importante, porém, que as empresas de tecnologia entendam Cuba, como economia emergente que é e tão diferente das economias da África e da Ásia. É realmente algo nunca visto antes.

Manus: Não. De certo modo, é uma página em branco. No entanto, é interessante que qualquer coisa que seja introduzida em Cuba terá uma trajetória destacada e muito rápida, porque ali não se conhece coisa alguma. Portanto, o que quer que se introduza, será adotado desde o início, e sua trajetória será veloz.

Knowledge@Wharton: Parece-me que você não apenas acredita que esse conceito de cibercafé possa abrir portas, mas também que o modelo pode funcionar igualmente no caso de várias outras empresas.

Manus: Exatamente. Gostaria de criar uma aceleradora de start-ups em Cuba. Nós a faríamos de modo semelhante ao modelo de Cingapura. Contudo, eu preferiria um modelo que combinasse o do Vale do Silício com o de Cingapura.

Knowledge@Wharton: Não pensei que fôssemos falar dessa combinação no programa.

Manus: Somos muito inovadores no Vale do Silício, por isso tive essa ideia […] Em Cingapura, conforme você sabe, o governo tem, e financia, pequenas aceleradoras de start-ups e o faz, creio eu, através de 30 agências diferentes de financiamento de investimentos. É o caso da Vertex, da Spring e de várias outras.

O governo dá ao empreendedor uma pequena quantia de dinheiro para que ele crie as aceleradoras, as instalações, os formatos, para que compartilhe ideias e sirva de mentor a outros empreendedores. Em seguida, depois de criado ali seja o que for, o modelo é replicado através de programas-piloto em toda a Cingapura. É simplesmente fantástico. Por que não criar uma aceleradora semelhante em Cuba, subsidiada pelo governo, mas também pelo Vale do Silício? A aceleradora de Havana seria um modelo de investimento em parceria.

Knowledge@Wharton: A única coisa que sabemos é que, seja o que for que aconteça, será um processo de aprendizagem não apenas para o governo cubano, mas para muita gente aqui nos EUA também.

Manus: Sem dúvida, mas essa é a mentalidade de start-up. É um processo de aprendizagem ― que é a coisa mais importante do relacionamento empresarial. Em seguida vem a confiança […] Essas duas coisas terão de ser cultivadas em Cuba. Temos de entrar no país, não para dominá-lo, não para mudá-lo…

Knowledge@Wharton: Mas para trabalhar em parceria com os cubanos.

Manus.: Correto. É isso o que desejamos fazer.

 

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Futuro da economia cubana: perspectivas energéticas, sociais e de compartilhamento." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [18 April, 2016]. Web. [24 March, 2019] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/futuro-da-economia-cubana-perspectivas-energeticas-sociais-e-de-compartilhamento/>

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Futuro da economia cubana: perspectivas energéticas, sociais e de compartilhamento. Universia Knowledge@Wharton (2016, April 18). Retrieved from http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/futuro-da-economia-cubana-perspectivas-energeticas-sociais-e-de-compartilhamento/

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"Futuro da economia cubana: perspectivas energéticas, sociais e de compartilhamento" Universia Knowledge@Wharton, [April 18, 2016].
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